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Edição 148

Fotógrafo suíço revela ao mundo as belezas de Alcântara

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Data de Publicação: 28 de dezembro de 2006
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Tão Linge / Tão Perto

Situada a 22 quilômetros de São Luís, a velha Alcântara não é mais aquela cidade que se tornou conhecida apenas por suas ruínas e pela imponência de seus casarões aristocráticos. Hoje, Alcântara é o retrato vivo de uma contradição permanente e cotidiana: a simplicidade da vida rural e a proximidade com uma das mais modernas bases espaciais do mundo. Este contraste, em imagens em preto e branco, é o mote de uma grande exposição sobre o Brasil que deverá ser realizada na Europa, em junho de 2007, pelo fotógrafo suíço Barnabás Bosshart. Paralelamente à exposição fotográfica, que terá abertura na Suíça, o fotógrafo lançará um livro, em alemão, com uma síntese dos três projetos que, entre os anos de 1980 e 2005, ele desenvolveu no Brasil.

Intitulado Barnabás Bosshart: Três Mundos – Imagens do Brasil, o livro do fotógrafo suíço, que já vive há mais de 25 anos no Maranhão, retrata pessoas de Alcântara, entre 1980 e 1986; faz uma panorâmica de periferias do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, entre 1991 e 1993; e enfoca ainda uma tribo indígena – canela apanyekra – de cerca de 600 índios que sobrevive nos confins da cidade de Barra do Corda, no Maranhão. Os originais do livro, que terá cerca de 240 páginas com 130 fotografias, encontram-se na Suíça há um ano e meio e estão em processo de edição, sendo transformados em uma obra magnífica pela Fundação Suíça para a Fotografia, entidade patrocinadora da publicação. “Vai ser um livro muito bonito”, afirma Barnabás Bosshart.

Visivelmente emocionado, ele repassa algumas de suas fotografias, todas em preto e branco, e lembra que foi em 1973 que, por acaso, pôs os pés em São Luís e em Alcântara pela primeira vez. Na época, ele morava em Londres, tinha 26 anos e trabalhava como fotógrafo de moda na Inglaterra. Na época, a velha e histórica cidade de Alcântara, defronte de São Luís, era uma cidade isolada, cheia de ruínas e absolutamente ignorada pelos turistas. Ele conta que, por acaso, fez um agradável passeio pelas ruas da primitiva Tapuitapera, e desde então ficou fascinado por Alcântara.

A idéia de Barnabás Bosshart é lançar o livro na Europa, em alemão, em 2007 e, depois, fazer uma edição em língua portuguesa, que terá lançamento com uma exposição fotográfica, no Brasil, em 2008. Em síntese, pode-se dizer que as fotografias de Bosshart mostram que São Luís e Alcântara se miram, há séculos, através do líquido espelho da Baía de São Marcos. Bosshart faz questão de frisar que foi por acaso que, há 33 anos, desembarcou no Maranhão. “Como sempre, as melhores coisas da minha vida aconteceram por acaso.”

Magia e encanto em preto e branco

Residindo entre São Luís e Alcântara há mais de 25 anos, o fotógrafo suíço Barnabás Bosshart, nascido em 1947, publica reportagens, mundialmente, em revistas, catálogos e livros. Seu acervo particular reúne inúmeras fotografias em preto e branco e coloridas de mais de 45 países. Bosshart costuma dizer que chegou ao Maranhão por acaso, sendo que fez por aqui duas exposições, uma no Museu Histórico de Alcântara e outra no Museu Histórico e Artístico do Maranhão, em São Luís.

No Museu de Arte de São Paulo (Masp), expôs uma retrospectiva de 20 anos de fotografia, sob o olhar de Pietro Maria Bardi, fundador do mais antigo Museu do país que, àquela época, já reconhecia a fotografia como expressão de arte. Pesquisador e documentarista, Bosshart revela que Charlhes de Foret Friedricks, um americano de New York, foi o primeiro a fotografar São Luís, sete anos após a invenção da fotografia, em 1847, coisa de que o Maranhão parece ter total desconhecimento. “A fotografia do Maranhão dessa época não existe mais”, lamenta Bosshart, relatando a história de um Museu que incendiou em Nova York e que o pouco acervo que restou foi parar em mãos de particulares.

Um outro fotógrafo, que teria residido no Maranhão por volta de 1896, foi Gaudêncio R. da Cunha, autor de álbum sobre o Estado, intitulado 1908. “Deste sobraram apenas os positivos, os negativos sumiram ou se perderam”, volta a lamentar o fotógrafo suiço. Bosshart teve a chance de mostrar o “retrato do Maranhão” pelo mundo todo: suas fotos chegaram à China, Brasil, Portugal, França, Inglaterra. “Mas é um mundo muito distante, muito longe da realidade européia”, ao falar sobre a reação dos europeus diante de exposições fotográficas sobre o Maranhão.

