JORNALISMO QUE FAZ HISTÓRIA

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto
1 de julho de 2006

São Luís (MA)

Maio de 2000

JORNALISMO QUE FAZ HISTÓRIA

EDIÇÃO ESPECIAL 49 ANOS DO JP

Idealização e Coordenação: Alberico Carneiro e Josilda Bogéa Anchieta

Texto: Alberico Carneiro

Produção Visual Gráfica: M. P. Haickel e Wilson Dias (Caju)

Charges: Nilton e Wilson Dias (Caju)

Digitação: Marco Polo e Melquíades

Revisão: Equipe Técnica

Edição: H. M. Bogéa e Cia Ltda (Jornal Pequeno)

Fotolito: Estação Gráfica

Impressão: Jornal Pequeno

Fontes: Acervo da Biblioteca Pública Benedito Leite, Jornais: Jornal Pequeno, O Estado do Maranhão, Correio do Nordeste, Tribuna da Imprensa, O Combate.

Colaboradores: Cunha Santos Filho, Maria Tribuzi, Nascimento Morais Filho, Ademário Cavalcante, Hilda Bogéa, Ribamar Bogéa Filho, Ribamar Silva, Aquiles Emir, Othelino Nova Alves Filho, Jony Carlos F. Nascimento e Sebastião Anchieta .

Justificativa

Para comemorar o 49º aniversário de criação e fundação do Jornal Pequeno, concretização de um sonho do saudoso jornalista Ribamar Bogéa, o Zé Pequeno, a direção deste veículo de comunicação presta uma homenagem a alguns dos inúmeros jornalistas que, no século XX, contribuíram para a construção de uma imprensa livre, arrojada, útil e influíram para que o curso da História do Maranhão fosse melhorado.

Através desta homenagem póstuma, em Nascimento Morais, Erasmo Dias, Amaral Raposo, Lago Burnett, Bernardo Almeida, Bandeira Tribuzi, Ribamar Bogéa, Nonnato Masson, Carlos Cunha, Eyder Paes, Cunha Santos e Othelino Nova Alves, homenageamos, também, todos aqueles que, passados ao andar de cima, permanecem vivos no texto jornalístico e na memória dos maranhenses.

Jornal Pequeno: 49 Anos de Existência e Resistência

Jornalistas,

Convosco o povo se faz poder e

pode ser sujeito do próprio destino!

Prefácio

O Maranhão, pelas próprias circunstâncias históricas de sua fundação, pelos franceses, e colonização, pelos portugueses, foi assinalado para uma grande destinação, a de tornar-se berço de uma elite cultural de privilegiados monstros sagrados, estuários de grandes civilizações helênicas, a Grega e a Romana, possibilitando a construção, aqui e no século XIX, de uma Mesopotâmia cultural ou de uma Alexandria/Atenas, dentro do Brasil, como uma civilização à parte.

É sabido que, não raro, as ilhas-cidades são satélites, concentradoras de saberes, daí tornarem-se os locais propícios para o nascimento dos grandes mitos da Literatura e do Jornalismo. Assim foi em Ítaca e Colofon, ilhas que deram a atmosfera propícia para um Melesígenes ou Homero, a primeira grande expressão da escritura universal.

A Irlanda propiciaria um James Joyce, notável jornalista e escritor. São Luís, a ilha em que nasceram Odorico Mendes, Nascimento Morais e Erasmo Dias e onde houve o descortino vertiginoso da obra jornalística de João Francisco Lisboa.

A matriz desse jornalismo culto, e ao mesmo tempo polêmico, com base no ironicamente contraditório que permite a problematização (e não negação) da História, é o saber de inúmeros saberes.

Qual o mistério que envolve uma ilha-cidade, São Luís, que a tornou tão expressiva, ao ponto de titularem-na de Atenas Brasileira, mais pelo grande Jornalismo que pela Literatura, nos meados do século XIX? O helenismo, a helenização ou essa capacidade privilegiada e paradoxal à qual têm acesso certos escritores e jornalistas insulados ou antilhanos, de superarem o abismo dos oceanos com a centelha do processo alquímico, através da capacidade de dar, aos fatos e notícias mais simples, o sentido da universalidade.

Desse helenismo foram plasmados Odorico Mendes e João Lisboa, no século XIX, para não citar Sotero dos Reis. E essa tocha seria passada aos mestres Nascimento Morais e Erasmo Dias. E estes deixaram descendentes, alguns já passados ao andar de cima e outros ainda imprimindo pegadas nos textos. Nominá-los, excluiria o sabor da decifração aos estudantes. Descendentes e sobreviventes são o influxo da herança heráldica da cultura greco-romana, o que lhes possibilita sobreviverem para além da época em que viveram, os mortos a viverem nos textos.

A herança transmitida por Odorico Mendes tem por base os estudos na Universidade de Coimbra, mas o grande jornalismo polêmico criado por João Lisboa deve-se, em grande parte, à eloqüência retórica dos Sermões do padre Antônio Vieira.

Dessa cultura helenística que se distingue por dois traços marcantes, o conhecimento humanístico e o espírito combativo, polêmico que permitem o exercício da audácia, do arrojo, do desprendimento, da coragem, do desassombro, da inflexibilidade de caráter, nasceu a grande tribuna da imprensa maranhense que não usou e nem usa dois pesos e duas medidas. Daí por que, para celebrar o 49º aniversário de criação e fundação do Jornal Pequeno, pelo saudoso jornalista Ribamar Bogéa, a direção deste Órgão de Imprensa, através de Hilda, Lourival, Josilda, Ribamar, Luiz Antonio, Luiz Eduardo e Gutemberg, viúva e filhos, decidiu marcar a data com um Suplemento, que fosse ao mesmo tempo uma homenagem póstuma aos jornalistas do século XX, que possibilitaram ao povo tornar-se sujeito de seu próprio destino, e aos jornais combativos do Maranhão.

Após discussões e consultas, idas e vindas, houve um consenso na escolha definitiva dos jornalistas, dentre tantos, que resultou nos seguintes nomes: Nascimento Morais, Erasmo Dias, Amaral Raposo, Cunha Santos, Ribamar Bogéa, Bernardo Almeida, Eyder Paes, Bandeira Tribuzi, Othelino Nova Alves, Nonnato Masson, Lago Burnett e Carlos Cunha.

Neles, por eles ou através deles, o Jornal Pequeno e a família Bogéa homenageiam todos os demais jornalistas do século passado e deste, lembrados por quantos, lendo este Suplemento, exclamarem: “Estão faltando Fulano, Beltrano e Sicrano. Eles também são sobreviventes, pois, também conseguiram viver além do seu tempo, se projetando para o futuro.” Certo.

Temos a humildade de reconhecer que este trabalho é um opúsculo, que não tem a veleidade ou pretensão, senão de ser uma partícula do fio da meada, pois seria ignorância sequer cogitar ser este um trabalho completo, já que é, na área jornalística, apenas um furo, portanto um folheto pioneiro.

Temos conhecimento da grande pesquisa que se vem fazendo sobre a obra jornalística do Maranhão e, neste decênio, já foram publicadas algumas peças importantes desse imenso quebra-cabeças, cuja decifração final resultará do resgate nos arquivos e microfilmagens da Biblioteca Pública Benedito Leite, Arquivo Público e Acervos particulares de cada Jornal, dos muitos que existiram e existem no Maranhão.

Dentre os grandes pesquisadores do gênero, se inscrevem os intelectuais, escritores e/ou jornalistas e/ou professores Nauro Machado, Luís Mello, Jomar Moraes, Sebastião Jorge, Benedito Buzar, Nascimento Morais e Jorge Nascimento. A lista é expressiva.

Nauro Machado é autor das obras de pesquisa Erasmo Dias e Noites e 100 Artigos de Nascimento Morais. Recentemente, o professor, jornalista e escritor Sebastião Jorge fez editar mais um de seus livros sobre o jornalismo, Política Movida a paixão, cujo subtítulo é O Jornalismo polêmico de Odorico Mendes. O jornalista e escritor Benedito Buzar também lançou O Vitorinismo no Maranhão. Nascimento Morais Filho e Luiz Mello reúnem as obras completas do mestre Nascimento Morais.

Lembremo-nos com as sábias palavras de Nascimento Morais Filho. “Bogéa revolucionou o jornalismo no Maranhão. Foi o autêntico representante do grande jornalismo no Maranhão do século XX. O Jornal Pequeno é um jornal das massas populares. Veio para contrariar o jornalismo da classe média alta, impondo-se contra os jornais das conveniências; popular e em defesa dos menos favorecidos. É uma tribuna livre.”

Sim, até para dar leveza aos problemas do dia-a-dia, Bogéa criou as colunas satíricas e humorísticas de grande repercussão em todas as camadas sociais. A exemplo tivemos: Aula do Professor Borracheira, Língua de Trapo, Espírito de Porco e No cafezinho.

O espírito de O Argos da Lei, criado em 1925, por Odorico Mendes, não morreu. Sempre haverá os Garcias de Abranches e novos “censores maranhenses” para gerar polêmica. Lendo os jornalistas deste ensaio, temos a certeza disto.

Alberico Carneiro

São Luís, 25/05/2000

Nascimento Morais

Podemos dizer que foi a primeira grande bandeira do jornalismo combativo, no Maranhão do século XX.

Professor catedrático do Liceu Maranhense, foram seus alunos inúmeras figuras que atuaram e atuam no cenário político e jornalístico de nosso Estado, como José Sarney, Ferreira Gullar e Lago Burnett.

Nascimento Morais destacou-se, principalmente, pelo jornalismo polêmico e político, tendo uma concepção originalíssima sobre seus próprios posicionamentos e suas atitudes, quando confidenciou ao próprio filho, Nascimento Morais Filho, “Nós (ele e os que combatia) somos adversários, mas não inimigos.” E o mestre Nascimento Morais tinha uma estratégia eufemística infalível: quando tinha que criticar um Governador, não se dirigia a ele nunca, antes o atacava pela tangente, atacando e culpando alguém mais influente de seu secretariado.

Escritor, poeta, cronista, romancista e ensaísta, são da sua autoria os livros Neurose do Melo (ensaios), Vencidos e Degenerados (romance), dentre outros. Mas foi no jornalismo que teve o seu brilhantismo, em sua época. Destacam-se artigos como O Grande Polemista e O Rei das Multidões.

Nauro Machado reuniu substancial parte de sua obra jornalística, no livro 100 Artigos de Nascimento Morais. Sua biografia foi feita por Elina Campos, professora do Colégio Nascimento Morais.

Nascimento Morais nasceu em São Luís, no dia 19 de março de 1882. Em 1958, o professor Mário Meireles registrou sobre ele na Antologia da Academia Maranhense de Letras, “...jornalista vigoroso, de pena flamejante, mestre Nascimento é uma das últimas glórias do Maranhão do passado. Resistiu impávido ao tempo e, quase octogenário, ainda era equilibrado em seus conceitos, de estilo fluente, como bem demonstram as crônicas que até bem pouco escrevia para O Globo, sob o pseudônimo de Braz Sereno.”

Ter ocupado, na Academia Maranhense de Letras, a cadeira patroneada por João Lisboa, foi o melhor tributo que lhe prestaram. Nascimento Morais faleceu em São Luís, a 22 de fevereiro de 1958.

O grande polemista

(Nascimento Morais - Tribuna da Imprensa, 25/12/1929)

Li algures que Jesus saiu da escola dos iniciados, maravilha polemática do passado oriental, armado de uma ciência invencível, para o grande cometimento que o imortalizou. Soterrando uma Civilização, apagando na Terra o prestígio dos deuses, dos semideuses, que povoaram o Céu e para onde nunca mais subiram, ele se revelou, sem dúvida, profundo sabedor de coisas profundas que ainda hoje não são do domínio dos mais elevados expoentes, dos mais cultos povos do mundo, inacessíveis conhecimentos que as academias dos eruditos e os conciliábulos dos sábios até agora não conseguiram desvendar. E, se alguns, que se ciliciam intelectualmente tem, por vezes, ao fim de tenacíssimo labor espiritual e insubjugável concentração, procurando explicar os mistérios dessa inatingível ciência que lhe ensinaram os inesgotáveis mestre daquela escola, mumificada em vida, por uma férrea disciplina mental, nenhum deles conseguia praticá-la, nem tampouco ensaiá-la!

