Data de Publicação: 5 de setembro de 2007
Enoch SacramentoJesus Santos fez de São Luís o leitmotiv de sua obra plástica e do bairro do Desterro, no qual localizava-se a zona boêmia da cidade, referência constante de suas pinturas e desenhos.
Ele, que cresceu na rua dos Afogados, na casa de sua mãe de criação, Esmeralda Martins Couto, no centro da cidade histórica, próxima do bairro do Desterro, vivenciou as paisagens urbana e humana da cidade desde muito cedo. Com muita coisa para contar e sobre as quais refletir e fazer pensar, Jesus Santos não teve alternativa: optou pela pintura figurativa. Esmeralda, uma mulher sensível às manifestações artísticas, particularmente musicais, propiciou a Jesus Santos um clima favorável ao gosto pelas artes.
Referindo-se à sua criação, na casa da rua dos Afogados, 231, afirma Jesus Santos: “Da infância, duas imagens não se apagaram: os retratos da sala de piano e o quintal. A sala grande, com cinco metros de pé direito e o piano preto no canto, tinha as paredes cobertas de retratos de vivos e mortos. Eram fotos de várias gerações e suas épocas evidentes no vestir, na paisagem, no olhar e no sorriso; eles estavam ali, silenciosos, observando o que se movimentava pelo ambiente. E, se para todos, eles, inertes, estavam vivos apenas na memória e nas histórias contadas, na minha cabeça e em meu olhar eles se animavam, passeavam, riam, possuídos por uma vida que só a fantasia permite; para mim os mortos não estavam completamente mortos.[...]
Ali, cedo percebe que as coisas nem sempre são como parecem, que há comportamentos verdadeiros e situações falsas. Entende o significado da máscara e do disfarce, postura que o acompanharia por toda sua vida. Na pintura “Dona Sinhá e seus Convidados”, reproduzida na página 45, o artista projeta esse sentimento relacionado com o poder, com a estratificação social, mas também com a capacidade de sobreviver e sonhar. A figura central é poderosa, situa-se num plano mais elevado da composição, embora seja a mais distante do “observador”, tem olhos penetrantes e um nariz em ponta. A da esquerda, mascarada, ostenta um poder formalizado na farda, e a da direita assiste a tudo, aparentemente passiva. Nessa obra, Jesus fala de situações vivenciadas, mas que transcendem uma realidade doméstica para adentrar o campo da condição humana. À esquerda, ao fundo, uma figura de mulher contempla, sonhadora, da porta, a paisagem.
Já no quintal, Jesus encontra “um sol brilhante, as goiabeiras com folhas verdes, os lírios, as rosas e o jasmineiro que prenunciava a noite povoada de fantasmas, perfumando os fins da tarde. À luz do quintal, galinhas e galos solenes em seus poleiros, cachorros fiéis compunham uma fantasia absoluta naqueles anos 50, quando, em minha cidade, Deus e o Diabo comungavam o cotidiano de uma terra isolada, onde a Igreja Católica determinava virtudes e regras”. Mas em meio a esses elementos vivificantes do quintal, ele via também “o rosto preto e branco da morte”, uma espécie de fantasia da sala invadindo o quintal em sua imaginação. Clemência dos Santos é sua mãe biológica.
A casa da rua dos Afogados abrigava pessoas diversas de outras famílias que vinham estudar na cidade, irmanadas pela sobrevivência. “Eu e minha mãe Clemência éramos parte dessa curiosa família, onde uns adoravam somente um Deus uno e outros acendiam velas e evocavam todos os orixás”.
A sala e o quintal são pólos opostos na formação cultural e emotiva de José de Jesus Santos, que tinha na sala um cenário de conflitantes situações humanas e sociais, e, no quintal, seu encontro com a natureza e consigo mesmo.[...]
No fim dos anos 60, Jesus Santos começa a sentir-se um verdadeiro Artista-cidadão, quando vê uma escultura de sua autoria instalada no Parque do Bom Menino, em São Luís. A cidade começa a ser redesenhada material e espiritualmente. Haroldo Tavares, empossado prefeito, resolve intervir no tecido urbano, restaurando sobrados do núcleo histórico, estimulando as artes e o respeito pela história, convivendo com os intelectuais, entre eles, Jesus Santos. É um tempo novo, inaugurado por um governo sensível e inteligente. Toda a produção artística anterior, geralmente tradicional, acadêmica e desatualizada, começa a ser revista. Jesus Santos faz parte desse movimento de renovação da arte maranhense.
