Data de Publicação: 20 de dezembro de 2007
Telenia HillTomando Aluísio de Azevedo como modelo, e convivendo diariamente com a Bíblia protestante de seu pai, Josué Montello estiliza a obra que produz com limpidez e harmonia. Para sua experiência de escritor valeu muito esse livro sagrado. Refletindo sempre em seus textos a reação pessoal diante da vida e do mundo, Josué transfigura anseios e angústias, com um dimensionamento artístico. Sua obra é, pois, um caminho de aprofundamento para melhor apreender o humano.
Recebendo influência de Machado de Assis na estruturação da narrativa, e de estrangeiros, como Stendhal, Eça de Queiroz, Dostoievski, Tolstoi, Perez Galdós e Pio Baroja, Josué direciona seu processo narrativo, incorporando aspectos da técnica moderna aos da do romance tradicional. Não prescinde, ainda, de um Proust, Joyce, ou Faulkner, ou mesmo da contribuição de outras artes, como o cinema e as artes plásticas. O flash-back é um recurso constante no desempenho de seu processo romanesco, que também se vale do fazer da representação teatral, como o romancista declara em entrevista.
Não se diz um escritor provinciano, mas provincial. Faulkner criou uma província (Jefferson) para dentro dela construir seu universo romanesco. Tolstoi aconselha pintar sua província para ser universal. Josué traz consigo a província nativa, o Maranhão, para dentro dela colocar o universo, na complexidade da condição humana.
Autor de cerca de 160 títulos, Josué Montello publicou romances, novelas, peças de teatro, crônicas, literatura infantil e juvenil, ensaios, história, discursos, história literária, obras sobre educação e biblioteconomia, memórias, inúmeros prefácios, e ainda edições especiais para cegos. Dedicou-se com mais intensidade à produção romanesca, que inaugura com Janelas fechadas, em 1941, romance da vida de arrabalde de São Luís. Completamente modificado para figurar nas Obras completas, Josué imprime-lhe a feição de um autor perfeitamente amadurecido, consciente de sua técnica. Dando seqüência à saga maranhense, ele focaliza o temor da morte em A luz da estrela morta, de 1948, e as ambições de ricos e pobres em O labirinto de espelhos, de 1952. O horizonte se desloca, e surge um romance de regresso, de volta refletida pelo próprio autor, em A décima noite, de 1959. Prossegue-se o caminho, e Josué Montello declara em entrevista que Degraus do Paraíso (1965) terá sido o romance em que quis transmitir a maior carga de sentimentos pessoais. É este o romance de sua angústia religiosa. Toma posição contra o fanatismo ao qual se opôs desde cedo. Como ainda confessa, é este o romance do pastor protestante que ele deveria ter sido. Cais da Sagração, de 1971, retrata o lar maranhense e se segue de Os tambores de São Luís, de 1975, observação histórico-sociológica romanceada da mais ampla experiência existencial, primeiro romance da escravidão na experiência sofrida de um professor negro, principal personagem.
Dona Ivone Montello, escritora e professora Telenia Hill e Joseane Souza, diretora da Casa de Cultura Josué Montello
Alberico Carneiro, Lenka Montello, Josilda Bogéa, Dona Ivone Montello e Joseane SouzaA decadência da aristocracia maranhense se apresenta em Noite sobre Alcântara, de 1978, ambientado na cidade antiga que se posta em frente a São Luís, facilitando, portanto, a contemplação. Segue-se A coroa de areia, de 1979, em que se intensifica a dimensão política. Para Josué Montello, todo escritor só tem duas atitudes: a da testemunha, ou a da denúncia. O escritor é a testemunha que está com a palavra, e a palavra, no seu caso, é a que dura, porque é a palavra escrita. Como testemunhas, os escritores podem exercer as denúncias de fatos que ferem a integridade humana. E, nessa linha de pensamento, excluindo da obra uma finalidade política com conotações partidárias, Josué associa o político ao social. Preservando a qualidade do artístico, elege a palavra como o instrumento de uso da comunidade humana.
