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Edição 147

Poesia da MPB (IV) - Chega de Saudade

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Data de Publicação: 13 de dezembro de 2006
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Raríssimos são os diretores de cinema que, em nossos dias hiper-modernos, leiam-se líquidos, gozam de tanta autoridade e solidez, para possuírem em seu próprio nome uma marca. Pedro Almodóvar, sem sombra de dúvida, é um deles, como outrora eram os nomes de Bergman, Fellini e Hitchcock, autores de filmes, cujos traços peculiares podem ser identificados, sem muito esforço, em qualquer altura da narrativa.

Idolatrado por uma ‘legião estrangeira’ de fãs, – digo estrangeira, porque é diversa, alienígena – que acompanham seus filmes desde o início dos anos 80 (trash eighties!), onde imperava o niilismo, o nonsense da ‘movida madrileña’ , movimento cultural undergroud que, como o próprio nome sugere, ocorreu numa Madrid pós- franquista onde os intelectuais (ou não, como bem diria aqui o Caetano.) produziam esquizofrenicamente filmes com orçamentos pra lá de precários, peças de teatro, fotonovelas, revistas e muchas otras cositas más... A cultura estava em efervescência e a liberdade era celebrada, após anos a fio de um regime ditatorial, e domínio da igreja católica, com sua moral ultrapassada, que não conseguia mais atrair fiéis sob o pretexto de oferecer como prêmio a uma vida regrada e reprimida, uma vida além túmulo, eterna. Tudo o que importava era o aqui e o agora, e eu reconheço que isso é muito nietzschiano. Isto posto, pode-se ver que era impossível controlar a libido desse povo em fúria.

Nesse contexto, surge o cinema de Almodóvar, com todo o excesso que lhe é permitido, e nesses primeiros filmes, podemos ver a fluidez da hiper-modernidade: o vazio, o nada, a crise de gênero, o sexo, as experiências com drogas, o imediatismo, enfim, a subjetividade. Tudo isso, aliado a uma estrutura fílmica psicanalítica, que se constitui numa verdadeira celebração da obsessão, do desejo.

O cinema visceral de Almodóvar também tem como traço marcante a miscelânea de gêneros, transitando por vários deles numa mesma película com maestria. E para arrematar, um toque da estética kitsch, esbanjando cores e formas extravagantes nos figurinos, acessórios, objetos de cena e até mesmo nas personagens. São exemplares dessa época ‘Labirinto de paixões’ e ‘Maus hábitos’, mais adiante ‘A Lei do desejo’, ‘O que eu fiz para merecer isso?’, ‘Kika’, ‘Matador’, ‘Ata-me’, ‘De salto alto’, ‘Mulheres à beira de um ataque de nervos’.

Com o passar do tempo, Almodóvar foi ficando gradativamente, mais refinado, com suas tramas e roteiros mais elaborados, contudo, sem se deslocar quer de seus temas recorrentes, quer de suas cores peculiares, adquirindo experiência e projetando seu nome junto ao dos mais geniais diretores da história da sétima arte. São dessa fase de transição filmes como: ‘A flor do meu segredo’, ‘Carne trêmula’, ‘Tudo sobre minha mãe’, ‘Fale com ela’. Bem como os mais recentes ‘Má educação’ e ‘Volver’

VOLVER

Volver é um título que inclui várias voltas para Almodóvar, volta ao gênero da comédia, volta ao universo feminino, à maternidade, volta da parceria com a talentosíssima atriz Carmem Maura, após um período de dezessete anos sem trabalharem juntos. E primordialmente volta às origens, pois a película está impregnada dos costumes do povo de uma região da Espanha conhecida como La Mancha, onde nasceu e cresceu.

Logo nos créditos de abertura nos deparamos com um mutirão de mulheres a limpar as sepulturas, entre elas, as protagonistas dessa história onde os vivos e os mortos precisam acertar as contas. É impressionante como vento que sopra com fúria no início da película vai ser também um personagem importante e percorrerá toda a narrativa, podemos vê-lo, escutá-lo, e ouvir as outras personagens falarem sobre ele, por isso, ele adquire também, o status de personagem.

