Data de Publicação: 19 de outubro de 2007
JOSUÉ MONTELLO
Em 1878, quando Aluísio Azevedo, de regresso do Rio de Janeiro, chegou a São Luís do Maranhão, encontrou na Capital da Província a mesma velha cidade de fisionomia colonial que deixara ao partir para estudar pintura na Academia da Corte.
Existiam as mesmas ruas mal calçadas, os mesmos sobrados de azulejos, os mesmos lampeões de gás. O capim continuava crescendo ao longo do Engenho Grande, na Estrada do Anil – Cutim. A cidade, erma, silenciosa, com raros transeuntes, deu a Aluísio a sensação de praça abandonada.
Nada mudara, realmente, em sua pobre cidade de São Luís. Até os homens continuavam exatamente os mesmos e o saudavam a todo instante rasgadamente, ao reconhecer no rapagão alto e belo o filho desenhista do velho Davi Gonçalves Azevedo.
Aluísio é que mudara. E muito. Saíra adolescente, de queixo limpo, mal vestido nas roupas folgadas e mal amanhadas pelos alfaiates da terra. E voltava, agora, homem feito, metido na sobrecasaca, elegante, alto, corpulento, um bigode bem aparado, a cartola, os gestos estudados, o rosto polido, destacando a cintilação e o negror dos grandes olhos perturbadores.
A vestimenta preta, de luto fechado pela morte recente do velho Davi, destaca-lhe ainda mais, nesses primeiros dias de contacto com a terra natal, a beleza varonil. Aluisio torna-se, em pouco, uma figura suspeita à moralidade da terra, e conquista a hostilidade dos maridos desconfiados e respeitáveis. A auréola donjuanesca, em breve, envolve o rapaz. Aluisio sente, pouco a pouco, o rancor espontâneo dos homens sisudos da Província. E vinga-se maravilhosamente, em proezas audaciosas, nas quais recolhe romanticamente, em alcovas tidas e havidas por honestíssimas, o pecado dos beijos extra-conjugais.
“Aluisio sabe, perfeitamente; o que se murmura a seu respeito. E experimenta uma necessidade vital de movimentos: é preciso botar abaixo, reformando a sociedade conservadora e mesquinha, a caducidade tacanha dos preconceitos burgueses. Há um programa formidável a cumprir nessa jornada rebelde. Não é possível que São Luís, no último quartel do século XIX, quando na Corte já se fala em república – continue retrogradamente agarrada a preconceitos coloniais. E Aluisio, com esse pensamento de luta, ingressa, com todas as esperanças, no jornalismo de Província, em São Luís do Maranhão.
Sob o pseudônimo de Pitibrí, Aluísio inscreve-se, logo, entre os mais destemidos colaboradores da Nova Folha. Escreve sueltos humorísticos, troça alegremente dos costumes e dos figurões locais. E a sua crítica contundente dissimula-se, à maneira preconizada no conselho latino de Juvenal, sob um amplo ar de galhofa satisfeita.
A publicação do primeiro romance aumenta o rumor da Província em torno de Aluísio. Mas o livro não prenuncia, de forma alguma, o romancista de pulso que dois anos mais tarde, ainda em São Luís, publicaria O Mulato. Mesmo assim, o romance desperta certo interesse por parte do público da terra. O idealismo romântico, dentro de cujos princípios fora concebida a narrativa, ainda provoca enternecimentos e paixões nos serões de leitura da sociedade imperial. E o livro, por isso mesmo, é aceito e discutido.
Nos dias claros, procura Aluísio espairecer o tédio de uma vida sempre igual e passeia pelos campos dos arredores. Nesses jornais matinais o romancista recolhe painéis e tipos para o novo livro. Observa tudo, num desejo de trazer, para as páginas que irá escrever, uma reprodução fiel dos costumes de sua terra natal.
Às vezes, leva um ou outro amigo nessas longas jornadas. Um dia sai da cidade para o arrabalde do Cutim em companhia de Domingos Perdigão. Enquanto vencem os caminhos e os estirões da estrada, Aluísio vai narrando ao companheiro, numa minúcia de episódios, numa precisão de diálogos e de personagens, o romance que começará a escrever dentro em breve e que obedecerá aos princípios da nova escola literária.
Terá como título – O Mulato. E debaterá o preconceito da cor. Domingos Perdigão, pouco a pouco, identifica as personagens. Reconhece o Raimundo, o Cônego Diogo, o Freitas, o Manuel Pescada, Dona Amâncía Souzelas.
O Mulato será discutido por entre imprecações e cóleras. Odiarão o romancista e pensarão em mandar surrá-lo, numa viela escura, à noite, longe do lampeão de gás, para desafronta do labéu recebido. Mas o romance dará a todos esses burgueses iracundos a consciência da torpe campanha estulta, miserável e louca que se vem mantendo contra os homens de pele clara nascidos na traparia das senzalas.
