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Edição 130

Gonçalves Dias (IV) - A Autobiografia Amorosa de um Guesa Errante

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Data de Publicação: 19 de abril de 2006
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Ana Amélia Ferreira do Vale, o grande mito da tragédia amorosa brasileira


1


Gonçalves Dias foi sobretudo um órfão afetivo, privado dos pais pelo nascimento bastardo e a conseqüente discriminação preconceituosa a que se soma o preconceito racial; órfão de amor, privado do casamento com Ana Amélia o que o empurrou para a orfandade e exílio da terra que mais amou, o Maranhão. Por isso é que Gonçalves Dias nos leva a perceber que, ao lado da poesia escrita, há uma outra poesia muito mais forte e, talvez mais eloqüente, a poesia da própria vida, escrita com muito poucas palavras, mas de incrível tráfego e trânsito da introspecção psicológica, do recesso das galerias mais subterrâneas do ser para o comovedor e enternecedor poema. Nesse sentido, Gonçalves Dias, o homem, é o seu melhor e mais magnífico poema, capaz de criar no homem, também, um dos mais magníficos poetas que a terra já conheceu. Não estamos falando de conjunto de obra literária de um escritor. Longe de nós tal pretensão. Estamos falando dos poemas que esse homem-poeta escreveu com vida, como se ao arrancá-los das próprias entranhas se exaurisse e subtraísse, por escrevê-los com o próprio sangue. Estamos falando dos poemas Canção do Exílio, O Mar, A Tempestade, I-Juca-Pirama, A Meus Amigos do Maranhão, Tu não queres ligar-te comigo, Se Se Morre de Amor, Ainda uma vez adeus e Minha Terra.

Sim, porque a vida é a mais verdadeira e transcendente poesia, pelo grau de verossimilhança ficcional que ela pode inspirar à própria poesia, até como fenômeno sine qua non.

Sem paixão: é preciso também ver a poesia não como pura transpiração virtuosística, mas percebê-la pelas vidas generosas e pródigas de tragédia real, como as de Rimbaud, François Villon, Gregório de Matos, Camões, Rabelais, Homero, Florbela Espanca, Emily Dickinson, Baudelaire, Augusto dos Anjos, Luciano de Samosatra e raros outros assinalados.

Gonçalves Dias foi uma espécie de avis rara no Brasil, fundador e condutor de uma poética emblemática de força e foz autobiográfica. Sim, ele foi o pioneiro, o desbravador do que, somente e a partir dele pôde ser batizado de Literatura Brasileira. Porque nunca houve país com Literatura autônoma sem mitos. E, antes de Gonçalves Dias do que se escrevia no Brasil, nada teve força de mito, mesmo no que escreveram Santa Rita Durão, Caramuru; e Basílio da Gama, Uruguai ou Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, nenhum protagonista teve sustentação de mito.

É Gonçalves Dias quem cria para os textos literários brasileiros os mitos nacionais. Não esqueçamos, ele, em carne e osso, é o grande mito da tragédia do amor.

Gonçalves Dias criou o mito do Ulisses brasileiro, no poema I-Juca-Pirama, do amor trágico, em Ainda uma Vez Adeus, dentre outros.

Paradoxalmente, os principais poemas do poeta Gonçalves Dias se confundem com a própria vida do homem Gonçalves Dias e aí está a essência desses poemas enriquecidos de prodigalidade.

A vida de Gonçalves Dias é de tal modo transcendente que se incorpora ao drama universal. Mas ela não é transcendente à poesia de Gonçalves Dias, no processo vida x poesia interagindo-se, complementando-se, uma como extensão da outra. Sim, a vida de Gonçalves Dias é a vertence da grande poesia de Gonçalves Dias.

Essa poesia, a escrita e a da própria vida se firma pela perenidade do que é autobiográfico, e pela capacidade de se tornar, sendo particular, universal, porque aí o poeta é porta-voz, pela prodigalidade de um poética ficcional, cuja realidade paralela se opera pelo alto grau de verossimilhança que inflete e reflete.

O poeta, então se torna espelho, em que inúmeras pessoas anônimas ou obscuras se miram e comovedora, emocionada e enternecedoramente exclamam, ainda que para si mesmas, Esse daí sou eu. Por isso Gonçalves Dias sempre será um poeta muito querido de todos, pelos mitos que construiu como cobaia de se mesmo.

