Data de Publicação: 13 de dezembro de 2006
Por: Manoel Santos NetoA vida e a obra de João Francisco Lisboa nos 200 anos da imprensa brasileiraUm grego nascido e criado nas históricas margens do soberbo Itapicuru – João Francisco Lisboa (1812-1863) – poderá ser um dos grandes personagens das celebrações dos 200 anos da imprensa brasileira, que acontecerão em todo o País, em 2008. Mas este resgate vai depender não apenas da boa vontade de estudiosos e pesquisadores. O bicentenário da imprensa brasileira será uma excelente oportunidade para que, mediante o esforço de entidades civis, órgãos oficiais e da iniciativa privada, sejam reeditados e reabilitados os grandes jornalistas que construíram a história da imprensa no Brasil.
Nascido e criado no Maranhão, numa época de grande produção intelectual, o escritor, político, jornalista e historiador João Lisboa celebrizou-se ao escrever algumas das mais vivas análises sobre a realidade política e histórica do nosso país. Em Jornal de Timon, o percuciente exame crítico das eleições na Antigüidade e no Maranhão situa-o como um dos nossos grandes historiadores. Esta edição trata das eleições em Esparta e Atenas, em Roma, na Idade-Média e, nos tempos modernos, na Inglaterra, França e Turquia. No que toca ao Brasil, João Lisboa analisa as eleições no Maranhão, seus partidos, os eleitores e todo o processo para levar a cabo esta que é uma das mais expressivas manifestações da democracia.
Por ocasião das celebrações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, João Lisboa, “um grego nascido e criado nas históricas margens do soberbo Itapicuru”, como ele se apresenta no primeiro número do seu Jornal de Timon, foi esquecido e acabou sendo ignorado dentre os grandes intérpretes da brasilidade. Eis que 2008 será a grande oportunidade não apenas de reabilitar João Lisboa, como também de fazer uma releitura da trajetória da imprensa do Maranhão, desde os seus primórdios, na primeira metade do século XIX.
A duras penas, a imprensa maranhense – uma das pioneiras do Brasil – vem tendo a sua história exumada. O resgate do passado do jornalismo impresso vem se materializando, ultimamente, por meio do esforço de pesquisadores que, apesar de enormes dificuldades, se propõem a descortinar esta intrincada trajetória.
A safra das pesquisas recentes sobre o assunto começou com Os Primeiros Jornais do Maranhão, trabalho do professor Clóvis Ramos, editado em 1986. No ano de 1987, o escritor Nascimento Moraes Filho publicou uma pesquisa sobre Estevão Rafael de Carvalho, acompanhada de um fac-símile do jornal O Bem-Te-Vi. O advogado e jornalista Sebastião Jorge não ficou atrás. Aproveitou a comemoração do 21º aniversário de fundação da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em outubro de 1987, para publicar Os Primeiros Passos da Imprensa no Maranhão. Essas obras surgiram como que para compensar o descompasso das pesquisas, pois até então o trabalho mais “atualizado” - História da Imprensa do Maranhão, do professor Antônio Lopes – datava de 1959.
Depois de publicar sua pesquisa acerca dos 20 primeiros anos da imprensa maranhense (1821-1841), Sebastião Jorge, ainda na condição de professor do Departamento de Comunicação Social da UFMA, começou a preparar-se para outro mergulho na controvertida história dos jornais e jornalistas que marcaram com sua presença o século XIX. Municiado de um farto material coletado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, Sebastião Jorge concluiu mais um levantamento, abrangendo o período de 1842 a 1852, e logo em seguida estendeu seus estudos, para cobrir todo o século XIX com sua pesquisa.
