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Edição 158

Nietzsche: A beleza das trevas

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Data de Publicação: 9 de agosto de 2007
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O verso livre e longo e a prosa poética não são conquistas isoladas e gratuitas de meia dúzia de poetas vadios ou desocupados, mas o resultado do esforço e sacrifício de poetas que, apesar de conhecerem e dominarem todas as formas métricas e vérsicas, estróficas e rímicas, resolveram interromper a ditadura formal e formol de sarcófagos e embalsamados, e optar por uma poesia que seduz sem o concurso de roupagens.

Hoje, pergunta-se: quanto há de poesia, por exemplo, nos milhões de versos metrificados e rimados da Divina Comédia, de Dante; no monumental Jerusalém Libertada, de Torquato Tarso ou em Os Lusíadas, de Camões?

Pode-se apostar ou suspeitar que em quase 60% desses longos poemas até quilométricos se constituem de narração pura, enciclopédia de conhecimentos gerais.

Uma coisa é o poema puro e simples; outra coisa é a poesia.

Uma coisa é o poeta; outra, a lenda em torno de nomes que, a par de se haverem notabilizado por alguns sonetos geniais como Bocage, Gregório de Matos, Camões, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, escreveram centenas de sonetos que celebram a miséria da poesia, embora comemorem a perfeição formal do verso pelo verso. Incluam-se nesse rol Olavo Bilac, Francisca Júlia e Alberto de Oliveira.

Será preciso a insistência de uma crítica contra a racionalidade conceitual, senão esbarraremos sempre na morte do trágico e do lírico pelo saber racional.

Se há uma obra que bate de frente contra esses interditos e convoca os poetas para uma tomada de posição e/ou oposição radical a esse status quo, é a do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Nietzsche

Quando o poeta português Fernando Pessoa (188-1935) despontou no cenário da poesia em versos livres e longos, com o seu Álvaro de Campos, Livro de Versos, escrito entre 1914 e 1935, já alguns acontecimentos marcantes nesse sentido, se haviam concretizado.

Por exemplo, Walt Whitman (1819-1892) já havia, como pioneiro, fundado o território da poesia em versos longos e livres, eloqüentes e de contestação radical, com Leave of Grass (Folhas de Relva), obra publicada em 1855.

Friedrich Nietzsche (1844-1900), também havia deixado o seu recado aos que viriam depois ou aos poetas do futuro.

Na realidade, a obra filosófico-literária de Nietzsche é em si o maior e melhor manifesto para a melhor poesia escrita no período finis-secular XIX, durante o século XX e cá no III milênio.

Nietzsche, como excelente filósofo foi também excelente poeta, psicólogo e psicanalista.

Supomos que a obra que abre o pensamento poético de Nietzsche, seja O nascimento da tragédia, obra fundadora da concepção nietzschiana, de 1871, que já é um ensaio sobre a arte poética.

Em A Gaia Ciência, texto de 1882, Nietzsche oferece duas inserções poéticas, uma indispensável fonte, para que se possa pensar a poesia do século XX e XXI de valor incontestável. Nesses poemas já estão as raízes dos versos livres de Nietzsche como obra de impacto ao pensamento poético milenarmente convencional. Os dois capítulos de poemas são Brincadeira, astúcia e vingança, p. 10 a 49 e Canções do príncipe Vogelfrei, p. 290 a 315.

O poema em prosa Assim falava Zaratustra, obra escrita entre 1883 e 1885, oferece outro viés contra as fronteiras e barreiras impostas pelo cansaço tetramilenar das fronteiras e barreires entre os gêneros literários.

Nesse poema, a prosa poética dá um quinal no somatório de tudo quanto é métrica até então exercida de Dante aos dentes, dados e dedos dos metrificadores mais enfurecidos e contumazes de hoje. Casam-se nesse inigualável poema, como se uma Nona Sinfonia de Beethoven, filosofia e poesia, psicologia, psicanálise e música.