Sente que é necessário procurar formação e informação fora de sua cidade. Muda-se temporariamente para o Rio de Janeiro, onde estuda em um dos mais importantes centros de formação de artistas do país, a EAV - Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na época dirigida pelo artista Rubens Gerchman. Na EAV estuda pintura, litografia, serigrafia, xilografia, gravura em metal, projetos gráficos, cerâmica e escultura. Mais entrosado com o movimento artístico brasileiro, Jesus Santos participa, em 1978, do I Salão dos Novos Gravadores da América Latina, em Nova York, e no ano seguinte da coletiva “Novos Caminhos da Arte Fantástica”, no Paço das Artes, em São Paulo. Referindo-se ao seu trabalho, afirmou textualmente Lourdes Cedran, diretora da instituição: “A obra de Jesus também reitera a força do cromatismo vibrante, mas são motivos do cotidiano que compõem a sua expressividade fantástica...é densa, silenciosa, mas também o eco de um alerta!”.
Quatro Bestas e uma Mula sem CabeçaA passagem de Jesus Santos, em 1976-78, pelos cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, orientados por importantes artistas da época, abre novos horizontes em sua produção. Foi muito importante também para seu desenvolvimento o contato com a obra de Floriano Teixeira, “um retirante de uma das secas de sensibilidade artística do solo maranhense”, segundo o próprio Jesus Santos. Floriano Teixeira residiu posteriormente no Ceará e, em seguida, em Salvador, onde tornou-se um dos ilustradores dos livros de Jorge Amado e um grande pintor. Jesus não esconde sua admiração por Floriano, que enalteceu no artigo “Floriano: encapetado e lírico”, publicado no jornal “O Estado do Maranhão”, em sua coluna “Malazartes”, em 29 de julho de 1987, no qual o classifica como “um perfeito alquimista dos laboratórios da pintura”. Por seu turno, Floriano retribui a admiração pela obra de Jesus no artigo “O Caldeirão do Feiticeiro”, publicado no jornal “O Estado do Maranhão”, em 12 de junho de 1988 e que, por seu conteúdo relevante, transcrevemos integralmente na coluna ao lado.
O Caldeirão do Feiticeiro[...] Em 1987, estive em São Luís e me foi dado o privilégio de ver ao vivo e de perto, pela primeira vez, alguns quadros ‘’desse talentoso pintor. Eram quadros que despertavam a atenção pela beleza agressiva e riqueza do colorido. Pinturas de alguém que, por força de um trabalho disciplinado, de muita pesquisa, de suor, sangue e lágrimas, havia conquistado o direito de lidar com as cores e saber como usá-las sobre a superfície plana e inexpressiva de uma tela virgem. Senhor de uma curiosa composição, Jesus Santos vai dispondo, com rara habilidade, compartimentos em sentido horizontal. Para cada compartimento, uma nova composição é criada, tornando-se, assim, um independente do outro.
É uma tarefa complicada que requer experiência, mas isso o artista tem o suficiente para se sair bem em cada quadro. Vendo-o de longe a trabalhar, Jesus Santos lembra um bruxo, um feiticeiro que, com precisão absoluta e paciência infinita, vai depositando, no seu enorme caldeirão, quantidades exatas de estranhos ingredientes para cozinhá-los em seguida. São pedaços de marinhas, dúzias de portas, alguns hectares de chão crestado, duas ou três cidades antigas, bandeirinhas e papagaios de papel-de-seda ao gosto. Tinta, muita tinta, azul, verde, marrons, amarelos e vermelho em profusão. Aprovada a receita com uma expressão de felicidade, o bruxo toca a mexer tudo, muito bem mexido, numa cadência ritmada para não embolar. Só depois disso é que vai pondo algumas figurinhas humanas, de preferência femininas, com todo cuidado e carinho para dar aquele gostinho picante.
Assim é que nascem os quadros de Jesus Santos, esse artista consciente e trabalhador que caminha a passos firmes para a conquista de seu lugar entre os grandes artistas deste país.
(Floriano Teixeira)Foi nos anos oitenta que a pintura de Jesus Santos avançou com maior determinação no sentido da construção de uma linguagem própria, na manipulação de formas, cores e ritmos de uma forma pessoal. Sua iconografia fantástica, calcada no cotidiano da cidade em que vive, em seus mitos e magias, avulta nos anos 90, quando sua arte adquire características notáveis que o posicionam como uma espécie de cronista do absurdo. A obra “Metamorfose”, de 1990, com sua rica plasticidade e seu conteúdo onírico, dá a medida do talento do pintor, que esplende também em várias outras obras pintadas nos anos seguintes como “Turistas” e “O Discurso” (1993), “Cidade” (1997), “Dona Sinhá e Seus Convidados” (1998), e tantas outras.
