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Edição 160

Litoranearte: As esculturas verticais

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Data de Publicação: 5 de setembro de 2007
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O projeto de Jesus Santos para as esculturas verticais, que já está em plena fase de execução, constituiuma das mais arrojadas experiências no campo das artes plásticas maranhenses.

O artista, ao se referir à fase de peregrinação para conseguir patrocínio, confessa que “depois de bater em todas as portas com o projeto, o Banco da Amazônia foi a única instituição que se sensibilizou com os alcances educativos da proposta e resolveu de pronto bancar a coleção de peças”.

A execução do projeto está acontecendo num grande galpão da Avenida dos Africanos, próximo ao Motel Pandora, onde Jesus Santos trabalha com três operários dos quais faz questão de citar os nomes – Devison Muniz de Castro, Luís Fábio, vulgo Fábio Júnior e Deusdedt Rodrigo de Almeida, a quem carinhosamente chama de Michelangelo Buonarotti.

Em tom irônico, mas carinhoso, Jesus Santos apresenta seu fiel escudeiro, o Dragão, um cão mimoso e dócil que, segundo ele, é um crítico impiedoso, caga e urina sobre as esculturas que não aprova.

A coleção Litoranearte se comporá de 108 peças esculpidas ou entalhadas em conjunto de duas, para cada uma das 54 peças inteiras de cimento, medindo cada unidade 3 metros de altura, sendo que Cazumbá I e II têm 4 metros.

As peças foram projetadas para instalação ao longo da Avenida Litorânea e delas já foram instaladas quatro, com oito esculturas.

Quando perguntamos a Jesus Santos por que as peças são armadas em cimento e as esculturas montadas sobre os desenhos com pedrinhas de ladrilhos e azulejos, ele respondeu que “o cimento é o único material que resiste ao salitre”.

Os motivos que inspiraram a seleção de temas para as esculturas estão todos relacionados com usos e costumes do cotidiano maranhense. Assim, ele privilegia, portanto, as aves, os crustáceos, caranguejos e siris; os peixes, as lendas, as tradições, comidas e bebidas e os personagens populares tradicionais típicos, como pregoeiros, entidades dos ritos religiosos, travestis, turistas, vendedores ambulantes, prostitutas, camelôs e vendedores de frutas tropicais.

Comentando sobre as escolhas dos motivos ele é irredutível “em minha arte os excluídos é que são os eleitos, e que figuram como pessoas da maior importância. Esses personagens são de tal forma múltiplos que vão do caranguejo à pessoa humana, do lobisomem ao cazumbá, de Iemanjá a Iansã”.

No galpão, a maioria das peças em fase de execução e conclusão incluem esculturas de lobisomem, caranguejos, siris e peixes, cazumbás, gaivotas, ex-voto, maçaricos, guarás, garças, anjos, mulheres fazendo alongamento na praia, bandinha de músicas e tubarões.

Sobre a finalidade do projeto, Jesus Santos afirma “se São Luís é uma cidade cultural, temos que corresponder a essa tradição, por isso o princípio básico das esculturas é educativo. Daí por que uso os pontos de maior fluxo humano para educar as pessoas, quer maranhenses, quer visitantes ou turistas”.

Sobre as garças, diz tratar-se de art noveau e que usa azul e branco para Iemanjá e vermelho e lilás (roxo) para Iansã, por exemplo, porque essas são as cores rituais das entidades.

Fotos:G. Ferreira
O Lobisomem

O vendedor de picolés

A banhista

Iemanjá

O Travesti

O artista plástico Jesus Santos no galpão da Avenida dos Africanos preparando suas esculturas

No galpão, Jesus Santos orienta um dos seus operários durante a confecção do Cazumbá

O que Jesus Santos deixa bem definido sobre suas esculturas é que os rostos, as cabeças dos personagens são sempre de passarinhos. As pessoas, prostitutas, pregoeiros, engraxates, pescadores, travestis, quanto mais são obscuras e anônimos, mais merecem o nosso carinho, para que em suas pequeninas fraquezas possam ser exaltados, porque são leves como aves – têm as cabeças de periquitos, maçaricos, garças, gaivotas e guarás, porque as pessoas são pássaros”.

As Esculturas na Avenida Litorânea
Constituindo um conjunto de quatro peças já instaladas, apresentando oito esculturas, o que lemos já na Avenida Litorânea é uma bela mostra do que virá a ser a coleção Litoranearte na íntegra.

A Turista
Com uma visão tridimensional, a turista lembra as pinturas egípcias que apresentam as pessoas olhando simultaneamente de perfil e de frente.

A turista tem aquele toque incidental de flaneur que é o observador atento, por isso olha ao mesmo tempo para todas as direções.

As meninas
Em movimento na passarela, duas em uma, a prostituta e a adolescente. Elas estão em busca de quê? As roupas estampadas e chamativas, cores quentes e o acessório da bolsa de uma encobre a sobriedade da outra.

O chapéu é uma espécie de máscara, de disfarce. E o figurativismo dos dois personagens em um propõe o simulacro tão peculiar à ambigüidade e ao paradoxo da existência humana. Sim, uma pessoa, em que se identificam dois personagens agindo simultaneamente em As Meninas, que se confundem – a adolescente por trás da prostituta.

O Travesti
Como nas outras esculturas, Jesus Santos usa o mínimo de linhas, pois não está em busca de transparente definição, portanto não define partes do corpo como pescoço e pés.

É a figura masculina constituindo um corpo feminino.

Percebe-se sob as aparências, sem a preocupação de colocar detalhes fisionômicos como boca, olhos, nariz, os dedos das mãos, os pés.

Antes o artista passa a idéia da preocupação com as cores relacionadas com a caracterização de cada personagem em sua condição quer social, quer religiosa.

Ressalte-se que, como o travesti, a prostituta e o vendedor de picolés são como se não existissem para a sociedade. Mas o artista os plasma de importância e os insere no contexto social e lhes dá destaque.

O Fogareiro
Espécie de ideograma de fogareiro e cálice – comida e bebida, de um ponto de vista figurativo.

Iemanjá
Esta escultura é um espetáculo à parte. Ela olha sobranceira para o mar, acima das coisas terrenas, a imensidão oceânica em que marca o seu domínio além dos humanos.

As cores frias, azul e branco, são as rituais que traduzem a pureza de Iemanjá.

Realça-lhes na cabeça a fisionomia asiática, o porte de rainha. Entre as mãos uma concha, cuja simbologia é a representação do mar.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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