Busca 



 


Edição 159

Jesus Santos: Este mundo mágico e seus patéticos simulacros

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 22 de agosto de 2007
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
O Pe. Antonio Vieira costumava falar das mentiras que abundam no Maranhão – tanto quanto o babaçu. “No Maranhão”, dizia ele, “até o céu mente!”. Um certo exagero, talvez: a mentira, em todos os sentidos, é universal. Depois da mentira e do babaçu, vem a literatura, ou melhor, a poesia. Nas palavras do próprio vivido e sarcástico Jesus Santos, aqui, para alguém ser poeta basta mandar garganta abaixo um gole de cachaça no bar da Cabeluda ou da Faustina. Com as artes plásticas, a situação não é muito diferente. Não faltam Pollocks, Duchamps, Dalis e Picassos. A grande verdade, porém, é que, por razões que ainda precisam ser revistas e analisadas, nossos grandes mestres das artes plásticas são desconhecidos do grande público. Às vezes, até conhecemos a obra, mas desconhecemos seu autor. É o que acontece com muito da arte de Jesus Santos.

Quem, passando pela Lagoa da Jansen, em São Luís do Maranhão, nunca viu emergir da água uma serpente-dragão a querer enroscar-se nas ilhas críticas e realistas de nossos olhos e afundar em nosso mais obscuro imaginário?

Em um passeio qualquer de amanhecer ou fim de tarde, pela orla da Lagoa, quem não esbarrou em ciclistas, sensualidades, esqueitistas e marombeiros entalhados em placas de concreto, despoluindo o nosso espírito já cansado de efemérides e mesmices?

Quem, ainda, ao adentrar o Tribunal de Contas do Estado, não se deparou com um fascinante painel que nos povoa com imagens do cotidiano ludovicense, a cidade que nos embriaga as noites, os segredos, as ironias e as dores, a ponto de não podermos passar indiferentes, sem que de alguma forma ele nos seduza, chame nossa atenção para algum detalhe, alguma coisa que nos toca e ecoa silenciosamente lá dentro, em nosso espírito?

Todas são obras de Jesus Santos, artista da mesma safra de Nagy Lajos, Antonio Almeida, Ambrósio Amorim e João Lobato, e de intelectuais como Erasmo Dias, Ubiratan Teixeira e Valdelino Cécio, figuras que, com seu pensamento, sua atividade intelectual e com sua alegria boêmia, certamente ampliam a vivência do artista e deixam, de alguma forma, suas marcas, seu profano teatro.

A PINTURA

De todo o rol de trabalhos do artista, que estão sendo agora catalogados em livro pelo crítico Enock Sacramento, em volumes que incluem a pintura (O Universo Fantástico de Jesus Santos), obra já publicada e a segunda da trilogia, ainda a ser publicada, desenhos (Riscos de vida), e a última, compreendendo painéis, murais, pinturas de rua (Obras públicas), queremos apreciar aqui um pouco de sua pintura, alguns aspectos que nos chamam a atenção e dão uma idéia mínima do que seja sua produção.

Para o autor, a pintura é um trabalho como outro qualquer, quer dizer, uma produção, num mundo pragmático e capitalista, do qual ele tem que sobreviver. Portanto, para ele não existe nenhuma separação dicotômica entre uma arte autotélica e uma arte “para ser vendida”.

O artista deve viver do que faz, do que produz. Decorre daí que ele tem que se mexer e pensar num mundo mais “comercial”, sem que por isso sua arte dispense o compromisso com a estética e com a singularidade. Decorre daí, também, o fato de que o artista não pode dispensar oportunidades propostas por quem quer promover a sua arte, tais como a figura de um bom curador (responsável pela promoção de eventos de artes plásticas ou por um artista em particular).

Mas, o que nos traz a arte de Jesus Santos e o que, nela, nos encanta?

Para o artista, as classificações são uma imposição da cultura letrada, sobretudo daquela que nos é imposta pela Europa, colonizadora por natureza. Ela tem necessidade de “catalogar”, e o faz, sobretudo, por via da institucionalização, do ensino: “Isto é barroco, isto é surrealista, aquilo é expressionista, etc.” Dentro dessa proposta, se ele tem que se definir de algum modo, apresenta sua pintura como “Realismo mágico urbano”. Uma classificação que, obviamente, não expressa o todo de sua arte.

Detalhe do painel do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão

Passeio sobre a cidade

Anjos do Desterro

Por “Realismo mágico urbano” denota-se que o artista se quer inserido no contexto do povo e do imaginário da América Latina, onde nasce, sobretudo na literatura o chamado “Realismo fantástico”, cujo patrono é Gabriel García Márquez, de Cem anos de solidão, e cujo formulador mais competente é, a nosso ver, Alejo Carpentier.