O limiar da imprensaA imprensa, no Maranhão, surgiu na primeira metade do século XIX, mais precisamente no ano de 1821, quando apareceu o Conciliador do Maranhão, jornal subvencionado pelo então governador Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca. À época, graças ao próspero comércio de escravos e ao trabalho dos cativos nos engenhos, o Maranhão era o quarto Estado em importância econômica no Brasil. E foi, também, o quarto Estado a ter sua imprensa. O primeiro foi o Rio, com a Gazeta do Rio de Janeiro, editada em 1808, logo após a chegada de Dom João VI ao Brasil; depois foi a Bahia, Minas Gerais e o Maranhão.
De acordo com pesquisas recentes, antes que o Conciliador aparecesse impresso, circularam 34 números manuscritos, a partir de 15 de abril de 1821. Este periódico era favorável à Constituição portuguesa, defendendo o seu cumprimento à risca e recomendando fidelidade às ordens emanadas de Portugal. Por essa razão, afirma o professor Clóvis Ramos, o Conciliador “não cumpriu seu propósito de conciliar, unir, e mais dividiu o povo maranhense, de ânimos exacerbados pelas lutas políticas”. Dirimindo controvérsias de outros pesquisadores, Sebastião Jorge esclarece que o Conciliador apareceu impresso, pela primeira vez, a 15 de novembro de 1821. Redigido por Antônio Marques da Costa Soares e pelo padre José Antônio da Cruz Ferreira Tesinho, o Conciliador, de estilo às vezes agressivo e infamante, não teve adversários até 1824.
Na opinião de Clóvis Ramos, autor de Os Primeiros Jornais do Maranhão, “nos primeiros anos de nossa imprensa, não se fez senão política. Os jornalistas ou foram porta-vozes dos dominantes portugueses, desejosos de manter suas posições, o colonialismo, ou teceram armas pelas liberdades constitucionais, querendo a libertação da pátria de todo vínculo de além-mar”. O livro de Sebastião Jorge revela que os outros jornais publicados, depois de o Conciliador, eram medíocres e alheios aos nossos problemas. Mas, em 1825, surge o primeiro jornal editado por um maranhense e voltado exclusivamente para os nossos interesses. Trata-se do periódico de Manuel Odorico Mendes (o Argos da Lei), que não esperou muito para ter um temível adversário: o português Garcia de Abranches, com o seu jornal O Censor Maranhense. Nasce, desse modo, a imprensa polêmica do Maranhão.
Garcia de Abranches (1769-1845), um abastado negociante e agricultor, dono de fazendas de gado e proprietário de muitos escravos, produziu, curiosamente, textos que revelam a violência e a crueldade da escravatura no Maranhão. Depois de O Censor Maranhense, vieram periódicos ligados a nomes ilustres como o de José Cândido de Moraes e Silva (1807-1832), João Francisco Lisboa (1812-1863), Odorico Mendes (1799-1864), Estêvão Rafael de Carvalho (1808-1846), Sotero dos Reis e outros, que se imortalizariam na história do jornalismo maranhense.
José Cândido de Moraes e Silva – Chefiou a Setembrada, em São Luís, e fundou o Farol Maranhense, considerado o primeiro jornal liberal do Maranhão. “Um grande jornalista, panfletário brilhante, agressivo”, segundo Sebastião Jorge, que acrescenta: “O que se reivindica hoje para a realidade brasileira, José Cândido já defendia naquela época. Propugnava pelo respeito à cidadania, à lei, à Constituição; queria que o Brasil se desligasse definitivamente e rompesse todos os laços com Portugal”. Com a morte de José Cândido, João Lisboa o substitui no comando de O Farol Maranhense.
Manuel Odorico Mendes – Estudou na Universidade de Coimbra e iniciou-se em Portugal na carreira das letras em 1816. Poeta, tradutor e jornalista, implantou o Argos da Lei, primeiro jornal maranhense a discutir as grandes questões nacionais. E que defendia única e exclusivamente os interesses contra os portugueses que pretendiam um Brasil eternamente colonial e escravocrata.