Sem descurar da elaboração estética, A coroa de areia espelha o contexto político dos anos 60, constrangedor, de coação e desaparecimento de amigos e entes queridos de todos nós. Segue-se O silêncio da confissão, em 1980, romance que se marca por uma conciliação do antigo com o novo e por uma trama em que o elemento policial se afigura como um a mais na tessitura romanesca. Chega-se a Largo do Desterro, lançado em 1981. Este se identifica com a “larga experiência existencial” de um personagem de 150 anos, que representa o desajustamento de quem sobrevive a parentes e amigos. É o romance da reflexão sobre a morte como um bem irrecorrível. Josué demonstra que a solidão é pior do que a morte. Esta é o remédio para libertar o homem de três grandes males: solidão, degradação e loucura. À semelhança de Manuel Bandeira, quer ele estar com a mesa posta e cada coisa em seu lugar “quando a indesejada das gentes chegar”.
Cícero, no Sobre a amizade, imagina uma situação em que um deus retirasse um homem do convívio dos outros, apesar de ele ter tudo mais em abundância. Qual seria a alma de ferro que suportaria vida semelhante, a quem a solidão eliminaria o gozo de todos os prazeres? Se alguém tivesse de ir ao céu contemplar o universo e a beleza dos astros, esta contemplação não teria tanto encanto como se esse mesmo alguém tivesse de voltar para contar tudo o que viu.

Retoma-se o trajeto montelliano. Está-se em Aleluia, de 1982. É este, segundo sua opinião, o mais belo romance que escreveu, até aquele momento, juízo que se afinou com o da crítica. É a obra de resgate daquele pai que desejou, mas não teve um filho pastor.
Continuando a seqüência, poder-se-ia citar Pedra viva, de 1983, que segundo Wilson Martins, “é o texto em que o homem lê a mensagem cifrada do seu próprio destino, enquanto homem, da sua própria significação interior”; Uma varanda sobre o silêncio, de 1984, cuja intensidade dramática enfatiza a realidade do Brasil dos anos do terrorismo e da repressão que atingiram a todos nós; Perto da meia-noite, de 1985, que, com o talento de grande romancista, soube fazer que confluíssem para esta obra o casticismo ambiental de São Luís, uma poesia recôndita, e a autenticidade psicológica das personagens num estilo genuinamente realista que se volta ao social; Antes que os pássaros acordem (1987), é, segundo o próprio Josué, “uma história breve, escrita em Paris para o fím de semana”; A última convidada (1989) incorpora à produção romanesca montelliana um elemento novo, o da transcendência, privativa do ser humano. Josué relata no prefácio do próprio livro, escrito em Paris, em 1998, com respeito ao poder de aliciamento do seu texto: “Jamais aspirei a outra recompensa para o meu trabalho. E a verdade é que nunca me debrucei tanto sobre um romance como o fiz com este. Primeiro, o longo tempo em que passei com ele na consciência: constante, imperativo. Depois, no amplo silêncio de minhas madrugadas, as sucessivas recordações do mesmo texto, emendando, cortando, acrescentando, sempre atento a esta obstinada inclinação à transparência, ao equilíbrio, à simplicidade, sem perder de vista a música da frase, por fim, a certeza íntima de que o romance retocado, polido, trabalhado, constituía uma realidade autônoma que de mim se despreendera, enquanto se aproximava a saudade do porfiado esforço para lhe dar meu sangue, minhas emoções e minha vida”.
Em Um beiral para os bem-te-vis (1989), segundo a crítica, associam-se o riso, o drama e o crescente interesse pelo desfecho da narrativa, confirmando-se Josué, mais uma vez, como mestre na arte de construir um romance; O camarote vazio (1990), escrito imediatamente após Um beiral para os bem-te-vis, quando Josué está quase a completar vinte romances, é um romance policial. Este romance é reconhecido pela crítica como “uma narrativa de suspense, com as personagens bem marcadas e inesquecíveis, ajustada a uma trama astuciosamente construída”. Josué Montello, como já se disse, é um exímio contador de histórias. Consegue manter a clareza ao desenhar as figuras que as integram e a urdir as situações.

O baile da despedida (1992) harmoniza em seu texto o rigor da verdade histórica com a imaginação narrativa, na recomposição do último baile da monarquia na Ilha Fiscal, sem que ninguém o presumisse, uma vez que, seis dias depois, ocorreu a proclamação da República; A viagem sem regresso (1993), que inicialmente se denominou O ex-presidente. No próprio dizer de Josué, este romance recebeu influência de outro, El Senor Presidente, de Miguel Angel Astúrias, Prêmio Nobel de Literatura de 1967, que colaborou, de maneira notável, para a denúncia literária da ditadura política de seu país, a Guatemala. E ainda seguindo Josué, este livro fortaleceu o ponto de partida de seu propósito inicial, como testemunha da luta pelo poder, aqui no Brasil, sem constituir transposição de figuras contemporâneas para o espaço privativo do universo literário montelliano.