No Realismo fantástico, as personagens não separam exatamente sua mais crua realidade de acontecimentos surpreendentes e inusitados, que o são apenas para nós, observadores e leitores, mas não para elas, que os encaram com a mais pura naturalidade. Nordeste brasileiro, por exemplo. No Realismo mágico, o artista insere, na realidade cotidiana e abstraída que pinta, elementos supra-reais ou supra naturais, como numa visão fenomenológica, em que o artista vê a cena como um todo e o que ela revela, sua sombra, sua sugestão ou sua verdade, que pode ser dita de diversos modos. O jogo de Jesus Santos é com o mundo ludovicense, sobretudo ambientes noturnos e boêmios, decadentes ou solitários, do quase grotesco, ou dos meandros do poder.

Essa arte é também uma mélange, uma simultaneidade, uma Unificação.
Na arte de Jesus Santos, o mundo é mágico porque as realidades se comunicam. O alto e o baixo, o sublime e o grotesco, o celestial e o ctônico. Mas ao mesmo tempo que parecem unidas, estão ensimesmadas, solitárias, um olhando para o outro, um representando para o outro. Abraços de amantes que não estão ali, senão ausentes, homens-bichos, ou caricaturas deles, mulheres-juízo-pássaro, homens-discursos, venda, “votes”, cartazes. A comunicação se dá por falseamentos, por representações e discursos, por teatralização, por máscaras.

Duas das figuras mais representativas tanto da máscara quanto da ambígua unificação dessa “simultaneidade” na obra de Jesus é o arlequim e o coringa.

O coringa é o pragmatismo, algo que já faz parte do próprio artista: por via das dúvidas, acende uma vela para todos os deuses. Formalmente pode-se dizer que isso se resolve na arte de Jesus Santos no modo como aproveita quase tudo, desde Cézanne. O Cubismo, mas também sutis traços do Impressionismo, a fugacidade em algumas obras, a luz sempre intensa, mesmo a noturna, abolindo os tons pastéis, e uma expressividade que, às vezes, lembra os traços da nossa Aurora Cursino, do Museu do Inconsciente. Há o coringa do poder, os que nos dizem: “vote”, depois trocam de máscara. Há o coringa joguete, o laranja e o coringa jogador, que quer se unir, mas para ganhar de todos. O coringa é também o bobo da corte, às vezes bufão, mas às vezes também de humor sarcástico, que pode dizer tudo, carnavalizar, sem que possa ser punido. Ele pode ir a todos os lugares, ele é a caricatura do povo, sua máscara, no palácio real. Mas é interessante também percebermos que o nariz do coringa, tão presente em quase todos os quadros, e tão significativo no “Dona Sinhá e seus convidados”, é também um nariz que aponta para baixo, é triste, depressivo, e só se ergue quando vira pássaro, bico, nariz de sonhos, sonhador (veja quadro Passeio sobre a Cidade).

O arlequim pode ter inflexões no cubismo de Picasso, mas vem, realmente, da commedia dell’arte – mais uma vez, uma referência ao teatro. O personagem divertia um público, mas também ridicularizava os costumes, manias e extravagâncias da sociedade burguesa da época. Trajava geralmente uma roupa feita com pedaços de panos triangulares, e também usava máscaras. Encarnava papéis: gaiato, bufão malicioso, indivíduo matreiro e pateta, leviano. Talvez não haja personagem mais adequado para encarnar a arte irônica, carnavalizante e teatral de Jesus Santos: arlequim xadrez, arlequim-nariz, arlequim, mesmo nas pipas e brincadeiras das crianças. Arlequim é ao mesmo tempo a fusão e a confusão, o projeto, o querer ser e o não, a possibilidade, tabuleiro ontológico onde todos dançam, todos se vêem e todos riem, às vezes tristemente, de si mesmos.

De resto, essa pintura nos apresenta o simulacro. Simulacro de outras pinturas, simulacros do vermelho e do azul, no alquímico e tranqüilo violáceo. O amarelo intenso que se torna laranja, fogo, e depois salta para a noite. O mundo tem ressonâncias, o mundo é metáfora de si mesmo, a terra almejando o céu, e todo o universo desembocando na ampulheta do tempo. Esta ampulheta torna-se, por vezes, uma lente, de onde o artista também olha como espectador, o universo artístico e o avalia, e o reaproveita. Assim, ele pode englobar um todo como por efeito de um zoom condensado. Significativa, neste sentido, é o pensamento do artista sobre a fotografia. “Quem salvou a pintura do século XX foi a fotografia”, diz ele. A fotografia evidenciou o que é a arte, quem é o artista e quais os seus meios. Nestes simulacros todos, a arte agora pode aparecer também como simulacro de si mesma, representando para nós as máscaras de nosso discurso. É dessa linguagem que se aproveita o mestre para nos re-velar em nossa ridícula e trágica condição espacial, social e demasiadamente humana.

(ailtonpoiesis@gmail.com)

ILUSTRAÇÕES DA PÁGINA 3: 7. Detalhe do painel do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão, p.57; 8. Passeio sobre a cidade, p.63; 9. Nossa Senhora de Nova York, p.89

(SACRAMENTO, Enock. O universo fantástico de Jesus Santos. São Paulo: Ed. do Autor, 2005)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br