Data de Publicação: 5 de setembro de 2007
Antonio Aílton
ailtonpoiesis@gmail.comDe Tebas e cavernas, lobisomens e esfinges em Jesus SantosA idéia dos sete véus e das sete portas sempre nos fascinou. Nem a cabala, nem a bíblia escaparam disso, nem os gregos. “Quem construiu a Tebas de sete portas?”, pergunta-se... E então plantaram uma esfinge à sua entrada, e uma praga em seu centro, vinda de algum lugar, como castigo. De onde? Do Olimpo, monte real que transcendeu o histórico para servir de morada aos deuses. O problema dos sete véus deu caminho à filosofia de Platão, ao mito da caverna, e daí às questões engendradas na modernidade por Nietzsche, Hegel e Heidegger. Na pós-modernidade, já só há capas, e véus, e mídias, e a terrível esfinge que não morreu no abismo, porque ainda queria descobrir uma última coisa a seu próprio respeito.
Já insinuamos, anteriormente (Guesa Errante, ano IV, 159), este mundo de véus na obra do artista plástico Jesus Santos. O real, que, sem deixar de sê-lo, permite um dizer nos termos do mágico ou do fantástico. O real e sua sombra – suas fissuras. O mundo e seus simulacros. O mundo, e a galhofa de si mesmo. Esse discurso chama-se discurso irônico, aquilo que a razão inventou para não enlouquecer, e para ser capaz de conviver consigo mesma. A ironia é a linguagem máxima do Universo: a manifestação de seu pathos trágico e a abertura para a possibilidade de rirmos de nossos próprios entraves e absurdos.
O artista busca a autenticidade deste mundo, e do homem com ele, mas o ser se esconde em véus, em perguntas, num olhar deceptivo de quem sabe que ainda há alguma coisa que se poderia ter, mas que não se tem. Solidão povoada, falta, falha, fissura: aí está a razão de ser do artista e de sua linguagem. As janelas desembocam para um outro mundo; os sonhos, os desejos chegam às nuvens, mas as nuvens quereriam ser anjos, e os anjos sonham com os céus, com Deus, mas onde está ele? Esbarramos numa outra dimensão do olhar que se constitui numa nova cortina, teatro infindável: aí está a tragicidade e a ironia deste mundo: seu umbigo está em toda parte, e sua plena realização em nenhum.
O universo de Jesus Santos torna-se comparável, portanto, ao universo do Albert Camus de Le mythe de Sisiphe [O mito de Sísifo] (1942), para quem o mundo é opaco e absurdo, nunca poderemos romper completamente seus véus, suas metáforas, suas cascas de cebola. Só resta, então, a partir daí, duas alternativas: o suicídio – o desespero –, ou a revolta – o sorriso irônico, e continuar a viver, mais e melhor, em meio a todas as adversidades e a toda a opacidade do universo.
Plasticamente, isto é, formalmente, o mestre Jesus Santos semi-simboliza isso na problemática da composição. Ele por vezes apaga ou desloca o ponto de fuga do centro e em seu lugar estende um véu opaco, e vai justapondo situações, planuras, episódios, cotidianos, pode transformar a profundidade num jogo de cromias geralmente mais claras, escuras ou diferenciadas em relação ao conjunto. E, se a perspectiva construída com a disposição, volumes ou tamanhos de elementos que dão a impressão de estarem mais ou menos próximos do observador, já é, na verdade, uma solução ilusória da pintura para a bidimensionalidade do quadro, na perspectiva cromática essa ilusão é intensificada, chegando quase ao trompe l’oeil: no lugar onde havia uma “profundidade” há apenas uma cortina de cor, a “cor” dessa profundidade! O mergulho se desloca, as entradas são outras. Planos, retalhos, entradas de ar de um velho prédio ludovicense, túneis ou janelas são dispostos, de modo a gerar o aguçamento, uma tensão, um estranhamento, quebrando também o costumeiro verticalismo e primando pela placidez mundana – quase profana – do horizontalismo, de modo que tais universos de superfície possam desembocar em outros universos ainda passíveis de desdobramento, multiplicação e (des)velamento.
Essa técnica permite, então, no nível profundo, isto é, num nível temático, construir também desdobramentos do ser em encarnações, alegorias ou metáforas, sem a necessidade de se manter no real estrito e naturalista, e sem o risco de desembocar completamente no fantástico ou no “mágico”. É significativa também a unidade entre esses níveis, quando se pensa na questão da horizontalidade e do quadrado, forma e linhas relacionadas à estabilidade natural, à natureza, à terra, ao ctônico. É este mundo, ao qual o semioticista tcheco Ivan Bystrina chama de “primeira realidade”, que ascende ao outro, ao cultural, ao social e temporal, expresso nas telas, e com ele se comunica de forma que, por lhe ser contrastante e, às vezes, contraditório, é, primordialmente, dialético.
A Solidão Segundo Dr. PedroEsse mundo natural é evidenciado, tornado “visível” onde não se suspeitava, suas barreiras foram quebradas. Assim, ele pode tocar naquele mundo primitivo e ancestral do ser, que é aqui resgatado, vale seu paletó, mas também vale seu instinto de bicho. Bicho matreiro, que tem que se safar, barganhar, sobreviver – armas antigas que os velhos gorilas sempre conheceram, lobos e raposas, também. Neste sentido, de certa forma, Jesus Santos aproveita aquela diluição ou derrocada de conceitos que o modernismo proporcionou, entre o que seja arte erudita e arte popular – conceitos nos quais ele não acredita. “Erudito é o modo que se encontra para cultuar alguma coisa”, diria ele. Entenda-se: Jesus Santos está relacionado ao universo urbano, e esse aproveitamento da ancestralidade diz respeito aos elementos que ele toma de empréstimo, para expressar comportamentos humanos que sempre foram os mesmos; representando “papéis”, mas, no fundo, animalescos, lupinos, cavalares, manifestação de um “inconsciente coletivo” sórdido e mimético (listras, disfarces, acomodação sem comunhão!), ligado ao lado competitivo e destrutivo da natureza, diferenciando-se da expressão daqueles artistas cuja vida e arte são quase inseparáveis do ambiente e do espírito arcaico e natural .
