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Edição 166

Dias Miranda: luz de uma Feira que homenageia Josué Montello

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Data de Publicação: 5 de dezembro de 2007
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Promessa de novos dias

Dias Miranda (Adílson Sousa Miranda) foi uma das consideráveis revelações da I Feira de Livros de São Luís – FELIS. Comete uma ousadia – para alguém que nos parece, ao menos à primeira vista, introvertido, recatado –, e lança um romance numa Feira de Livros que homenageia Josué Montello, o maior romancista maranhense do século XX, talvez o maior até hoje. Esse ato é simbólico: com a morte recente do autor de Os Tambores de São Luís, há sempre uma expectativa, a pergunta no ar: “e aí?”, “e então?”, “quem vem lá?”.

O romance chama-se Terra Viva, tem capa de Carlos Baima e Isabela Paixão, texto de contracapa da paulista Eliana Martins, e texto de orelha da professora, acadêmica e poeta Sônia Almeida, a qual sintetiza o romance da seguinte forma: “Tudo isso é mais que um romance. É arte. É mais que Santa Helena – espaço da história romanesca –, é o Maranhão. É mais do que o personagem Macabéu. É a linguagem daqui, somos nós”. Segundo o autor, Terra Viva já foi cooptado pela Editora ILELIS, de São Paulo, para publicação com seu selo, em 2008.

Não é seu primeiro trabalho. Ele começou com o livreto de poemas Estrela Errante (2003), com pequena crítica de Nauro Machado e apresentação de Ramiro Azevedo. Também já teve incursões premiadas pelos festivais de poesia do Uniceuma e do CEFET. Diz-nos que seu primeiro romance chamou-se Noite Colorida, e depois escreveu um mais consistente, mais forte: Os Estranhos, na linha intimista da ficção psicológica clariceana, que é a vertente à qual é mais inclinado, e na qual se sente mais à vontade. Escreveu também Outro rosto no espelho, recusado pela ILELIS, que pediu ao escritor reescrever o romance, ao que ele se negou: “odeio reescrever”, diz ele.

O romancista Dias Miranda com o poeta Nauro Machado

O romancista Dias Miranda com o escritor Inácio de Loyola Brandão

Mas seu grande xodó atual é mesmo o teatro. Aliás, é mais que um xodó: “Só me realizo no teatro... No teatro eu extravaso, ele me parece de uma humanidade mais próxima, mais intensa”, afirma. Na linha do monólogo intimista, feminino, já escreveu Pura solidão e A mulher distante, este dirigido por Urias Oliveira. Agora assina A Grande Noite, com produção de Dália Dominici e direção de Denilton Neves, de Uma Linda Mulher, previsto também para estrear em 2008, em São Paulo.

TERRA VIVA

Terra Viva é um romance despretensioso, porém pungente. Nas palavras de Eliana Martins, “lancinante”, porque trágico. Pintado com cores expressionistas, pertence à linha regionalista, a lembrar os bons romances nordestinos do neo-realismo de 1930. Nada de experimental na forma de contar, especificamente na linguagem estética, ou de uma reviravolta temática, portanto, o que, aliás, não é o que conta para que um romance seja bom ou que seja amado pelo leitor, pois se sabe que o leitor busca mesmo é uma história tocante contada em linguagem simples, compreensível e enxuta, o que nosso romancista consegue com êxito e consistência.

Conta-se a história do brutalizado Macabéu e sua família às voltas com uma natureza que só por pouco tempo mostra-se dadivosa, mas, na maior parte do tempo, mirrada, inóspita, cruel: é a seca avassaladora e também cíclica. Mas os maiores problemas não vêm daí, vem do entorno de uma sociedade dividida, segmentada em quem tem, e quem não tem, permeada de vícios e corrupções. O lugar é Santa Helena do Maranhão, mas poderia ser qualquer um do tão dramático Nordeste brasileiro.

