Artista maranhense expõe suas obras em circuito internacional

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22 de agosto de 2007

Na foto, o artista plástico Jesus Santos com o jornalista Manoel Santos Neto, o editor Alberico Carneiro e o poeta Antonio Aílton

Depois da chance de expor seus trabalhos na Colômbia, Bolívia e Peru, o artista plástico Jesus Santos prepara-se para uma nova etapa de seu projeto mais arrojado. Ele agora pretende percorrer o México, Portugal e Estados Unidos. A idéia é materializar mais uma escala da exposição que acompanha a divulgação internacional do livro intitulado O Universo Fantástico de Jesus Santos, escrito em 2005 por Enock Sacramento, membro da Associação Internacional de Críticos de Arte. Com obras que retratam o cotidiano urbano, o artista maranhense concentra esforços para que dê tudo certo em mais uma peregrinação pelo exterior.

A convite da Embaixada Brasileira, ele inaugurou a exposição no Instituto Brasil-Colômbia, em Bogotá, como parte de um projeto que tem apoio institucional do Ministério da Cultura do governo brasileiro por meio da Lei Rouanet. A Colômbia foi escolhida para ser o primeiro país a receber a exposição por um motivo muito simples: Jesus Santos tem uma espécie de devoção pelo escritor Gabriel García Márquez, um dos fundadores da escola literária de realismo fantástico, vertente que ganhou força nos países da América Latina, na segunda metade do século XX. Entusiasta do realismo fantástico nas artes plásticas, Jesus Santos rendeu homenagens a García Márquez, em Bogotá.

A exposição reúne 15 telas, grande parte mostrada no livro de Enock Sacramento. É o caso de A Rumbeira Lady Pavão, A Vendedora de Pássaros, Fantasias do Poder, Crooner e Sobrevôo. Nas telas, Jesus Santos utiliza elementos e cenas do cotidiano, sobretudo urbano e popular, retratadas a partir de um contexto fantástico e onírico, característicos da obra do artista. As imagens são reproduzidas em cores quentes e em planos aleatórios que incluem casas, composições geométricas, homens e circos voadores.

Em sua residência, no bairro do Filipinho, onde mora ao lado da esposa e das filhas, Jesus Santos capricha em suas obras. Mas confessa que tudo é feito à custa de um grande sacrifício. “Não acredito em inspiração. Não acredito em transpiração, porque sou preguiçoso”, afirma o artista, para quem o trabalho é uma espécie de uma maldição. “Se eu pudesse, eu não trabalharia nunca; não pintaria um quadro”.

Vencendo o ócio, o artista plástico percorreu uma longa trajetória, até ter seu trabalho reconhecido.

Na Universidade de São Paulo, graduou-se em Comunicação Social. No Rio de Janeiro, freqüentou cursos de arte na Escola de Artes Visuais do Parque Laje, como integrante da chamada Geração 80. Retornou definitivamente a São Luís onde, simultaneamente ao seu trabalho de pintor, realiza intensa atividade cultural. 

Pintor, gravurista, ilustrador e autor de várias obras públicas, Jesus Santos conta que fez sua primeira exposição no Salão Nobre da Academia Maranhense de Letras. Ele fala com orgulho que teve a oportunidade de aprimorar seus conhecimentos sobre artes com Antônio Almeida, Newton Pavão e Maia Ramos.

Ex-diretor do Cenarte, órgão da antiga Fundação Cultural do Maranhão, atual Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Jesus Santos possui um talento e experiência de vida admiráveis.

Ele realizou diversas exposições individuais e participou de exposições coletivas no Brasil e no exterior, entre as quais o 1º Salão do Nordeste da 2ª Bienal da Bahia, em 1971; o Salão Brasileiro de Arte Fantástica, em 1979; e a exposição Três Artistas do Maranhão, em Nova Iorque, EUA, em 2003, apresentada, também, em Brasília e São Paulo. 

Uma obra para a posteridade

Dono de um vasto currículo nas artes plásticas, Jesus Santos confessa que sonhava deixar sua obra registrada para a posteridade. Agora ele se ufana de ter conseguido esta façanha com o livro O Universo Fantástico de Jesus Santos, obra de caráter biográfico. “Com este trabalho, percebo que fiz algo positivo na vida”, afirma o artista. O livro, editado em três idiomas (português, inglês e espanhol), é o primeiro tomo de uma coleção que deverá ter três volumes. Depois, ele pretende lançar Riscos de Vida, só com os desenhos de sua autoria, além de um outro livro sobre painéis de interiores (enfocando o painel do Tribunal de Contas do Estado) e um de arte pública (com obras como a serpente da Lagoa da Jansen).

O livro O Universo Fantástico de Jesus Santos conta em 120 páginas a cronologia do artista. Também relata as suas convicções, analisando alguns de seus principais trabalhos. Ao todo, 160 imagens compõem o livro. A história da cidade de São Luís do Maranhão, desde a sua fundação, também é abordada no texto de Sacramento, auxiliando o leitor a compreender o universo fantástico de Jesus Santos.

