Busca 



 


Edição 171

João Mohana - O Poeta da Fé

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 1 de março de 2008
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
Por: José Chagas

Conheci João Mohana, quando ele ainda não era um padre, se é que posso dizer que um dia não foi padre quem já nasceu trazendo a postura sacerdotal de um predestinado ao serviço de Deus, como se lhe fosse conferida antecipadamente uma ordenação espontânea, provinda de uma irresistível vocação cristã. Conheci nele o médico e o escritor, admirando de logo o romancista de O Outro Caminho e o ensaísta de Sofrer e Amar, dois livros que marcaram de maneira definitiva o início de uma carreira literária, hoje reconhecida nacional e internacionalmente, como das mais fecundas e mais ricas em ensinamentos e beleza de estilo.

Lembro-me de que essas duas obras me fizeram ter maior aproximação a um companheiro de hospital, que se tornaria meu grande amigo, quando aí por voltas de 53, 54, estive em tratamento de saúde, no sul do País. Tratava-se de uma pessoa de sólida formação católica e de muita leitura, cujos autores preferidos eram. Chesterton, Graham Greene, Bernanos, Berdiaeff e outros dessa linha. Emprestei-lhe os dois livros de Mohana, e foi como se lhe houvesse dado oportunidade para a alegre descoberta de mais um confidente de Deus a enriquecer-lhe o espírito com a palavra inteira que, além de ser boa leitura, era, sobretudo, um iluminado instrumento de fé. Mohana estava agora incluído entre os que, para aquele amigo, se revelavam os autênticos evangelizadores de nossos tempos.

E, de fato, o autor de O Outro Caminho sabia já qual o verdadeiro caminho a seguir atendendo ao ide e pregai daquele que tinha autoridade para a si mesmo proclamar-se o caminho, a verdade e a vida. Era o caminho por dentro, a única via pela qual é possível chegar-se às fronteiras do transcendente para o alcance da vida na plenitude de sua verdade. Ele sabia disso e se achava preparado para a jornada. Mas nessa viagem, enquanto o médico podia ser dispensado, o escritor estava pronto para registrar os passos da caminhada que o conduziria em sentido vertical, no aprofundamento de uma busca a ser feita com o objetivo de diagnosticar os males do ser humano, na sua essência, e não apenas na sua contingência.

Ele tinha percebido que cuidar da saúde do corpo, sem levar em conta a saúde da alma, era cumprir uma tarefa só pela metade. Em sua experiência de médico, observara que havia levado saúde a muitos indivíduos, os quais não sabiam depois o que fazer com ela, ou que só sabiam desperdiçá-la, e isso lhe chama a atenção para o fato de que a própria cura pode ser o fator de uma doença maior. Concluiu que a saúde não é o primeiro valor da vida, pois que, sozinha, corre o risco de tornar-se, por vezes, a causa de infortúnios. Viu tudo isso e viu-se também. Viu-se de posse de uma responsabilidade intransferível e viu então que estava destinado a uma função medicinal mais alta. De modo que, em vez de continuar trabalhando apenas para a cura do corpo, fez-se, ele próprio, cura para a sanidade da alma. Trocou Hipócrates por Cristo que, este sim, curava a partir da fé. E assim o médico do corpo tornou-se o facultativo da esperança, o clínico do espírito, o cirurgião da alma, com base no laboratório da fé, Casa de Saúde de Deus.

Escreveu uma comovente carta despedindo-se da batina branca e explicando o motivo pelo qual dava preferência à batina preta. Não era o desprezo de uma por amor à outra, pois ambas são importantes e necessárias. Apenas optou pela que vinha a ser mais adequada ao seu feitio de homem religioso, que teria, por força de desígnios superiores, uma elevada missão a cumprir, nos limites entre o humano e o divino. E é precisamente nessa área existencial, inabordável para muitos, que ele declara, em seu livro, Plenitude Humana: “Já que o homem moderno não se interessa por saber quem é Deus, dir-lhe-ei então quem é Deus para o homem”.