Bosshart considera o seu como sendo um trabalho de reportagem documental. Para ele a fotografia em preto e branco tem muito poder de transmitir uma realidade, quando vista por olhos sensíveis. E revela que em qualquer museu do mundo, somente a fotografia em preto e branco é considerada como arte, porque representa a melhor linguagem da fotografia. A foto em preto e branco mostra o carimbo do fotógrafo, coisa bem mais difícil de decifrar em fotos coloridas. “Se você não tem olho, você não consegue. Câmera não faz nada, filme não faz nada”, afirma.

Bosshart, que também realizou um trabalho sobre a violência na periferia do Rio de Janeiro, orgulha-se de ter fotos suas na coleção de Joaquim Paiva.

A história da chegada de Barnabás Bosshart a Alcânatra é contada por ele mesmo na introdução de um de seus livros. Em 1973, o fotógrafo comprou em Londres um mapa da América do Sul e começou a pensar em atravessar o Atlântico de navio. Um mês mais tare, em julho, partia de Antuérpia/Bélgica, um grande cargueiro com ele a bordo. Após 10 dias de viagem, ancoravam em Recife, no Nordeste do Brasil. Naquele mesmo mês, passou ocasionalmente em Alcântara. Era o único estrangeiro num barco a vela, que transportava carvão de lenha de São Luís para Tapuitapera, ou Alcântara, cruzando as águas bravias das baía de São Marcos. “Tapuitapera fora outrora uma importante aldeia Tupy”, ele conta. “Após a conquista pelos portugueses passou a chamar-se Alcântara, palavra de origem árabe que significa ponte.”

Em Alcântara, o fotógrafo ficou dois dias e duas noites, caminhando pela paisagem suavemente montanhosa e se encantando com a hospitalidade das pessoas e com a doçura da natureza, conforme descreve. Bosshart fala de intermináveis praias de areias brancas ofuscando-se no contraste entre o céu anilado do Equador e as espumas do mar verde-azul. No mercado da cidade – ele conta – vendiam-se viçosas flores tropicais, frutas mil, incontáveis peixes. Somente em 1981 Bosshart volta a São Luís e Alcântara e, novamente, fica emocionado ante a beleza, a magia, o silêncio do lugar, as pessoas e as coisas que via e sentia à sua volta. Ficaria em Alcântara 10 meses, pintando pequenas aquarelas abstratas, mas sem fotografar quase nada. “Apenas observava de longe, não desejava inquietar os moradores com a minha máquina fotográfica. Sim, eu era um invasor e estava consciente da minha delicada posição”, considera.

A partir daí, Bosshart voltaria todos os anos para visitar os alcantarenses e só, quando se concretizou a notícia de que a Aeronáutica ia construir ali um centro de lançamento de foguetes, tomou a decisão de fotografar os alcantarenses. “Em parte talvez por saber que lhes daria os retratos de presente em troca da sua confiança e sua paciência”, afirma. Em julho de 1986, organiza uma exposição de fotografias com 60 retratos de alcantarenses e algumas fotos de paisagens. Interessantes são as reações tipo: “Cadê o meu retrato?”, ou: “Por favor, retire o meu retrato, está todo mundo dizendo que estou horrível nele”, ou ainda: “Sou eu mesma essa daí?”

Como a comprovar que seu trabalho é muito mais uma reportagem documental, que apenas fotografia, Bosshart afirma: “O salto do passado para o presente é violento. O choque cultural é forte. Alguns chamam isso de progresso e desenvolvimento. Mas para a maioria dos moradores predomina o lado negativo das mudanças. O seu estilo de vida tradicional não é respeitado. Alguns pescadores abandonaram a pesca, para trabalhar numa construtora perto dali, onde podem ganhar um pouco mais. Isso numa vila que vive basicamente da pesca de peixes e camarões. A importação de filés de peixe congelado com 34 graus à sombra, já é realidade.”

Pouco a pouco vão desaparecendo as manifestações culturais, como as festas e cultos, a barganha natural de produtos, o artesanato, a confecção de redes e de remos. A população continua sendo mal informada sobre o que vai acontecer com a sua cidade. Não há diálogo entre ela e os diversos invasores. Os alcantarenses ficam privados da oportunidade de se desenvolverem à sua maneira. Pouco a pouco vão sendo expulsos da cidade e envolvidos novamente numa forma de escravidão, desta vez não pelos portugueses, mas pelos tecnocratas do século XX.

Mas esta, Bosshart, é uma história que ainda haveremos de contar por muito tempo e já estamos contando agora!
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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