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Edição 162

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Data de Publicação: 3 de outubro de 2007
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“O barco é feito assim (todo) torto,/para ficar direito na água.”

Com dois versos heptassilábicos, Pedro Alcântara Corrêa, mestrecarpinteiro do Portinho, em São Luís, Maranhão, celebra poeticamente a arte de fazer certo por linhas curvas, conforme o Criador.

Velas de barcos enfileirados no igarapé do Portinho (Foto de Albani Ramos)

Na realidade, a arte de construir embarcações é um mistério, um dom natural da oralidade e da prática, que se oculta no íntimo de quantos nasceram, como abençoados, para a vocação de carpinteiro, como São Pedro, inventores de maravilhas.

São mãos calejadas de mágicos, que transformam troncos de árvores em esculturas tão perfeitas, que se tornam capazes de navegar sobre as águas, reproduzindo o ato de Cristo. Sim, ao esculpirem em madeira os carpinteiros moldam e plasmam as embarcações de vida.

2
OS POETAS DOS ESTALEIROS


As embarcações do Maranhão são poemas feitos com os calos das mãos e o suor do corpo de carpinteiros, calafates e pintores. Poetas obscuros e anônimos gravam seus autógrafos no âmago das tábuas.

Na solidão dos estaleiros, os carpinteiros monologam com troncos de árvores, enquanto vão amoldando-os em cavernames e cascos.

No ato da criação, as mãos calejadas dos carpinteiros constróem com enxós, talhadeiras, serrotes, formões e pregos, as memórias de suas vidas, entrelaçadas com as almas do povo, que também têm ânsias de viagens pelas voragens do mar.

E parece que as embarcações, quando prontas, assumem o aspecto de coisas dinâmicas e vivas, tão singelas em suas curvas côncavas que, quando as partes se encontram nos extremos do todo, em cascos, cavernas, toldos, parecem gomos gêmeos de frutas conhas, abrindo-se em conchas no recôncavo das ondas do mar. Ou se parecem com as linhas e curvas de corpos de mulheres no banho, nadando em espumas.

Em suas formas abauladas, dançando sobre as ondas, as embarcações, magnificamente belas, têm o perfil de obras inacabadas, de tão completas ou perfeitas ou de aves voando e equilibrando-se com uma única asa ou como milagre de pose de pássaro arremetendo à flor-d’água.

3
“Navegar é preciso, viver não é preciso”


Conforme disse aquele matuto ou marujo maranhense, que nem conhecia os versos de Fernando Pessoa, mas que casou o seu pensamento com o do genial poeta português: “Antes bem viajado, que bem lido.”, nos fazendo entender o que o bardo de Mensagem queria dizer. Em outras palavras, quem não navega, não vive; ou navegar é viver.

O mar enlouquece quem o navega de tanta sabedoria sem escrita.

A insanidade dos pescadores é a santa loucura dos que viram Deus encarrapitado numa onda ou que assistiram ao milagre do pôr-do-sol, na crista do Oceano Atlântico, de dentro do nada de uma casca de noz, boiando no infinito entre mar e céu.

A eloqüência do mar está no silêncio que contamina os pescadores, que viram estátuas de sal, de tanto contemplarem face a face a beleza do que não tem fronteiras nem limites.

4
A VIAGEM DOS MARCENEIROS, CARPINTEIROS E CALAFATES


Há nos barcos o desenho da paixão pela viagem e pelo desconhecido, a obsessão e a curiosidade sobre a ida e a volta ou sobre o eterno retorno.

Quando montam o cavername, enquanto constróem as quilhas, os cascos, as cavernas, os mastros, os tombadilhos, as escotilhas, as velas e os estais, desde quando planejam, e enquanto montam os barcos em seus projetos, os marceneiros e os carpinteiros, os calafates e os pintores já estão fazendo viagens, já recolheram as amarras e estão descobrindo ou inventando novas cidades, povos e civilizações, pois é dom dos humanos a invenção de coisas em que possam se eternizar, mesmo que seja no mar, entre arrecifes e corais, em conquistas ou naufrágios. Por isso, os homens constróem barcos, com a intenção de se salvarem da vida provisória e precária e, quem sabe, se eternizarem através de sua arte.


Construir um barco, idealizar a vela é pensar por antecipação na finalidade da viagem. É antecipá-la na extensão de cada propósito. Por isso, cada embarcação tem o formato de cada expectativa e perplexidade, da mais simples à mais ambiciosa ou complexa.

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AS EMBARCAÇÕES


Os cascos são para pequenas viagens ou para piqueniques, se for o caso. Movidos a remos e a marás, servem para pesca em mar raso, de croas, igarapés e enseadas e lavados.

A costeira ou cúter é para bordos mais ambiciosos ou ousados, costeando barras, baías, velejando ao largo de golfos. Por isso, a paixão pelas embarcações tem algo de místico, de sagrado. É uma devoção fazê-las, um privilégio entrar nelas, porque é como penetrar em santuário de casas de família. Tem uma ponte de ligação completa com a sobrevivência, com a solidariedade e com a família, com fazer-se ao mar, lançar a rede e acreditar no milagre da pesca para repartir o pão.

As embarcações são os veículos nos quais os pescadores se fazem ao mar para, durante semanas de salga em rancharias, armazenarem os frutos do mar, para venda ou troca.

O casco tem tudo a ver com pesca de linha, tarrafa, puçá, landuá, groseira, espinhel ou de tapagem, porque tudo isso é feito em igarapés , enseadas, croas ou lavados. É próprio para a pesca das tainhas, sardinhas, arenques, camarões, peixes-pedra, siris, sururus, ostras e sarnambis, urixocas e caranguejos, que habitam o mar raso das croas de lama e areia e os igarapés do mangue.

O propósito de quem constrói igarités ou bianas e os boiões é mais arrojado, pois são embarcações para vela, leme e motor, próprias para pesca com rede de lanço ou malhadeira, ou para a atividade dos corrais. São para a pesca de cangatãs, jurupirangas, pescadas vermelhas e juruaparas, chicharros, xaréus, pacamões, sardinhas-solteiras, bagres, banderados, enxovas, camurupins, meros, cações e parus.

As costeiras são para viagens de longo curso com passageiros e cargas ou para a pesca industrial, tal como as lanchas e iates.

Assim, o mar é o lugar sagrado, onde as famílias em suas embarcações vão prover os meios de sobrevivência.

Sem as embarcações não teriam acontecido as grandes viagens marítimas, as grandes descobertas, a edificação de povoados, vilas, cidades, países e civilizações.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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