Estêvão Rafael de Carvalho – Fundou o Bem-Te-Vi, jornal elaborado numa linguagem popularesca, às vezes um tanto agressiva, que contribuiu para a eclosão da revolta conhecida como Balaiada. Na visão de Sebastião Jorge, o periódico do século XIX que, do ponto de vista jornalístico, mais repercutiu na opinião pública e talvez tenha sido uma pequena manifestação do que hoje se chama de cultura de massa, ou dentro de um público eclético, foi sem dúvida o Bem-Te-Vi. Apesar de sua tiragem não chegar a 500 exemplares, muitos historiadores consideram o Bem-Te-Vi o jornal que mais teve ressonância na opinião pública da época.
Difícil de ser esquecida, também, é a figura de João Francisco Lisboa, apontado pelo professor Antônio Lopes como o maior jornalista maranhense. Consagrado pela posteridade, João Lisboa tornou-se, de fato, com sua fecunda militância na imprensa, numa das mais relevantes personalidades da cultura maranhense. Fundou O Brasileiro, em 1832 e continuou a publicação de O Farol Maranhense, jornal de José Cândido de Moraes e Silva, considerado um dos mais famosos da História do Maranhão.
Incluído entre as figuras primordiais da história da imprensa, João Lisboa, antes mesmo dos 20 anos de idade, foi, segundo Antônio Lopes, um apóstolo da liberdade. E mais: “somente Rui Barbosa elevou, na imprensa, tão alto quanto ele, a Língua Portuguesa, de que é Lisboa um dos mais preclaros escritores, um dos clássicos mais estimados pela limpidez, elegância, casticidade, propriedade e eloqüência de seu estilo”.
João Lisboa e outros grandes jornalistas existiram numa época em que o Maranhão vivia sob intensa agitação política e social. A Setembrada, em 1831; a Balaiada, entre 1838 e 1841; a relutância em aderir à Independência; os embates entre os partidos Conservador, o dos cabanos; e o Liberal, o dos bem-te-vis. Neste contexto, o jornalismo impresso experimenta no Maranhão uma fase de grande efervescência, produzindo páginas memoráveis cuja história, somente agora, sob o alento de novas pesquisas, começa a receber o tratamento que merece.
Uma estátua e uma praça para o maior jornalista do MaranhãoA Praça João Lisboa (velho Largo do Carmo) é tida como o coração da cidade, que se celebrizou com um notável lastro de história, desde remotos relatos como os de Claude d’Abbeville e Ribeiro do Amaral. Esta praça também ficou famosa por ter sido, durante muito tempo, o largo antigo onde grupos de pessoas se reuniam todas as tardes para comentar a vida da cidade. Era lá também que os intelectuais costumavam se encontrar à noite para discutir arte, literatura e política.
O escritor Domingos Vieira Filho (1924-1981) recorda com nostalgia, no livro Breve História das Ruas de São Luís, que a Praça João Lisboa, “povoada de sombra espessa, dadivosa, fresca, aprazível, com bancos terminando os encostos laterais em cabeças de carneiros modeladas em cimento e gesso, era o coração, a alma, o centro nervoso da cidade, onde funcionava um poderoso mecanismo de censura social, cadinho maravilhoso e infalível.”
A História registra que foi no Largo do Carmo que se travou, em 1643, o memorável combate entre os holandeses invasores comandados por Anderson e a tropa do português Antônio Teixeira de Melo. O Convento do Carmo, que pertencia à ordem dos carmelitas e depois passou para o controle dos capuchinhos, serviu de abrigo para portugueses durante a expulsão dos holandeses. Com escadaria em pedra de cantaria, o Convento do Carmo data de 1627 e foi construído graças à doação das terras feita por Alexandre de Moura aos frades carmelitas, que chegaram em São Luís, em 1615.
