Data de Publicação: 5 de dezembro de 2007
Foi no coração da floresta amazônica que Amadeu Thiago de Mello nasceu, em Barreirinha, uma pequena cidade do Amazonas, no ano de 1926. Passou a maior parte de sua infância e juventude em Manaus. Ainda no início da juventude, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade de Medicina.

De espírito inquietante, sempre na busca ávida pelas questões da vida, dividido entre a arte poética e a ciência médica, tomou um ato de coragem, principalmente naquela época. Fez opção pela poesia, abandonando o curso de Medicina no quarto ano. Estreou na literatura brasileira em 1951, com o livro de poemas Silêncio e Palavra e foi rapidamente reconhecido.
Preferiu seguir seu dom e versa sobre ele: “Da poesia não poderei, jamais, me separar: ela nasceu comigo, aconchegada no meu ser: um dom. É todo o azul que tenho, é quem me dá a explicação para o que não se explica – como esta minha precisão de nuvens; e a dor do exíguo vôo do homem. Centro da gravidade do que sou: és, poesia, meu pão de cada dia”.
A vida e a obra de Thiago de Mello entrelaçam-se, formando um todo orgânico. Seus livros registram a coerência de um existir voltado somente para a literatura, fazendo da palavra escrita a arma que defende a vida, a igualdade e a liberdade. Sem receios de assumir suas utopias ideológicas, ele disse que consagra a sua vida embasada em três causas: a primeira é a preservação da floresta amazônica, “não por ser o lugar onde eu nasci, mas pela biodiversidade que ela fornece ao planeta Terra”, diz.
A segunda é pela integração cultural da América Latina, sem a qual não haverá integração econômica. A terceira causa, tão utópica quanto as duas primeiras, segundo ele, é lutar por um mundo onde poderá ser possível a construção de uma sociedade humana e solidária. “Eu fiz a opção pela utopia, o George W. Bush fez pelo Apocalipse”, afirmou com tom irreverente em relação ao presidente dos Estados Unidos. Nenhuma de suas reflexões passam em branco. E versa: “Lúcido escrevo, de uma vez por todas, que confio no amor e na utopia. Os cínicos que prefiram enganar a favor do apocalipse”.
O poeta fez da defesa da vida e da liberdade o motivo maior dos seus versos. Por isso, foi perseguido pela ditadura militar que se implantou no Brasil a partir de 1964, vivendo um longo período no Chile. Nessa época, apesar da diferença de idade, ficou amigo de Pablo Neruda e em seu livro Faz Escuro mas eu Canto, Thiago de Mello faz uma dedicatória carinhosa ao escritor chileno: “Para Pablo Neruda – meu amigo Paulinho – voz cristalina e ardente, que se ergue cantando, cada amanhecer, pela libertação de nossa América”.
No mesmo livro, Neruda escreve o prefácio Desde que Thiago llegó a Chile, numa homenagem prestada a Thiago de Mello pelos intelectuais, artistas e amigos chilenos por ocasião do afastamento do poeta de seu posto de adido cultural do Brasil no Chile. “A vida me deu a dádiva de compartilhar da intimidade e inteligência de Neruda”, contou Thiago emocionado em seu bate-papo com a platéia que lotou o auditório, na Praça Maria Aragão, em São Luís.
Aos 81 anos, Thiago de Mello é o nome de maior expressão do Amazonas na literatura universal, e diz que se sente constrangido quando recebe homenagens ou condecorações, porque sempre há um certo exagero, segundo ele. “O maior prêmio de um escritor é a estima, o apreço e a admiração de seus leitores”, disse. O poeta, que possui mais de trinta livros publicados e que já vendeu mais de um milhão de exemplares em vários idiomas, considera que a amizade desfrutada com os gigantes da poesia universal, como Manoel Bandeira, Pablo Neruda e Carlos Drummond de Andrade, teve enorme relevância para o seu aprendizado.
Ao longo da vida, Thiago descobriu o principal dom do coração: a amizade. Na obra De uma Vez por Todas, faz desfilar pelo texto o nome de amigos vivos e mortos, apontando-lhes o detalhe marcante da personalidade. Ele fez da sua terra natal, Barreirinha, a inspiração maior para viver e escrever. No poema Canção para Lúcio Costa, presente na obra De uma Vez por Todas, o poeta homenageia o arquiteto que desenhou a casa de Barreirinha e da qual ele próprio, poeta, foi o mestre de obras do princípio ao fim. Ao erguer a cumeeira da casa, o poeta chorou: era o orgulho de se sentir realizado, capaz de construir o próprio ninho.
No poema Canto do meu canto, da obra De uma Vez por Todas, Thiago de Mello faz uma espécie de profissão de fé: dedicou todas as suas forças para amenizar o sofrimento do homem. Ele assegura que seu compromisso nunca foi com a literatura, mas com a vida.
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