Data de Publicação: 13 de dezembro de 2006
Por: Alberico CarneiroQuando Vinicius de Moraes fez a sua opção profissional pela Música Popular Brasileira, e isso aconteceu nos anos de 1950, sua carreira de poeta estava em franca ascensão.
Com exceção do Livro de Sonetos, obra publicada em 1957, Novos Poemas II, 1959; O Mergulhador, 1965 e A Arca de Noé, 1970, o melhor de sua obra poética, do ponto de vista formal, já havia sido publicado. Entre essas obras incluem-se O caminho para a distância, 1933; Forma e Exegese, 1935; Ariana, a Mulher, 1936;Novos Poemas, 1938; Cinco Elegias, 1943 e Poemas, Sonetos e Baladas, 1946.
Amigo de poetas do nível de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, ele havia-se tornado um poeta tão competente e aceito pela crítica oficial acadêmica que, quando decidiu pela MPB, não foi mirado com bons olhos nem pela “Alta Sociedade”, nem pelos seus próprios pares, nem pela crítica oficial acadêmica e nem pelo Itamarati. Por que? Porque ele já se tornara uma das referências daquela geração de 1945, a do Neomodernismo, que pretendeu restaurar o poema metrificado e voltar à prática do poema bem comportado, resgatando o bom moço literário, daquele tipo de recém-saído dos conhecimentos acadêmicos. A crítica oficial não queria abrir mão dele.
Ora, a partir da decisão de Vinícius de Moraes de se tornar uma espécie de referência às avessas em relação ao que até então fizera e de, ao contrário, assumir a condição de porta-voz da MPB dentro dos círculos literários de então e divulgá-la no Brasil e no Mundo, ele pôs as carreiras de literato e de diplomata em jogo e em risco. Daí por diante, o poeta que, segundo a crítica, havia vindo para cantar o amor, conforme Camões cantara, foi tirado do pedestal e começaram a cognominá-lo depreciativamente de poetinha, só porque se recusou a continuar produzindo textos poéticos em linguagem acadêmica.
Mas Vinicius de Moraes cantou como ninguém, no Brasil, a mulher amada, em seus poemas. E não só a mulher amada, mas o amor em sua plenitude, não na linguagem da época de Camões, mas na linguagem de todos os tempos, deixando de lado o conceito clássico do amor perfeito e imortalizando o amor humano, “eterno enquanto dure.”
Em 1956, ele deu início na MPB àquele gênero de poema, em que o poeta representa o “eu-poético feminino”, prática depois desenvolvida com bastante sucesso por Chico Buarque de Holanda. Vinícius de Moraes, naquela época, já dizia,
[...]“Não se surpreende se outra mulher nascer em mim/ como no deserto uma flor,/ pois o ciúme é o perfume do amor”
O ponto alto da decisão de Vinicius de Moraes foi principalmente porque ele obrigou, com sua atitude, à crítica acadêmica brasileira prestar atenção no que dizia respeito ao trabalho criativo daqueles que estavam comprometidos com a MPB. Ele obrigou a crítica, os poetas, a sociedade e os compositores a olharem para trás e para o presente com vistas no futuro.
A despeito das críticas, Vinicius de Moraes rompeu com tudo e com todos, passando por cima e ao largo de preconceitos e hipocrisias, apostando numa poesia que unisse o clássico ao popular.
O exemplo mais expressivo dessa atitude foi a peça teatral Orfeu da Conceição (Orfeu Negro, título cinematográfico), em que o mito clássico se identifica e encarna em um negro do Morro do Rio de Janeiro. Ele fez uma leitura do mito clássico de um ponto de vista da desconstrução ou do pressuposto irônico e contraditório, de sorte que a paródia que ele faz a Orfeu e Eurídice começa por desmistifica e desmitificar o preconceito, ao criar um Orfeu Negro.