As figuras dos coronéis, presentes no livro, sobretudo do coronel Murilo Brasil, é a imagem das famílias abastadas do naturalismo de Zola, ou mesmo de Aluísio Azevedo, gordos, fartos, porcos, inversamente proporcionais à gente que apenas se sustenta em pé, com o desejo de continuar vivendo, gente que morre desamparada, abandonada, largada aos vermes e à desgraça pelo poder público, mas quer continuar lutando pelo fôlego da afirmação vital. Neste sentido, Macabéu não se entrega, não abandona seu lugar, sua terra, como tantos outros, moradores que findam por desistir. Dias Miranda apreendeu bem a lição de Graciliano: o problema sai do terreno do Fado ou da Natureza, para tornar-se um problema social, um problema político.

Dramas pessoais e sociais atravessam o livro, arrastados por personagens fortes e emblemáticos. Raquel, mulher de Macabéu, sofrendo o problema da incomunicabilidade com o marido, dos sonhos reprimidos, mortes e perdas de seus filhos; Janaína, a filha de treze anos, do casal, sendo brutalmente estuprada e engravidada pelo maquiavélico coronel Murilo Brasil, arrastada pelo tosco pai pelas ruas de Santa Helena, e jogada no cabaré de Madame Lorena; e o negro Ezequiel sendo acusado da gravidez da menina; a velha negra Germana, quase duplo da personagem Bertoleza de O Cortiço, cuja filha tem o mesmo destino de Janaína, mas a negra senhora, drástica e já indiferentemente à vida, continua morando na casa do Coronel; Dona Helena, esposa do coronel Afrânio, sofrendo a partida da filhinha louca para um hospício em São Luís; um estranho músico que sofre em suas árias até suicidar-se; uma pequenina sem voz que, também, sem amor ou atenção de seus pais, ou de quem quer que seja, apenas arrasta sua bruxinha de pano pelos terreiros e espanta os urubus que espreitam sua morte.

O autor nos mostra a única possibilidade de amenizar todo esse rosário de infortúnios, já apontada por Camus, no romance A peste: aqui, a solução vem da união, da boa vizinhança e da solidariedade, cuja representação máxima é a bondosa D. Maria, dividindo seu tempo e seu pouco quinhão .

Um dos personagens mais significativos do livro é Léo, com cores femininas, mas de uma personalidade fortíssima, indiferente e debochada, desde moleque, e que enfrenta não somente a boa moral de sua mãe, D. Helena, ou o machismo rústico do pai, coronel Afrânio, mas também se torna senhor do próprio destino, ao planejar e realizar a conquista de seu parceiro, transformá-lo, e conseguir com que fuja consigo para São Luís. É significativo que seja o único final realizadamente romântico, com direito a final feliz, no livro, típico mesmo de um conto de fadas: “Terei toda a discrição do mundo, não quero perdê-lo nunca.” – diz Léo para Helinho. – “E partiram.”

Sem dúvida alguma, Terra Viva é uma denúncia, talvez mais uma dentre tantas que já foram feitas, que chama a atenção para essa gente esfiapada e abandonada numa condição que parece crônica, porque sempre protelada, sempre maquiada, macaqueada. Desde quanto? Até quando? É um romance que permanece em nossa mente e nos inquieta. Com sua quase volta no tempo, ele reacende uma questão: é retrógrado falar de coronelismo? Esse glutão lascivo, chamado Murilo Brasil, já foi varrido do mapa? Teria mudado de lugar? E o prefeito, conivente com o canalha, populista, e que sabe apenas prezar o valor de sua boa imagem, já não existe? Está extinto? Essas populações lançadas na miséria, que já não sabem, muitas vezes, nem expressar toda a dimensão de sua dor, “vozes capturadas”, mudaram de vida, ganharam na loteria?

Essas são as razões que fundamentam e validam o belo romance de Dias Miranda, num tempo em que a prosa brasileira toma outros rumos e se volta, sobretudo, para a problemática que envolve o homem e o espaço urbanos.

