Data de Publicação: 5 de dezembro de 2007
Thiago de Mello
Era a noite de 19 de outubro de 2007, na Praça Maria Aragão, e lá o poeta Thiago de Mello, de 81 anos, fez a abertura do Salão do Escritor, dando início à I Feira do Livro de São Luís. Sob aplausos, o consagrado escritor amazonense proferiu uma palestra sobre A Resistência da Floresta Amazônica e a Reserva Biológica do Gurupi.
Conhecido internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz mundial, o palestrante prestou uma generosa homenagem a cinco autores da literatura maranhense: Gonçalves Dias, Sousândrade, Ferreira Gullar, Nauro Machado e Luís Augusto Cassas.
Há mais de 15 anos sem vir ao Maranhão, Thiago de Mello agradeceu emocionado a lembrança para ser um dos convidados especiais da I Feira do Livro de São Luís. Sua palestra, na Maria Aragão, acabou se transformando num animado bate-papo sobre sua vida e seus livros. O poeta, com a simplicidade que o caracteriza, declarou que não se considera um grande escritor. “Eu acho que sou um poeta querido”, salientou, reafirmando sua esperança de que o mundo vai melhorar e de que a vida vale a pena.
Dono de uma obra marcada por uma grande inquietação social, Thiago de Mello explicou que teve de adiar seu comparecimento a um encontro internacional de escritores, no México, para vir a São Luís. “Este evento é fenomenal, porque é a primeira Feira de Livros desta cidade, que nasce com o propósito de plantar na consciência do povo a importância da leitura. E estimular a leitura é um dever de todos, como o de saciar a fome de quem precisa de pão e água”, declarou o poeta.
Grande humanista, ele não consegue esconder suas preocupações com a falta de solidariedade e ternura humana, e se mostra cada vez mais alarmado com as tragédias ambientais que ameaçam o Planeta.
Pregando a construção de uma sociedade humana e solidária, Thiago de Mello confirma sua fidelidade a três causas que abraçou ao longo da vida: a luta contra as desigualdades sociais, a luta em favor da integração cultural da América Latina e a defesa da floresta amazônica. “Não podemos abrir mão de preservar o maior manancial de vida que tem o planeta, que é a floresta amazônica”, ressaltou.

O poeta Thiago de Mello, no Auditório Josué Montello, durante conferência
Um intelectual engajado com a vida – “Venho armado de amor para trabalhar cantando na construção do amanhã...”. Declamando estes versos, Thiago de Mello iniciou sua palestra na Feira do Livro, realizada no Auditório Josué Montello. Ele atrasou sua ida à maior feira internacional do livro da América Latina, no México, para comparecer a São Luís. “Não venho somente porque a feira está sendo realizada em São Luís, uma cidade com uma ligação muito forte com a literatura, mas porque esta é a primeira feira de São Luís”, explicou o escritor.
Num auditório lotado, com escritores, estudantes secundaristas, universitários, crianças e a comunidade em geral, Thiago de Mello falou sobre sua carreira e o trabalho com a poesia. “A poesia precisa estar em todos, precisa ter esta forte ligação com o público, e por isso estou aqui”, disse ele.
Poeta e escritor, Thiago de Mello é dono da célebre frase: “Não tenho um caminho novo. O que eu tenho é um jeito novo de caminhar”. Ele já escreveu mais de 30 livros, a maioria de poemas. Com a experiência de quem esteve no Chile, posto num muro para ser fuzilado, o poeta conta que foi perseguido durante a ditadura militar iniciada no Brasil em 1964, foi para o exílio e passou a cultivar uma poesia que resgata uma postura positiva em relação à vida, com um lirismo de descrição emocionante.
“Sinto uma enorme alegria e, ao mesmo tempo, uma enorme agonia, porque eu gostaria de poder conversar com cada pessoa que vem ao meu encontro na busca do meu autógrafo”, declarou o poeta Thiago de Melo ao ser questionado sobre o que sentia no momento em que autografava seus livros. A alegria e agonia fazem parte de seus poemas. E versa que deseja “dar sonho sonoro à humana argila e transformar estrelas em palavras: mistura de alegria e de agonia”.
Sempre vestido de branco, Thiago de Mello se considera um verdadeiro caboclo da Amazônia, com seu semblante de índio e fala mansa e pausada. Autor de diversos livros de poemas sobre a Amazônia e o meio ambiente, entre suas obras mais conhecidas está Os Estatutos do Homem, obra onde decreta que “todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo”.
Embora se mostre arredio a entrevistas formalizadas, Thiago de Mello adora conversar e falar da vida – essa, a sua grande fonte de inspiração. Talvez, por isso, ele “mude sempre o seu jeito de caminhar”.
Pessoas como Thiago de Mello, detentoras de grande vivência, visão de mundo, vários livros editados, de personalidade sensível e inteligência rápida – por terem deixado um legado à humanidade e terem dito quase tudo em seus escritos – por vezes, não têm muita paciência com indagações óbvias.
Suas respostas transcendem a esses questionamentos, porque elas se referem à vida, no amplo sentido da existência humana. Por isso, Thiago de Mello discorre sobre o que pensa da vida e da morte num fluir poético – típico dos grandes mestres. “Como nunca morri, não sei da morte. Da vida sei e tanto sei, que faço com este verso uma declaração de amor, talvez de queixa: ela é que vem de mim se despedindo devagar, fatigada de mim, enquanto agarro, com as garras de todos os sentidos, o que ela ainda me dá, sempre encantada”.
Não por acaso escreveu o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony sobre o amigo Thiago de Mello: “Penetrando no átrio sóbrio dos 81 anos, Thiago de Mello tem as retinas fatigadas de tudo o que viu nas sete portas do mundo. Apesar disso, como ser humano que herdou o caudal dos grandes rios que regaram seu berço – ele continua o poeta da manhã e do canto. Comprometido com a sua terra e com a sua gente, ele assume a expressão de um poeta verdadeiramente universal”. De Ribeirinha para o mundo, e do mundo para Ribeirinha (no Amazonas), eis por que Thiago de Mello é um cidadão do mundo.
Ele, que já autografou em mais de 20 países, enquanto dava autógrafos em São Luís, disse que em certa ocasião, na Alemanha, teve que interromper uma das noites de autógrafos de seu livro Amazonas – Pátria Amada, porque teve um problema de articulação nas mãos, decorrência da quantidade de autógrafos que já concedeu em sua trajetória de vida poética.
Perguntado se o poeta deve ser engajado ideologicamente, ele disse que o poeta tem que ser, antes de mais nada, comprometido com a vida. “Tanto o poeta quanto a poesia nascem da vida”, enfatizou.
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