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Edição 163

Mas onde e de que teria morrido o grande escritor?

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Data de Publicação: 19 de outubro de 2007
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COELHO NETO

Devo muito a dois homens, que foram meus companheiros de casa: um, em São Paulo, Raul Pompéia; outro, no Rio, Aluísio Azevedo.

Com o primeiro, que era um sôfrego ledor, amanhecendo, muita vez, debruçado sobre os livros, fiz, com enlevo, e parando diante dos gênios representativos de todos os tempos e de todas as raças, uma longa viagem poética, desde a luxuriante floresta do Ramayana, onde arrulha, em contraste com o frêmito das feras e com o estrondo de uma natureza truculenta, a voz meiga de Sita, até os jardins encantados onde Victor Hugo, respigando nas eras, pôs em relevo um exemplar de heroísmo de cada um dos séculos que passaram.

Quantas recordações conservo eu desse tempo e do chalé da Rua Vitória, de onde saíram tantas serenatas e tantas “canções”, que hão de soar eternamente na literatura brasileira!

Pompéia era um erudito: lia Homero no original e recitava Virgílio. Ouvi-lo no seu quartinho, pobre como uma cela de trapista, onde, numa pequena estante de ferro, juntavam-se com os poetas e os romancistas os mais graves mestres do Direito e sempre havia um pedaço de nanquim num godet e um pouco de barro plásmico para a escultura, era um encanto proveitoso.

Com que eloqüência ele nos falava do gênio! Com que segurança nos guiava nas letras latinas, pondo-nos íntimos dos poetas do século de Augusto, mostrando-nos Cícero no Fórum, Tácito na tribuna da História; Lucrécio no seu santuário da Natureza, Catulo seguindo ambubaias, Petrônio comentando O Banquete, levando-nos às leituras públicas de Marciel e de Estácio.

Discorria com facilidade, falando das épocas como se nelas vivera e dos homens como se os houvesse conhecido, e, quando chegava ao Renascimento, depois de haver atravessado os dez séculos sombrios da Idade-Média, espécie de catacumba onde se enterravam as letras e de onde elas ressurgem, graças ao milagre dos monges. Era de ver-se o entusiasmo com que descrevia a travessia dos Alpes pelos trovadores, saudando o aparecimento dos três mestres italianos.

Depois, corria a Alemanha, desde os minesingers até Goethe; a Inglaterra, desde Chaucer até Shakespeare; a França, desde Theroulde até Hugo; a Espanha, Portugal... Sabia tudo e de tudo falava serenamente, sem pedantismo, às vezes de pé, gesticulando a braços largos, com um brilho de chamas nos olhos, que o pince-nez envidraçava.

Foi o homem que me preparou o espírito, que andou comigo pelos dias heróicos, que acendeu em minha alma a paixão do livro e fez dos gênios os deuses da minha religião.

O outro, Aluísio, ensinou-me a trabalhar. Pompéia era um torturado. Míope, como que se comprazia em esmerilhar miniaturas– era artista como Cellini, e passava dias, semanas a tratos com uma das suas Canções sem metro.

Descrevia em quartos de papel, numa letra miúda, apertada, irregular. Os originais saíam-lhe das mãos tão cheios de emendas, de rasuras, de entrelinhados, que ele próprio dificilmente os decifrava, dias depois de os haver escrito.

A lâmpada do autor de O Mulato consumia pouco óleo, porque ele preferia a luz do sol.

Aluísio escrevia em meias folhas de papel almaço, com pena de ouro, engastada em caneta de madrepérola, cuja haste era do feitio de uma pluma. Escolhera-a, assim, para forrar-se ao sestro que, por vezes, lhe arrancava gritos, de meter no ouvido a canet, quando hesitava em alguma frase. A letra, lançada com rapidez e desembaraço, era larga e clara. Corrigia pouco.

Pompéia era um cinzelador. Aluísio trabalhava com o camartello. Um contentava-se com o camafeu; o outro queria o monumental. Sonhava um grande livro de ação, com vastas e densas massas humanas.

Quando falava do Germinal, ele que era de poucos entusiasmos, tinha assomos e, passeando ao longo da sala, a recordar episódios, parava, a instante, e, com o cachimbo entre os dentes, tracejava descritivamente no espaço a marcha dos mineiros de Montseu, a luta no fundo da mina, a morte do cavalo Bataille.

Lia pouco “por falta de tempo”. O seu livro era a sua época, tendo por páginas os dias, com o texto que eram os episódios e ilustrações da natureza.

Levantava-se muito cedo, entre as seis e as sete, descia para o banho frio, tomava uma xícara de café, que ele mesmo fazia, à machina, acendia o cachimbo e, metido em um robe de chambre ramalhudo, ficava um instante à janela, lagarteando ao sol, a olhar distraidamente a azáfama das locomotivas, que iam e vinham compondo os comboios e as figuras arrepeladas das mulheres da vizinhança, que faziam compras à janela, discutindo com os quitandeiros. E achava interessante o trecho da rua Formosa, a dois passos do muro da Estrada de Ferro, que parecia uma passagem de trapiche carvoeiro, tão negra era a lama que o empestava.

Quem quiser conhecer a casa onde vivi com o romancista alguns dos melhores dias (e também alguns dos mais aperreados) da minha mocidade, procure-a no capítulo II d’A Conquista.

II

Aluísio foi “boêmio” à força. Contam-se inúmeros episódios da sua vida (na maioria falsos) desde a sua chegada ao Rio, onde estreou como desenhista no Mequetrefe, posto que já viesse com a láurea do romancista, que lhe granjeara O Mulato, publicado no Maranhão.