Pelo que, Jesus deve ser considerado pelas demonstrações que deixou de seu extraordinário merecimento, de sua prodigiosa superioridade, iluminado super-homem, individualidade marcante no poder da vontade, exemplar perfil de grandeza moral de uma energia, que conseguiu o máximo de sua força expansiva a um elevado potencial de sua vitalização criadora.

E por tudo quanto fez, e por tudo quanto ensinou, não é demais, seja hoje para todos os efeitos, rebrilhante e incomparável figura esotérica, sugestivo perfil de mago, envolto num esplendoroso halo de solenidades superespirituais – Deus que se fez homem, homem que se fez Deus!

Lendária e tradicional figura que os séculos admiram e respeitam, transubstanciação da matéria, Espiritualidade do Amor, Asa Branca da Paz, pairando sobre os tumultos da Vida, Jesus atravessará todas as Filosofias, todas as Dúvidas, todas as Objeções, todos os vendavais da Crítica, todas as selvas cerradas da Incredulidade e todos os infernais Abismos dos que, em todos os tempos, se desesperam impotentes, em desvendar os inacessíveis Segredos, os sombrios mistérios do Ser e do não Ser!

Mas eu que, quanto mais te leio, mais te sinto e menos te compreendo, mais te admiro e menos te conheço, mais te sigo e menos te obedeço, mais te pertenço e menos te encontro, eu, que para te ver, do vale da minha humildade, abstraio-me, concentrando-me, de Tua Grandeza Divina, fecho os olhos na tua Majestade que me confunde e me perturba, que me desmentaliza e ao mesmo tempo me multiplica pela minha própria individualidade, levitando-a através da sua fraqueza, eu nesta hora em que uma vez mais me arrojo a procurar-te, Verdade que és, por entre as névoas espessas do Erro, deparo apenas o teu másculo e augusto perfil de polemista.

Pregador e apóstolo, moralista e pedagogo, tu foste, sendo o que és, o maior polemista de todos os tempos.

A polêmica deu-te os primeiros triunfos, quando, nos prelúdios de tua inteligência, discutiste com os venerados doutores, que delinqüiam, perpetrando a impostura científica, com que, então, esmagavam o Direito e a Justiça.

Ao depois, homem feito, simulacro da matéria, ou que quer que fosses, atravessaste com o teu verbo em riste os espinheiros do ódio e os lodaçais da inveja. Controversista exímio defrontaste-te com todas as perfídias do teu tempo, erigidas pela falsa fé em práticas oficiais, costumes e usos de uma sociedade coberta de ignomínias e torpezas com que a lei vilipendiava as classes. A teu encontro vinham os casos, e de improviso, com a destreza própria dos articulistas flexíveis, possuidores de uma dialética exemplar, de uma lógica irrechaçavel, levantadas rápido as formidáveis teses com que destruístes uma moral envelhecida e elaboraste outra que de formosa que era, espantou os guardas das instituições legais e fez que tremessem no estrado do seu poderio, os grandes da Terra.

Teu processo literário, a parábola, manejada por ti, foi arma possante, arma de combate com que extirpaste dos sentimentos dos povos os mais cruentos pensadores da impiedade, da selvageria e da desumanidade.

Teus argumentos vibrados como látegos doíam mais que lançadas, penetravam mais que punhais, esmagavam mais que catapultas.

Dentro de tuas parábolas vivem diálogos tremendos, interrogações sarcásticas, condicionais, irônicas, com que levantavas dos rochedos nus da brutalidade a alma rude do povo que te cercava.

Dentro de tuas parábolas vivem símbolos supremos e eternos com que compuseste o caráter do homem, e fulminaste todos os vícios, que ainda hoje o deprimem e enegrecem, quando te desprezam, insensatos, as grandes lições que esculpiste com o leal, sincero e integral devotamento à causa por que te bateste e por que te sacrificaste.

Foste, és e serás sempre o maior dos polemistas. Porque, sem que ninguém o saiba, reuniste todos os superiores atributos de que necessitavas para te comunicares, de planos com o povo: simplicidade de estilo, elegante, sóbrio, e conciso; discreto, colorido, penetrante psicologia de teus ouvintes e extraordinário fulgor de imaginação!

Poderão naufragar todos os teus milagres, combatidos pela vilania dos que te negam e te discutem; poderão apagar-se todos os aspectos de teu martírio; poderão rir de tua beatitude, mas não soçobrarão jamais as tuas áureas páginas de combatente impertérrito, pois que a tua palavra apostolizaste um povo e revolucionaste o mundo.

E não soçobrarão porque, destro preliador de idéias e sentimentos, não te preocupou a minoria despótica dos que pelo orgulho, pelo interesse, pela riqueza e pelo mundo bem sabias que, convencidos, não se deixaram vencer, mas a grande maioria dos pequenos, dos desinteressados, dos pobres e dos fracos, que constituem a multidão dos que sofrem os horrores da fome, os tormentos das perseguições, os acicates do desconforto, as afrontas da injustiça. Do alto do teu engenho acometeste uma sociedade e não uma política para que, vinculados as classes e os indivíduos pelos inatacáveis princípios do Amor, da Paz, e do Perdão, de seu seio saísse uma Política restaurada pela Moral, e capaz de salvaguardar os interesses da Sociedade.

Não te dirigiste, por isso, à prepotência porque sabias que ela rui por si mesma, quando as multidões pela sua grandeza espiritual não a levantam, não a alimentam e não a toleram.

Ficarás, por isso, na história da Civilização, como o protótipo dos sábios, dos filósofos, dos literatos, unidade polimorfa de uma mentalidade poderosa, tríplice aspecto de engenho sem igual. Reconhecerão em ti, todas as gerações, de adeptos e de adversários, o Verbo Eloqüente destruidor e criador, a serviço de uma Construção Social.

Ficarás como a expressão única dessa síntese. Exemplar Polemista porque depois de ti, começou a interminável ronda de sofistas, à guisa de Evangelizadores, mas hipócritas como o polvo! Porque defendendo a Verdade e a Virtude, se fazem da cor das conveniências do tempo, e fecham os olhos ao Crime, e tapam os ouvidos ao clamor dos desgraçados.

E como poderão, Mestre, os opulentos Cresus, defender a pobreza e a humildade?

Como poderão os tiranos e os déspotas desfraldar, como lábaro benedito, o sagrado pendão da liberdade?

ERASMO DIAS

Erasmo Dias foi o nome literário e jornalístico que Erasmo de Fontoura Esteves Dias escolheu para registrar a sai imagem no texto e, através dele, permanecer vivo, após a morte.

Erasmo Dias nasceu em São Luís (MA) em 1916 e faleceu nesta cidade – ilha ainda sob o signo dos últimos cantares da helenização, em 15/05/1981.

Passou a infância e adolescência em Cururupu, MA.

Erasmo foi um escritor de estilo fluente, destacando-se como romancista, contista, ensaísta e crítico literário. Neste campo de domínio de conhecimento literário, do que não se perdeu, Nauro Machado resgatou-o na obra Erasmo Dias e Noites. Boêmio, a sua casa dos Apicuns, tornou-se um ponto de encontro de jornalistas, intelectuais, escritores e aspirantes às Letras.

Onde quer que estivesse, no bar, nas ruas, em restaurantes, na Academia Maranhense de Letras, em comícios, em casa, Erasmo era o mestre, capaz de transformar um simples bate-papo em verdadeira conferência, em aula sobre quaisquer assuntos em questão.

Membros da Academia Maranhense de Letras, na simples leitura do texto do romance Maria Arcângela, pode-se perceber onde poderia haver chegado esse romancista, mestre de obra romanesca que se dizia tão vasta, roubada ao baú do Erasmo que não teve nem a sorte do Erasmo de Roterdam, nem de Fernando Pessoa.

Do andar de cima, Erasmo acompanha a viagem dos seus textos adotados como filhos legítimos não se sabe por quem.

Santo de Pau

Erasmo Dias

(O Combate, 19/11/45)

Quando o sr. Clodomir Cardoso subiu as escadas do Palácio dos Leões, sabia-se, efetivamente, que a sua tarefa, ali, era fazer política. Sabia-se, com certeza, que ele, em servindo a sua terra, vinha a mando de Getúlio Vargas e, portanto, como parcela integrante do seu regime, que infelicitou a ação, nos dias tormentosos de 37 a 45.

Sabia-se que o então condutor dos destinos da terra maranhense era o mais moço dos delegados ditatoriais e, por conseguinte, o mais intrépido e o mais inescrupuloso dos brasileiros do Maranhão que, ao pisar na sua terra, pisou-a com máscara de Libertador, de supremo juiz das mais justas reivindicações. Sabia-se que o sr. Clodomir Cardoso era um enviado direto do Catete, um agente estadonovista, mas sabia-se que, no íntimo, Clodomir Cardoso era o grande defensor de tantas causas edificantes que quase sempre têm como marco simbólico grandes vultos da História. Não nos importava, a nós, que o ilustre jurista tivesse ascendido ao trono da política maranhense, alevantado pelos braços de bronze da Ditadura. Não nos importava porque Clodomir Cardoso estava firmado na consciência do seu povo e ninguém duvidaria da religião que lhe edificara, entre os que sempre admiraram o nome, o respeito a que faz juz um autêntico intérprete da Justiça e da Liberdade. Vimo-lo, muitas vezes, ameaçado pelo convívio perigoso do sr. Vitorino Freire. Vimo-lo, quantas vezes, seduzido pelo brilho do próprio guante que marcou, para sempre, a vergonha dos seus irmãos. Vimo-lo cheio de uma vaidade aberrante, entrelaçar-se nas mãos criminosas desse forasteiro ousado, mas, sempre que lhe abordávamos o nome, tínhamos a convicção de que a política, no seu caso, erro o mais ingrato dos recursos humanos, quando o homem, com um riso, dissimula a lágrima interior. Chegávamos, mesmo, por esta colunas, a confessar que Clodomir Cardoso de jornadas gloriosas, esse próprio Clodomir que fora ao Palácio dos Leões e, hoje, subterraneamente, expande, pouco e pouco, o despeito que lhe ficara da magnífica sucessão dos seus dias, - esse Clodomir, então, que seria o grito da incapacidade, concretizada na sua decadência moral, é o Clodomir que lança mãos do dinheiro público do seu Estado e, com rótulos mentirosos, monta uma oficina eleitoral para ascender ao trono do Pátria Brasileira, aquele de quem não negam grandes anseios de “continuar a obra getulitária”. E esse Clodomir que subiu ao Céu, desceu ao Inferno e nunca mais ressurgirá dos mortos, é o Clodomir bilioso, enfermo, decadente, vencido que, no estertor da sua crise moral, demite prefeitos, admite agentes da sua confiança, faz das repartições públicas da sua terra um reduto da sua política e, ainda por fim, arranca, barbaramente, à boca de pobres e funcionários que não rezam por sua cartilha, o pão que seria a vaidade dos que endeusam a prática de tão astuto ensinamento.

Mas Clodomir Cardoso há de por terra colear-se, um dia, na mais esmagadora de suas decepções. Ruem as primeiras colunas do edifício Ditatorial, no Brasil, e, um dia, a casa cai… O presidente Linhares sucede a Vargas, o ministro Dória a Agamenon e, no Maranhão, Eleazar Campos a Clodomir Cardoso.

Tudo estava feito.

A máquinha eleitoral, em nosso Estado, já havia sido montada por mecânicos de “fibra”.