As barreiras entre a própria natureza diminui, como numa oniria, mas dessa se diferenciando porque nunca é perdido o foco do real. Peixes podem ser sonhos, mas os seus mesmos, ou os nossos, que os elevamos em alegorias dos anseios de nossa própria alma? Eles estão aí, enfim, como o nosso Outro, “carpas da melancolia”, como diria Apollinaire. E os pássaros, os pássaros, quer sejam canários, anuns, pipiras ou corvos são sempre o nosso “duplo”, neste mundo achatado, empilhado, onde miramos nossas possibilidades e projetamos nossa volição. Significativo, neste sentido, é o quadro A vendedora de pássaros, ela mesma prisioneira de uma lancinante, solidão, recolhida, fincada na terra.
O sopro da ancestralidade também se faz presente aqui em certas representações totêmicas. Totens e esfinges. O totem é venerável, ou é a constituição de uma religião na qual, em última instância, entronizamos a natureza ou a nós mesmos. Já a esfinge, além da posição hierática, relacionada ao sagrado, é sempre a síntese enigmática de dois – ou mais – mundos, do alto e do baixo, do homem e do deus, do deus e do dragão, do tempo e da eternidade, da natureza e da cultura. Destarte, totens e esfinges são deslocados para universos de questionamentos do nosso existir social e humano. Três telas são bastante esclarecedoras, neste sentido: O dono do poder, A solidão segundo Dr. Pedro e Lobisomem do Planalto. Não obstante o fato de terem sido todas produzidas no mesmo ano (2003), há, entre elas, uma comunicação, uma unidade impressionante.
O dono do poder une as prerrogativas do totem e da esfinge: o hieratismo, a representatividade da “superioridade do poder”, inscrito também na intimidação do paletó e da gravata, e a união entre, pelo menos, dois universos, o concreto e o abstrato, o poder e sua presença figurativa, corpo hierático, rígido, cuja cabeça não é mais que a trama do universo político e burocrático de Brasília. “Decifra-me, ou te devoro”, eles dizem. Aí o que há de humano (que já era máscara) se apaga, para dar lugar a uma fachada inócua e burocrática, irrigada pelas goladas de coca-cola, néctar e ambrosia fornecida por duvidosos “deuses”.
A solidão segundo Dr. Pedro casa, também, as duas razões, e as marcas culturais do paletó e da postura unem-se às sugestividades do branco, que, se veste a paz e a pureza, também veste o fim, a diluição. Por outro lado, esse belíssimo e emblemático quadro comunica-se com o lirismo duro e dilacerante de outros, tais como Silêncio e A vendedora de pássaros, e até mesmo, indiretamente, com Solo de Trombone, entre outros, mas há também nele uma crítica dura e atroz, representada pela figura do pássaro, semelhante ao corvo – que, como o homem, parece empalado. A solidão do Dr. Pedro é uma solidão profunda, humana, porque ela está em todos os níveis. Uma solidão centralizada, vertical, horizonte e quadruplicada: dividida a tela em quatro quadrados iguais, a partir de seus eixos, vamos encontrar diferentes representações dessa “solidão”: uma perna sozinha, um barco à deriva, um cartaz desacreditado e um vazio de ventos e flâmulas, assustador e impalpável.
Finalmente, a mais fascinante de todas as esfinges desse catálogo: Lobisomem do planalto. Ela está tal qual a esfinge tebana, apresentando a cidade, recebendo aquele que chega a ela, mas também qual Cérbero, o cão-guarda das portas do Inferno, pronto a não deixar qualquer um passar. O interessante nela não é apenas o paletó, a gravata “brasileirinha”, mas essa sua cara de gatuno maquiavélico. É uma máscara, mas por trás há outra máscara, a sombra, aquilo em que se transforma na calada da noite: um lobisomem à caça de vítimas. Soberba sacação, crítica soberba: gatuno em pele de lobo. Aí não há cordeiros, eles seriam apenas alimento, como na fábula. Esse olhar de gatuno-serpente foi elaborado sob a duas cores mais agradáveis e receptivas de todo o círculo cromático: o verde e o azul. É uma sedução, ele diz: veeem!...
Crítica, ironia, sarcasmo, teatro, sociedade, natureza: sínteses da arte de Jesus Santos expressos em Lobisomem do planalto. Mas esse quadro introduz também um outro mundo, um mundo que se mostra por “capas”, peles, máscaras. Um mundo em que, conforme Lacan, saltamos de superfícies em superfície, de significante em significante, em nosso Outro. Um mundo de Alice no País das Maravilhas, encontrando aquele gato sorridente, mas cínico, maquiavélico, e de respostas escorregadias. Num outro sentido, uma caverna de Platão, mas onde a verdade máxima ou a iluminação não vem de além dos panejamentos e dos véus. Os mundos se irmanam e se assemelham. É bom que cada um comece a se reconhecer no outro, e aprender a conviver consigo mesmo.
- Próximo texto:
- Edição 160 A Cidade e o Artista
- Texto Anterior:
- Edição 160 Editorial
- Índice da edição - Ano VI