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Edição 162

TAMANCÃO SE LANÇA AO MAR II

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Data de Publicação: 3 de outubro de 2007
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A arte de construir embarcações e a saga dos filhos do mar

Gente simples e anônima preserva o legado de um dos mais valiosos patrimônios culturais do Maranhão


A grande aventura de desbravar os rios e o litoral do Maranhão sempre foi uma empreitada de homens anônimos. Os mestres-carpinteiros, os calafates, os pintores e os veleiros praticamente não tinham nenhuma visibilidade. A construção de embarcações de madeira, que são verdadeiras obras de arte, sempre fez parte do valioso patrimônio cultural maranhense, mas ninguém se dava conta disto.

Os operários, que são os grandes protagonistas dessa aventura de desbravar rios e o mar, guardam na memória a ciência e a arte da construção naval. É um legado que vem sendo transmitido de pai para filho pela tradição oral, desde os tempos coloniais. Graças a essa herança de conhecimentos, inúmeros estaleiros produzem, artesanalmente, variados tipos de embarcações, como bianas, iates, casquinhos, cascos, cascos com proa de risco, lanchas, rabetas, botes, gambarras, canoas costeiras (também conhecidas como cúter) e igarités, consideradas as embarcações mais genuínas do Maranhão.

Com um litoral de 640 quilômetros de extensão, o segundo maior do país, o Maranhão tem, na pesca artesanal e no transporte de passageiros e de carga, utilizando embarcações artesanais tradicionais, que são a base de sua economia.

Para preservar a antiga técnica de construção naval das embarcações utilizadas até os dias atuais, ao longo do litoral e de suas bacias hidrográficas, agora existe o primeiro estaleiro-escola do Estado, inaugurado em dezembro de 2006, na área do antigo Sítio Tamancão.

Trata-se de uma experiência pioneira. Lá estão trabalhando vários operários navais e velhos mestres como o Jonas, o Alencar, o Zequinha, o Veriano Aranha, o Deudico e o Rosa, que já são considerados os “doutores” da nova escola, concebida com o objetivo de difundir e valorizar a arte da construção naval artesanal. A idéia é recuperar os métodos tradicionais de construção, na Costa do Maranhão, que se constitui de arquipélagos, ilhas, golfos, barras, baías, reentrâncias e igarapés, além da foz de dezenas de rios navegáveis.

Cursos para a comunidade - Batizado de Centro Vocacional Tecnológico, o Estaleiro-Escola está na etapa inicial de implementação de diversos cursos.

O Curso de Construção Naval Artesanal, financiado pelo CNPq foi iniciado em abril de 2007, com 25 alunos, com duração de dois anos e 1500 horas de aulas teóricas e mais de 1000 horas de aulas práticas, sob a batuta de 14 professores qualificados e seis mestres carpinteiros navais.

O curso de Iniciação à Informática foi iniciado em agosto, com duração de 100 horas, 120 alunos e dois professores.

O curso de Preservação Ambiental começou em setembro, com duração de 200 horas para 60 alunos e 10 professores e incluirá quatro oficinas: modelismo naval, reciclagem de pet, fabricação de biojóias e aproveitamento dos retalhos de madeira.

Outros cursos estarão sendo iniciados até o final de 2007, a saber: Curso de Preparação de Monitores de Turismo; três cursos técnicos de ensino médio integrado à educação profissional - na linha do Proeja, ou seja, destinado a jovens e adultos que tenham iniciado, mas não completado o segundo grau. Nesta categoria, haverá o de construção naval e mais os cursos de eletrotécnica e informática, com suporte em rede. E, fechando a oferta de cursos, ainda haverá os de qualificação e aprimoramento de profissionais em construção naval.

Em setembro de 2006, o Estaleiro-Escola passou a integrar o conjunto de centros de capacitação tecnológica da Univima (Universidade Virtual do Maranhão), que está assegurando a manutenção da escola com eficientes serviços de conservação, limpeza e vigilância, implementando a aquisição de novos equipamentos e veículos. Mas, sobretudo, a Univima está garantindo a multiplicação dos benefícios da Escola, com a instalação de laboratórios, para diversificação dos cursos a serem oferecidos à comunidade.