A vitória do general Dutra já estava garantida na consciência do povo maranhense, “porque, em cada canto da nossa terra, havia um delegado governista e, portanto, um autêntico senhor da situação”.

Mas a que, enfim, viria o sr. Desembargador Eleazar ao Maranhão? Assistir, simplesmente, ao movimento dessa máquina, deixando-o seduzir pela potência dos seus motores? É isto, exatamente, o que ambiciona, ainda, o sr. Clodomir. É isto, sinceramente, o que leva, ainda, o infeliz decaído a recorrer às colunas do seu jornal, apontando o interventor Eleazar como um transgressor à Justiça e ao Direito, quando reconhece que não pode haver um pleito livre e honesto presidido por delegados comprados e, previamente, o que leva o sr. Clodomir a agitar-se, confuso, no seu subterrâneo político e moral, para atacar um magistrado que, atendendo a um dos momentos de forasteiro audazes e nem mesmo de políticos mirins, cuja “sublime obsessão” é a sublime tarefa de governar um povo!

Eleazar Campos veio ao Maranhão em nome da Justiça e, em nome dela, há de se realizar, em dezembro, o maior anseio do povo maranhense que é escolher, nas urnas, livre e honestamente, o seu legítimo representante nacional. Eleazar Campos tem, igualmente, um passado brilhante, mas ainda não disse, como Clodomir Cardoso, que tem um nome a zelar… Todos, porém, o sabemos e ninguém duvida de que o ilustre maranhense não possa testemunhar, na sua terra, a dignidade dos magistrados brasileiros que o sr. Clodomir Cardoso afrontou com o mais vil dos seus sentimentos políticos. Todos sabemos que Eleazar Campos, na integridade dos seus sentimentos profissionais, é o cidadão a quem a Pátria recorre, neste momento perigoso da sua vida política para garantir, na sua terra, o legítimo direito de um povo. Fugir, portanto, a um apelo da Pátria seria, como o sr. Clodomir Cardoso, afundar-se no caos da repulsa pública, afastado da confiança do seu povo e do amor da sua terra. Clodomir Cardoso que, a medir pela maneira deselegante com que passara o governo do Maranhão ao seu sucessor, é a expressão mais dolorosa de uma velhice decadente, é, neste instante, a figura trágica de um desertor que desapercebe a lembrança dos próprios crimes que cometera. Todos bem lhe sabemos o complexo de que se reveste neste hora duvidosa de sua política. E tão bem lho sabemos que não lhe ocorre à lembrança a atitude desassombrada do interventor de S. Paulo que assina um telegrama como o que, há pouco, foi publicado na imprensa pessedista de São Luís. Se, para garantir a honestidade de um pleito, o sr. Eleazar Campos demite prefeitos e Clodomir Cardoso lhe atribui os mais graves erros de cidadão e juiz, ai do sr. Eleazar se chegasse, no Maranhão, a assinar um telegrama como o que o sr. Macedo Soares assinou em São Paulo!

Clodomir, então, não seria esse santo de pau, que joga a pedra e esconde a mão. Seria, noutra hipótese, o que o povo maranhense devia ser-lhe, quando lançou mão daquilo que lhe não pertencia para montar uma oficina de politicagem bárbara.

AMARAL RAPÔSO

Amaral Rapôso foi o nome de batismo de José Raposo Gonçalves da Silva que nasceu a 27 de maio de 1906, no município de Grajaú, MA.

Exerceu as funções de inspetor federal da Instrução Pública, no Estado da Bahia, de chefe de gabinete, na Interventoria de Saturnino Bello. Foi deputado estadual, diretor da secretaria da Assembléia Legislativa do Maranhão, diretor da Biblioteca Pública Benedito Leite e chefe de gabinete do governo do Rio Branco. Aposentou-se como Diretor da Assembléia Legislativa do Estado. Jornalista voltado para a defesa do correção gramatical, de sua pena saíam textos mordazes, cuja base era a sátira.

Espirituoso, repentista, improvisador, boêmio, poeta, músico, seresteiro. O violão era-lhe um companheiro inseparável. Escreveu, entre outros jornais, em O Combate, Diário do Povo e em o Jornal Pequeno, sua trincheira.

A paixão de Amaral Rapôso pela gramática da Língua Portuguesa tornou-se uma obsessão tão intensa, que durante sucessivos artigos ele criticou desde documentos da Presidência da República, até textos de amadores. Com isso, quem saiu lucrando foi a Língua Portuguesa, pois essa neurose pelo purismo gramatical, acabou por gerar inúmeras polêmicas, as quais serviram para elucidar casos complexos de ortografia, de regência, de concordância, de colocação de pronomes, bem como de redação oficial.

Amaral Rapôso, apesar de ter conquistado alguns desafetos, soube, mais que ninguém, com seu estilo picante, mordaz, satírico, passar ao público uma convicção da necessidade absoluta de conhecer-se a Língua Portuguesa.

Foi membro da Academia Maranhense de Letras.

O MARANHÃO NA MENSAGEM PRESIDENCIAL

AMARAL RAPÔSO

(Correio do Nordeste, 01/05/1963)

Há dois tipos de literatura que me inspiram grande simpatia e não menor admiração. Refiro-me às mensagens oficiais e às bulas de medicamentos. Ambas são de um otimismo que toca as raias de um sem-cerimônia. Com as primeiras, os laboratórios anunciam a cura de todas as doenças imagináveis; com as segundas, resolvem os governos todos os problemas administrativos. No papel, está claro.

Pois bem. O Maranhão foi lembrado na Mensagem que o Senhor João Goulart acaba de remeter ao Congresso Nacional, na abertura da sessão legislativa do corrente ano.

Foi, com efeito, uma referência ligeira. Mas nem por isso deixou de me causar um grande entusiasmo. Porque S. Exa. ali nos deu notícia de um importantíssimo trabalho, que está sendo executado pela SUDENE, em nossa terra.

Trata-se de obra tão vultosa, de tanta significação para nossa vida econômico-social, que nos dá ímpetos nativistas de sair gritando, pela rua, e até de casa em casa, como Arquimedes ao descobrir a lei do peso específico dos corpos: heureca! heureca! heureca! Podemos, de agora em diante, confiar inteiramente no futuro do Maranhão, que se nos configura, assim, sob a garantia, não da palavra de um governador, ou de um economista, ou de um sociólogo, mas pela declaração pública de um dos homens mais poderosos e mais responsáveis deste país, isto é, o Senhor Presidente da República, configura-se-nos, assim, dizíamos, capaz de despertar inveja, dentro em breve, a todos os estados do Norte e do Nordeste Brasileiro.

A SUDENE trabalhava em nosso favor. E nós não sabíamos. A SUDENE produzia, suando as bicas, em todo o vale do Pindaré, a fim de nos emancipar, economicamente. E nós a ignorávamos. A SUDENE realizava, bem ali, uma das maiores revoluções políticas deste século. E nós, até hoje, não tínhamos sequer ouvido o rumor da espantosa marcha de recuperação, que ela se impõe e em que se encontra empenhada para o bem geral do povo maranhense. Povo ingrato. Povo cego. Povo surdo.

As informações que nos têm dado quantos vão ao Pindaré e de lá voltam, muitos pelo contrário, eram as mais desanimadoras. Assegurava-se que os funcionários da SUDENE, ali, constituem um grupo muito bem pago de cavalheiros alegres, cuja única preocupação é despejarem rios de ouro aos pés das mulheres e estragarem chapas-brancas em tremendas noites de uísque e sexo.

Dizem-se mais. Dizem-se coisas impossíveis de se escrever em jornais, a menos que sua direção ou queria ver recusados nas casas de família ou nos mande somente nos bordéis e nos lupanares.

E, convém sublinhar, os que nos trazem tais fatos ao conhecimento são os cidadãos da mais alta responsabilidade, que, ante nosso espanto, nos desafiam a ir ao Pindaré, para vermos com os nossos próprios olhos os crimes que ali praticam, ostensivamente, com os dinheiros do Tesouro Nacional.

Pois bem. O desmentido está aqui, na Mensagem do Senhor Presidente da República, página 94. Querem os leitores ver? Não temam, não desmaiem, não se espantem:

“Na região maranhense” – diz S. Exa. – “na região maranhense, cerca de cem mil pessoas estão sendo assistidas por importantes planos de colonização”!

Esse plano é da SUDENE! Observem bem os que me lerem que S. Exa. não diz que serão assistidas, mas que “estão sendo assistidas”, cerca de CEM MIL pessoas.

Tenho ou não motivos para admirar o otimismo das mensagens oficiais e das bulas de medicamentos?

CEM MIL, CEM MIL, senhores!…

SABATINAS DOMINICAIS

AMARAL RAPÔSO

(Correio do Nordeste, 19/05/1963)

Em artigo que assinei, em nossa edição de Quarta-feira última, sob o título O MARANHÃO NA MENSAGEM PRESIDENCIAL, escrevi: “Diz-se mais. Dizem-se coisas impossíveis…”.

O revisor da matéria, amavelmente, corrigiu-me e publicou: “Dizem-se mais!” que fazes? Aliás sobre esse angustioso problema de revisão , praticamente insolúvel nesta capital, observem o seguinte: faz hoje um ano que vim para esta redação. Aqui, durante esses doze meses, já escrevi, sem incluir, na conta, ligeiros comentários, cerca de quatrocentos editoriais.

Pois bem, apesar de minha luta no sentido de que a revisão me não mutile os trabalhos, até esta data, jamais, consegui tal milagre.

Esta seção se traduz, neste número, somente a isso. Domingo que vem, novamente estarei aqui, pois ainda não acabei de ler a MENSAGEM do Senhor Governador Newton Belo, a respeito de cuja linguagem teremos assunto de sobra, pois, apesar dos pesares, nunca supus que a gramática e o estilo oficiais fossem capazes de chegar a tamanhos excessos de bobagens…

Tenho ainda, em mãos, o MANUAL DE LITERATURA do Professor Clodomir Caldas, que também será objeto das próximas SABATINAS e que, embora pareça mentira, não está, sob o aspecto em referência, muito melhor que a MENSAGEM!

Por hoje, “stop”, como dizem os cronistas sociais.

LAGO Burnett

Lago Burnett, nome literário e jornalístico de José Carlos Lago Burnett, que nasceu em São Luís, em 15 de agosto de 1929. Escritor, poeta, ensaísta e cronista. Jornalista, exerceu aqui e no Rio de Janeiro as funções de repórter, cronista, redator, chargista, editor e editorialista. Em São Luís, a partir dee 1949, militou nos jornais, Diário de São Luís, Jornal do Povo, Jornal do Dia, O Combate, O Globo (Diários Associados), A Tarde, Jornal do Dia, tendo também colaborado no Jornal Pequeno. No Rio de janeiro, trabalhou na Rádio Jornal do Brasil e no Jornal do Brasil, onde foi redator, chefe de copy-desk, secretário de redação, colaborador do Caderno B, cronista literário, editor de Suplemento do Livro, editorialista, analista de edição, bem como em O Cruzeiro, Manchete, Correio da Manhã, Diário de Notícias e Domingo Ilustrado. Uma das mais expressivas figuras do jornalismo brasileiro e maranhense, foi um excelente poeta e, como ensaísta, prestou inestimáveis serviços à área de comunicação, particularmente ao jornalismo. Obras: Estrela do Céu Perdido, O Ballet das Palavras, Os elementos do Mito e O Amor e seus Derivados, poesia. Em prosa, De Jornal em Jornal, Normas da Redação, A Língua Envergonhada, dentre outros.

OTHELINO, O Temerário

Lago Burnett

(Jornal Pequeno, 16/12/69 – Transcrição do Jornal do Brasil).

O grande mal de Othelino Nova Alves foi não saber escolher os seus adversários.

Era um panfletário no velho estilo dos polemistas do norte, em que a ação pessoal, a coragem – no seu caso, eu diria a temeridade – se sobrepunham, quase sempre, à própria causa em debate.