A figura central do enredo é um bacharel mulato, o doutor Raimundo. Aluísio o retrata com mão de mestre. E meio século depois, o sociólogo Gilberto Freire lembraria esse retrato como documento de um tipo, ao estudar o problema do mulato na sociedade brasileira. Dias depois, efetivamente, começa Aluísio a escrever O Mulato. E vive exclusivamente para os movimentos de seu romance. Com o objetivo de familiarizar-se com as personagens, desenha para cada tipo um boneco adequado, constituindo, dessa forma, com os modelos apanhados ao vivo, a galeria humana do novo livro.
Dona Ana Leger, nesse tempo, é figura muito conhecida na cidade, e goza da intimidade da família Azevedo. Cada vez que ela vem à casa da rua do Sol, Aluísio desce do seu mirante para apanhar-lhe os cacoetes, as frases e os mexericos. Com esse modelo Aluísio fará no romance, o tipo vivíssimo e pitoresco de dona Amância Souzelas. Em outras ocasiões, caminha o romancista até à Praia Grande, zona comercial da cidade, para recolher as impressões fiéis dos lusitanos brancos que mourejam no balcão ou na porta das lojas. Vai às igrejas, freqüenta alguns serões, perambula a esmo – e completa, vagarosamente, hoje uma observação, amanhã um aspecto, o cenário da narrativa.
Aluísio adquire, dessa forma, a consciência do valor emocional de seu romance.
O livro vai despontar numa atmosfera de luta. E servirá como arma decisiva no combate, sustentado renhidamente pelo pensamento emancipado do Maranhão.
0 romance era realmente um apanhado exato da vida de São Luís. Muita gente se sentiu logo retratada no livro. Padres e leigos, comerciantes e doutores reviram-se, indignadíssimos de cólera, nos capítulos empolgantes do romance. E começou sobre o livro a reação da cidade. Percebendo seu retrato na história, D. Ana Leger, amiga tradicional da casa, rompeu relações com a família Azevedo. Atitude mais hostil tomaria o clero, que se julgou ferido com o tipo do cônego Diogo, em cujos traços não fora difícil descobrir-se um dos prelados mais ilustres da diocese do Maranhão.
A história que constitui o romance era bastante conhecida na cidade. O caso acontecera realmente. Apenas o romancista dera ao episódio um sentido mais dramático.
O romance era um apanhado muito vivo e muito fiel da vida provinciana de São Luís.
Seria Euclides Faria, no hebdomadário do clero maranhense, o mais forte adversário que Aluísio teria de encontrar, na seção intitulada “Secas e Mecas” e assinada com o pseudônimo de Joaquim de Albuquerque.
Euclides Faria, logo após o aparecimento de O Mulato, lançou-se, em cinco crônicas sucessivas, sobre o romance e o romancista. E foi implacável. Conhecedor da vida privada de Aluísio, não vacilou em trazê-la a público, procurando ridicularizar o antigo companheiro de tertúlias literárias. Zombou do realismo “que viceja nos mangais do Anil e do Bacanga”, chamando ao seu apóstolo em São Luís, de “Zola”, o “Zolazinho de meia tigela”. A última crônica da série foi a mais cruel. Continha trechos assim: “Permita o jovem Zote, autor do Mulato, que me admire ainda uma vez. A sua compreensão sobre o realismo é de eternas luminárias! Melhor seria fechar os livros, ir plantar batatas e jurar com o antigo refrão: Abraçou o asno com a amendoeira. (E acharam-se parentes)”.
Nunca Aluísio esqueceria as injúrias desse artigo. A 30 de julho, responde a Joaquim de Albuquerque. Supõe, então, que por detrás desse pseudônimo se oculta o padre Raimundo Alves da Fonseca. E a resposta é dirigida ao célebre sacerdote. Mas Aluísio, na réplica, não é o mesmo panfletário dos outros dias, quando investia, jovial e irônico, contra o padre Castro. Suas palavras revelam claramente o escritor magoado, ferido com aquela crítica impiedosa – a única que na província se fizera sobre um romance que rasgava às letras nacionais um novo caminho. Pelo resto da vida Aluísio teria presente o eco do labéu recebido na sua terra natal. São Luís do Maranhão o insultava, na única referência ao seu romance, enquanto das outras províncias se elevava a massa coral dos elogios unânimes.
Urbano Duarte, no Rio, com a autoridade de um nome, lançara um grito álacre de grande repercussão: “Romancista do Norte!”