E foi dessa busca de um diálogo entre o Vinicius de Moraes intelectual, escritor, homem culto e humanista com os compositores populares, com o público, nos shows, com as massas populares, que começou, timidamente, a ser ouvida pelo Brasil a linguagem mesclada da MPB, mescla de popular e erudita.
Daí por que, Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes foi a composição escolhida para representar o momento de transição entre o samba-canção e a bossa-nova. A partir daí o sofrimento, pedra-de-toque do samba e do samba-canção passa a ser evocado com o tempero do otimismo, depois da dor; da esperança, depois da malograda paixão. A dor de cotovelo passou a ter sempre uma consolação no remate.
A partir de Vinicius de Moraes, sofrer deixou de ser desperdício e a ter suas compensações. E as pessoas começaram a tirar proveito da própria desgraça, dando a volta por cima, buscando enxugar as lágrimas na euforia. Isso se tornou típico do carioca, um rótulo dos que sabem bem viver.
Vinicius de Moraes pontificava, “É melhor viver que ser feliz.” “É melhor ser alegre que ser triste”. São bons slogans, consolam e confortam. Afinal, ser feliz só na aparência, é melhor viver.
O que vale, ao final, é a consciência de um poeta que soube, em seu tempo, ousar romper com uma tradição secular, e demonstrar, na prática, que estava certo.
Na realidade, o melhor poeta Vinícius de Moraes está na bossa-nova ou então ainda estamos muito distante do entendimento que Safo, VII séculos a.C, teve sobre o que seja poesia. Seus poemas, ela os musicava, para cantá-los ao som de instrumento de corda, a liria.
Sem dúvida, Vinicius de Moraes reassumiu a missão do mito de Orfeu, misto de poeta, músico e cantor, transpondo-o, na prática, para o espírito do brasileiro.
Como profissional e cidadão do mundo em nome da MPB, Vinícius de Moraes reaproximou o povo da poesia do poema, da música, do teatro e do cinema.
DepoimentosCaetano Veloso“Eu passei o ano de 1976 no Rio de Janeiro, morando em Guadalupe. Esse ano é crucial na história de todas as pessoas envolvidas na modernização da música popular brasileira, que se deu logo a seguir. E é o ano de Orfeu da Conceição. Eu via, às vezes, no jornal e ouvia repetidas vezes na rádio o nome de Vinícius de Moraes, ligado a esse belo projeto que eu imaginava de longe como uma coisa bonita. E aquela música, e aquele poeta que tinha escrito aquele espetáculo com aqueles negros, com aquele elenco negro. E eu vi na televisão um sujeito dando uma entrevista sobre o espetáculo Orfeu. Era o Haroldo Costa, que participava do elenco. E eu pensei que ele era Vinícius de Moraes. E eu voltei para a Bahia. Eu voltei pro Santo Amaro, em 1957. Eu me lembro, conversando com amigos meus de minha idade, já com 14 anos. E aí falou-se diversas vezes no nome de Vinícius de Moraes. Eu disse assim:‘É, ele é genial, esse cara é um poeta negro do Rio de Janeiro, que eu vi na televisão, que fez esse espetáculo.’ Eu passei alguns anos pensando que Vinícius de Moraes era preto. Anos depois eu vim ouvir da boca do próprio Vinícius de Moraes a frase: ‘Eu, Vinícius de Moraes, o branco mais negro do Brasil’ ou será ‘o branco mais preto do Brasil?”
v v v v“A virada na questão de letra de música promovida pelo Vinícius de Moraes, no momento da Bossa Nova, realmente é crucial. Agora, é preciso também entender que ela só se fez assim tão abrangentemente importante, porque ele a fez atento à tradição da letra de música popular brasileira. Coisa que ele amava desde sempre, e que conhecia bem.
Ricardo Blat e Camila MorgadoO mito de Orfeu é lido por Vinícius de Moraes numa favela do Rio de Janeiro e mostra uma verdade profunda do próprio Vinícius que, desde a infância, se formou no cruzamento entre o erudito e o popular.