Tinha mais orgulho do lápis do que da pena e a qualquer dos seus romances preferia uma tela de figuras hirtas, um monte de cadáveres entre casas, de uma rua estreita, debaixo de um céu cor de zinco, que se intitulava pomposamente A Barricada, e que Paula Ney apelidara “A segunda passagem do Mar Vermelho”. Ele costumava dizer, com lástima: “Que se fizera romancista, não por pendor, mas por se haver convencido da impossibilidade de seguir a sua vocação, que era a pintura. Quando escrevo, pinto mentalmente. Primeiro desenho os meus romances, depois redijo-os”.

Lins de Albuquerque, sempre ácido, quando se referia a Aluísio, com quem não simpatizava, dizia: “É um Eugênio Fromentin... brochado”.

Sem honorários certos, vivia como jornalista e, se conseguia soma apreciável, tratava de “pôr-se em dia”. Ia ao alfaiate, ao sapateiro, provia-se de roupa branca, saldava dívidas, pagava-se um bom jantar e guardava o restante para trabalhar algum tempo sem a preocupação do ventre. Nos dias de inópia, que eram freqüentes, ficava sombrio, enfezado, mas não se insurgia contra o meio:

“Não, o povo não tem culpa. O culpado sou eu, que quis realizar o absurdo de viver das letras em um país de analfabetos. Aqui há um pequeno grupo de pedantes, que lêem autores franceses, há a gente do comércio que lê a tabela de câmbio e a pauta da Alfândega, o resto ignaro. Já agora continuarei a escrever, porque não sei fazer outra coisa. Se eu não tivesse abandonado, com desprezo, os tamancos e a vassoura, seria hoje um conceituado capitalista, com prédios, família, talvez título e uma adega. Sou romancista, expoente da cultura brasileira e não tenho crédito para uma ceia de iscas. Os jornais pagam os romances a 100 réis a linha, os empresários pagam as peças a 10$ por ato. Quando tenho um romance em rodapé ou uma comédia em cartaz, os meus credores exultam. Mas isso é raro”.

Como era belo e forte e dono de uns olhos negros admiráveis, Vênus perseguia-o. Ele não era misógino, mas, se a deusa o procurava em horas de trabalho ou, se o importunava com ciúmes, despedia-se sem saudade e sacudia-se contente dentro do robe de chambre de ramagens, sorvendo, a largo fôlego, o ar livre da independência.

Quando foi nomeado arquivista no Estado do Rio, na administração Portela, estabeleceu uma norma de vida calma, com orçamento parco, quase avaro, depositando mensalmente as sobras na Caixa Econômica para formar uma “base de fortuna”. A revolução arrasou-lhe os castelos e o romancista reapareceu, recorrendo ao Garnier e aos jornais.

Um dia explodiu a notícia da sua nomeação para o consulado. Encontrei-o na rua do Ouvidor e, abraçando-o, felicitei-o e às letras, porque, com a vida garantida, a sua pena correria desembaraçada e ligeira, dando-nos os primores que tínhamos o direito de esperar do seu talento. Ele encarou-me e disse com azedume:

– Que! romances, contos?... Estás doido? Vou ser cônsul, e nada mais. De literatura estou farto. Achas que sofri pouco? Vou viver um bocado, gosar a vida a relógio, almoçando e jantando a horas certas e dormindo sem a preocupação do credor. Romances e contos?... Só se eu tivesse a sorte grande da Espanha. Ainda assim... não sei.

– Pois sim! retruquei-lhe incrédulo. E despedimo-nos. Ele foi para o seu consulado. Passaram-se anos.

Uma noite encontrei-o na Avenida. Chegara de Gênova, entediado. Entramos na Brahma, e, abancados diante duma garrafa de Caxambu, recordamos os dias vividos na casa da rua Formosa, e os meus ensaios literários:

– Devo-te o método, meu caro Aluísio.

– Pois olha, preferia que me devesse outra coisa. Que diabo lucraste tu com o tal método? Tens alguma coisa? Uma casa, apólices, dinheiro no banco? Tens livros. Que é isso? Tu és um dos meus grandes remorsos. Se me não houvesses encontrado, vindo morar comigo e adquirindo, por contágio, a minha mania, não terias deixado S. Paulo e serias hoje, quem sabe lá, um advogado com escritório famoso ou magistrado, aí pelas alturas do Supremo. Que diabo é autor de livros? É pouco, meu velho. Livros entre nós, só os de cheques.

– E tu? Que tens feito?

– Eu? Escrevi umas coisas sobre o Japão. Não sei. Talvez um dia apareçam... Mas, ouve cá: A casa em que moras é tua?

– Não.

– Ele pigarreou grosso, acendeu um charuto, e, encarando-me com um ar muito superior, disse-me, batendo no ombro: Isso é mau... Já devias ter comprado a casa. Tens filhos? E levantou-se.

Despedimo-nos. Tive a impressão de que aquele homem não era Aluisio, o meu companheiro na casa da rua Formosa. Não era. Voltei-me no bonde: Ele ainda lá estava à porta da Brahma, com o charuto empinado, os olhos piscos, indiferente a tudo que o cercava. Não... Aquele não era Aluísio... E, durante toda a viagem, fui pensando no romancista de O Coruja, tão diferente daquele homem que eu deixara à porta da Brahma com um grande charuto nos dentes e... sei lá! Mas onde e de que teria morrido o grande escritor?
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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