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Edição 163

ALUÍSIO AZEVEDO POR ALUÍSIO AZEVEDO

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Data de Publicação: 19 de outubro de 2007
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A propósito da miséria econômica do escritor

Veja-se bem: mesmo em 1884, três anos após lançar o romance O mulato, a situação econômica de Aluísio Azevedo não oferecia melhores perspectivas. Trechos de carta do escritor a Afonso Celso comprovam tal afirmativa, a propósito de um pedido de emprego:

“Rio, 25 de novembro de 1884.

Aquela minha pretensão sobre o Asilo de Meninos Desvalidos, há três anos que me foge da frente e, se eu não abrir mão disso e cuidar de outra coisa, creio que irei parar, mas é no Asilo dos Doidos ou no de Mendicidade.

É para evitar semelhante catástrofe que venho pedir a tua proteção. Há certos lugares, certos cargos, certos empregos, dos quais só os próprios políticos têm notícias, quando eles ainda se acham vagos, e que, ao transpirarem cá fora, ao caírem no conhecimento do público, vêm logo com uma mulher bonita, escoltada por um enxame de cobiçosos e guardados à vista pelo feliz mortal que mereceu a preferência e já traz a nomeação no bolso.

Ora, dessa forma, só fazendo como neste momento faço: vindo a ti e pedindo-te que, logo que te passe pelos olhos um desses cargos, lhe ponhas a mão em cima e me atires com ele, que eu o receberei com melhor vontade do que a de um náufrago ao receber uma tábua de salvação. Repito: seja lá o que for, tudo serve, contanto que eu não tenha de fabricar Mistérios da Tijuca e possa escrever Casa de Pensão.

Talvez te pareça feio e até ridículo o que acabo de fazer; não sei, mas, desnorteado como estou, sôfrego por acentuar esta maldita existência de boêmio que já se me vai tornando insuportável, agarro-me a ti, por julgar-te mais perto de mim e mais apto do que outro qualquer, para compreender a sinceridade e o desespero do que estou dizendo. Se com isso desmereço a teus olhos e me faço ainda menor do que era, paciência! Lançarei mais esse desastre na minha grande adição dos prejuízos deste ano.

E então ainda me resta pedir que me perdoes e ter-te eu azoinado os ouvidos, à laia de carcamanos, com esta espécie de farandolagem de harpa e rabeca, justamente quando te achas em pleno gozo da tua lua-de-mel.

Teu amigo sincero

Aluísio Azevedo”

Este é o quadro, isto é, o drama existencial dos verdadeiros escritores, sempre relegados ao desemprego ou a sub-empregos, destronados pelos pistolões das Oligarquias, que os têm por incômodo e os tratam com não menos medrosa indiferença. Basta um olhar sobre o painel da Literatura Brasileira ou Mundial, para se ter a verdadeira dimensão do preço que pagaram certos escritores por suas fortes convicções de sobreporem a dignidade ao orgulho e à luxuria de quantos perderam o escrúpulo e sobrenadam em falência moral

EM SÍNTESE

Coelho Neto recolhera, igualmente, declarações muito semelhantes de Aluísio Azevedo:

[...] Escrever para quê? Para quem? Não temos público. Uma edição de dois mil exemplares leva anos a esgotar-se e o nosso pensamento, por mais original e ousado que seja, jamais se livrará no espaço amplo: veja entre as grades desta gaiola estreita, que é a celebrada língua dos nossos maiores. Camões, se houvesse escrito em francês, o poema típico do Renascimento não seria a Divina Comédia e sim Os Lusíadas.

E o que é, em verdade, essa obra-prima? O monumento de um povo, quando podia ser o padrão de toda uma era, tão só porque foi fundida no metal pesado e tão arrevesso à cinzeladura que só presta, quando muito, a obra de machamartilho. Escrever para quê? Para quem? Semeia-se a mão fartas, mas o solo, quando não é pedregoso, é de mato bravio e a sementeira mirra ao abandono ou parece sufocada: indiferença ou analfabetismo. Dão-me as letras para viver, mas eu é que sei como vivo! Digo-te apenas que no dia que, aliás, não espero - em que conseguisse alguma coisa que me garantisse o teto e a mesa, deixava de mão a pena, papel e tinta e todas essas burundangas, que só têm servido para incompatibilizar-me com o clero, a nobreza e o povo. De letras estou até aqui! Os editores enriquecem como fazendeiros: às custas dos escravos. O Garnier, por exemplo: dizem-me que viveu só para o livro durante todo o período de sua gestação.[...]

UM PERFIL DO ROMANCE EM 1882

Auto-retrato de um narrador coerente

1. “É preciso ir dando à coisa em pequenas doses, paulatinamente: um pouco de enredo de vez em quando; uma ou outra situação dramática de espaço a espaço, para engordar, mas sem nunca esquecer o verdadeiro ponto de partida a observação e o respeito à verdade. Depois, as doses de Romantismo irão diminuindo gradualmente, enquanto que as de Naturalismo se irão desenvolvendo; até que um belo dia, sem que o leitor o sinta, esteja completamente habituado ao romance de pura observação do estudo de caracteres”.

2. “No Brasil, quem se propuser escrever romances consecutivos tem fatalmente de lutar com grandes obstáculos – é a disparidade que há entre a massa enorme de leitores e a de pequeno grupo de críticos. Os leitores estão em 1820, em pleno Romantismo, querem o belo enredo, a ação, o movimento; os críticos, porém, acompanham a evolução do romance moderno em França e exigem que o romancista siga as pegadas de Zola e Daudet. Ponson du Terrail é o ideal daqueles; para estes, Flaubert é o grande mestre.”

3. “...entendemos que, semelhantes contingências, o melhor partido a seguir era conciliar as duas escolas, de modo a agradar ao mesmo tempo ao paladar do público e ao paladar dos críticos; até que se consiga por uma vez o que ainda há pouco dissemos – impor o romance naturalista. Mas, enquanto não chegarmos a esse belo posto, voamos limpando o caminho com as nossas produções híbridas, para que as mais felizes, que por ventura venham depois, já o encontrem desobstruído e fraco”.

(AZEVEDO, Aluísio. O Mistério da Tijuca, 1882)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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