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Edição 135

O testemunho de vida e de fé de um sacerdote jesuíta

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Data de Publicação: 4 de julho de 2006
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Por Tudo, por Todos e por Tanto reconstrói a saga de um religioso iluminado

Por: Manoel Santos Neto

Uma cerimônia simples, mas carregada de simbolismo, marcou o lançamento, em São Luís, do livro assinado pelo padre espanhol jesuíta Luis Maria Lamamié de Clairacy y Alonso. A solenidade aconteceu na noite de 20 de junho passado, na área interna do Palácio Cristo Rei, na Praça Gonçalves Dias, onde se reuniu um seleto grupo de amigos, para prestigiar o lançamento da obra, que se trata de uma autobiografia do padre Luis Lamamié de Clairacy y Alonso.

Hoje com 83 anos de idade, padre Luis chegou ao Brasil em 1956. Em 1972, ele veio para o Maranhão onde, por oito anos, foi vigário da Igreja Nossa Senhora dos Remédios. O livro Por Tudo, por Todos e por Tanto... foi escrito para comemorar os 50 anos de sua chegada ao país.

Nas 244 páginas do livro, repleto de fotografias, o padre narra a trajetória de sua história, retratando a sua vida, desde sua infância, na casa onde nasceu, no dia 10 de junho de 1923, na bonita e famosa Plaza Mayor de Salamanca, desvendando segredos guardados no coração e que precisavam ser partilhados com os amigos.

A narrativa da vida do padre Luis Maria constitui uma experiência muito enriquecedora, revelando todo o seu desprendimento, sua generosidade e seu amor a Deus e aos irmãos. É, portanto, um livro que dá o testemunho de um homem feliz porque vive intensamente sua vida e vocação clerical sem perder o que tem de essencialmente humano.

Na orelha do livro, o padre Paulo D´Elboux diz que o padre Luís Maria é um jesuíta diferente, lembrando que os jesuítas foram sempre caracterizados como pessoas sérias, concentradas e austeras. Homens da ciência e do saber, soberanamente autônomos no seu mundo, como guardiões fiéis do precioso legado místico deixado pelo convertido oficial espanhol, Inácio de Loyola.

O padre Paulo D´Elboux acentua que, no caldeamento familiar da Península Ibérica, matizado pelos traços elegantes de sua ascendência também francesa, o padre Luís Maria “tem nos olhos o brilho inocente do menino travesso com o inconfundível sotaque de sua terra natal.

O amor à vida, à natureza, às pessoas o fazem prolongar uma juventude que não conhece ocaso no bom humor que ameniza e na simplicidade que cativa. Por isso, Luís Maria é um padre diferente. Transparece no exercício do ministério a unção que transmite paz e confiança na imagem de um Deus amigo em sua acolhedora misericórdia. Por onde passa, vai arrastando uma multidão de amigos seduzidos pela simpatia do abraço que acolhe, pela palavra que anima, pela bênção que conforta”.

UM HOMEM DE LUTAS E DE ESPERANÇA

No livro, o padre Luís Maria recorda que, em fevereiro de 1972, o então arcebispo de São Luís, Dom João José da Motta e Albuquerque, o empossou como vigário da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios e que, durante vários dias, o padre Xavier Mick explicou-lhe a vida da Paróquia, seu funcionamento e seus compromissos. De 1972 a 1980, o padre trabalhou com uma clara opção pelos pobres e pelos jovens. “Descobri os pobres alagados na Travessa da Rua Nova, sobre o mangue. Comprei uma casinha nas palafitas e fiz um salão. O Centro Comunitário da Matriz se tornou a casa dos pobres. No grande galpão, fiz quatro salas”, recorda o padre.

Ele acentua ainda o trabalho que fez acompanhando os quatro Grupos de Jovens já existentes na Paróquia. “Formei e acompanhei um novo grupo de universitários de medicina: quase 50, que batizamos com o nome de “Poder Jovem”. Na área da comunicação, um jornalzinho semanal “Comunidade”. Foram 323 números, chegando a 2.000 exemplares semanais”.

Ao relatar as atividades sociais e educacionais da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, padre Luís Maria diz que gosta de pensar que sempre se encontra consigo mesmo no silêncio do interior do coração, no diálogo com o Pai e no serviço aos irmãos. “Sou um homem de esperança, porque acredito que Deus é novo a cada manhã. Porque o inesperado é norma da Providência. Porque acredito que o Espírito Santo continua sendo o Espírito criador que cada manhã dá a quem o acolhe uma nova liberdade e uma carga de gozo e confiança”.

Em tom enfático, o padre Luís Maria assinala que é um homem de esperança não por razões humanas ou por otimismo natural. “Mas simplesmente porque acredito que o Espírito Santo está agindo na Igreja e no mundo, ainda que não percebam. Sou um homem de esperança, porque sei que a História da Igreja é uma longa história cheia das maravilhas do Espírito Santo. Lembro-me dos Profetas e dos Santos que nos momentos difíceis foram instrumentos prodigiosos de graça, projetando sobre o caminho feixes de luz. Creio nas surpresas do Espírito Santo. João XXIII foi uma delas”.

O percurso do padre Luís Maria, embora marcado por permanente inquietação, jamais deixou de ser coerente com o sentimento de compaixão cristã frente à vida. Há sentimentos seletivos, como a amizade, mas a piedade é igualitária, lembra ele, justificando por que a vê como o sentimento humano por excelência. O único capaz de produzir a igualdade na fraternidade, a comunhão diante do mistério e da dor, a irmandade perante a adversidade e a luta. “Esperar é o meio para que o sonho se transforme em realidade. Ditosos os que se atrevem a sonhar, e estão dispostos a pagar o mais alto preço para que o sonho tome corpo na vida dos homens”, diz ele, para afastar qualquer dúvida sobre o que entende por compaixão: tanto quanto a esperança, outra de suas idéias fundamentais, a piedade é para o sacerdote jesuíta uma virtude ativa. Não deve haver nela resignação nem conformismo.

Esperança, luta e piedade, artigos da fé de que se nutre o padre, foram sua senha para o desafio de cumprir a sua missão. Ao longo de sua vida, poucos ousaram falar, e ninguém falou com o desassombro, a lucidez e a autoridade moral daquele espanhol de vida simples que fez opção pelo sacerdócio. “Nunca os santos se calaram”, recordava Pascal. Foi talvez com o conforto dessa lembrança que o padre Luís Maria sustentou corajosamente as bandeiras da liberdade e da justiça, que, juntamente com os preceitos da piedade, da esperança e da luta, comporiam o legado maior de sua lição de vida. Uma lição que se recebe num momento de dúvidas e perplexidades como jamais se experimentou antes, mas cujo significado pode ser exatamente o de mostrar que, ao final de cada nebulosa crise, se saberá construir um mudo novo e diferente.

“Que maravilha poder morrer sabendo que nossa passagem pelo mundo não foi inútil. Que melhorou meu coração e a vida de uma pessoa! Que bonita e fecunda a missão de meu sacerdócio de 50 anos”, afirma o padre Luís Maria lembrando que, numa das fases mais aguerridas de sua vida, projetou seus sonhos para o futuro da Igreja e da humanidade. E hoje ele celebra sua fé convencido de que não lutou em vão. Travou o bom combate, para materializar sua vocação, para edificar seu ministério e para propagar o louvor à palavra de Deus.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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