A mulher proibida (1996). Segundo a crítica, este romance poderia definir, juntamente com os três que o precederam – A viagem sem regresso (1993), Uma sombra na parede (1995) e Enquanto o tempo não passa (1996) – “uma tetralogia da vida contemporânea, dada a atualidade dos temas que os inspiraram”. Os momentos que vivemos no fim do século XX prenunciaram as mudanças ocorridas, do ponto de vista de sua ambiência, no começo do século XXI. Em A viagem sem regresso (1993) flagra-se uma vida política, oscilando entre um governo forte e um governo liberal; em Uma sombra na parede apreende-se um quadro de lesbianismo velado, já delineado por Machado de Assis, no texto que serve de epígrafe a este romance; e Enquanto o tempo não passa (1996), que precede A mulher proibida (1996), é romance de uma nova experiência patética. Seu personagem central é herói e vítima, no esforço para sobrepujar as contingências da vida contemporânea, na busca ansiosa de uma realização pessoal. É ele um criminoso ou um inocente? Afigura-se diante de si uma trama de desafios comuns no mundo atual, pondo à prova a sua capacidade de resistir à luta ou de aceitá-la. Voltando, pois, à A mulher proibida, afirma-se o painel com um assunto bem recorrente entre nós: o conflito entre um pai, viúvo mas ainda moço, e uma filha única, que vivem num mesmo espaço, contrastando, respectivamente, um instinto reprimido e um instinto livre. Sempre serás lembrada (1999), pela estruturação da narrativa, pelo tema dominante, pelo elenco de personagens, volta a confirmar a arte do romancista, quer na vida e no vigor de seus protagonistas, quer no modo pelo qual o enredo se impõe à atenção dos leitores. A mais linda noiva de Vila Rica (2001), seu último romance, se inclui na história de nosso país e de seus movimentos de libertação, mas o amor entre Maria Dorotéia e Tomás Antônio Gonzaga toma a feição de relato essencialmente literário, sem se despojar dos fatos reais que lhe abriram caminho em meio às lutas por nossa autonomia como nação, e sempre associado à condição poética que fez dela, Maria Dorotéia, a Marília, e dele, Gonzaga, o Dirceu. A musa e o poeta encontram-se novamente reunidos neste romance.
Pelo muito que viveu e realizou, Josué Montello, homem-artista, concebe a vida como uma formidável aventura, a obra-prima de Deus!
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Embora sempre atento à grande transformação que sofreu a narrativa romanesca no século XX, Josué Montello não renunciou à marca de um romance que se estrutura pela comunhão do acontecimento, da personagem e do espaço, como bem se observa em Cais da Sagração, uma das mais celebradas obras do autor.

Em realidade, o que constitui o mérito da composição na urdidura romanesca engendrada pelo autor é a harmonia com que se apresentam os três elementos. No que toca ao acontecimento, depara-se com uma trama que tem seu início já quase no fim da narrativa, recurso que, indiscutivelmente, aguça o interesse do leitor. Entretanto, o enredo não se obscurece, uma vez que o escritor recorre ao flash back. Tomando como ponto de referência os acontecimentos do primeiro capítulo, presente e passado se sucedem numa alternância que segue, não uma regularidade técnica, mas a exigência da unidade romanesca. Apesar de a trama se iniciar após a culminância emotiva da história – a morte de Vanju –, esta só se esclarece no último capítulo. Do início ao fim do discurso os eixos se entretecem, em uma tessitura que atrai pela clareza e naturalidade com que são elaborados os diálogos, as narrações e as descrições. Diz-nos o autor no Antes do romance da quarta edição que, seguindo as pegadas de Ortega y Gasset (“a clareza é a cortesia do filósofo”), procurou ser cortês a seu modo e, sem desmerecer a esteticidade do texto, o conseguiu.