Essa poeticidade ficcional romanesca, que a vida de Gonçalves Dias inspira, confere ao seu nome e a seus poemas autobiográficos uma poderosa carga semântica que se tem acumulado com o tempo e que o distingue como o favorito de todos os poetas brasileiros. O autor de Ainda uma vez adeus se transforma, assim, no grande mito brasileiro do homem-poeta protagonista de uma tragédia que tem todos os méritos das obras-primas shakespearianas.

O poeta de Ainda uma vez adeus não é o autor de um guesa, ele é o próprio Guesa, roubado aos pais. Ele é um Guesa Errante em plenitude, porque tornado órfão pelas vicissitudes de um destino madrasto.

Ele é o filho que, biológica e afetivamente, não pôde pertencer aos pais, porque nascido de um relacionamento socialmente condenável pela ética aristocrática e burguesa. Ele é repelido do convívio social naquilo que de melhor aspira – ao amor, e a amar.

Ele, nasceu de uma união ambígua, amancebada entre um português branco (que Deus o tenha) e uma brasileira, mestiça de índio e negro. Portanto, pelo próprio nascimento Gonçalves Dias se torna aquele que deve morrer, para os pais de nascimento, biológica e espiritualmente.

Ele se faz representar inequívoca e reiteradamente em sua poesia indianista, pois estará por toda a vida se recriminando por uma “covardia”, quando vacilou, não raptando Ana Amélia, a instâncias desta. Por isso ele escreveu, no I-Juca-Pirama, o episódio da maldição do guerreiro, como forma de se autopunir.

Entre ele e os pais não foi cortado somente o cordão umbilical, mas principalmente a relação afetiva mais próxima. Não por decisão dos pais ou dele, mas do castrador trauma psicológico pandemônico imposto pela dita “nobreza” maranhense da época.

Não lhe tiraram o vínculo de direito econômico-financeiro, este é o da tal comiseração. Pior, marginalizaram-no psicologicamente, não por ser bastardo (a sociedade estava cheia de filhos ilegítimos e de santa hipocrisia), mas pelo fato de ser mestiço pobre, isto sim. Principalmente, convenhamos, por não ter dotes de bens materiais. Isto sim, o tornou um ser socialmente ilegítimo. É esse viés que o transforma em pessoa socialmente marginalizada, portanto incluída enquanto intelectual, escritor, poeta e, excluída, enquanto mestiço. Isto lhe impõe exílio, orfandade e vida errante, no sentido de estar sempre viajando. Portanto, a dor de Gonçalves Dias não foi inventada por lê, como querem, equivocadamente alguns biógrafos.

A dor que Gonçalves Dias transfere para sua obra poética é visceralmente real.

O estigma ou discriminação social e racial que lhe impuseram marcou-o com sofrimento até os últimos de seus dias.

O estigma ou discriminação social e racial que lhe impuseram marcou-o com sofrimento até os últimos de sues dias.

Filho natural, mestiço de índio e negro, por parte da mãe, e branco, por lado paterno, carga que ele superou socialmente, mas não psicologicamente.

Sim, a dor de Gonçalves Dias, como a do poeta Cruz e Souza foi real e a maior dor, a de opressão psicológica, a da neurose do medo da eterna exclusão social, inexplícita, secreta.

Mas essa discriminação se torna explícita quando Gonçalves Dias tem rejeitado seu pedido de casamento com Ana Amélia Ferreira do Vale.

Não houve covardia, quando Ana Amélia instou por carta para que ele a raptasse. Ele vacilou, constrangido pela decepção de um golpe psicológico jamais esperado. Ele já era reconhecido, então, como grande poeta.

Com o trauma, ele se sentiu publicamente humilhado em sua honra espiritual, castrado pela impossibilidade de casar com quem amava por mero preconceito burguês. Isso o marcou para o resto da vida. Ele jamais contava com a recusa. Mas a família Ferreira do Vale aceitava-o tão-só como homem de letras, o poeta, mas não o homem com quem Ana Amélia corromperia sangue e tradição familiar. Terminantemente não, nunca, pois era bastardo, mestiço e, além do mais, pobre. Portanto, a dor humana e poética de Gonçalves Dias não foi fictícia. Jamais uma dor foi tão pungentemente real e plural.

A vida de cigano do homem Gonçalves Dias foi sempre uma busca de fuga à dor da rejeição pelo nascimento espúrio, portanto de conseqüências traumáticas irreversíveis, exarcebadas com a recusa do casamento com a mulher que amava.

E mesmo que às recusas, o poeta responda com o exemplo de vida gloriosamente superior, percebe-se ao ler-se Ainda Uma Vez Adeus, que houve um limite que ele não superou, o da discriminação.