Polêmico por índole, toda a sua atividade na imprensa – do Maranhão e dos Estados vizinhos, onde se politicava – foi marcada dramaticamente por agressões, emboscadas, tentativas de assassinatos, ele figurando sempre como vítima.

Desde que o conheci – quando juntos trabalhamos no Jornal do Povo, de Neiva Moreira, em campanha sistemática contra o vitorinismo – Othelino não aceitava tutela de ninguém, não fazia acordo, não dizia sim.

Era oposicionista por princípio, como espanhol de anedota clássica: em havendo governo, ele era contra.

Sem vício de espécie alguma – não fumava e não bebia – tinha mania de documentação. Seu ideal seria ser talvez uma xerox para fazer fotocópias instantâneas de toda sorte de documentos que lhe caíam às mãos. Vivia com os bolsos cheios de recortes, reproduções fotostáticas, fac-símilies, uma infinidade de papéis que representavam para ele provas incontestes da deslealdade de eventuais adversários.

Entre o jornal e o Sindicato, passou a vida inteira esbravejando contra tudo que lhe parecia errado. Eu censurava seus excessos – muitos deles indesculpáveis – mas compreendia a honestidade de seus propósitos.

Othelino era contra, ninguém conseguiu mudá-lo. Nem essa bala assassina que as notícias lacônicas de São Luís acabam de nos trazer.

Delegado de partido junto ao Tribunal Regional Eleitoral, não havia urna que Othelino não impugnasse; no Sindicato dos Jornalistas, ele era a eminência parda (uma vez que me deu um golpe e me arrancou a presidência para decepção de todo o meu eleitorado); no jornal, era um desaforado, irreverente, petulante. Gostava de afirmar na sua linguagem bombástica: “hei derrubado muitos governos”.

Não derrubou nenhum. Mas perturbava um bocado.

No meio dos poucos amigos leais, possuía uma legião de amigos circunstanciais, desses que cultivam a onça com medo de que ela os coma.

Houve um ano em que ele superou seus próprios recordes: mal refeito de uma covarde agressão de que vítima no Aeroporto do Tirirical, a mando do major do Exército José Pereira, que era chefe de Polícia do Maranhão, Othelino caiu numa emboscado em Manaus, onde fizera um violento discurso denunciando o governador Gilberto Mestrinho, que mandou espancá-lo sem dó. Visitei-o no Hotel Itajubá, no Rio, pouco depois desses dois episódios e era como se nada tivesse acontecido.

Ele só fazia planos de voltar a São Luís para continuar sua campanha pelos jornais.

A revolução vingou-o: o major foi cassado (a essa altura era deputado estadual), mas não por subversão, por corrupção. E Othelino partiu para outras frentes de luta.

A despeito de nossas divergências, guardo dele a imagem de um homem bom: aquele, por exemplo, que esteve a minha cabeceira durante todo o tempo em que sofri os efeitos de uma agressão a cano de ferro, na nuca, na mesma praça João Lisboa, onde ele acaba de ser assassinado. Foi Othelino que arrolou as testemunhas (o promotor exigiu testemunhas para o crime em praça pública), mas seu processo foi engavetado para atender os interesses do governo: o agressor era vereador situacionista. O promotor que engavetou meu processo está morto e eu modéstia à parte, estou vivo.

A notícia da morte de Othelino me causa outra tristeza além da morte: a de constatar que São Luís, cidade tradicionalmente civilizada, volta a ser palco de cenas de banditismo – quando todos já supúnhamos superada essa fase melancólica do nosso processo político.

BERNARDO ALMEIDA

Bernardo Almeida foi o nome literário e jornalístico de Bernardo Coelho de Almeida, que nasceu em São Bernardo, MA., em 13 de junho de 1927. Em 1938, já estava em São Luís, como seminarista, no Seminário de Santo Antônio, de onde passou ao Colégio Maranhense dos Irmãos Maristas. Transferiu-se de São Luís para Parnaíba-PI e depois para Fortaleza-CE, onde continuou os estudos, tendo concluído o curso secundário, no Liceu Maranhense, em São Luís. Escritor, poeta, romancista e cronista. Jornalista, iniciou-se na imprensa, escrevendo no Jornal do Povo, tendo escrito em outros jornais como em O Imparcial, onde semanalmente assinava uma crônica na seção “Ponto de Prosa”. Atuou, tambén, nos jornais O Estado do Maranhão e Jornal Pequeno.

Suas crônicas, lia-as, em um programa da Rádio Difusora, ao meio-dia, “Difusora Opina”, em algumas delas escritas, para esse programa, pelo saudoso jornalista Válber Pinheiro. No Rio de Janeiro e em Volta Redonda, trabalhou na Companhia Siderúrgica Nacional. Em 1950, de volta a São Luís, participa da campanha política das Oposições Coligadas. Foi deputado estadual por três legislaturas, uma voz eloqüente na tribuna. Gerencia a Tipografia São José, em 1955, quando trouxe de volta ao público o jornal O Maranhão. Fundador da revista Legenda. Durante muitos anos trabalhou na Rádio Difusora e, posteriormente, na TV Difusora. Foi adido cultural na Embaixada do Brasil, no Peru, professor do Centro de Estudos Brasileiros de Lima. Presidente da Fundação Cultural do Maranhão, sub-chefe do Gabinete Civil do Governo João Castelo, membro do Conselho de Contas dos Municípios e da Academia Maranhense de Letras. Autor de livros como Luz! Mais Luz!, poesia; A gênese do Azul, poesia; Galeria, crônicas; A última promessa e Bequimão, romances; Éramos felizes e não sabíamos, crônicas.

Morte nas ruas

Bernardo Coelho de Almeida

(O Imparcial, 09/02/96)

Alérgico à violência, mesmo assim não me sinto a salvo de seus efeitos nefastos, embora estes não me atinjam diretamente. Saio muito pouco. Não tenho vida noturna, como antigamente. Afinal consegui o que queria: criar o hábito da leitura, graças à necessidade de pesquisar a obra literária de quase uma centena de escritores, na seleção daqueles que integrarão a Antologia dos Prosadores Maranhenses (de 1612 a 1995), ao mesmo tempo que, nesse árduo oficio de garimpagem, praticado com o máximo critério de aquilatação de valores, cabe-me escrever a introdução e os pequenos textos biográficos de cada autor antologiado.

Leitor assíduo e colaborador de O Imparcial, chocou-me, profundamente, a trágica notícia da morte na rua de uma garota de sete anos, chamada Wanessa. No clichê, que ilustra a matéria sinistra, vejo a mãe a abraçar o corpo despedaçado da filhinha, graças ao registro do repórter onipresente, que teria chorado ao fotografar a terrível cena.

Não adianta ouvir a música de Mozart no pequeno aparelho de som que mantenho na extremidade da escrivaninha, em que ora reviso os textos que me chegam dos digitadores.

Fui presenteado pelo amigo Wady Hadad Neto com um computador, mas prefiro escrever em minha Olivetti, Linea 98. Não tenho jeito para lidar com sofisticados aparelhos eletrônicos.

No momento, estou às voltas para equacionar a colocação de trechos de A Casca da Caneleira na antologia que abrange, em ordenação cronológica, textos de nossa prosa (divulgada) ao longo de quase quatro séculos. Coligido e apresentado pelo incansável polígrafo, Jomar Moraes, o citado livro tem a autoria de diversos escritores anônimos, mas sendo uma obra-prima, tudo farei para que o mesmo não fique à margem de minha seleta.

Concentração é impossível. As repercussões da violência nos dias atuais não deixam a gente em paz. Os meios de comunicação a transformam em prato do dia de seus noticiários sensacionalistas. Só se lê nos jornais, só se ouve nas emissoras de rádio, só se vê na televisão, com prioridade e ênfase, casos de crimes hediondos, reportagens estarrecedoras do em moda “Aqui agora”, revoltas em presídios, assaltos a carros de transportes de valores e a agências bancárias, de corrupção cometida por colarinhos brancos, desastre de ônibus (ali no Peritoró, morreram nada menos que 32 passageiros), ou então informes sobre chuvaradas demolidoras no Sul e nevascas insólitas em cidades do hemisfério norte. Tem-se a impressão de que a natureza e o homem estão aliados para fazer da Terra, nosso minúsculo planeta, no contexto do Universo infinito, um campo experimental de calamidades provocadas pelos mais horripilantes tipos de violência, como se os tempos do Apocalipse fossem já a página seguinte do livro da história de povos e nações, no iminente advento do fim do mundo.

É verdade que o homem e a natureza sempre viveram em conflitos, desde Caim e Abel, no dilúvio, em Sodoma e Gomorra, no vandalismo dos Átilas, nas erupções vulcânicas, nas tempestades, nos furacões, nos ciclones, nos terremotos, na arena do Coliseu, onde os romanos, autores das regras básicas do Direito (já prenunciadas no Código de Hamurabi), deleitavam-se com o espetáculo da matança de cristãos lançados às feras, assim como pela cruenta luta entre escravos gladiadores, sacrificados aos clamores: “Ave, Cesar!”.

Tudo isso faz da trajetória em que caminha a humanidade, neste vale de lágrimas, cenário de uma violência rural e urbana sem limites.

Num dia desses, aqui em São Luís, fui apresentado a um coronel reformado, gente de fora, diga-se de passagem. Nosso interlocutor sugeriu-me que eu autografasse um exemplar do meu livro de memórias: Éramos felizes e não sabíamos, no qual a última crônica se intitula Rio de Janeiro dos bons tempos da Lapa.

E querem saber o que me disse aquele brutamontes, quando lhe dei contas de que já não tenho coragem de sair sozinho em ruas da ex-Cidade Maravilhosa? Pois ele me disse que aprendera a matar na guerrilha do Araguaia e que todas as noites, quando lhe é possível, coloca duas magnum na cintura e, como quem nada quer, dá voltas pelos locais mais perigosos do Rio, na caça dos marginais, costumando deixar dois ou três apagados. Vejam a que ponto chegamos!…

Agora mesmo estou ouvindo, em CD, Matthew Passion, de Johann Sebastian Bach, com Orchestra and Choris of Radio Sofia. O sol matinal que entra pela janela do meu quarto, aberta ao nascente, bate com seus raios ardentes minhas costas desnudas.

E que estou a fazer em momento tão agradável? Escrevo minha crônica semanal para O Imparcial, sobre este mal maior do nosso século de modernos inventos, da técnica mais avançada, da ida do homem à Lua, do computador, do telefone celular, da televisão a cabo com antenas parabólicas.

Debita-se a violência à desagregação da sociedade, ao estado de miséria absoluta em que vivem, sabe Deus como, milhões de excluídos dos bens do progresso. Não há dúvida de que as injustiças sociais exacerbam a criminalidade. Mas devemos levar em conta que a violência não é cometida somente pelos favelados e sem-terra. Ela prolifera também no seio das comunidades ricas, burguesas. Nos países capitalistas, os homicídios passionais são praticados em alta escala, enquanto filhinhos de papai, esses garotos irrequietos, estúpidos, drogados, se tornam recordistas em atropelamentos e, raramente, são penalizados pela justiça, em razão das mortes provocadas por eles, dos casos de invalidez decorrentes de suas loucuras ao volante.

Logo que termine esta crônica irei até a sala-de-estar, onde costumo ligar o aparelho de televisão, mais por curiosidade. E, na tela, a contrastar com o encanto dos antigos desenhos animados de Walt Disney, aparecem as cenas de seriados nos quais a violência campeia.

A criançada adora esses combates em que a morte brutal, como conseqüência de atos de falso heroísmo, é tônica desses filmetes, nos quais os efeitos sonoros e a magia das ações movimentadas fantasticamente, pelos recursos da técnica mais avançada, também são manipulados em vídeo-game, com monstros bestiais, figuras assombrosas de extraterráqueos, embora prevaleça, com falso consolo, o chamado final feliz, com a assertiva de que o crime não compensa.