Mestre Severino, em sua caracterização plástica de barqueiro, nos conduz a um mundo de coragem, bem-querença, magia e severidade. Constrói-se, portanto, um personagem paradoxal, que mata por amar demais e que é fiel ao seu amor, até mesmo depois da morte.
A rudeza do homem do mar não prejudica a profundidade de suas intuições que tocam a essência do humano. Personagem decisivo na estruturação da narrativa romanesca, Mestre Severino não se constrói por uma perspectiva maniqueísta. Como ser humano, ele é a síntese do bem e do mal.
Preservando-se a originalidade com que é elaborada, a personagem Vanju nos remete a Capitu. Os “olhos de cigana oblíqua” se substituem por uma dubiedade que lhe é inerente e que se reflete em toda a sua maneira de ser. Personagem sensual, inconstante, capaz de enfeitiçar e enlouquecer um coração calejado, como o de Mestre Severino. A dúvida da traição conjugal instilada por Machado repete-se no romance de Montello.
Como modelo de perfeição humana, se delineia Lourença, a primeira mulher de Mestre Severino. Embora não fique insensível ao casamento de seu homem com Vanju, aceita a situação e consegue amar a segunda mulher: não se fecha, portanto, o tradicional triângulo amoroso. Lourença é pintada com tal precisão de traços que, a partir de sua aparição, passa-se a amá-la e respeitá-la na sua humanidade, como se ela partilhasse de nosso convívio diário. Em sua magnanimidade, Lourença faz refletir sobre o que se é e o que se deveria ser.
Completando o elenco dos principais personagens, pode-se apontar Davi, figura contestada pela virilidade de Mestre Severino, mas, ao mesmo tempo, denunciadora de uma educação defeituosa e dos preconceitos de uma sociedade estruturada sobre tabus.
Apesar da diversificação no modelamento dos tipos, Montello integra-os magistralmente no espaço que constrói, costurando-os com intrigas bem urdidas. Não deixando de respeitar o aspecto geral do espaço físico maranhense, o autor criou um outro espaço, o estético, do domínio apenas de quem o frui. É mais um espaço literário que se cria para o Maranhão, como conseqüência do fascínio do autor por sua terra natal.
Ao ler-se Cais da Sagração, passa-se a viver a atmosfera lírico-dramática de sua narrativa. O romancista consegue tensionar, no espaço que constrói, o real com o ideal, que compõem dialeticamente a unidade estética da obra. O reconhecimento e a novidade se harmonizam, tornando agradáveis de contemplar até os acontecimentos penosos.
Com respeito à participação da natureza no romance, pode-se afirmar que ela não funciona como mero décor ou como veículo de intensificação do clima emocional. Latu sensu, ela vale por si como personagem pleno que se integra na história do romance: as costas marítimas do Maranhão se apresentam com toda beleza e mistério.
Ao fim do romance, porém, quando ocorre a borrasca, a natureza funciona como o obstáculo que deverá pôr à prova a masculinidade de Pedro, neto de Mestre Severino.
Apesar da descontinuidade com que os fatos se apresentam, o tempo cronológico dimensiona e dá sentido ao que ocorre na trama de Cais da Sagração. Colhido pela Poesia, o texto se deixa percorrer por ela.
A trama se finda antes da consumação da história, que, como a vida, prossegue na constância do seu fluir. O autor entende que a realidade não se esgota pelo expresso no quotidiano, uma vez que ele a oculta, em forma de “palavra futura”.
Noite sobre Alcântara soergue esta cidade imperial que se mostra “rediviva e intacta” pelo stilus romanesco de Josué Montello.
Depois de Janelas fechadas (1941), Montello retorna aos motivos maranhenses, com Labirinto de espelhos (1952), seguindo-lhes A décima noite (1959), Degraus do Paraíso (1965), Cais da Sagração(l971) e Os tambores de São Luís (1975). Constrói-se, portanto, a saga maranhense que se completaria com o romance que acaba de ser focalizado, se não fosse a retomada com A coroa de areia (1979), O Largo do Desterro (1981), e Perto da meia-noite (1985).
Partindo de dados verídicos, e com apoio no romance Vingança de amor, de Inácio Raposo, Montello remonta a Alcântara dos nobres senhores. Começa a confígurar-se a partir de uma situação atual no tempo da trama, que dará origem ao tempo do enredo e reviverá o tempo de uma realidade histórica.