É também refutável enquadrá-lo como conquistador volúvel.

Percebe-se que ele busca encontrar Ana Amélia em outras mulheres e, como não a encontra, ou seja, não consegue encontrar o verdadeiro amor em nenhuma, sua procura não cessa. E ele estará sempre no eterno retorno inconcluso.

Também, a conquista de várias mulheres se relaciona a uma forma de autodefesa psicológica por recalque e vingança do inconsciente. Percebe-se que ele quer preservar sua auto-estima e autocomiseração.

A infidelidade é, portanto, uma forma de autodefesa permanente contra as seqüelas da rejeição, e os traumas que esta lhe impôs como impacto: o preconceito contra si mesmo, gerado pelos traumas discriminatórios que sofreu. Sim. Ele namora para fugir do golpe da rejeição da mão de Ana Amélia. Daí a explosão do poema Ainda Uma Vez Adeus.

Haverá poema autobiograficamente mais pungente e dilacerador em Língua Portuguesa? Não. Haverá autobiografia amorosa mais bela, trágica e real? Não.

2

A vida de Gonçalves Dias
de Lucia Miguel Pereira na Opinião de Antonio Candido


Da sra. Lucia Miguel Pereira, aliás, pode-se dizer o mesmo que ela assinala como característica de Gonçalves Dias: que põe em cada trabalho empreendido, qualquer que ele seja, a dedicação e o interesse que os tornam obras de acabamento definitivo.


Escritora Lucia Miguel Pereira (1901 - 1959), a mais importante estudiosa da vida e obra de Gonçalves Dias


[...]
Deste livro, sai, de fato, um admirável Gonçalves Dias, na complexidade das suas paixões, no relevo muito humano do seu caráter e da sua inteligência. Um cultor fervoroso do poeta me confessou que não pudera furtar-se a um momento de meia decepção ao vê-lo, menos ideal do que nos seus versos, pulando o muro dos amores escondidos, queimando um incenso nada platônico às caboclas do nordeste. De fato, a obra da sra. Lucia Miguel Pereira presta ao poeta o serviço inestimável de situar a sua grandeza artística, intelectual e moral no panorama de uma vida nem mais nem menos pura do que as outras. Tão cheia de fraquezas quanto a de todo o mundo, mas muito mais enfibrada e digna.

Pode-se dizer que a sra. Lucia Miguel Pereira fez para o homem Gonçalves Dias o que fizeram para o seu aspecto físico as magníficas fotografias e caricaturas do tempo, publicadas pelo sr. J. M. Nogueira da Silva na obra exemplar que é a Bibliografia de Gonçalves Dias. Neste caso, tivemos a revelação da sua fisionomia acentuadamente mestiça em lugar das litografias e desenhos idealizados, que o arianizavam amavelmente; naquele, a integridade do seu perfil humano, porventura um pouco menos angélico do que aparece através da lírica amorosa.

A sra. Lucia Miguel Pereira fundamenta o estudo da personalidade de Gonçalves Dias pelos seus fatores elucidativos. Considera, inicialmente, a constituição étnica, rica do sangue de três raças, procurando mesmo dosar a porcentagem de cada uma. Pelo que parece, a negra entrava em menor escala, predominando a branca, portanto. A autora chega mesmo, por uma análise fisionômica através da iconografia, a afirmar o aspecto de mestiço de índio que deveria ser o do poeta.

Ainda no capítulo da constituição física, indica e acentua, por várias vezes, uma circunstância que deve, de fato, ter sido decisiva para o comportamento do poeta - a sua extrema pequenez física.

À mestiçagem, à baixa estatura e à saúde fraca - fatores que foram para ele motivo de sentimento de inferioridade - juntam-se as circunstâncias sociais pouco favoráveis que cercaram o seu nascimento e mocidade, desenvolvendo nele aquela melancolia que havia de tocar o pessimismo na maioria da sua Lírica. Filho natural de imigrante, de marinheiro, bem cedo órfão, estudou graças à generosidade de amigos - para confessada mortificação do seu orgulho.

Outra circunstância que influiu na sua formação foi a estada na Europa, os anos de viagem, que iam marcar a sua poesia com tanta coisa do velho mundo. No entanto, parece que a sua sensibilidade não deveu muito às influências lusas, e que a ausência da pátria agiu, sobretudo, como motivo permanente de saudade e de abatimento.