Mas Mohana não se limita só a escrever sobre o que é preciso sabermos com referência a Deus. Em sua fala percebe-se a expressão da vivência ou da convivência com Deus, o testemunho de uma vida de experiência divina que pode ser também do alcance de todos, porquanto “Deus está plantado na raiz do homem”, necessitando apenas que o homem examine ou consulte o seu coração. Daí Mohana apontar-nos o Deus que é, ao mesmo tempo, revelado e velado, em seu provocante mistério, pois que instiga a pessoa a por si mesma travar seu diálogo íntimo com o Criador. Ele sabe que quem não tem Deus vivo dentro da alma não pode despertar Deus em ninguém. E nesse contexto nada se manifesta à flor da pele ou é conduzido de fora para dentro, visto ser algo que irrompe como uma explosão da palavra viva, carregada da substância bíblica em sua potência máxima. Também isso nos lembra o que já muitos disseram a respeito daquele clima criado pela grande e sugestiva parábola, que é todo o Livro Sagrado, e dentro do qual podemos adivinhar os traços do rosto de Deus, que, para se comunicar com o mundo, tanto se revela quanto se oculta, parecendo testar-nos, para o conhecimento da vida e de nós mesmos. Esse teste exige olhos de ver ou ouvidos de ouvir, pois, sem dúvida, olhos e ouvidos são portas para a fé, e o mundo está cheio de cegos e surdos. E, o que é pior, os corações estão envoltos em espesso véu.

Carlos Masters, em seu livro Por trás das palavras, destacando as articulações do pensamento de Paulo a respeito da leitura do Antigo Testamento, nos diz o seguinte: “Para a compreensão de Moisés, isto é, do Antigo Testamento, não bastava o conhecimento, antes de tudo, uma questão de olhar. Havia algo nos olhos dos judeus que os impedia de ver o sentido verdadeiro das. coisas escritas no Antigo Testamento. Eles têm um véu sobre o coração. Por isso não chegavam a ter a compreensão exata do Antigo Testamento”.

Esse véu sobre o coração como que nos perturba também em nossos dias. E não é por acaso que Mohana fala dos que, vasculhando estrelas, tentam, na noite, o encontro com Deus. Ele considera isso uma aventura fascinante que nos invade de luz e nos infiltra de mel, pois quando o aventureiro tem olhos de ver termina descobrindo uma surpresa. Essa surpresa - diz ele poeticamente - é que “para vasculhar estrelas, temos de palmilhar o coração”. E se, conforme afirma ainda, é no coração que Deus quer marcar o primeiro encontro, há que necessariamente se afastar o véu. Do contrário torna-se impossível perceber aquele que se presentifica e não é visível, já que nesse estar presente, sem que se deixe ver, consiste a prova de que Deus nem é claro nem é enigma. Mas talvez venha a ser aquele claro-enigma de que fala um poeta, se tomarmos aqui Deus como sendo, de uma só vez, o poeta e a poesia do infinito. Nesse sentido, o fiat é a expressão poética por excelência, a palavra absoluta, o verbo criador, a sabedoria eterna fundamentada na estética da Criação. E se a poesia é, por definição primária, ação de fazer algo, entusiasmo criador, inspiração, e tem o propósito de elevar, ou de buscar o que há de elevado nas coisas, fica evidente que a palavra de Deus é a poetização divina de tudo e do todo.

Não há por que não se conceber que a poesia esteja ligada à fé, principalmente quando se sabe que para a difusão da fé o instrumento essencial é a palavra a que recorrem todos os pregadores. A Bíblia -o livro da fé - está cheia de poesia. E não esquecer que as palavras de Cristo são, em geral, poemas disfarçados em parábolas. Partindo dessa linha de raciocínio e atentando para aquela intrigante afirmação de que a poesia é necessária, só não se sabe a quê, resolvi, certa vez, escrever uns versos que terminavam assim: “Afinal a poesia/ é necessária ou não é?/ Sem ela não haveria/ nem esperança nem fé./ Ela é que cria e arquiteta/ o mundo e os mistérios seus./ O próprio Deus é poeta/ ou nunca seria Deus”.