Mas é em Ditirambos de Dionísio, série de poemas qu fecham a obra O Anticristo, de 1888, p. 83 a 145, que o poeta nos surpreende.

Com o título original de Canções de Zaratustra, a obra apresenta o ideário do que viria a ser hoje a poesia contemporânea mais conseqüente. É hora de lermos Nur Narr! Nur Dichter! (Somente louco! Somente poeta!) Sigamos Nietzsche, nesta obra-prima:

Somente louco!
Somente Poeta!


No ar desanuviado,
quando o consolo do orvalho
já se estende sobre a terra,
invisível, também não ouvido
– pois calçados leves tem o orvalho consolador,
como todos os que suavemente consolam –
tu recordas então, recordas, ardente coração,

como uma vez tinhas sede
de lágrimas celestes e de orvalhos,
crestado e fatigado,
enquanto nas trilhas da erva seca
maliciosos olhares do sol vespertino
corriam ao teu redor por entre árvores negras,
ofuscantes olhares do sol em brasa de alegre
[maldade.

“Pretendente da Verdade – tu?” – assim
[zombavam eles.

“Não! Somente poeta!
Um bicho ardiloso, de rapina, insinuante,
que tem de mentir,
Que ciente, voluntariamente tem de mentir
ávido de presa,
disfarçado de cores,
pra si mesmo um disfarce,
para si mesmo um presa,
isso – pretendente da Verdade?...

Somente louco! Somente poeta!
Falando somente coisas coloridas,
falando a partir de máscaras de tolo,
subindo por mentiras pontes de palavras,
por arco-íris de mentiras,
entre falsos céus
vagueando, deslizando –
somente louco! Somente poeta!

em todo ermo mais em casa do que em templos,
cheio de capricho de felino
a saltar por toda janela
zás! para todo acaso,
farejando em casa floresta virgem,
que corras em florestas virgens
entre bestas de jubas coloridas
pecaminosamente sadio e belo e colorido corras
com ávidos beiços,
feliz – zombeteiro, feliz – infernal, feliz –
[sanguinolento,
corras rapinando, deslizando, mentindo...

Ou como a águia, que longamente,
longamente olha, hirta, nos abismos,
em seus abismos...
– oh, como eles se encaracolam
para baixo, para dentro,
em cada vez mais fundas profundezas! –

No ar desanuviado,
quando já a foice da lua
entre rubores purpúreos
verde se insinua e invejosa,
– inimiga do dia,
a cada passo secretamente
ceifando pendentes redes
de rosas, até caírem
pálidas, noite abaixo:

assim caí eu mesmo uma vez
de minha loucura da verdade,
de meus anseios diurnos,
cansado do dia, doente da luz

– caí para baixo, para a noite, para a sombra,
queimado e sedento
de uma verdade
– lembras-se ainda, lembres-te, ardente coração,
como tinhas sede então? –

que eu esteja banido
de toda verdade!
Somente louco! Somente poeta!...

(NIETZSCHE, 2007, p. 84-91)

Entre aves de rapina

Quem aqui quer descer,
como rapidamente
a profundeza o traga!
– Mas tu, Zaratustra,
amas ainda o abismo,
fazes como o abeto? –

Ele finca raízes
onde o próprio penhasco
treme ao olhar a profundeza –,
ele hesita à beira de abismos
onde tudo em volta
quer precipitar-se:
em meio à impaciência
do cascalho selvagem, do regato a despencar
pacientemente tolerante, duro, calado,
solitário...

Solitário!
Mas quem ousaria
ser hóspede aqui,
ser teu hóspede?...
Uma ave de rapina talvez,
que se apega aos cabelos
do firme sofredor
em maldosa alegria,
com louca risada,
risada de ave de rapina...

