Data de Publicação: 5 de setembro de 2007
Há nas pinturas e esculturas de Jesus Santos o viés metonímico, uma técnica essencial do realismo fantástico que assina.
Paradoxalmente, para ele é no detalhe que está a essência da matéria-prima para a obra-de-arte. Essa marca é um dos dados que conferem autenticidade a sua leitura de mundo do particular para o universal.
Outro dado inconfundível de sua arte é a captação e captura das imagens em movimento, elegendo o instantâneo e o simultâneo como estratégias de consolidação da autenticidade.
Olhando seus quadros, tem-se a impressão de que as imagens perpetuam a ação. Esse é outro dado importante de toda sua obra, o movimento que perdura nos elementos da tela, como se imagens de um filme. Assim, seus personagens assumem vida própria, têm dinamismo, são bailarinos que se expressam através dessa linguagem inconfundível da dança, que prescinde de palavras.
Nele, o detalhe se caracteriza pela inserção na imagem de um elemento transgressor, alheia ao original, como uma máscara, uma cabeça de pássaro ou de um animal eqüino, um nariz de pinóquio. Mas é esse detalhe que vai fazer a diferença, explicado pelo peso semântico da metonímia de que a peça se apossa.
O detalhe metonímico rouba a cena do todo, que passa a um plano de coadjuvante, pois é essa pequenina parte acessória que define o conjunto e o explica, é o que revela, em cores gritantes, o lado sombrio da alma humana. Revela-se, assim, o principal item do caráter das pessoas em jogo, rasgando o véu das aparências. Desse ponto de vista, o acessório é o ícone, o próprio arquétipo fundador da obra-de-arte.
Quando ele dá destaque aos simples e rebaixa os poderosos, revelando-lhes a corrupção sob a capa de pompa, circunstância, arrogância e prepotência, como sinônimo de dignidade, não está, senão, exercendo a mais legítima e rara prerrogativa do artista, a isenção.
Jesus Santos mostra justamente o jogo da ambivalência, com o destaque do paradoxal e do ambíguo, como formas de desmascarar e dessacralizar pessoas e doutrinas, quer sociais, políticas ou religiosas, pois, quando o baixo se eleva e o alto se rebaixa, o véu aparente das convicções cai. Esse é o papel legítimo do grotesco em arte, quando o artista capta a falsa moral, percebendo a alma humana pelo deslize, pelo detalhe, pela escorregadela, por baixo da dissimulação e obliqüidade do recalque.
As telas de Jesus Santos formam como que capítulos de um romance sobre o passado de São Luís, presentificado num filme tão eterno como Crime e Castigo, baseado na obra imortal de Dostoiévski ou como um romance que o Maranhão está por escrever como obra futura. Com a palavra o próprio artista “dedico Litoranearte às gerações futuras”.
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