Há outras perguntas, nesse sentido, que são feitas pelo grande Alfredo Bosi, em seu História Concisa da Literatura Brasileira (1994, Cultrix, p. 437, 438), e que, embora indiretamente, lançam luz sobre o romance em questão, e ficções afins: “Regionalismo ainda? Pergunta que provoca outras ainda mais pertinentes: teriam, acaso, sumido para sempre as práticas simbólicas de comunidades inteiras que viveram ou vivem no sertão nordestino, só porque uma parte da região entrou no ritmo da indústria e do capitalismo internacional? É lícito subtrair ao escritor que nasceu e cresceu em um engenho sergipano o direito de recriar o imaginário de sua infância e de seus antepassados, pelo simples fato de ele ser professor ou de digitar seus textos em computador? [...] O que conta e deve sobreviver na memória seletiva da história literária é o pathos feito imagem e macerado pela consciência crítica.”

Evidentemente, como o próprio autor de certa forma reconhece, não é um romance que se arvore como uma obra-prima. Há qualquer coisa de dejà-vu, no livro. Ora traços e descrições naturalistas, com seu ar quase caricatural; ora qualquer coisa da transposição de uma situação caracteristicamente sertaneja, de caatinga, para uma região como a baixada maranhense; ora personagens que lembram outros, ou simplesmente um “feixe” de traços e estereótipos, de muitos outros; há um coronel com uma filha maluca, que grita à noite, a lembrar o Coronel Lula de Fogo Morto – claro, o que reforça a figura dessa menina, enquanto personagem, é que sua mãe se chama Helena, mesmo nome da santa que nomeia a cidade, e que, portanto, podemos abstraí-la para o nível da metáfora e da sugestão. Há personagens que o autor não sabe bem por que ele está ali, como é o caso do músico, mas que nós sabemos muito bem que função foi atribuída a ele: dar atmosfera e acompanhar os movimentos naturais de andamento do livro, música forte em momentos fortes, melancolia em noites de luar, tristeza em noites de chuva, e a quem o autor lança de uma janela para não pagar o cachê.

O autor capta muitos recados do cinema comercial e da própria natureza da narrativa, hoje, tendendo ao pastiche, e talvez até por isso subtitula seu romance como romance em narrativa melodramática, o que pode não justificar, contudo, a nosso ver, um problema de construção de personagem, já que essa “narrativa melodramática” é uma preparação do leitor para o patético (de pathos, sofrimento) romanesco, como é bem o caso. Podemos, é claro, por uma leitura especulativa não completamente passível de esclarecimento aqui, e que perpassa por complicados conceitos que vão do mito à psicanálise, pensar nesse músico [...] “jovem de mais ou menos vinte e dois anos, tinha os cabelos lisos e claros, uma pele bem limpa e cuidada”[...], p. 183, do romance, como um “outro”, um “duplo” de Léo, a sua neurose, o que cai na irrealização, deixando como lembrança apenas sua dor, em forma de música.

Levantam-se, também, questões em relação ao narrador (heterodiegético, onisciente): ora ele está no nível lingüístico de seus personagens, ora não está. Há sempre a questão de que o narrador tem liberdade para assumir o ponto de vista do personagem, mas a linha entre o acerto e o erro, nesse particular, é muito tênue e, às vezes, não podemos justificar certos cometimentos sob a desculpa do “melodramático”.

O que vale, contudo, é que um autor como Dias Miranda sabe construir uma história de maneira harmoniosa, com densidade, e que nos conduz, que nos convida para voltar a ler, para não largar o livro, querer saber o final – que ele diz também desconhecer até chegar a ele. O que vale é esse senso crítico e esse poder de, em detalhes, conotar a psiquê de um personagem, algo íntimo e sutil que só os bons escritores sabem captar e construir. Talvez seu pendor para o teatro o leve noutra direção, mas torcemos para que ele não abandone o seu lado romancista, em que já se mostra tão maduro.

Esperamos, em breve, ter novamente em mãos uma outra obra, ainda maior. Que ele, como demiurgo, também continue tendo piedade do povo, fazendo o povo pensar.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br