A estes fatos, juntemos a extrema sensibilidade do poeta e a acentuada atração sexual que exercia; juntemos um amor constante e devotado pelo estudo - e teremos os pontos de partida da sra. Lucia Miguel Pereira para a sua interpretação.

Do que a biógrafa assinala na sensibilidade de Gonçalves Dias, poderemos concluir que ela era dominada pelo signo da ambivalência, estando os seus atos e os seus sentimentos profundamente ligados a essa atitude inconsciente. Sensual na sua vida, foi antes puro nas suas poesias; terrivelmente melancólico nestas, apresentava na vida uma alegria e um bom humor que não pareciam construídos, dos quais, aliás, passava rapidamente à tristeza e ao abatimento. Nunca ao desânimo, porém, que esse homem doente e imaginoso foi de uma vontade bem organizada e constante nas coisas da vida. Vontade que se ligava a um orgulho acentuado e a um sentimento melindroso do ponto de honra e da própria dignidade. Do próprio valor, também, que ele era modesto nas atitudes, mas altamente convencido do seu talento do seu gênio como se dizia generosamente no Romantismo.

[...]
Por outro lado, a sua irradiação sexual, a aceitação pronta e definitiva que obtiveram a sua pessoa e a sua obra, a constatação do próprio valor consolidaram nele o sentimento de superioridade intelectual e atenuaram de certo modo a influência depressiva dos primeiros. Raramente um mestiço teve a sua mestiçagem tão pouco lembrada, um autor a sua obra tão bem aceita, a sua atividade tão constantemente remunerada quanto Gonçalves Dias. Sílvio Romero já lembrava: “(...) cumpre notar que o poeta maranhense não passou por dois grandes flagelos que assaltam de ordinário os homens de letras neste país: a guerra literária e a penúria econômica. O talento do poeta não foi jamais contestado (...) Não passou por grandes dificuldades para viver. Teve sempre empregos e boas comissões. Neste sentido foi de grande auxílio a amizade que lhe votou sempre o segundo imperador”. (História da Literatura Brasileira - 3ª ed., vol. 3, p. 233).

Esta aceitação social de Gonçalves Dias, só alterada quando ele quis casar no seio de uma família maranhense de preconceitos firmes, contribuiu, sem dúvida, de maneira decisiva, de um lado para contrabalançar o sentimento de inferioridade; do outro, para atenuar nele certos mecanismos de adaptação e de reação observáveis no mestiço, como seja, por exemplo, a auto-valorização pelo pernosticismo, que a sra. Lucia Miguel Pereira demonstra claramente não existir nele.

É esse o homem Gonçalves Dias que vemos no livro da sra. Lucia Miguel Pereira. Ainda recentemente o cônego Bueno de Sequeira assinalava um tanto pitorescamente que “(...) entre a produção literária de um poeta e o fundo do seu caráter individual deve haver uma equação, constando de um membro subjetivo o íntimo do poeta -, e de um membro objetivo - a sua obra”. (Raimundo Correia, Rio, 1942, pp. 71-72). O que quer dizer que a obra e a vida de um poeta se interpenetram, explicando uma a outra, nutrindo-se uma da outra.

No caso de Gonçalves Dias, a sra. Lucia Miguel Pereira não apenas acentuou esse aspecto, insistindo freqüentemente na correspondência entre os fatos da sua vida e a sua produção, como demonstrou a sua grande coesão intelectual, indicando, numa bela análise comparativa, a correspondência das características que empresta aos seus índios de poesia e as conclusões a que chegara sobre eles nos seus estudos históricos e etnográficos. Assim, o estudo da sua biografia esclarece não só a sua arte como revela a coerência desta com o conjunto da sua obra, confirmando o ter sido Gonçalves Dias, provavelmente, um dos mais estruturados e constituídos dos nossos grandes poetas.

(Folha da Manhã, 29/08/1943)

[...]
Não obstante, num artista, há dois aspectos a considerar: o homem e a obra. Que ambos se explicam, que um esclarece o outro, não há dúvida, na maioria dos casos. Literariamente, porém o que mais interessa é o que fica no patrimônio cultural, o que representa a criação que se vem juntar ao acervo dos produtos de uma cultura. [...]

A ocupação primeira da crítica, portanto, deve ser em relação à obra feita. Do ponto de vista crítico, e mesmo histórico, importa sobretudo o estudo da produção de Gonçalves Dias, tomada nela mesma, e considerada autonomamente em sua relação com a cultura do tempo. [...]