Raimunda e Soledad são irmãs e perderam os pais num incêndio há alguns anos atrás e tentam continuar suas vidas frente a diversas adversidades. Soledad, bem mais frágil e meiga é uma cabeleireira e vive só. O nome por si, já diz muito sobre a personagem interpretada pela atriz Lola Deñas, pois soledad significa solidão. Sua irmã, Raimunda, interpretada por Penélope Cruz, ao contrário é uma mulher forte e determinada, que se divide entre vários (sub) empregos para poder criar sua filha adolescente e, enfim, sobreviver. Sendo dessa forma, um filme sobre três gerações de mulheres.

Conforme disse acima, Volver é uma volta de Almodóvar ao universo feminino e isso se confirma nos primeiros minutos da narrativa com o assassinato do único personagem masculino, que não era de forma alguma um referencial de valor, pois se tratava de um verdadeiro troglodita, daí por diante, as mulheres conduzem a narrativa com atuações exuberantes. É impressionante a garra e a solidariedade dessas mulheres que se cumprimentam com beijos estalados, e que compartilham da mesma realidade sofrida. Mais uma vez o diretor manchego retorna à poesia do cotidiano, a fazer do trivial, do ordinário um verdadeiro espetáculo bem diante dos olhos do espectador que é conduzido com maestria por diversos gêneros passando pelo suspense hitchcockiano, (e inclusive, há uma cena que remete diretamente ao clássico ‘Festim diabólico’ do mestre do suspense) comédia escrachada, melodrama, realismo mágico e neo-realismo. Realismo mágico porque é um filme de mortos que voltam, para acertar as contas com os vivos e esse espaço é muito bem delimitado, pois a ação da narrativa se divide entre o povoado, onde se encontram os mortos e a capital, onde pulsa a vida e esses espaços são separados por moinhos de vento, que aparecem sempre que alguma personagem se desloca de um para outro espaço narrativo. Mais uma vez, o vento se consolida como personagem, fazendo-se presente com o girar dos moinhos, propondo dessa forma, um diálogo com ‘Fale com ela’ um outro filme de Almodóvar, no qual onde os moinhos também apareciam, porém, nessa película, predominavam os personagens masculinos.

Volver também sugere uma discussão ética, pois Raimunda, num impulso de sobrevivência, se apossa do restaurante de um amigo, que o havia deixado sob seus cuidados. Ato que muito diz sobre a personagem, que age de maneira amoral (não imoral), pois age segundo a circunstância, tomando a vida (a manutenção da vida) como referencial e isso também é muito nietzschiano.

O ápice da narrativa é a volta da mãe de Raimunda e Soledad que precisam esclarecer assuntos do passado, de maneira que ambas se confrontam com antigos medos e são praticamente obrigadas a enfrentá-los. Essa suposta volta de Irene, mãe das duas personagens, acaba por instalar uma crítica ao espiritismo, pois os mortos não voltam mais. E que essa história de mortos interagindo com os vivos é apenas superstição do povo manchego e sua imaginação fértil, loucura, e porque não dizer genialidade? Almodóvar que o diga! Mas a culpa é desse maldito vento solano que deixa o povo manchego louco.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Volver
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 121 minutos
Ano (Espanha): 2006
Site: www.sonyclassics.com/volver
Estúdio: Canal+ España / El Deseo S.A. / TVE / Ministerio de Cultura
Distribuição: Sony Pictures Classics / Fox Film do Brasil
Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Produção: Esther García
Música: Alberto Iglesias
Fotografia: José Luis Alcaine
Desenho de Produção: Salvador Parra
Figurino: Sabine Daigeler
Edição: José Salcedo
Efeitos Especiais: El Ranchito

Elenco:
Penélope Cruz (Raimunda)
Carmen Maura (Avó Irene)
Lola Dueñas (Sole)
Blanca Portillo (Agustina)
Yohana Cobo (Paula)
Chus Lampreave (Tia Paula)
Antonio de la Torre (Paco)
Carlos Blanco (Emilio)
Maria Isabel Diaz (Regina)
Neus Sanz (Inês)
Carlos Garcia Cambero (Carlos)
Leandro Rivera (Auxiliar)
Yolanda Ramos (Apresentadora de TV)
Pilar Castro (Ajudante da apresentadora)
Agustín Almodóvar
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br