Logo Burnett, com quem convivi, intimamente, nas lides da imprensa e na época em que fomos colegas da rádio Timbira, tem um livro precioso, transformado em aulas de jornalismo. Mais tarde, chefe da editoria do Jornal do Brasil, por certo ele deve ter sofrido muito a aprovar publicação de matérias de notícias sensacionalistas sobre a violência.

Poeta dos melhores de minha geração, às vezes me indago como Lago Burnett conseguia suportar a turbulenta vida carioca, outrora tão amena e lírica, como a experimentei durante quase três anos, tempo em que ali me consagrei mais à boemia do que aos estudos, na segunda metade da década de 40, quando ele não passava de um jovem habitante desta poética cidade de São Luís.

Numa das lições de seu livro de mestre da moderna imprensa Brasileira, Lago Burnett confessa seus desencantos nas situações rotineiras da profissão abraçada. Lamenta que nossos jornais tenham maior circulação quando estampam manchetes como esta “Ressaca devasta Avenida Atlântica”, sem que, noutra circunstância, sejam capazes de imprimir manchete com a seguinte informação:

“Linda manhã de sol em Copacabana”. Quer dizer, a tempestade se sobrepõe à bonança, o feio supera o belo, o mal está acima do bem.

Eisso acontece em parte por culpa dos leitores, enquanto nossos jornais para satisfazê-los, andam trocando as bolas, dando destaque às calamidades e aos crimes e casos de terror, em vez de tecer loas ao bem, ao belo, ao que é edificante.

E, dessa forma, o mundo está ficando do avesso, nossas vidas vão ficando de cabeça para baixo!

BANDEIRA TRIBUZI

Nasceu em 2 de fevereiro de 1927 o poeta e jornalista Bandeira Tribuzi. Homem dado a atividades múltiplas, destacou-se como economista e escritor, tendo tido também um papel de destaque como jornalista.

Bandeira Tribuzi inaugurou-se com o suplemento literário Malazarte, 1947/48, quando lança a revista Ilha.

Entre 1956/59, dedicou-se ao jornalismo, no Jornal do Dia, no qual também trabalha de 1964/73. De 1973 até sua morte estará no jornal, do qual foi fundador, O Estado do Maranhão. Tribuzi trabalhou no Tribuna da Imprensa, de 1959 a 60, no Rio de Janeiro. Os artigos jornalísticos que mais marcaram época foram os que escreveu para o suplemento Sete Dias, de O Estado do Maranhão, em que tornou-se célebre pelas crônicas humorísticas e satíricas, Palmátria. O suplemento foi criado por ele e pelo jornalista e poeta Pergentino Hollanda.

Ressalte-se que, após o golpe militar de 1964, enquanto esteve preso no 24º BC, colaborou no Correio do Nordeste. Autor de vários livros de poesia, Tribuzi deixou também 43 composições musicais, com letras e músicas suas. É o autor do hino oficial de São Luís, Louvação a São Luís.

Quanto às crônicas Palmátria, de caráter político, se constituem em 38, publicadas em 75, 76 e 77, respectivamente. Tribuzi morreu no dia 8 de setembro de 1977, data em que São Luís completava mais um ano de sua fundação. O poeta e jornalista morreu aos 50 anos.

PALMÁTRIA

Está na crônica de Palmátria

Bandeira Tribuzi

(O Estado do Maranhão, 1975)

1

Certo tempo o Jerarca OC, através de uma confusa sucessão, assumiu o Poder. Não era o preferido de ninguém, mas admitiu-se na hora da escolha que poderia servir como espécie de pausa para meditação. Se não era ótimo para ninguém, também para ninguém era péssimo e, assim, poderia ir ficando no seu meio caminho até que o tempo se concluísse e fosse possível fazer outro tipo de escolha.

Está na crônica de Palmátria o comentário: “quantas vezes os amigos e próximos de um jerarca são piores inimigos!” Foi o que foi. Áulicos e subáulicos e sobretudo JER, o mais próximo, se deixaram envenenar pela ilusória onipotência do Poder. Impregnaram-se da filosofia de que “o poder pode tudo”. E se desmandaram a praticar inúmeros desmandos e a influir em OC para que os praticasse.

JER passou a considerar-se um superiluminado e predestinado; uma espécie de Rasputim tropical que todos os dias (está nas crônicas) amanhecia perguntando ao espelho: “Dize-me, espelho meu, se há em Palmátria alguém mais talentoso que eu?”. E assim, sob essas influência, o Jerarca OC (antes reconhecidamente um homem discreto, mas sensato e morigerado) foi resvalando para a pratica ou a ordenação de quantas ilegalidades ou abusos ou arbítrios antes condenara.

Está na crônica de Palmátria que a partir de um certo tempo, OC perseguiu, demitiu, abriu a cornucópia das nomeações de favorecimento, aliciou, ameaçou, puniu exorbitantemente pelo físico, consentiu falsificação de documentos: enfim praticou tudo aquilo que sempre condenara porque se deixou contaminar da filosofia de que “o Poder pode tudo” ou “jerarca é dono de Palmátria”

Avança a crônica desses tempos que houve muitos desgostos e sofrimento injusto e amargura de justos e alegria de insensato e abusos e ilegalidades. E até que, em alguns momentos, pôde parecer que desmoronavam os princípios e prevaleciam a prepotência e o arbítrio. Que a gargalhada de JER não iria ter fim…

Está na crônica de Palmátria que, porém, assim não foi ao final. Que a firmeza dos que defendiam a lei e a dignidade no trato da coisa pública acabaram predominando.

Eo riso insensato de JER, o perturbado espírito abusivo de OC, e a farra dos áulicos e subáulicos perdeu a razão de ser. O Palácio Tropical que antes era uma festa virou um velório. Nem os amigos e próximos apareciam mais para a louva-minhação pois, antes que fosse definitivamente tarde, tinham ido cantar em outra freguesia.

E, neste ponto, infelizmente, a crônica de Palmátria se torna ilegível pela ação do tempo e da má conservação.

Mas continuam alguns capítulos e anos após. E como o sol da justiça e da paz e do Progresso – segundo na crônica está registrado – voltou a brilhar, é fácil compreender o que aconteceu…

2

Em Palmátria, no ciclo nefasto do Jerarca JOROC, em que tantas coisas negativas aconteceram, a opinião geral era, porém, que não o próprio Jerarca mas seu Áulico-Mor RIAR era o grande responsável pelo muito quanto de negativo ia ocorrendo. E alguns chegavam mesmo a afirmar, sem isentar JOROC de suas culpas e até mesmo reconhecendo-as, que muito do errado, que ocorria em Palmátria naqueles idos, mais se devia à desastrada intromissão do Áulico-Mor e que em muitos casos realmente JOROC fora tomado de surpresa ao conhecer do que estava sendo cometido.

RIAR, de saída, cometido logo um tremendo equívoco, não acreditava nas Leis e em seu Poder. Para ele o sistema, posto que legalmente não o fosse, era praticamente uma monarquia estabelecida por direito divino: JOROC fora escolhido porque Deus estava querendo punir os palmátridas. E tendo sido escolhido dessa forma, o que JOROC e seus Áulicos ou Iluminados pensassem ou perpetrassem, era o que convinha a Palmátria. RIAR considerava-se, em realidade, não apenas um super-dotado, mas um ser favorecido com o dom da infalibilidade. E entendia que o exercício do poder público concedia ao Jerarca e aos seus a propriedade de palmátria, com a qual poderiam fazer o que bem lhes entendesse pois, só pelo fato de o entenderem, seria logo bem entendido.

Àluz desta inspiração que RIAR foi cometendo ou inspirando o cometimento de toda uma imensa série de abusos, ilegalidades, prepotências, inversões de valores, desacatos. E dizem que ainda dormia insatisfeito porque, no fundo, achava que Deus cometera um equívoco no jogo de azar de suas escolhas: ele, RIAR, estava muito mais naturalmente dotado para ser o Jerarca do que o próprio JOROC, e não RIAR, que ocupava o cargo de Jerarca. E a JOROC cabia de qualquer forma a decisão, embora fizesse pouco uso dela.

De tanto abusar de sua situação, RIAR conseguiu cair na ojeriza e no ridículo geral. Embora, é claro, tenha se beneficiado das circunstâncias abundantemente, a verdade é que a ojeriza e o ridículo talvez tenham sido seu maior prêmio. Como acontece com tudo no mundo (e isto está na Crônica de Palmátria) também um dia acabou (e ainda não diremos como...) o domínio de JOROC. E por óbvio, seu Áulico-Mor entrou em declínio. Como é de rotina em tais casos, sua porta ficou vazia de aduladores, nunca mais recebeu presentes vultosos, nunca mais pôde... RIAR sofreu a nova condição desastrosamente. De amador de bebidas finas decaiu ao ponto de não conseguir mais ficar desperto sem se encontrar etilizado. E dizia coisas vagas e sem sentido. Relutaca em aceitar sua nova situação. Envelheceu precocemente e amargamente.

Disto há notícias na Crônica de Palmátria até bastante minuciosas. E o mais espantoso (pois pensávamos que a expressão era própria de nossa época) e que, nessa crônica em capítulo que reporta à decadência de JOROC e RIAR, encontramos referida a ambos essa popular expressão de nossos dias:

“Quem nunca comeu mel quando come se lambuza.”

RIBAMAR BOGÉA

José Ribamar Bogéa, cujo nome jornalístico era Ribamar Bogéa e artístico Zé Pequeno, nasceu em São Luís, em 18 de setembro de 1921. Estudou no Colégio São Luiz Gonzaga, da professora Zuleide Bogéa. Trabalhou, primeiramente, no Jornal O Globo, dos Diários Associados.

Como editor, começou no jornal O Esporte, que ele criou na década de 40.

Em 29 de maio de 1951, fundava o Jornal Pequeno.

Segundo Ademário Cavalcante, jornalista que acompanhou a sua trajetória, há vários anos, [...] “o Jornal Pequeno era ele. Ele era o redator do dia-a-dia. Homem prático, inteligente, tinha discernimento. Lia a realidade, sabia navegar. Sua capacidade residia na prática. Era uma figura que marcava pelo bom caráter. Pôde viver na Greve de 51, tornando-se referência para quem quisesse bem se informar, pois nunca se atrelou a grupos ou pessoas. Assim, ele construiu o Jornal Pequeno numa linha simples e direta, como leitor permanente da realidade, que para a oposição, quer para o governo. Não era nem oposição, nem situação e mantinha boa vizinhança com os grupos que combatia o poder. O seu grande lance foi ter a capacidade de organizar, numa sociedade fechada, como a maranhense, de grupos, um jornal aberto ao diálogo, à polêmica, ao debate.” Assim, conseguiu manter por quase quatro décadas o mesmo Jornal, hoje dirigido por seus filhos e viúva.

Bogéa reuniu em si o parodista, o humorista, o satírico, o redator e o gráfico. Nas horas vagas, era o boêmio, mas no seio dos operários e da família era um homem dedicado e amigo de todos.

Morreu na manhã de 04 de março de 1996, enquanto preparava a sua paródia do dia.

QUE DEUS ILUMINE O ELEITORADO MARANHENSE

José Ribamar Bogéa

(Jornal Pequeno, 03/10/65)

Chegou finalmente o momento da manifestação popular para escolha dos novos governantes do Maranhão.

A estas horas, o povo timbira está-se preparando para a batalha das urnas, disposto a colocar nos Leões e na Prefeitura de São Luís homens que realmente possam trabalhar pela grandeza do Maranhão, para o bem estar do nosso povo.

Os candidatos, durante a campanha, mostraram seus planos de governo, cada um procurando captar a simpatia do povo.

Nos grupos políticos, como nas sociedades, nas religiões e até mesmo nas famílias, têm os bons e os maus representantes. Por esta razão é que não quebramos lanças por este ou aquele candidato. Esperamos que Deus oriente o eleitorado desta terra, no sentido de escolher aqueles que sejam mais capazes de administrar a coisa pública.