Essa sublimação, e conseqüente universalização do amor, que é a marca dos grandes poemas, dá às suas produções um valor em si mesmas, independentemente da causa circunstancial que porventura lhes subjazer.

[...]
Talvez nos “Hinos”, em algumas “Americanas” e no maravilhoso “Y Juca Pirama” é que vamos encontrar o mais significativo Gonçalves Dias, porque neles é que se encontra em plena afirmação esse naturismo essencialista, cujo caráter de necessidades lhes imprime um sentimento original na nossa literatura.

(Folha da Manhã, 5/09/1943)

3

Gonçalves Dias:
esboço biográfico
Manuel Bandeira

VIAGEM À EUROPA
(1851-1852)


[...]
A esta altura da biografia, já deve o leitor estar bastante inteirado da psicologia do poeta para imaginar que nem o trabalho exaustivo das comissões, nem o peso dos íntimos desgostos ser-lhe-iam entrave ao vezo de namorador impenitente. Aquele homenzinho de um metro e cinqüenta, coração agora ulcerado pela paixão de Ana Amélia, continuava o mesmo autêntico devastador de corações femininos, e nesta matéria aproveitou gulosamente as suas folgas de tempo nos quatro anos de Europa. O poeta queixava-se, era um chorão; mas o homem agia, era junto às mulheres como o viu João Francisco Lisboa na festa de N. S. dos Remédios, sabia falar, tinha lábia inesgotável. Céline, uma de suas namoradas da Europa viu justo: “Du reste, je sais que quoique poète, vous êtes très positif.”


O poeta Manuel Bandeira, biógrafo, estudioso da vida e obra de Gonçalves Dias. Autor do livro Gonçalves Dias: esboço biográfico


Esta Céline foi, aliás, a mais inteligente de todas as mulheres cortejadas por Gonçalves Dias. Amou-o, sem dúvida, mas não a ponto de perder a cabeça. Era solteira, dizia ter dezenove anos e vivia com a família em Bruxelas. O namoro começou em fins de 56, por ocasião de uma das passagens do poeta pela Bélgica. Em princípios de 57, estava o poeta em Dresda e Céline escreveu-lhe: “Tenho um assunto sério, sobre o qual gostaria que me esclarecesse. Fui ontem ouvir um pregador famoso, que disse com muita eloqüência provirem todos os nossos infortúnios do fato de amarmos, na criatura de Deus, não o espírito, mas a matéria, que erigimos em ídolo, depois do que mandou interrogássemos as nossas consciências para constatar a verdade de sua palavra; assim o fiz, mas longe de achar-nos culpadas da acusação, descobri que nunca amei senão os homens de espírito, ou antes, o espírito dos homens; depois do que, disse ele ainda: que a matéria engana e só náusea nos deixa. Tive vontade de tomar a palavra para dizer-lhe que a recompensa do espírito não era lá muito superior. Disse ele mais: a voluptuosidade tudo sacrifica à sua avidez egoísta; mas não acha, como eu, que também o espírito tudo sacrifica à sua vaidade egoísta, conheceu pessoas espirituosas que resistissem à tentação de uma boa piada? - mesmo que com ela pudessem matar o próximo? Eu, que não me gabo de conhecer a sociedade, já vi homens caçoarem de uma mulher por lhes ter concedido uma entrevista à qual tiveram a boa idéia de não comparecer, e escrever-lhe em seguida: comparei-a a um guarda suíço de sentinela, e outras brincadeiras mais ou menos deliciosas. Não acha que semelhantes lições devem corrigir para sempre uma mulher de pedir aos homens os prazeres do espírito, e, sobretudo, de marcar-lhes entrevistas? Quanto a mim, os sermões que proíbem amar a matéria e, por outro lado, os exemplos edificantes abalam as minhas crenças a tal ponto, que não sei mais o que devemos amar na vida, e recorro às suas luzes para que me ensine, e estou certa que me há de esclarecer”.

Inculcam essas linhas que o poeta, mal começado o namoro, queria ir logo às do cabo. Céline, aliás, muito vigiada pela mãe e pela irmã, que perceberam o perigo, defendia-se. Via claro no fascinante caboclo do Maranhão: “Vejo com alegria que a neve alemã lhe faz tanto bem à saúde; que são grandes os seus progressos em filosofia; as suas reflexões sobre a feiúra impressionaram-me, tão profundas são; o senhor é o primeiro a achar-lhe uma vantagem irrecusável sobre a precária beleza. E eu disse comigo que, para inventar esse grande provérbio, é preciso que a atração do sólido lhe tenha excitado muito vivamente a imaginação; de resto, sei bem que, embora poeta, o senhor é muito positivo. Durma dezoito horas por dia para não se deixar invadir pelos maus pensamentos, e consagre as outras seis aos prazeres da mesa e às suas ocupações; é assim que eu passaria o inverno se fosse independente... Conte-me um pouco o que faz do seu tempo nessa Sibéria européia aonde o levou o destino, e o que faz da sua inesgotável alegria num país onde ninguém ri nunca. Ri-se provavelmente sozinho ao voltar para casa depois da seriedade forçada de um dia inteiro...”