Editado no ano de 2005, por meio da Lei Rouanet, com o patrocínio da Eletrobrás, a obra foi empreendida por Fernanda Mil-Homens Costa, empresária, marchand, com extensa atuação na área de mar-keting, há quase uma década dedicando-se integralmente a projetos culturais de artes plásticas.

Tanto o projeto da exposição quanto o de lançamentos do livro foi organizado por Fernanda Mil-Homens Costa, que, antes da exposição individual do artista, também organizou a exposição Três Artistas do Maranhão, em 2002, que reuniu as obras de Jesus Santos, Cordeiro do Maranhão e Dila. “A pintura de Jesus Santos é algo que me faz rir, chorar, emociona. É uma obra crítica do lugar e, ao mesmo tempo, cheia de cores, as cores que me fazem lembrar a cidade de São Luís do Maranhão, onde tive a oportunidade de morar durante oito preciosos anos de minha vida”, afirma Fernanda Mil-Homens Costa.

O livro contém a cronologia de atividades do artista, desde o seu nascimento, e também relata suas convicções, analisando alguns de seus principais trabalhos. As 160 imagens mostram obras e retratos, um “legítimo documento da arte praticada no Nordeste brasileiro”, conforme palavras do próprio artista.

“A obra de Jesus Santos está inserida na vertente do realismo mágico ou fantástico, que sempre existiu na arte e, principalmente, na literatura mundial, mas que adquiriu na América Latina, na segunda metade do século XX, uma dimensão nunca antes conhecida. Ao contrário do maravilhoso, que se refere a criações completamente dissociadas da realidade, o realismo fantástico se alimenta dela. A obra plástica de Jesus Santos tem na cidade de São Luís, em suas lendas e mitos, seu ponto de partida. Embora referenciada na realidade, ela avança para um terreno que subverte e dissolve o tempo, o espaço, a paisagem e seus personagens”, escreve Sacramento.

Retratando e analisando sua obra, Jesus Santos faz no livro uma dedicatória especial ao ex-prefeito Haroldo Tavares, “pela Cidade Viável”. Ele explica que Haroldo Tavares foi um homem visionário, que liderou uma equipe que tinha a missão de enxergar a nova São Luís, para além dos casarões coloniais, dos mirantes, das sacadas de ferro e dos portais de cantaria, com suas ladeiras e calçadas de pedra.

“Na época, nós sonhávamos com uma galeria a céu aberto”, recorda o artista. Não é à toa que a primeira obra pública de Jesus Santos é uma escultura em ferro, com pouco mais de cinco metros de altura, realizada em 1969, e que se encontra em São Luís justamente no Parque do Bom Menino.

De acordo com levantamento feito por Enock Sacramento, Jesus Santos é o artista maranhense que possui o maior número de obras públicas e semipúblicas na capital maranhense.

Aliás, para quem não sabe, foi Jesus Santos quem liderou o movimento que culminou com a aprovação da Lei Municipal nº 3.203, de 31 de março de 1992, que estabelece a obrigatoriedade de colocação de obras de arte em empreendimentos de urbanização, edificação e complementos urbanos em São Luís, de autoria da vereadora Simone Macieira.

Às voltas com a agenda de contatos para sua próxima viagem ao exterior, o artista revela que pretende fazer alguns murais sobre o tambor de crioula, recentemente consagrado como um patrimônio imaterial do Brasil.

Maranhense de São Luís, nascido em 19 de janeiro de 1950, José de Jesus Santos é também jornalista, formado pela ECA-USP, e já atuou como articulista em diversos jornais e periódicos. Como ilustrador, é autor de capas e ilustrações de vários livros editados no Maranhão.

Considerado um dos mais importantes artistas plásticos do Nordeste, as pinturas e as obras públicas do maranhense são tidas como grandes expoentes do realismo fantástico brasileiro. “A minha pintura é uma grande brincadeira”, afirma o artista. Para ele, quem salvou a pintura do século XX foi a fotografia. Porque, sem ela, não haveria espaço para a arte abstrata.

Mesmo dizendo que sua religião é o ócio, Jesus Santos trabalha muito. “Tenho de trabalhar para sobreviver porque, de outra forma, só roubando, mas, graças a Deus, não sou político”.

Simples, mas ousado, Jesus Santos é o artista da província que adora sua cidade: “São Luís é um lugar de absoluta possibilidade cultural”, mas se dá ao luxo de se insinuar para uma projeção internacional.

ILUSTRAÇÕES DA PÁGINA 2: 1. Turistas, p.37; 2. O Discurso, p.38; 3. Donha Sinhá e Seus Convidados, p.45; 4. A Cartomante, p.67; 5. O Discurso, p.39; 6. Recordação, p.70

(SACRAMENTO, Enock. O universo fantástico de Jesus Santos. São Paulo: Ed. do Autor, 2005)

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