Imagino, porém, que, ao falar assim de Deus, enveredo por um outro caminho que não é precisamente o de Mohana. Mas não resisto à idéia de vê-lo como poeta da fé, poeta aqui no sentido de vate, o que vaticina, o profeta, o que está adiante com a palavra reveladora, a palavra aberta a uma abrangência em que se pode descortinar Deus no ilimitado espaço que vai desde o mais remoto passado ao futuro mais projetável, mas em que o sentido comum de tempo desaparece para dar lugar à eternização do Hoje, não se podendo dizer que Deus era nem que será, porque Deus sempre é. Aliás, é do agrado de Mohana a definição de Karl Rahner: “Deus é o futuro absoluto”. Um futuro em que reside o eterno hoje, no qual, segundo Mohana, Deus está sempre agindo, abrindo o futuro, que é o presente definitivo. Esse presente definitivo - continua ele - é experimentado por todos a partir de Abraão, visto que ainda bem longe de Cristo, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó fez esta declaração de amor, confortando pela boca do profeta: “Ainda que as montanhas oscilassem e as colinas se abalassem, jamais meu amor te abandonaria” (Is. 54, 10). E Mohana nos mostra que “o Deus da Criação é o mesmo infinito amor personalizado em alguém. O Deus do Antigo Testamnto é o mesmo Amor-Alguém, a despeito de poucos pensarem nisso”. Essa é a compreensão que Bernard Shaw não teve, conforme se deduz do prefácio ao seu conto tremendamente satírico e intitulado Aventuras de uma negrinha que procurava Deus.

Pelo visto, o problema dos aventureiros que andam em busca de Deus, através dos tempos ou do espaço, e não por dentro de si mesmos, é que se modifica, não Deus. E a chamada era espacial como que deu uma outra noção aos que se entregam a esse tipo de aventura. Desde quando foi dito “glória a Deus nas alturas “ que muitos entenderam de fixar Deus aí. Mas onde é que se situam as alturas? Os astronautas pensam que sabem. E ninguém deve estar esquecido daquela frase tristemente famosa, dita por Yuri Gagarin, o astronauta russo, quando lhe perguntaram se tinha visto Deus, lá em cima: - “Não o vi; Deus não existe”. Já Gordon Cooper, outro astronauta, respondendo à mesma pergunta,.disse: - “Para ver Deus não preciso subir às alturas, e se subo levo-o dentro de mim”. Compare-se a diferença de altura, entre os dois, e note-se como subir fisicamente pode resultar numa descida espiritual. Pois o caso é que se Gagarin não viu Deus, no espaço, estejamos certos de que Deus viu Gagarin e este não teve como percebê-lo. Até porque a questão não é sair o homem aleatoriamente à procura de Deus, mas o homem saber preparar-se para deixar Deus vir a sua procura, ou despertar em seu coração, pois que o homem já é um ser achado, embora nem sempre saiba disso, ignorando assim que, enquanto não se dispuser irao encontro de si mesmo, estará fatalmente em desencontro com o Criador.

Mohana não teve problemas dessa natureza. Em sua luminosa caminhada, nunca precisou andar em busca de Deus, porque sempre esteve e permanece com Deus, companheiros que são de jornada, assim aproximando-se dos outros e trazendo sua mensagem e seu exemplo como o que de melhor se pode difundir entre os homens, para a construção de uma sociedade sob a garantia de sólidos alicerces cristãos. Para isso ele conta com o talento do romancista, do ensaísta, do conferencista, do psicólogo, do teatrólogo, do pregador, enfim, cuja palavra se reveste de luminosidade e se robustece cada vez mais ao abeberar-se no inesgotável manancial que é o da verdade consubstanciada no Cristo. Os seus sermões, as suas prédicas, as suas aulas de vida têm implantado essa verdade por onde quer que ele passe. É uma voz que se escuta e que tem eco, mesmo numa época de caixas de ressonância atordoadoras, porque bem se dintingue em meio à babel de nossos dias.

Por tudo isso, o médico do corpo que passou a médico da alma, tornando-se um pródigo disseminador da fé, é hoje uma fonte irradiadora de grandezas espirituais, a nos mostrar como é possível chegar à plenitude humana, mesmo dentro de um alucinado mundo que insiste em desagregar as nossas mais ricas potencialidades e em desviar-nos do caminho único por onde a humanidade tem chance de alcançar o seu verdadeiro destino. É que Mohana exterioriza e torna clara aquela invisível e misteriosa força que é própria do ser humano, mas que o ser humano, de modo geral, ignora ter em si mesmo. Aquele tema que Teresita González adotara para sua vida, num convento de carmelitas, parece ser o mesmo que ele se propôs: “Senhor, que quem olhe para mim, te veja”.

Disse Léon Bloy que “a única tristeza é a de não ser santo”. Eu não vou chegar ao ponto de afirmar que o Pe. Mohana é santo, mas estou certo de que ele não tem essa tristeza de que fala Léon Bloy, porque se trata de um homem reconhecidamente bom, dotado de Deus em todas as suas atitudes, e sabemos nós que Deus é a infinita alegria dos homens bons, da mesma forma que estes são, na terra, a alegria maior de Deus.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br