Jornal Pequeno continuará, seja qual for o resultado do pleito, do lado do povo, exigindo daqueles que assumam o poder o cumprimento das promessas feitas em favor da nossa gente, seguindo a sua linha de defender em primeiro lugar aqueles que nos dão a sua valiosa preferência, alicerçando cada vez mais esta trincheira do povo que, num futuro bem próximo, se Deus quiser, há de ter força suficiente para influir decisivamente nos destinos administrativos deste Estado, de maneira a torná-lo próspero e feliz.

Mais uma vez pedimos a Deus que ilumine o eleitorado timbira a votar certo e dar a vitória a quem realmente merece.

ESPÍRITO: DE PORCO

(Jornal Pequeno, 05 e 06/01/54)

CERTO E ERRADO

“Que o Governo tenha gasto 200 mil cruzeiros com a vinda de técnicos do Rio para resolver a questão do aumento do funcionalismo, ESTÁ CERTO

Mas ao receber o trabalho, convocar seus técnicos fazendários para, em reunião secreta, dia e noite, reformarem o trabalho dos técnicos guanabarinos.

"ESTÁ ERRADÍSSIMO"

“O futebol maranhense ainda contar com jogadores experientes como Santiago, Galego e outros, ESTÁ CERTO.

Zequinha colocar em campo, para o jogo com os cearenses, atletas inexperientes e sem capacidade técnica, ESTÁ ERRADO”

“O prefeito de Rosário comprar bois para matar a fome do povo, JÁ NÃO ESTÁ CERTO”.

OCardoso fazer correção, prendendo os porcos dos pobres, ESTÁ ERRADO.

O LÍNGUA DE TRAPO

Após uma “enquete” entre os Linguarudos freqüentadores da Câmara, ficou organizado o seguinte quadro.

OS MAIORES “BOCA DE SIRI”

Travasso Furtado, Ernani Barros, Lauro Berredo, Teoplistes, Teixeira, Djalma Brito, Pedro Brito, Jose Mário Carvalho, Euzébio Trinta, Petrônio Pereira e Clementino Bezerra

SUPLENTES

Mário Flexa, João Carvalho, Vicente Celestino, Paulo Matos e José Lago.

OS FALADORES

José Maria de Carvalho, Giordano Mochel, Orlando Leite, Vera Cruz Marques, Erasmo Dias, Mario Jacome, Maurício Jansen.

OS DEPUTADOS ‘SNOBS”

Chagas de Araújo, Benedito Penha, Raimundo Bastos e Ribamar Machado.

OS MAIS POPULARES

José Mario, Giordano Mochel, Erasmo Dias, Vera Cruz Marques, Santos Neto, Orlando Leite e Maurício Jansen.

OS DE BRIGAS

Raimundo Bogéa, Nunes Freire, Mário Jacome.

CAMPEÃO DE CORRIDA

Mário Flexa

NONNATO MASSON

Nonnato Masson, nome literário e jornalístico do escritor e jornalista cujo nome de batismo foi Raimundo Nonato da Silva Santos. Nasceu em São Luís, em 28 de fevereiro de 1924. A partir de 1956, começou a exercer o jornalismo profissional como chefe de reportagem e secretário, respectivamente nos jornais Correio da Tarde, O Combate, Jornal do Povo, Pacotilha e O Globo. Ainda em 1956, muda-se para o Rio Janeiro, onde fez parte do corpo redacional do Jornal do Brasil, até 1980, quando se aposentou.

Como redator do Jornal do Brasil, pôde fazer grandes reportagens, tendo viajado pela Europa, Américas e interior do Brasil. Célebre é a série Brasil, Brasis, Brasileiros, de sua autoria.

Em 1961, escreveu para a Revista Fatos e Fotos uma reportagem de fôlego Aventura Sangrenta do Cangaço. Entre 1985 e1990, Nonnato Masson chefiou a sucursal da Empresa Brasileira de Notícias, em São Luís, onde também manteve a crônica semanal Hoje é dia de, no Jornal O Estado do Maranhão. Publicou pelo Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado – SIOGE, em 1984, as obras Inês é Morta e Corpo de Moça.

O PÃO ROUBADO

Nonnato Masson

(Jornal Pequeno, 11/08/1957)

Toma-se o pulso do mundo e sente-se, apesar de não sermos médico, que ele está a precisar de coramina, tal qual o governador do Estado receitou ao Maranhão, após fazer-lhe um diagnóstico de aniversário de um aninho de mando.

Agente que trabalha em jornal quase não percebe, de chofre, que Washington Luís morreu no sanatório, depois de ter sido presidente da República, depois de ter sido exilado, depois de ter tido a rara vergonha do nosso século de não se meter mais em política, refugiando-se em si mesmo e renunciando, em testamento, toda e qualquer honraria que lhe devesse o Estado. Estado, aliás, que, quando vivo era o “de cujos”, nada mais fez do que humilhá-lo e espezinhá-lo. Quase não se nota que Oliver Hardy, aquele fabuloso cômico (“o Gordo”), que vivia em constantes encrencas com Stan Laurel (“o Magro”), dos filmes mudos que nos alegraram a infância, faleceu vítima de paralisia. Assim como chega à redação do jornal, nos pontos e traços nervosos da telegrafia sem fio, desaparece dos nossos pensamentos a notícia de que foi assassinado o presidente da Guatemala e o seu matador suicidou-se após o magnicídio. Quase não se tem tempo para sentir a morte desse poeta brejeiro que foi Bastos Tigre e que nos acostumamos a ler as suas trovas no Almanaque de Bristol. Sabe-se que Zé Lins do Rêgo, de tantos romances que nos plasmaram a formação literária, está entre a vida e a morte, o pensamento não demora (é justo confessar) no seu drama agônico.

Tem-se a certeza de que a gripe asiática paira, ameaçadora, sobre a cabeça do mundo, como se fora uma nova espada de Dámocles, e o fato não nos faz sair da rotina.

Acontece, porém, que a gente sabe que uma menina de 11 anos tenta o suicídio e o episódio nos assalta o sentimento e nos surpreende em todos os sentidos.

Amenina se chama Sônia. Sônia é nome de fada, está nos contos da caronchinha e com essa criança, que dorme em cada um de nós, configura-se o nosso desejo de saber de maiores detalhes acerca do caso de Sônia, pois Sônia poderia ser a nossa irmã caçula, os quindins da mamãe, a alegria da casa, de perninhas grossas, vestidinho curto, fazendo beicinho de malcriação, tão cheia de encanto e malcriação, e despertava depois os risos escondidos dos mais velhos.

Procurando saber, descobrimos que Sônia (Soninha), tendo a mãe viúva e irmãzinha passando fome, num subúrbio do Rio de Janeiro (na faixa da capital da República dos Estados Unidos do Brasil), entrou em uma venda e pediu um pão fiado. O pão com a graça de Deus mataria a fome de sua mãe e de sua irmãzinha. Não sendo atendida, Sônia, réplica menina de Jean VaIjean, que Vitor Hugo fixou nas páginas de Os Miseráveis, roubou o pão. Foi descoberta e a sua situação tornou-se mais terrível do que a do menino Humberto de Campos quando roubou um brinquedo. No Brasil, um pão roubado é coisa mais séria do que um brinquedo roubado. E a dona da venda prendeu Sônia. Envergonhada (e foi isso que nos comoveu, pois Sônia com 11 anos teve vergonha e muita gente barbada não tem nestes brasis imensos), como íamos dizendo, envergonhada Sônia (Soninha) atirou-se da janela do cômodo. Atirou-se à rua, no gesto desesperado, para morrer, para evitar o escândalo, pois ela teve vergonha de ser presa, como ladra, pela Rádio Patrulha, que a vendeira já havia chamado pelo telefone,

Depois de tudo isso, depois desse tremendo drama, o “fantasma voador”, que gere o nosso destino republicano, com uma bateria de fotógrafos, apresenta-se no seu terno mais impecável, com a barriga cheia, os bolsos transbordando, em casa da pobre viúva e da menininha, cuja miséria impulsionara Soninha ao duplo gesto do crime e da morte voluntária, com a promessa de ajudar aquelas criaturas a ter uma vida menos desgraçada.

Étarde! Tarde demais, presidente. Devera Vossa Excelência ter compreendido antes que muito mais importante do que Brasília é o destino dessa multidão de Sônias que existem do Oiapoque ao Chuí, se nos permitem o lugar comum.

Depois do caldo derramado, nada mais adianta. E a vida de Sônia, símbolo da desamparada infância brasileira, está marcada por estigmas indeléveis que toda vossa ajuda não conseguirá remediar.

Eé pena. sabe?

CARLOS CUNHA

Carlos Cunha, nome literário e jornalístico de Luiz Carlos Cunha, que nasceu em São Luís, em 18 de maio de 1933. Escritor, poeta, ensaísta e cronista. Licenciou se em Geografia e Historia, pela Universidade Federal do Maranhão. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, da Academia Maranhense de Letras e da Associação Brasileira de Imprensa.

Em 1959, fundou o Instituto Lourenço de Moraes, através do qual manteve o Colégio Nina Rodrigues.

Intelectual irrequieto, declamador incomparável, foram inúmeros seus recitais em auditórios, colégios, praça pública, quando ele punha platéias e auditórios em silêncio absoluto, ao recitar o Cântico Negro, de José Régio. Participou de diversos movimentos literários e culturais, como Academia Maranhense de Trovadores e Academia dos Novos. Escreveu para diversos jornais, entre eles, para o Jornal Pequeno, crônicas que oscilavam entre o poético e o satírico, entre o erudito e o polêmico. Foi também editor, mas sobretudo educador, poeta e jornalista. Entre 1967 e 1985, através de sua própria editora, Mirante, publicou inúmeros livros, entre eles Cancioneiro do Menino Grande, 1972; Um perfil de Pandiá Calógeras, 1973, dentre outros.

MISÉRIA DO POVO É LUCRO PARA QUEM GOVERNA

Carlos Cunha

(O Estado do Maranhão, 30/05/1978)

Oinverno chega, o brasileiro das zonas rurais acalenta esperanças de boas safras, base de sua sobrevivência durante as outras estações. Este ano, alguns órgãos de desenvolvimento econômico projetaram negras estatísticas para a agricultura brasileira, sempre castigada pelo extremismo da natureza: as geadas de 1976, em São Paulo, prejudicaram as colheitas da soja, produto, na época, de peso nas exportações do País, ou contrariamente a seca que nada frutifica. Mas ingressamos em março, em pleno inverno, ainda em tempo de recuperar os prejuízos do retardamento das chuvas.

No Maranhão, lamentavelmente, a agricultura é praticada em moldes rudimentares, instrumento de produção característico de uma economia de subsistência atrasada e medieval. Chuvas torrenciais aqui significam calamidade pública. Mal desabam os primeiros aguaceiros, o Interior do Estado é assaltado pelas enchentes trágicas para as populações ribeirinhas.

Todos os anos, vivemos os mesmos flagelos que se repetem secularmente: as enchentes no Rio Mearim devoram as moradias de povoados e cidades como Pedreiras, cuja importância econômica para o Estado é inquestionável. O quadro das cheias tem conotações sombrias para a vida dessas comunidades. Centenas de famílias desabrigadas, sujeitas às intempéries mais Insuportáveis, ficam em pânico, ignorando os seus próprios destinos.

Depois que a SUDENE passou a atuar na região nordestina, os poderes públicos preferem esperar ansiosos as calamidades das enchentes para receber gordos recursos para aplicação nas obras de recuperação dos danos causados pelo Rio Mearim e outros.

Quando o desespero toma conta da situação, então, com o dinheiro dos órgãos federais, passam a atacar o problema, infelizmente, de forma paliativa, sem qualquer medida de profundidade, capaz de erradicar o mal pela raiz.

