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Edição 163

Lembranças de Aluísio Azevedo

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Data de Publicação: 19 de outubro de 2007
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Afrânio Peixoto*

Conheci muito tarde Aluísio Azevedo. Foi em Nápoles, no outono de 1909, que nos encontramos. Eu na minha obscuridade ordinária, desconhecido por ele inteiramente; ele, personagem consular, de que me servia para o intermédio da correspondência. Atravessara o Atlântico, num paquete direto a Gênova, de onde um outro me tomara para Nápoles. Ia fazer uma peregrinação pelo Oriente clássico e resolvera não marear minha primeira impressão com a balbúrdia civilizada de Paris ou de Londres.

Do consulado, não pretendi só a posta-restante, mas desejei falar ao cônsul, que era Aluísio. Por mais que me procurasse disfarçar em um dos desatentos e descuriosos dos seus patrícios, não o pude, e os acasos da conversação, em quem vinha dela tão precisado, lhe revelaram logo, pela forte simpatia humana que conduz o desejo de prender e de interessar, um dos seus leitores, admirador que se não limitava aos adjetivos e às fórmulas cabais de crítica fácil, que rejeita ou exalça, sem apelo, mas que comenta, sente, se interessa e convive, no sentimento ou inteligência, com as ficções do escritor e do artista.

Abriu-se Aluísio então à confidência. Nunca fora desatento, ou boêmio, como o chamaram, e o incluíram injustamente na réstea os homens de talento, e alguns de produtividade burguesa, fecunda e poderosa.

Pacato e ordenado no íntimo, fizera arte para se manifestar, aparecer, desejar e conseguir uma situação definitiva. O sucesso, que lhe viera, não mudara os propósitos. Coelho Neto, descrevendo-o na sua A Conquista, na figura daquele Rui Vaz, que se assentava em cadeira desconjuntada, para ter a sensação do balanço do mar... Depois os que propalaram a anedota das botinas, emprestadas por Guimarães Passos, recém-chegado da província e em visita ao escritor que, enfiado nas botas do visitante, ganhara a cidade e só a desoras tornara para as devolver e pôr termo ao colóquio interrompido... Fizeram charges, para misturá-lo no rol comum. Talvez maliciosamente, para se vingar de um deles, que não tomava chops, não fazia trocadilhos, não sangrava assiduamente aos companheiros mais alvoroçados. Aliás, dizia-me ele, ainda essa boêmia de Coelho Neto, Olavo Bilac, Valentim Magalhães, Artur de Azevedo... quando se atende ao labor enorme por eles produzido, em contos-novelas, versos, jornalismo e teatro, fora apenas disfarce intelectual para o espanto dos leitores de província; fingiram os autores de personagens.

Ele, Aluísio, é que decididamente não o fora. O que era, agora e dantes, era um burguês ordeiro, pacato, que escrevera por necessidade e com um objetivo, e que, na primeira ocasião, se introduzira no pecus do funcionalismo utilitário. Dera-lhe Graça Aranha umas lições de direito internacional, e com elas, com os outros conhecimentos que possuía, tentara concurso no Ministério das Relações Exteriores, e fora nomeado cônsul.

O Japão, como viemos a vê-lo já aí se achava numa profecia fácil, pois que era a de um observador que sabe ver e que não colabora com a sua imaginação ou o gosto estragado de seu público, para ajeitar e amaneirar a documentação criteriosa. O artista, porém, não seria desatendido, e o livro daria, materialmente mesmo, do papel às gravuras, feito e impresso no Japão, demonstração material de gosto e de cultura, comentando a narração da crenças, tradições poéticas, costumes, virtudes públicas e privadas dos japões.

Mas o livro sobre o Japão não se publicara. O que ele vira, outros viram também e, mais felizes, o disseram. O que ele pronunciara, sem o divulgar, fora publicado pela ação, na história, naquele conflito de uma guerra tremenda, na qual se começou a repelir a Europa para o Ocidente. Dia-a-dia o livro ia sendo conhecido e sabido por todo o mundo, sem que fosse impresso e lido. Livro esgotado e inédito. Agora já pareceria feito de lugares comuns e as deduções e profecias, coisas passadas; a novidade e a perspicácia de observação seriam até pela malícia havidas como arranjo e embuste, vistas pela crítica como desinteressantes e ociosas.

Desgostoso, Aluísio não quis mais escrever. Do Japão, lhe ficara essa mágoa profunda e uma saudade que, talvez, fizesse esquecer a outra. Vi muitas vezes no seu gabinete de trabalho, em Nápoles, fina tela de seda com uma imagem encantadora: era Satô, formosa criatura, quase ocidental na sua miúda face morena, mas com a graça tênue e sutil, de recato e simplicidade, das musumés, já lendárias. Trouxera-lhe a efígie, desenhada por hábil artista do país, pois que não o pudera acompanhar. Os pais velhos, numerosa parentela, impediram a esposa de seguir o seu conquistador branco, para o outro lado da terra.

Durante esses poucos dias, fiz tudo por animá-lo. Mostrei-lhe o seu lugar, ocupado na sucessão de José de Alencar, como o segundo dos nossos romancistas, que ele abandonara, e não fora, e não está ainda preenchido. Devia volver. A fase nova, que se começara com O Livro de uma sogra, prometia mais alguma coisa, alta e geral, do que a observação estrita de certos meios e algumas gentes, ao sabor do naturalismo de outrora. Por fim, nesta conformidade, confiou-me que tinha uma idéia e a vontade de escrevê-la. Seria o conflito religioso, entre povo simples e rude do interior do Brasil, um desses muitos Antônios Conselheiros, que se apossam da alma das multidões sertanejas. Mas seria em grande, pensado e trabalhado, na idéia geral e no meio em que a ação se devia desenvolver.

No que comprendi seria espécie de D.Quixote da fé, chamado a uma tragédia pelas contingências da incredulidade dos homens e da brutalidade da civilização que nos quer todos reduzidos ao pancismo da vida comum.

Isso lhe daria um belo estudo de visionário e condutor de homens, de massas fanatizadas que acham um ideal, elas que não o têm da civilização com que apenas se comunicam, mas de que não fazem parte, do sertão brasileiro, abandonado, largado de Deus e dos homens, mas capaz de se rebelar e morrer. Para isso preciso pensar e estudar. Esse problema obscuro e difícil, da gênese das religiões, desafiava-o como preparação. De Paris, enviei-lhe alguns livros, talvez ímpios, pois que já possuía os outros, pelos quais a controvérsia gerasse no seu espírito uma ideia definida. Ao nos encontrarmos, há dois anos, no Rio, de passagem para Buenos Aires, confessou-me que muita coisa estava pronta e outro tanto esboçado. Recebi depois, por mensageiro, recado que O Messias continuava na sua preocupação.

De repente... sem prevenção de nosso espírito, sem a doença ou o sofrimento com que a natureza nos prepara, se não nos consola, quase antecipadamente, da perda da vida, um telegrama trouxe a notícia da morte de Aluísio de Azevedo.

(PEIXOTO, Afrânio. Poeira de Estrada. São Paulo: Roswitha Kempf Editores, 1984)
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