O livro Embarcações do Maranhão será reeditado
A dura realidade dos homens que fazem o dia-a-dia dos estaleiros artesanais era praticamente ignorada, até que foi iniciada a pesquisa que resultou na primeira publicação sobre a vida e a obra de velhos carpinteiros navais e a construção artesanal das embarcações maranhenses.

Baseado em minucioso trabalho de pesquisa, o livro – de autoria do engenheiro civil Luiz Phelipe Andrès – publicado em 1998, já está a caminho de uma segunda edição.

A obra retrata o funcionamento de centros de construção naval artesanal, ora no litoral, ora nas margens de grandes lagos ou rios navegáveis bem distantes do mar.

A Memória do Sítio Tamancão
No dia 15 de dezembro de 2006, ocorreu um importante episódio na rotina do antigo Sítio Tamancão, localizado às margens do Rio Bacanga, em frente ao Portinho, local de concentração do maior número de embarcações artesanais da Ilha de São Luís. Lá foi inaugurado o Centro Vocacional Tecnológico (CVT) Estaleiro-Escola.

O Maranhão, que havia sido o primeiro estado brasileiro a realizar uma pesquisa de inventário das técnicas tradicionais populares de construção naval artesanal, a partir de então passou a possuir o primeiro centro de capacitação na construção de embarcações tradicionais do país.

Sabe-se que o Tamancão tem um legado de valor inestimável, mas são poucas as informações históricas já reveladas sobre este sítio, a não ser as já conhecidas, de que se tratava de uma indústria de beneficiamento de arroz para exportação, no século XIX e que, já no século XX, com a desativação daquelas atividades, foi aproveitado para depósito de inflamáveis do Maranhão, onde eram acomodados os materiais combustíveis e explosivos. Outras informações, como a de que teria pertencido à matriarca, Donana Jansen (1787-1869), carecem de comprovação documental.

De acordo com informações do engenheiro Luiz Phelipe Andrès, o antigo Sítio Tamancão foi escolhido para abrigar o projeto porque lá, no século XIX, funcionou uma indústria movida por moinhos de marés, próximo do canal de navegação do Rio Bacanga e, também, próximo dos estaleiros artesanais da Barragem do Bacanga e do igarapé da Vovó. O local favorece, também, a construção de uma “carreira” ou rampa que facilita içar embarcações para o local seco ou lançá-las na água, após sua construção ou reparo.

Além disso, trata-se de sítio de arqueologia histórica e local, que guarda um importante capítulo da história da tecnologia, que são os vestígios de uma usina de marés, utilizada no século XIX, como soque de arroz, como se chamavam as indústrias que se destinavam a beneficiar o arroz para o consumo e a exportação.

A posição geográfica privilegiada do Sítio Tamancão – voltado para o Oceano Atlântico – é motivo de orgulho para os professores, alunos e técnicos envolvidos no projeto. Luiz Phelipe informa que, no presente momento e até o final de 2007, o Estaleiro-Escola estará atendendo a 355 alunos matriculados e contando com uma equipe de 22 funcionários e 27 professores, além de nove mestres da construção naval artesanal.

Construção de uma ponte no Bacanga - Ao ser questionado sobre o que está faltando, para que o projeto ganhe mais incentivo, Luiz Phelipe explicou que, da mesma forma como ocorreu nas diversas etapas anteriores de pesquisa e de construção do prédio, o projeto tem recebido todo o apoio necessário do Governo do Estado. No presente, por determinação do governador Jackson Lago e no âmbito da Secretaria de Ciência e Tecnologia, do professor Othon Bastos, através da Univima, o Estado tem garantido todas as condições para a Escola crescer e ir adiante.

“Mas não paramos aí”, acrescentou Luiz Phelipe. “No momento, estamos trabalhando para obter a autorização para construir a ponte que ligará a saída da Barragem do Bacanga com o Estaleiro-Escola, reduzindo em muito as distâncias e facilitando o acesso de quem vem da cidade. Assim, também, estamos pleiteando o projeto de restauração e adaptação da casa grande que ainda se encontra em ruínas, para a instalação de uma escola de pesca artesanal, que é uma atividade irmã da construção naval e, também, com grandes potencialidades, uma vez que se trata de uma das inequívocas vocações econômicas naturais do nosso Estado”.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br