A obra de Jesus Santos está inserida na vertente do realismo mágico ou fantástico, que sempre existiu na arte e, principalmente, na literatura mundial, mas que adquiriu na América Latina, na segunda metade do século XX, uma dimensão nunca antes conhecida. Ao contrário do maravilhoso, que se refere a criações completamente dissociadas da realidade, o realismo fantástico se alimenta dela. A obra plástica de Jesus Santos tem na cidade de São Luís, em suas lendas e mitos, seu ponto de partida. Embora referenciada na realidade, ela avança para um terreno que subverte e dissolve o tempo, o espaço, a paisagem e seus personagens. Muitas de suas obras são construídas à maneira de paisagens, com o casario em primeiro plano, o mar em segundo e, finalmente, o céu. Mas, para Jesus Santos, entre o céu e a terra existem e acontecem muitas coisas. Ele as dispõe com liberdade total, geralmente em planos diversos. São casas, muros, varais, bandeirolas, circos, cajus, pipas, muitas portas e janelas. E, principalmente, figuras humanas, sobretudo mulheres em pé, sentadas ou deitadas, à espera de alguém que talvez nunca chegue. Há uma sensualidade imanente nestas obras de colorido forte, em que predominam os azuis, os vermelhos e amarelos, muitas vezes dispostos em áreas de cor quase chapada.
O clima onírico, presente nessas obras panorâmicas, geralmente líricas, acentua-se quando Jesus aproxima-se de seus motivos, na maioria das vezes, figuras humanas. É nesses trabalhos que ele exerce toda sua ironia inteligente ao criticar situações humanas diversas, desde uma reconciliação entre casal, até a postura dissimulada de políticos, de poderosos. Na pintura “Solo de Trombone”, reproduzida na página 60, além do homem fardado que toca o instrumento, há um casal sentado num banco, tendo por companhia um pássaro com corpo humano. Nessa obra, Jesus engendra uma cena de natureza humanizada, remetendo-nos ao domínio do totemismo. Seu comentário: “Quem já ouviu não esquece. Afinal, quem fica indiferente? Aconteceu lá pelas bandas do Lira, bairro pobre do centro da cidade, onde um apaixonado mimoseou sua paixão com notas tiradas de um trombone”. Jesus afirma que pintou o homem como pássaro porque foi assim que ele o viu. “Ele estava lá, era um pássaro”, afirma. Ele trabalha com sabedoria o espaço, geralmente de modo subjetivo, poético, como na pintura “Pequeno espaço azul para cajus”, reproduzida na página 66. Na obra de Jesus Santos problemas sociais se misturam com acontecimentos fantásticos.
Nos últimos anos, Jesus tem mostrado grande interesse pela arte pública e sua trajetória artística lhe facultou a conquista de importantes espaços como a orla e nas águas da Lagoa da Jansen, na parte nova de São Luís, nas quais ele implantou, respectivamente, seis placas de concreto e uma enorme serpente.
Sua obra de maior fôlego é um grande painel constituído por vinte e quatro módulos, com 2,4 metros de altura por 14 metros de largura, pintado em 2001 e 2002 para o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, sua obra-prima, uma espécie de síntese de todo o seu trabalho e maturidade. Nele, cabe toda a cidade de São Luís, com suas lendas, crenças, fantasias, arquitetura, poesia e sonho. Nele, Jesus colocou todo seu empenho, dedicação e talento. E com ele se afirmou como um dos mais significativos artistas do norte e nordeste brasileiros, e mais, um artista latino-americano autêntico no campo do realismo fantástico.
A série que ele pintou para a exposição “Três Artistas do Maranhão / Three Artists from Maranhão”, exibida em São Paulo, Brasília e Nova York, [...] também se constitui em frutos maduros de toda uma vida dedicada à cultura e à arte, como criador, administrador e divulgador. Sua arte recria e transfigura a alma da cidade de São Luís do Maranhão.
(SACRAMENTO, Enoch. O universo Fantástico de Jesus Santos. São Paulo: Ed. do Autor, p. 19 a 28, 2005)- Próximo texto:
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