No pavimento térreo do Convento do Carmo, funcionou o Liceu Maranhense, criado em 1838 no governo do presidente Vicente Tomás Pires de Figueiredo Camargo, cujo primeiro diretor foi Francisco Sotero dos Reis (1800-1871). Juntamente com a Igreja do Carmo, o Convento é considerado um dos mais perfeitos conjuntos arquitetônicos da época colonial, em São Luís, é administrado desde 1894 pelos padres capuchinhos e – vale lembrar – que este Convento também foi a primeira sede da Biblioteca Pública Benedito Leite, inaugurada no início de maio de 1831. No interior do Convento, encontram-se sepultados vários bispos e padres que ali serviram e atualmente avulta, em frente à Igreja do Carmo, o busto do Frei Carlos Roveda de S. Martino Olearo (1852-1931), fundador da Missão Capuchinha no Norte e Nordeste do Brasil.
O Largo do Carmo dá acesso ao Beco da Pacotilha - ou Beco do Quebra-Bunda – por ter sido instalado lá, por algum tempo, o grande jornal A Pacotilha, de Vitor Lobato, em um prédio de azulejos verdes que ainda existe até hoje e era propriedade do Barão de Coroatá. Além do prédio da velha Pacotilha, lá havia uma coluna de mármore que dominava a praça, quase em frente ao Convento do Carmo: era alta, elegante, de base retangular, subindo para o capitel em feixes espiralados. Esta coluna de mármore era o Pelourinho de São Luís, erguido para o castigo público dos negros cativos.
Segundo César Marques (1826-1900), o famoso dicionarista da História do Maranhão, este pelourinho – célebre instrumento utilizado pelos feitores para castigar pretos que se rebelavam – foi inaugurado no dia 30 de setembro de 1815, quando dois escravos foram surrados, mesmo depois de já terem sido vergalhados na cela da Cadeia Pública, porque ainda traziam no dorso e nos braços as marcas de lapadas recentes.
De acordo com César Marques, os escravos eram amarrados à coluna, de bunda de fora, para serem açoitados, configurando uma cena pungente em pleno Largo do Carmo, defronte da Rua da Paz, no Centro Histórico de São Luís. Lá avultava a espiral de mármore do pelourinho, que fora destruído vandalicamente pelo povo, por ocasião da Proclamação da República, em novembro de 1889.
O escritor Dunshee de Abranches (1867-1941), cronista da velha cidade, com as ruas em ladeira, os mirantes de azulejos, os telhados escuros, as grades de ferro das sacadas, os lampiões nas esquinas, recorda, no seu prestimoso livro de memórias, de imagens marcantes como a de negros presos ao pelourinho, de mãos e pés atados.
Foi através da Resolução nº 14, de 28 de julho de 1901, que o histórico Largo do Carmo passou a ser denominado Praça João Lisboa, em homenagem à memória do grande mestre do jornalismo do Maranhão. O escritor Domingos Vieira Filho conta que, no antigo largo, João Francisco Lisboa (1812-1863) residiu por muitos anos. “Da janela de seu sobrado viu desfilar muitas vezes a vida da cidade. Há de se ter inspirado no velho logradouro para recompor com ânimo isento e exatidão documental lances heróicos da história maranhense aí vividos em mais de uma ocasião.”
O escritor Viriato Correia (1884-1967) foi quem fez, como deputado estadual, o projeto de lei mandando erigir uma estátua ao ilustre maranhense que, além de jornalista, foi crítico, historiador, orador e político. A Lei estadual nº 582, de 24 de abril de 1911, autorizou o governo a abrir os créditos necessários ao levantamento da estátua, inaugurada solenemente no dia 1º de janeiro de 1918, com discursos proferidos pelo professor Ribeiro do Amaral, pelo intendente Clodomir Cardoso, pelos acadêmicos Alfredo de Assis e Domingos Barbosa e pelo cônsul Fran Paxeco.
- Próximo texto:
- Edição 147 Poesia da MPB (IV) - Chega de Saudade
- Texto Anterior:
- Edição 147 Poesia da MPB (IV) - Chega de Saudade
- Índice da edição - Ano V