Data de Publicação: 28 de dezembro de 2006
Por: Dinacy CorrêaComo se estarão processando, nos dias atuais, aqui em São Luís, na Casa das Minas e na de Nagô, os festejos natalinos, incluindo o Presépio, a festa de Reis e a Queimação das palhinhas? Tudo ainda acontece como quando no transe dos anos 70/80 (e por toda a década de 80 séc. XX, p/p)? – tempos de Dona Amélia, Mãe Dudu... Vale a pena recordar? Bom, já dizia o filósofo/antropólogo Arno Kreutz2 : “não existe povo mais infeliz do que aquele que não possui História.” Se não podemos (nem devemos) perder a conexão com o passado; e se recordar é viver, revivamos, pois, aqueles natais de outrora, nestas evocações...
Na Casa das Minas (Rua São Pantaleão): dia de Reis – presépio todo iluminado e decorado com rosas vermelhasUma das primeiras Casa de Culto (Mina-Gêgi) estabelecidas aqui na nossa capital, a Casa das Minas, “uma Irmandade que nunca pode terminar, é tradição provinda das africanas, há mais de um século” (para lembrar Dona Amélia Vieira3 ). Ali é armado, anualmente, o presépio natalino, também por tradição africana. “Não é que seja por motivo de promessa, mas porque faz parte do círculo de devoções da Casa, como uma das obrigações da Irmandade, nas Festas de Reis” (idem).
No tempo em que o flagramos, em observação participante, o presépio instalava-se sobre uma alta plataforma de madeira (tipo um estrado) que se adaptava perfeitamente a um dos cantos da varanda (à direitas de quem entrasse). Cenário de fazenda (pintado por um professor), estendendo-se pelas duas paredes, em ângulo, galhos de murta configurando a gruta, palmeiras de ariri dos lados, enfeitando a entrada, chão de areia, sobre o qual se dispunham as figuras. Não apresentava o costumeiro céu de lençol branco, mas o próprio cenário avançava para a frente, no formato de uma casinha, evocando a cidade de Belém (onde nasceu o pão da vida), com palmeiras típicas e camelos compondo a paisagem.
Durante a novena do Natal, após o tambor, incluindo as danças e os rituais da Irmandade, a também tradicional ladainha era rezada/cantada em latim e, na abertura, no dia de Reis e no encerramento, acompanhada de música de orquestra. “Vem muita gente. É um festejo. Tem mesas de doce, mingau de milho, guaraná, bebidas... para agradar as visitas – mas nada de álcool; só bebidas decentes, como vinho, refrigerantes e refrescos” (ainda as palavras de Dona Amélia).
A festa de Reis, a 06 de janeiro (coincidindo com o aniversário natalício da líder Mina-Gêge), deflagrava-se com o presépio todo iluminado e decorado com rosas vermelhas. Após a ladainha, o incenso queimando nos turíbulos e sendo espargido pelo ambiente, os tambores vibravam, em batuques ritualísticos apropriados e a casa ia transpirando uma atmosfera mágica, transbordando uma alegria discreta, respeitosa, religiosa.
Interessante, majestoso, mesmo, de ver, nesse dia: a líder Mina-Gêgi, a aniversariante, em traje de gala (vestido em seda brilhante, azul-claro, mangas compridas e bufantes, cruzado por uma toalha branca, bordada em labirinto, chale vermelho nos ombros, colares, muitos colares, broxe no peito estampando a imagem de São Jorge e, na mão direita, um bastão encimado por uma cara de cavalo), toda sorrisos, a receber os cumprimentos, os abraços, dos(as) amigos(as) e dos membros da Irmandade. De quando em quando, postava-se, frente ao altar, a entoar um ponto, inspirado pelo seu guia. O cabelo, extremamente branco, a expressão suave, a veste ritualística, os colares... tudo parecia acentuar nela, mais ainda, aquela, digamos, transparência aurática de doçura, de pureza... Convidando a todos para o jantar, oferecendo vinho aos convivas, Dona Amélia era a bondade em pessoa e, naquele momento, como que personificava a fada madrinha da Irmandade (para nós que a víamos pela primeira vez...).
No presépio, dois Meninos Jesus, em roupinhas cor-de-rosa, rendadas, de pé, em posição altaneira, braços elevados, como imperando sobre o mundo.
– Dona Amélia, por que dois Meninos no presépio?
– Ora, porque nós temos dois. E é o dia deles, não é? Então, se bota todos dois no presépio...
A sala enchendo-se de visitas... A anfitriã obsequiando a todos, com simpatia... A banda de música (ALCINDO BÍLIO, sob a regência do Sr. Vital), reunindo seus músicos, aguardando a chegada do maestro... E aqui, uma pausa para ouvir o Senhor Luís Carlos, um dos integrantes do conjunto, manifestando-se:
“Sou músico. Toco em ladainhas, festas de igreja, acompanho procissões, desde os 12 anos de idade. Estou com 424 ! Olhe, aqui, antigamente, era “assim”, de presépio. Todas as casas faziam. Hoje em dia, já decaiu, mas ainda se faz muito. Aqui, em São Luís, se arma presépio, ainda, em todos os bairros, da Estrada de Ribamar ao Centro da cidade. Até no São Francisco, Coheb do Sacavém, Radional, Caratatiua... Tudo! Todos os Terreiros daqui armam presépios! O Terreiro Fé, Esperança e Caridade (Estrada de Ribamar), O Terreiro Jorge Babalaô (Fé em Deus) o Terreiro Fantin (Cruzeiro do Anil)... E tantos outros por aí, por onde a gente vai tocar com a orquestra de Seu Vital. O presépio é um símbolo do Natal. Uma adoração que se faz em honra ao Filho de Deus. E não vai acabar, enquanto existirem os homens de fé. O verde das murtas e do ariri representa as matas do Brasil. Sabe, na minha casa (Rua Cândido Ribeiro), armamos o presépio todos os anos. Até porque sou católico fervoroso. Hei de morrer em cima daquele harmônio da Igreja de São Pantaleão, onde toco com minha filha (também pianista), nas missas”.