Uma cidade se compõe de fragmentos de vida, e Josué, partindo de um tempo histórico, consegue que a cidade morta ressurja e se eternize pela atemporalidade. Alcântara renasce e revive sua plenitude. As construções na arquitetura do tempo de império se totalizam quando, ao contemplá-las, o escritor leva em conta o silêncio gerador de sua ressurreição. A cidade revive, não pelo que ficou da sua dimensão utilitária, mas pelo que o mestre do romance pôde realizar por meio da estetização que a projeta para a sua verdade. Alcântara é vista na sua irreversibilidade de ser, através do processo presentificador que a Arte opera.
Ao penetrarmos no romance com a nossa existencialidade, apreendemos a experiência vivencial que ele manifesta quando projeta a Alcântara da “água fresca e leve da Miritituia”, “os cravos cheirosos”, “as praias de alvura imaculada”, a beleza dos lugares e das moças “esbeltas e trigueiras”, a simplicidade do povo.
De estrutura circular, o romance se urde memorialisticamente quando Natalino resolve abandonar a cidade, para não mais voltar. Por motivo imprevisto, é obrigado a demorar-se, e a partir daí se descortina a história da narrativa.
A atuação de cada personagem contribui para compor a experiência vivencial de um tempo histórico que acusa a iminência da Abolição. Esta acarreta a desestruturação da classe social dominadora, colocando-se como o detonador da derrocada da aristocracia alcantarense. Os vícios de uma situação escravocrata se registram. Como pintor de situações e plasmador de caracteres, Montello faz desfilar uma diversidade de tipos: clérigos, aristocratas, plebeus e escravos. Estes compõem a tragicomédia humana, principalmente no que se refere à exploração do semelhante, como ocorre com uma estirpe que nos tempos áureos se alojou em palacetes e sobrados luxuosos. O homem é visto em sua pluralidade existencial sob a óptica de uma cidade de província: o desrespeito dos ditames prescritos pelos preconceitos, no que concerne à prática do sexo, é focalizado e evidenciado no personagem principal e em outros que compõem o elenco do romance. Essa e outras fraquezas são apostadas no sentido de desvelar as multifaces do ser da existência que escandalizam espaços urbanos mais limitados.
Alcântara declina do apogeu. Os escravos tornam-se livres e os cidadãos livres se escravizam, pelo despreparo que lhes é peculiar para vencer a dificuldade da situação. Sem braço escravo a sociedade aristocrata tende a ruir. A natureza testemunha os fatos tristes e alegres e, em grande parte do romance, funciona como elemento integrador do ambiente.
Nas últimas páginas do romance o destino não permite que Natalino alcance o barco em que pretendia viajar. Esse fato contribui para que, em dia posterior, ele depare com o filho que não assumiu. Teve, por isso mesmo, de conservar incógnita sua paternidade, apesar do desejo de dar-se a conhecer. Ao sentimento triste do personagem, a contradição da alegria causada pelo surgir de um Novo Ano; e a essa alegria, o contraste do incêndio de urn dos mais ricos sobrados de Alcântara. Por momentos, a devastação silenciosa do tempo cede lugar à fome sôfrega do fogo.
Registra-se um saldo negativo deixado pelo despreparo de uma sociedade, que responde pela sorte dramática dos habitantes. Entretanto, Alcântara ressurge pelo que dela se re-corda.
Mais do que uma lição de lirismo, Noite sobre Alcântara fica em nós como o registro de um protesto contra o conformismo, o orgulho e a hipocrisia de sociedades egoístas, parasitárias, mantidas apenas pelo fausto que um dia lhes coube como meio de sobre-vivência.
Com Largo do Desterro, Josué Montello retorna a São Luís e à saga maranhense. Retorna com um romance da “experiência existencial”, no qual ressalta o desencontro de viver. A vida tem seus encantos, mas dói. E as dores e as perplexidades ele nos conduz através da longa trajetória do personagem principal, o Major Taborda, que se esqueceu de morrer. Encarnação de Ahasverus, o judeu errante, Taborda não tem mais o que viver; e, não tendo, ele se remete sempre ao vivido, através de monólogos internos.