Tudo se passa como uma encenação de um ato teatral monstruoso, porque as desgraças das enchentes voltam a perturbar a coletividade no próximo ano. Facilmente compreensível que o Governo do Maranhão não tem interesse nenhum em empreender obras duradouras, como barragens, diques e outras proteções contra as cheias do Rio Mearim: ele usufrui vantagens financeiras com os recursos e capitaliza prestígio político, garantindo uma base eleitoral para seus correligionários e para si próprio.

Àcusta da miséria do povo se constrói fortunas pessoais, ganha-se nome e fama de administrador e monopoliza-se uma fatia do poder do Estado. Eis, em resumo, o procedimento terrivelmente prejudicial dos representantes do povo, no Maranhão... Eles podem continuar a reeditar as cenas desse velho drama, porque as brechas das negociatas e da contabilidade pública são permeáveis às malversações, mas a coletividade sabe que agem com truques e segundas intenções. Pelo menos, a máscara do disfarce da ajuda aos flagelados das enchentes já caiu no palco iluminado da opinião pública, há muito tempo.

EYDER PAES

Eyder Paes nasceu em 1929 e morreu no dia 30/05/1996. Começou no jornalismo, na redação do Jornal Pequeno, onde, durante muitos anos, manteve-se ao lado de Ribamar Bogéa. Segundo Haroldo Silva, que o biografou, ”ele escreveu as primeiras linhas nos jornais O Povo e O Combate, ambos estreitamente ligados às oposições coligadas. Nessa época, em pleno apogeu das lutas políticas em que o linguajar ferino de Neiva Moreira e Erasmo Dias sacudiam as entranhas das hostes governamentais, dominadas por Vitorino Freire.”1

Orador eloqüente, não raro ouvia-se o seu discurso vindo das sacadas do Largo do Carmo, ao lado de Lino Machado, Clodomir Milet, Vera Cruz Marques, Capitulino Amorim e Zuzu Nahuz. E com o mesmo entusiasmo escreveu editoriais, reportagens e crônicas.

“Foi sempre um lutador destemido, colocando-se na defesa dos humildes, levantando grandes temas para o debate e conhecimento da sociedade. Com ele, morre um pouco da imprensa tradicional do Maranhão. Aquela integrada por profissionais que não se limitaram a mostrar secamente os fatos.”2

Não foi sem motivo que Haroldo Silva o saudou como o último dos Sabiás. Jornalista polêmico, destemido, ousado, corajoso, Eyder Paes morreu aos 67 anos, vítima de derrame cerebral, depois de uma trajetória jornalística árdua e contínua, cujos espinhos quase sempre avultam mais que as venturas. Homem combativo conheceu como poucos as arestas e os cravos que sempre têm um pouco da cruz de Cristo.

---------------------

1e 2. Haroldo Silva, JornalPequeno, 03/05/96

A FORÇA DO POVO (VI)

Eyder Paes

(Jornal Pequeno, 08/06/51)

Só pela revolução é que o povo pode ser governo, é que o povo pode conquistar o poder pelas armas, subjugando os que lhe esfomeiam, lhe oprimem, lhe exploram, lhe traem e lhe vilipendiam. É inevitável a marcha do povo para o poder pela revolução do povo. É irresistível a revolta do povo. Não há bastilha que não caia diante da força destruidora das revoluções populares. Não há força, por mais poderosa que seja, que resista à ação brutal do ódio do povo.

Tudo é insignificante, inexpressivo diante da força destruidora da cólera popular. A revolução é a consciência do povo, o grito do seu Eu, o eco de suas emoções íntimas. É a sentença do povo abolindo as leis do cativeiro. É a marcha dos homens livres nos braços do povo para o poder. É a alvorada da liberdade surgindo para os oprimidos, depois de uma noite de tortura, de opressão, de miséria, de trama e de sofrimento. Por toda a parte, ouve-se a voz das súplicas de um povo oprimido torturado pela miséria, explorado, traído, esfomeado, clamando liberdade e pão, o grito de revolta das multidões vilipendiadas em seus direitos, clamando justiça

O povo já não confia nos senhores do poder nem nas justiças dos tribunais. Confia em si mesmo, na sua revolução. Está só na planície como sempre esteve, sacrificado, traído e vilipendiado, mas lutando sempre pela causa da liberdade e da democracia, que é a sua própria causa.

Arevolução é a alma e o coração do povo, é o único caminho que conduz à verdadeira glória, que só pertence ao povo, porque fora da luta e do sacrifício do povo não há glórias, liberdade, vitória de seus ideais democráticos. O povo é o direito, é a justiça. Se não impõe a sua vontade pelo voto, que é a força de sua consciência livre, a expressão de seu pensamento, de suas idéias, se imporá pelas armas na sua marcha para o poder pela revolução.

Arevolução é a índole do povo, a solução dos seus problemas, a sua libertação do jugo da fome e da miséria que lhe oprimem e lhe torturam.

E, então, quando saem triunfantes, cobertos de glória da revolução que fez para tomar o poder pelas armas, os traidores do seu suor serão sentenciados pelo povo, julgados pela justiça do povo, no tribunal do povo, não escaparão da vingança sanguinária, do ódio de um povo traído, oprimido e explorado. É a queda, a ruína, a decadência dos poderes.

Entre as cabeças dos tiranos mergulhadas num oceano de sangue e decepadas pela guilhotina da cólera de um povo, lá está o cadáver da escravidão em decomposição, irreconhecível. Sujo de lama e de lodo, repasto de abutres e chacais, os restos dos que oprimiram e esfomearam o povo.

Édas marcas de sangue que falam da história de um regime de opressão e de trama, do drama da luta de um povo, da ruína dos poderes subjugados pela força da revolução do povo, que se ouve a voz da liberdade e da democracia, que é a voz do próprio povo, fazendo justiça com as próprias mãos.

Arevolução é o grito de seus sentimentos e de suas aspirações. É o eco de sua consciência livre, é a voz da própria liberdade. O ostracismo é a sentença do povo para os que o traem e o exploram.

Éessa a destinação dos que vivem a oprimir o povo, a banquetear-se com o suor do povo. atentando contra os seus direitos e a sua liberdade.

CUNHA SANTOS

Durval Cunha Santos nasceu a 17 de setembro de 1917, na cidade de Codó (MA) e faleceu em abril de 1989. Jornalista tido como um dos mais combativos do Maranhão, conhecido pelo esmero e cuidado com que tratava as matérias que escrevia, Cunha Santos exerceu outras profissões, como a de alfaiate, por exemplo. Mas logo descobriria o caminho das letras e do jornalismo. Poeta de estilo parnasiano, romancista e filósofo, Cunha Santos publicou, dentre outros, os livros Debaixo da Mangueira Grande, Fronteira da Hiléia (romances) e A Revelação, ensaio filosófico.

Ocupou, em São Luís, diversos cargos, como o de Secretário da Prefeitura e Assessor de Comunicação do INCRA. Foi candidato a vereador e a deputado estadual. Quando faleceu, era Secretário Geral do Instituto de Terras do Maranhão – ITERMA.

NA ORDEM DO DIA

Cunha Santos

(Jornal Pequeno, 08/10/1966)

E o palhaço, também rei nos seus domínios e nas suas horas, parodiava os meus pensamentos naquele crepúsculo à Beira-Mar.

Osilêncio, o circo, o leito escaveirado das águas da Baía de São Marcos formavam um contraste tão eloqüente, que abruptamente, naquela tarde, que já vai longe, fez-me recordar os gloriosos dias do senador Vitorino Freire com seu cortejo de “Baimas” ali naquele casarão verde da colina.

Sim. Agora, com aquela baixa-maré sem vagas espumejantes e estrondosas, no palácio dos Leões, morrera também o esplendor do limitado prestígio do nordestino, manifesto ali, nas bordas espumejantes das taças dos banquetes oficiosos por entre o trovejar das aclamações. Morrera agora toda aquela bizarria, todo aquele aparato da “corte dos Archers”, onde cada Baima era um senhor feudal e cada Brito Freire um duque da mais autêntica linhagem. Toda aquela gostosura dos bons tempos do coronel da Manufatureira submergira, saudosamente, nas águas barrentas do governador Eugênio de Barros:

Eeles, aquelas caras redondas e bochechudas como cara de gato, lá do meu Codó; eles que tanta força fizeram pela continuidade do reinadozinho; que nos áureos tempos davam cartas e jogavam de mão, voltavam agora a cusicar as meias, assinar o ponto no serviço como qualquer mortal anônimo por entre a massa indiferente. Além do mais, tinham ainda os “pasquins” falando de desvios de materiais da

SAELTPA, de professoras “com licenças efetivas” e do não recolhimento de nove milhões das quotas funcionais dos serventuários da antiga A.L.E.M. à Caixa de Aposentadoria e Pensões...

“Que azar! E tudo, por culpa de um governo que não quis ser governado e um senador que perdeu o prestígio no Rio. Que catástrofe! Mas seja tudo pelo amor de Deus, ou que leve mestre Satanás à sua conta...”.

Aquela extensão lamacenta da maré baixa a refletir nas poças daquela o vermelhão do sol poente, aquele silêncio, aquele altaneiro Palácio dos Leões incrustado no alto da Montanha Russa, emprestavam ao crepúsculo um karma pesado, no seio do qual sentia-se a chicotada, a risada espalhafatosa do palhaço do circo, na mais acerba crítica às grandezas e preconceitos da terra.

Silêncio! Perfume de cousas mortas.

NA ORDEM DO DIA

Cunha Santos

(Jornal Pequeno, 15/10/52)

Emergindo da catástrofe política que enlameou e feriu profundamente o povo maranhense, o eleitor do Maranhão levará ao próximo pleito eleitoral a sua última oportunidade de fé no destino político de sua terra.

É preciso notar que esta quase descrença geral do eleitorado não se faz sentir por estas ou aquelas iniciais de partidos, ou estas e aquelas doutrinas partidárias. Mas, tão somente, pelo critério das mesmas práticas, pelo caráter e conduta dos homem que a representam.

Quase todas as plataformas eletivas são sedutoras e dignas de apreço e delas se destaca, com dobrada força persuasiva, a máscara da sinceridade. No entanto, estas plataformas, por mais belas e diversas que sejam, no Maranhão, especialmente na capital, perderam completamente o poder de sugestão: Tudo antes das eleições; nada depois destas...

O povo tem razão!

Por que confiar ainda em promessas, quando a própria conduta dos homens que as fazem, as desmentem?

Ora! Se é isto uma verdade incontestável, é que estas lutas políticas rotineiras, pelo exemplo da objetividade dos homens que as fazem, não deixam dúvidas, servem ao interesse privado que as domina.

Portanto, como crer ainda nas plataformas e promessas? – O povo tem razão...

Todavia é de justiça proclamar que a democracia ainda é o melhor regime governamental do mundo. Se temos uma democracia, não devemos desesperar de tudo e de todos, embora aconteça algumas vezes, como nos está acontecendo, de ficarmos de rosto voltado interrogativamente para o panorama político, sem atinarmos com o porto que nos ofereça segurança.

É certo que a palavra do político maranhense, degenerando-se em pura demagogia, desacreditou-se na opinião pública, criando um círculo vicioso, um karma descomposto. Porém, não é certo que tudo se tenha viciado e perdido.

Procuremos o político que corresponda a nossa confiança pela marcha crescente de seus atos em favor do povo, a constância de suas atividades beneficentes, a limpa trajetória de sua vida pública e credenciamos-lhe a palavra, porque a palavra, ainda é no mundo, o veículo imediato de que nos servimos para exteriorizar os nossos sentimentos.

Não desesperemos ainda! Procuremos antes observar quem trabalha em benefício do povo, dentro da estreitura de suas possibilidades, dedicando às populações urbanas, suburbanas e rurais a força e o carinho de seus salutares ideais.

É este o homem! Este será o chefe que todos reclamamos, a revelação que o momento exige.

Aluta política, no Maranhão, não é uma questão de partidos, mas de homens e condutores de homens.