Por que tão firme?
– ela zomba cruel:
é preciso ter asas quando se ama o abismo...
é preciso não pendurar-se
como tu, pendurado! –

Ó Zaratustra,
cruel Nimrod!
Ainda há pouco caçador de Deus,
rede para fisgar toda virtude,
flecha do mal! –
Agora –
por ti mesmo caçado,
presa de ti mesmo,
em ti mesmo penetrado...

Agora –
solitário contigo,
“a dois” no próprio saber,
entre cem espelhos,
falso ante ti mesmo,
entre cem recordações
incerto,
cansado de toda ferida,
frio de todo gelo,
estrangulado em teu próprio laço,
Conhecedor de si!
Carrasco de si!

Por que te amarraste
com o laço de tua sabedoria?
Por que atraíste a ti mesmo
ao paraíso da velha serpente?
Por que te insinuaste, rastejaste
para dentro de ti – de ti?...

Agora um doente,
vítima do veneno da serpente;
agora um prisioneiro
que tirou a pior sorte:
trabalhando curvado
na própria mina,
em ti mesmo escavado,
a ti mesmo perfurando,
desajeitado,
teso,
um cadáver –,
assoberbado por cem fardos,
sobrecarregado de ti,
um Sabedor!
um Conhecedor de si!
o sábio Zaratustra!...

Buscaste o fardo mais pesado:
e encontraste a ti –,
não te despojas de ti...

Espreitando,
agachado,
alguém que não mais fica de pé!
Ainda terás a forma de tua tumba,
Espírito deformado!....

E há pouco ainda tão orgulhoso,
nas muletas do teu orgulho!
Ainda há pouco o eremita sem Deus,
convivendo com o Demônio,
o escarlate príncipe de toda altivez!...

Agora –
entre dois Nadas
encurvado,
um ponto de interrogação,
um mudo enigma –
um enigma para aves de rapina...

– elas já te “solverão”,
já têm fome de tua “solução”,
já esvoaçam em torno de ti, seu enigma,
em tomo de ti, enforcado!
Ó Zaratustra!...
Conhecedor de si!...
Carrasco de si!...

(Id. Ibid., p. 104-111)

O sol se põe

1. Não terás sede por muito tempo,
coração queimado!
Está no ar uma promessa,
de bocas desconhecidas me vem um sopro,
– a grande frescura está chegando...

Meu sol pairou quente sobre mim no meio-dia:
eu saúdo vossa chegada,
ventos súbitos,
frescos espíritos da tarde!

o ar corre alheio e puro.
Não me olha de soslaio
e sedutoramente
a noite?...
Mantém-te forte, meu bravo coração!
Não perguntes: por quê?
2. Dia de minha vida!
o sol se põe.
A lisa maré
já está dourada.
O rochedo respira quente:
acaso a felicidade ao meio-dia
dormiu sobre ele a sua sesta? –
Em luzes verdes
o pardo abismo lança brincando felicidade
[para cima.

Dia de minha vida!
a noite se aproxima!
Já teu olhar brilha
meio apagado,
já desce de teu orvalho
o gotejar das lágrimas,
já corre quieta sobre mares brancos
a púrpura de teu amor,
tua última hesitante ventura...
3. Jovialidade dourada, vem!
tu, o mais secreto,
mais doce antegozo da morte!
– Percorri eu rápido demais meu caminho?
Apenas agora, com os pés já cansados,
teu olhar me alcança ainda,
tua felicidade me alcança ainda.

Em volta apenas ondas e jogo.
O que um dia foi pesado
afundou em azul esquecimento –
ocioso está agora meu barco,
tormenta e viagem – como esquece ele isso?
Desejo e esperança afogaram-se,
lisos estão alma e mar.

Sétima solidão!
Nunca senti
mais perto de mim a doce segurança,

mais quente o olhar do sol.
– Não arde ainda o gelo de meus cumes?
Prateada, leve, um peixe,
nada agora para fora a minha canoa...

(Id. Ibid., 116-121)

(Nietzsche, Friedrich. O Anticristo e Ditirambos de Dionísio. Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, Editora Schwarcz Ltda., 2007)
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