Vinícius viu, na história de amor de Orfeu da Conceição, uma tragédia carioca. O semideus grego, que com sua lira tocava o coração dos bichos e criava nos seres a doçura e o apaziguamento, virou um sambista do Morro. (Releitura com desconstrução).
Para Orfeu da Conceição, Vinícius queria uma música que fosse o encontro de uma cultura refinada e erudita com as raízes populares do samba e da batucada.
A peça, na época, foi adaptada para o cinema com o nome de Orfeu Negro. Ganhou a Palma de Ouro, em Cannes e mostrou ao mundo a música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
v v v vRio 1950“Nos anos 50, o Rio de Janeiro era uma cidade cheia de novidades, ouvia-se muito samba-canção nos bares de Copacabana, compravam-se automóveis modernos, descobria-se a televisão; os discos long-play giravam 33 rotações por minuto. Muito mais veloz girava a vida na cidade. Tudo se renovava na capital do país – o cinema, o teatro, a moda, até a maneira das pessoas caminharem nas ruas parecia mais leve. Nesse clima de tantas coisas novas, Vinícius começou a virar uma referência. Era o poeta que se tinha aproximado do samba; o diplomata que fazia canções; o cidadão do mundo que conhecia tudo que a cidade começava a descobrir.
v v v v“O Ministério das Relações Exteriores não gostava nem um pouco de ver um diplomata de copo na mão, cantando num palco. Impunha limites: além do paletó e gravata obrigatórios, ele não podia receber um tostão para cantar. Assim, a vida de Vinícius sempre foi cheia de contratempos. De um lado, a rotina do diplomata; do outro, o poeta apaixonado.99
O diplomata fazia coisas que assombravam seus colegas e que, para o poeta, eram absolutamente naturais.”
Edu Lobo(Nasce a Bossa-Nova)“Eu lembro exatamente onde eu escutei pela primeira vez Chega de Saudade. Eu estava em Recife e eu fiquei completamente paralisado. Era uma coisa absolutamente estranha, completamente nova, quer dizer, tudo era novo, a música era completamente nova, o canto era completamente novo. Nunca tinha visto ninguém cantar daquela maneira e tinha um violão que também ninguém tocava daquele jeito. Não se fazia música daquela maneira. E quando eu falo música, eu falo uma canção completa, com estrutura harmônica. Era tudo novo.”
v v v v“A primeira vez que Vinícius cantou, me lembro, ele teve até problemas com o Itamarati. Ele era obrigado a cantar de terno e gravata e ele se queixava muito disso.”
Chico Buarque“O pessoal mais velho, uma boa parte, não gostava que Vinícius andasse metido com música popular. Preferia que ele tivesse permanecido aquele poeta que ele era, não gostava disso. E, quem gostava por gostar de Vinícius, na verdade, não gostava de bossa-nova, demorou a engolir aquilo. Foi duro.
“Antes de Chega de Saudade e depois de Chega de Saudade era outra coisa, outro assunto. ‘Vem cá, que história é essa de Chega de Saudade?’ Aí eu falei: ‘Papai, me dá um dinheiro que eu vou comprar o disco do Vinícius de Moraes.’ Era o disco do João Gilberto cantando Chega de Saudade, de Tom e Vinícius.
Eu não sabia, na época, quem era Tom Jobim. Ninguém sabia quem era João Gilberto e nem Vinicius era muito conhecido. Era uma música que tocava em uma ou outra rádio, naquelas rádios que garoto ouvia.
Gilberto Gil“Fiquei louco por aquilo tudo, aquele jeito, aquela poesia toda, ao mesmo tempo clássica, e falando de coisas tão comuns, do dia-a-dia, mas com uma elegância tão poeticamente nova e tal. Foi isso, Chega de Saudade mudou minha vida.”
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