OTHELINO NOVA ALVES

Nasceu Othelino Nova Alves, no dia 15 de outubro de 1911, no bairro da Jordoa, em São Luís, MA. Jornalista profissional, estudioso de direito, foi advogado de todos os partidos trabalhistas que se organizaram no Brasil. Paradoxalmente, na ditadura Vargas, ele desapareceu certo dia e, só meses depois, foi encontrado, pele e osso, no porão de uma das celas da ditadura, onde foi acerbamente torturado.

Fundador e presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Luís, em que foi reempossado por sucessivas gestões, no campo sindical, foi uma das mais expressivas lideranças, especificamente na área de comunicação.

Foi dirigente da Federação Naciodonal dos Jornalistas e da Associação Brasileira de Imprensa.

Decorridos alguns anos de sua morte, em todos os congressos e convenções nacionais de jornalistas, prestam-lhe significativa homenagem, ressaltando o brilho de sua inteligência, a deliberada, obstinada e determinada coragem, ao engajar-se nas lutas mais memoráveis da categoria de que se fez porta-voz e, á qual dignificou, ao longo de sua profícua existência.

Poucos dias antes de ser assassinado, escreveu um artigo intitulado A Lei da Rolha, lei através da qual os militares de 1967 iriam cercear a liberdade de imprensa.

No ano subseqüente, veio o AI5 que restringiu, ou melhor, acabou com as liberdades pública e individual. E como, segundo Vicco, a História se repete, neste ano 2000, tramita, no Congresso Nacional, a chamada Lei da Mordaça, pior que o AI5.

Othelino, durante muitos anos, esteve ao lado de Neiva Moreira, em O Combate. Era advogado provisionado, tendo sido considerado por Colares Moreira a maior expressão de conhecimento do processo eleitoral, só encontrando paralelo em Clodomir Milet, que era médico.

Em homenagem a Othelino, foi instituído, através de Decreto Legislativo o prêmio “Othelino Nova Alves” de Jornalismo, de abrangência nacional, cuja finalidade é a defesa da manutenção do estado democrático de direito.

Após a sua morte, em 30/09/1967, no lugar em que foi barbaramente assassinado, na rua de Nazaré, erigiu-se um busto e o trecho foi batizado de Espaço da Liberdade Othelino Nova Alves, através de Lei municipal.

Dias após a sua morte, assaltaram a sede do Sindicato dos Jornalistas, na Rua Afonso Pena, para roubarem vários documentos, que comprometiam as elites dominantes. E acabaram roubando os originais do seu livro Minha Vida e Minha Obra, prefaciado por Nauro Machado.

Ao defender as liberdades e os oprimidos, sofreu inúmeras agressões, também fora do Estado do Maranhão, como no Ceará, Pará, Piauí e Amazonas, onde um ex-governador teria sido o autor intelectual do atentado. No Ceará, foi um senador da República. No Maranhão, as elites que não concordavam com as denúncias que fazia sobre a corrupção, com a pena desassombrada, no Jornal Pequeno, sua trincheira, ao lado do amigo Bogéa.

Othelino usou a Praça e os tribunais para defender os humildes e acusar os poderosos que, na calada da noite, usavam de maquinação e subversão, autoritarismo, arrogância, prepotência e intolerância, sob a capa da Justiça.

NA LIÇA..

NO PANTEON NÃO HÁ LUGAR PARA OS PARLAPATÕES!

Othelino Nova Alves

(Jornal Pequeno, 15/07/1967)

Estou seguramente informado de que certo grupo palaciano anda açoitando o cão com a vara pela Corregedoria Geral do Estado, com o objetivo de fazer movimentar ridículos, cavilosos e imaginários processos forjados contra mim, por figuras menosprezíveis, incapazes de me enfrentar nas lides jornalísticas e sem o trânsito livre e confortador que tenho, graças a Deus, perante a opinião pública da minha terra.

Saibam todos, protetores e protegidos que, quem faz absoluta questão de que andem os processos, e andem a jato, sou eu.

Etanto assim ocorre, que estou sempre nos Cartórios solicitando prosseguimento dos feitos, com a maior brevidade, pois, na verdade, na verdade eu vos digo, quanto mais depressa andarem tais processos, mais tranqüilos e mais segura será a prova fulminante, que farei, demonstrando a iniqüidade dos mesmos.

Não irei pedir favores a quem quer que seja. Não irei procrastinar uma só audiência. Não irei impedir o comparecimento de uma só testemunha. Não irei suar de artimanhas e sofismas com o objetivo de tumultuar o andamento dos feitos.

Contra mim nada existe, senão o temor dos carcomidos, dos calhordas, dos incapazes, dos falsários, dos pulhas, dos descategorizados e desqualificados, dos que têm vivido de enganar o povo.

Contra eles – todos eles – eu tenho provas esmagadoras, irrefutáveis, irretorquíveis, irrefragáveis, quer nos bojos de processos, quer em meu poder, uma delas de estarrecer a toda a população maranhense, provas que serão usadas legitimamente como legitimamente são praticados todos os meus atos.

Não irei pedir soluções políticas para os tais feitos, nem admito arranjos. Não desejo que nenhum deles seja julgado sem Relator, se for o caso, para haver designação “a posteriori” e, mesmo assim, ficar na berlinda o acórdão, de maneira a ser esquecido, e depois, publicado sem que as partes tenham conhecimento, já exaustas de esperar por um dever de dignidade judicante do magistrado a quem cabe a responsabilidade de sua lavratura.

Não irei pedir que fiquem os processos na geladeira... Não! Estou solicitando, de público e razo, o andamento de todas, observadas as diligências requeridas pela minha defesa e os meus depoimentos.

Assim, fala quem não teme. Assim procede quem tem a consciência tranqüila do dever cumprido, assim fala quem não teme, comparece perante os julgadores, porque, graças a Deus, arrima-se sempre, e invariavelmente, na verdade, a mais sublime de todas as Virtudes, a maior e mais poderosa de todas as Armas.

Volto, agora, a reafirmar que, no caso Buraqueira, agíramos na mais legítima defesa da nossa honra profissional, reagindo contra a injúria, calúnia e difamação e, ainda, refletindo a opinião pública.

E, ao ensejo deste novo pronunciamento, é dever salientar que temos os elementos probantes de nossas assertivas, pelo que estamos, todos nós do Jornal, tranqüilos e despreocupados, sem precisarmos de acomodações nem de arranjos; mesmo porque não usamos de tais expedientes.

Quem for podre, que se quebre!

Oque devem saber tais interessados no andamento dos processos – sobreleva recordar– é que nós temos reptado, por muitas vezes, o prefeito Buraqueira a dizer como paga uma Representação na Guanabara, sem que tenha ele tido a coragem de dizer uma só palavra. É que, segundo a Lei de Responsabilidade, terá que responder pelas despesas não autorizadas. E à Câmara Municipal de São Luís cabe o dever cívico, moral, legislativo e fiscalizador de saber como é feito tal pagamento, como é mantida a citada Representação. Desta feita, fica o repto à Câmara.

Seja dito, afinal de uma vez por todas, a esses gaiatos de gravata, que eles não passarão à história, porque no Panteon não há lugar para os parlapatões.

Que encanguem os processos e venham, pois a nossa arma será sempre a de sempre: a Verdade!

Oque parece dever de honra para a magistratura maranhense, sem a menor dúvida, é o julgamento do célebre Crime da Base Aérea, cuja demora constitui uma permanente interrogação de parte do povo, de todas as camadas sociais, não sendo nada agradável o conceito feito, em muitas delas, pela conduta da Justiça em retardado, inexplicavelmente, esse julgamento, que é que tem que ser uma questão de honra. Não desejava mais focalizá-lo nesta Coluna, senão ao seu término, mas a impertinência de tais gaiatos força-me a este resumido e parcimonioso pronunciamento, nem parênteses que preferia não registrar.

De resto, registrem todos estas afirmativas: não arredaremos um só milímetro da posição assumida.

NA LICA

DIANTE DE UM DOCUMENTO QUE PASSARÁ À HISTÓRIA

Othelino Nova Alves

(Jornal Pequeno, 08/10/1966)

Permitam-me os meus queridos leitores, pelos quais tenho o mais profundo respeito, que transcreva linhas a seguir, um documento que passará à história e servirá de patrimônio aos meus descendentes.

Otrabalho, fruto da inteligência e da cultura de Nauro Machado, destina-se ao prefácio de um folheto em torno do chamado Crime da Base Aérea, tendo o consagrado escritor, poeta maranhense, se inspirado no pronunciamento do Dr. Esmaragdo de Sousa e Silva, Procurador Geral do Estado.

Eis, pois, na íntegra, a matéria que publico com os meus agradecimentos ao ilustre rebento de uma das famílias mais honradas da nossa terra.

A Consciência de um Povo

Nauro Machado

Sabemos os motivos por que o Maranhão, escamoteado em vinte e poucos anos de sua predestinação histórica, não se deixou capitular ante a investida de corruptas mentes, cevadas pela prepotência dos iníquos e adormecidos no engodo de um efêmero poder : pessoas houve que tiveram o doloroso encargo da resistência, pessoas cuja luta pôde ressarcir o inominável crime da omissão de quase toda uma coletividade.

Pouquíssimos foram, realmente, os homens que resistiram aos processos reveladores de deterioração moral, e muitíssimos aqueles que, por comodismo ou covardia, conivência ou despreparo, resolveram silenciar ante o que viam, na cegueira do espírito e na castração do próprio respeito.

Se, desde os tempos de O Combate, Othelino Nova Alves era o jornalista temido e veemente, leal e vigoroso, muito mais passou a sê-lo após o atentado brutal de que foi vítima, no ano de 1960. Homem de caráter forte, pôde Othelino consubstancializar em sua personalidade a consciência cívica de nossa gente, a capacidade de resistir de todo um povo. Conhecendo-se-lhe a luta, sabemos a causa por que o Maranhão não poderia, como não pôde, capitular.

Desnecessário se nos torna, neste preâmbulo, recapitular os lances do chamado Crime da Base Aérea, as degradantes cenas do seqüestro e conseqüente seviciamento a que foi submetido o jornalista Othelino, num ato medieval comandado diretamente pelo então poderoso Chefe de Polícia daquela época. O necessário é que se tome conhecimento, através do Pronunciamento do Ministério Público, ora dado à lume, do que significava a justiça em terras maranhenses, de como os homens encarregados de defendê-la e praticá-la, tripudiavam cinicamente sobre os postulados jurídicos, transformando-os em uma cloaca de acumpliciamento governamental.

Oleitor das páginas a seguir encontrará fatos realmente de estarrecer, como bem acentuou o Exmo. Sr. Dr. Esmaragdo de Sousa e Silva, Procurador Geral do Estado. Que o leitor consciencioso sobre eles medite.

Este não é um processo de origem kafkaniana, em que pese a simbologia de um oculto pesadelo e a barbárie tecida pelas mãos do terror. Os fatos são por todos conhecidos e a culpabilidade dos indiciados mais do que evidente. O crime foi perpetrado de fato e as chagas dele resultantes ainda sangram:

Não nos arvoremos em defensores da lei de Talião nem de inexorabilidade da vindita. Queremos, isto sim, que, com a severa punição dos culpados, haja, por quem de direito, o respaldo dos postulados mais fundos da decência e dignidade humana.

Othelino Nova Alves, com o exemplo da sua coragem e a pertinência da sua honra, é bem o testemunho da nossa esperança e o escudo da nossa fé. A certeza que temos na punição dos culpados é a mesma que depositamos no altar da justiça e aos pés da verdade. Pois, a Justiça é como o ventre da terra na fecundação da aurora: abrindo-se em luz, sua raiz cresce pura para os homens que a querem e respiram, límpida, como a verdade, e não para aqueles outros que a querem e respiram imundas, já que chafurdam e vivem na lama, como porcos.

Que Deus ilumine os magistrados desta Terra.

Links Patrocinados