Montello, com esse novo texto romanesco, remete o leitor à reflexão sobre o mistério do existir. O que é viver? Será resistir vegetativamente? Para que quero viver? Em que circunstâncias é válida a minha sobrevivência? Posso abrir mão da minha socialidade em favor da exclusiva individualidade de existir? Viver, eis o que nos diz este livro, não é apenas percorrer o espaço telúrico que diante de nós se oferece. Em Montello é mais que isso: é valer-se desse espaço para sublimá-lo por meio de “idéias superiores”, que em realidade conferem ao ente a característica do humano. Viver cada dia é saber despojar-se do prosaico, empreender uma trajetória espiritual que constata a utilidade e a inutilidade do que nos cerca. Taborda é o espelho em que cada um se colhe: sujeito a fraquezas, mas suscetível à beleza e à bondade,compondo esse universo perfeito em que se vive e em que se é vivido.
Não se detendo em descrições de paisagem exterior, Montello instala o poético no conturbado mundo de cada personagem, que não raro se reveste de roupagem dramática. Num estilo sem atavios, dá lições de propriedade e precisão, em que as palavras valem pelo que são capazes de articular na estrutura romanesca. Nessa construção harmônica, nesse todo estilisticamente irrepreensível, a morte é um leit motiv, e acerca do seu enigma há passagens de alta reflexão filosófica, como a da fala em que a personagem Calu Malafaia diz que só a morte nos livra da degradação e da loucura, razão suficiente para esperá-la com serenidade.
Mas Taborda, de tanto viver, contraria o pensamento de Calu. E, num desvario de solidão, acaba por se voltar contra a própria longevidade, suicidando-se. O final do romance é magistral, quando o autor faz uma bela e modelar metaforização do limiar da morte: “E sacudiu no ar o chicote, sem largar as rédeas, ouvindo a cantiga de um baralho e os guizos de um mascarado, enquanto Calu Malafaia, sentada ao seu lado, ia para trás e para a frente, rindo alto, na explosão das gargalhadas”.
Com respeito a Aleluia, podemos ler em João, cap. 20: “Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou. De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: Ele deve ressuscitar dos mortos”. Em tempos de Páscoa, Josué Montello nos oferece Aleluia. Quando se chega ao fím de um século tão conturbado como o século passado, tem-se de meditar, de pensar a condição humana. É tempo de questionar o que se vê quando a autenticidade vale tão pouco. É tempo de se mergulhar no mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. É tempo de concentrar-se.
Efraim, discípulo de Cristo, se decepciona com a força do poder divino de seu Mestre, por vê-lo sofrer tanto. A lógica dos homens não explica como o “filho de Deus” se torna tão impotente. Esse é o dilema que se coloca ao hóspede recém-chegado, o grande ouvinte. O texto transcorre num clima de despojamento poético, harmonizado com a maneira de ser dos personagens. Num diálogo entre Efraim e Samuel, o autor conduz à reflexão sobre a precariedade dos dados simplesmente objetivos. Aos olhos do homem, Cristo, a vítima que se imolará, é a grande ameaça para os poderosos. Sob uma óptica natural, Samuel concebe a vida como a criação da própria vida, que deve obedecer às astúcias da natureza”. Quanto ao fenômeno da ressurreição, ele o vê com incredulidade, uma vez que no processamento da vida já se instala o próprio milagre.
Pela vacilação, Samuel remete à dubiedade da própria condição humana, permitindo, entretanto, que se forje a fissura da sabedoria: “Vive com os homens como se Deus te visse; fala com Deus como se os homens te escutassem”. A palavra é vida. A partir daí qualquer pessoa pode ser ressuscitada pela palavra. Defende-se um conceito de ressurreição perfeitamente aceitável pela limitação humana. Mas o texto coloca o leitor diante do impacto da sobrenaturalidade. Ao chegarem ao sepulcro, Madalena, Pedro e João viram e creram pelo que não encontraram. O hóspede, perguntado se vai ficar, responde a Efraim: “Estou de passagem”. E volta para o Pai, deixando atônito o anfitrião que, postado de joelhos, se redime de sua incredulidade.
Nos dias de hoje, o texto de Josué Montello intensifica, em cada criatura humana, o sentimento de perplexidade diante do grande abismo entre o ser e o parecer. Pode-se falar em ressurreição num mundo em que a política manipula, a cultura se artificializa, os meios de comunicação robotizam, o produtivismo oprime o operário e o consumismo escraviza? Existe ressurreição sem inteireza de amor?
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