A Queimação das Palhinhas, na Casa das Minas, se dava a 19 de janeiro. Ladainha ao som da orquestra (de Seu Vital)... A Irmandade toda de branco, colares multicores, em duas filas, bailando frente ao presépio, entoando o Canto de Despedida5 . O Menino, então, era retirado do presépio, e reconduzido (solenemente) para o altar-mor, na sala de honra da Casa. Vestido de roupinha nova!! “Sim, porque, pelo Natal, ele tá nuzinho, no presépio. Pelo ano novo já deve tá vestidinho, de roupa nova e de pé. Porque nasceu, sabe como é, tava deitadinho; por anos, já deve tá empezinho!” (Dona Amélia). “E quem faz a roupinha dele sou eu”... (Dona Antonia).
O altar supra referido (na sala da frente), suntuoso, guarnecia-se de seda vermelha e branca, bordada com fios dourados, toalhas com as iniciais JHS (lembrando as do altares católicos) e com muitas imagens de santos (Nossa Senhora da Conceição, de Fátima, São Sebastião, São Cosme e Damião, Santo Expedito, Santa Bárbara... Um dos Meninos Jesus, ausente, estava “para encarnar”, na casa de um santeiro). Na parede, o retrato de Mãe Andreza, ancestral chefe Mina-Gêgi: anciã, vestido branco, de renda, saia rodada, ostentando o seu cachimbo.
As irmãs Mina-Gêgi viviam em regime de comunidade, onde se congregam muitas famílias, domiciliadas em pequenas casas, agrupadas em volta do grande pátio interno (nos fundos) da Casa. Ou mesmo no interior da Casa Grande, imensa, dotada de muitos quartos e salas. “Aqui todos trabalhamos e nos ajudamos uns aos outros” (Dona Amélia).
“Somos criadas na lei. Para nós, fazer o presépio é uma alegria. Não se pode fazer mesmo um festejo de cara amarrada... O presépio não acaba nunca, enquanto o mundo existir” (devotas da Casa).
Na casa de Nagô (Rua Cândido Ribeiro): a Estrela sobressaindo-se, no alto e o Menino deitado sobre manjeronaÀ época, sob a liderança da venerável Mãe Dudu (que residia na Roma Velha – por trás da Igreja da Conceição, no Monte Castelo), a Casa de Nagô também era (ainda é) adepta do presépio natalino que, conforme o flagrante, também seguia o estilo popular, erguendo-se no canto do salão, que se enfeitava de bandeirinhas multicores. Lapinha de murta, palmeiras de ariri, chão de areia... tudo como no da Casa das Minas, mas sobressaindo-se, a Estrela, no alto. Ladainha, só na abertura e no encerramento do ciclo. Orquestra, só na Queima. – que, segundo a descrição de Dona Maria Silva (integrante da Comunidade, respondendo temporariamente por Mãe Dudu, na direção da Casa), processava-se desta forma: “um bocado de murta (desfazendo-se a lapinha) é colocado numa bacia e jogado para queimar, no fogareiro”.
O Menino Jesus, na Casa de Nagô, deitava-se numa caminha (à guisa de manjedoura?) forrada com ramos de manjerona. No dia de anos, também, trocava de roupa, estreando uma veste nova, e ficava, também, depois da noite de Natal, de pé no meio da Cena. E tinha padrinhos e madrinhas. “Ano passado foram quatro e eu fui uma das madrinhas. Porque os padrinhos do ano seguinte são escolhidos antecipadamente na ocasião da Queima. Então, dos quatro padrinhos de cada ano, dois têm que ficar para o outro ano” (idem).
O ritual, era assim: “a Madrinha recebe o Menino na toalha branca e o padrinho recebe a vela. Enquanto vão queimando as palhinhas, vão fazendo aquelas mesuras, de acordo com o cântico (entoado em conjunto, ao som da orquestra – o velho conhecido Canto de Despedida). No fim, palmas e foguetes estrondando” (idem).
No altar, configurando uma igrejinha, flores em abundância, toalhas brancas, rendadas... E também muitas representações de santos, os mais populares, Bárbara, Luzia, Sebastião, Benedito, Francisco de Assis... cada qual festejado no seu respectivo dia. Como o da Casa das Minas, o presépio da Casa de Nagô integra as obrigações da Irmandade, numa homenagem ao Menino Jesus.
E para nos certificarmos, para podermos responder à indagação do início, que tal uma esticadinha pela Casa das Minas e de Nagô, agora, pela temporada, para conferir como vão as coisas por ali, após 26, 27 anos ... Vamos lá?
1 - Excerto de Os presépios (pesquisa inédita da articulista). Programa Bolsa de Trabalho-Arte.São Luís: MEC/UFMA, 1979/80
2 - Professor da UFMA.
3 - uma das responsáveis pela Casa, juntamente com Dona Celeste Maria dos Santos.
4 Isto foi por volta de 1980, por ai. Conte-se de lá para cá. Se ainda estiver vivo, Seu L.C. deve estar com 66, 67 anos.
5 - o mesmo citado por Ascenso Ferreira em Presépios e pastoris (1943) e por Pereira da Costa em Folclore pernambucano (s/d)- Próximo texto:
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