Araripe Júnior dedicara-lhe uma crítica penetrante, indicando lucidamente os novos rumos que aquele romance, vindo do Maranhão, trazia para a literatura brasileira. O êxito foi estrondante. De um momento para o outro, Aluísio sentiu seu nome cercado de um forte rumor de glória. Mas as palavras cruéis, ouvidas em São Luís, deixam o jovem romancista eternamente amargurado.
A província agora, com os seus preconceitos e a miséria moral de seus homens, não é mais ambiente compatível com as inquietações e as rebeldias do moço escritor. E Aluísio pensa outra vez no Rio de Janeiro. A Corte o chama, aclamando, pela pena de seus jornalistas mais ilustres, o talento do romancista maranhense. O artista achara afinal, para a conquista do glória, o caminho tantas vezes sonhado.
Em pouco tempo, a edição de O Mulato se esgota. A hostilidade da província contra o “Zolazinho do Bacanga” veio crescendo, como as águas de um rio pelo inverno. Aluísio sofre desfeitas mesquinhas e recebe insultos soezes. Mas rebate contra uns e contra outros. Na Pacotilha ou no Pensador – volta-lhe outra vez aquele temperamento de combatente destemido. As beatas se persignam, ao topar com o ateu, com o pedreiro livre. O clero não se cansa de indigitá-lo como um vulto perigosíssimo, de cuja presença as famílias devem afastar as sinhás-moças.
A 20 de agosto, numa crônica intitulada Bons Maranhenses, despede-se dos conterrâneos: “Escrevo-lhes esta crônica com um pé no estribo. Talvez seja esta a última que pingue da incompetência da minha pena nesta Atenas encarabelada, onde o moleque representa uma potência de Estado e onde o clero se deixa representar alegremente por uma molecagem”.
Aluísio deixa a redação da Pacotilha. Desliga-se da redação de O Pensador. E faz as suas despedidas. Marca o dia da viagem. Mas tal como acontecera com o doutor Raimundo, em O Mulato, o romancista perde o vapor. Os jornais anunciam que Aluísio adoecera subitamente da garganta. Mas o escritor, tempos depois, num conto autobiográfico, revelará o motivo sentimental do adiamento da partida.
A 7 de setembro, afinal, no vapor “Espírito Santo”, o romancista deixou a sua cidade. Quando o vapor transpôs a Ponta d’Areia, saudado pelo troar do canhão do velho forte – São Luís, na tarde de estio, começava as comemorações oficiais em regozijo da Independência do Brasil.
Foi assim que Aluísio Azevedo se fez romancista.
No prefácio da 3ª. edição de O Mulato, Aluísio fala da recepção da crítica brasileira à sua obra, bem como a repercussão de sua obra em sua cidade natal: “A imprensa da corte recebeu-me bem, e, à imitação dela a de todas as províncias do sul. Amparou-me a generosidade de Joaquim Serra, Sílvio Romero, Araripe Júnior, Valentim Magalhães, Lúcio de Mendonça, Capistrano de Abreu, Raul Pompéia, Urbano Duarte, José do Patrocínio, Clóvis Beviláqua, Tobias Barreto, Raimundo Correia, Fontoura Xavier, Ferreira de Menezes, Adelino Fontoura, Sá-Viana, Koseritz e outros muitos escritores de nomes brilhantes, cuja fulguração, refletindo sobre a minha pobre obra, deu-lhe um prestígio que ela estava bem longe de ambicionar. Mais de cem artigos se gruparam logo em torno de O Mulato e só o Maranhão, a minha província, não deu palavra.
Ah! Minto! a “Civilização”, no seu número de 23 de julho de 1881, publicou um longo artigo de um dos seus redatores mais ilustres, o sr., Euclídes Faria, no qual, entre muitas coisas, há o seguinte:
“Eis aí um romance realista, o primeiro pepino que brota no Brasil.
“É muita audácia, ou muita ignorância, ou ambas as coisas ao mesmo tempo! É contar demais com a ignorância dos leitores, com a benevolência da crítica nacional, e julgar os outros por si.
“Para que o autor de O Mulato nos desse a medida exata do seu realismo, devia abandonar essa vidinha peralvilha de escrevinhadelas tolas. Vá para a foice e o machado. Ele, que tanto ama a natureza, que não crê na metafísica, nem respeita a religião, que só tem entusiasmo pela saúde do corpo e pelo real sensível ou material, devia abandonar essa vidinha de vadio escrevinhador e ir cultivar as nossas ubérrimas terras.
“À lavoura, meu estúpido! “À lavoura! Precisamos de braços e não de prosas em romances! Isto sim é real. A agricultura felicita os indivíduos e enriquece os povos à foice! “Res non verba”. (Ação e não palavras).
E mais não disse o Maranhão a meu respeito”.
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