As cartas de 57 e 58 revelam maior grau de intimidade, Céline já tuteia o poeta, mas esquiva-se à entrega total e, ao cerco do requestante, respondia com estas razões: “Não te satisfez o verdadeiro e único motivo de minhas hesitações, claramente explicado por mim em nosso passeio; fica certo que, se ficasses, já não te digo em Bruxelas, mas na Europa, se eu tivesse a esperança, de te rever, se eu pudesse escrever-te de vez em quando, enfim, se eu fosse alguma coisa na tua vida como tu, toda a minha, há muito tempo já te teria dito: vem! Deves, porém, compreender, como eu, que veneno não estragaria uma ligação que fosse um adeus eterno. Se gostasses um pouco de mim, acharias também que é cedo e tarde demais. Balzac diz que, o que fazemos tarde demais, perde dois terços do valor. No começo de nossas relações, quando ainda tínhamos dois anos diante de nós para me habituar a uma separação, era mais compreensível do que hoje. O que seria para ti uma distração passageira, seria para mim de uma incomparável vulgaridade, visto que a tua franqueza me tiraria o direito de me considerar uma vítima enganada, o que consola tantas mulheres, permitindo-lhes iludirem-se sobre si próprias. Sinto não ser bastante filósofa para saltar por cima disso tudo”.

Essa carta é de abril de 58. Em agosto, embarcava Gonçalves Dias para o Brasil. A ausência de quatro anos não arrefeceu a afeição de Céline. Procurou-a, o poeta, em Bruxelas, em 62, de passagem para Marienbad, mas, da Alemanha, não respondia às cartas da moça. E esta queixava-se: “Quando cessarás de pôr à prova a minha paciência? Quanto mais penso em tudo isso, mais me convenço que não tornarás nunca: Preferiria saber-te nos cafundós do Brasil, ao menos as criaturas que há por lá, têm mais feição de animal do que de mulher, ninguém por mais extravagante que seja, pensa em tomá-las por companheiras para todo o sempre, são postas de lado quando não se tem mais necessidade delas”.

Que estranha idéia fazia Céline das mulheres do Brasil! Mal sabia ela que o pesar do poeta vinha precisamente de não ter podido casar-se com uma ingênua brasileirinha que não saberia ler Balzac...

Unhada de gatinha ciumenta, que logo voltou aos carinhos habituais quando soube que o amigo piorara em Marienbad: “Tenho vivos remorsos de não ter escrito antes, quando penso que estiveste tão doente querido da minh’alma, longe de toda a tua família, em país estrangeiro; tinhas ao menos alguém para te tratar convenientemente? Pois quase sempre esses cuidados mercenários não bastam. Não quero fazer-te censuras, mas se tivesses ouvido, terias vindo para cá, onde o clima é mais ameno. Deus sabe se não estarias de novo com saúde, pois é impossível que uma planta de estufa como tu seja transportada a uma terra de gelos e de neves sem ressentir-se... Escreve-me um pouco mais, se tiveres ânimo e força, conta-me que doença é a tua e o que dizem os médicos; e quando estiveres em condições de poder viajar, vem passar uma temporadazinha aqui. Estou certa de que isso acabará de curar-te”.

A carta é de fevereiro de 63. Gonçalves Dias voltaria a Bruxelas em agosto e lá se demoraria até meados de setembro. De certo, estaria de novo com Céline, mas nenhum vestígio ficou desse encontro, que seria o último.

Ainda em 57, o mesmo ano em que travara relações com a avisada Céline, conheceu, Gonçalves Dias, não se sabe bem onde, se em Paris, em Londres ou em alguma estação de cura, uma brasileirinha de boa família (o pai era funcionário do nosso Tesouro). Amélia R., solteira, então visitando a Europa em companhia da mãe. A moça apaixonou-se pelo poeta, que desta vez parece ter tirado todo o proveito do sentimento que soube despertar. Pelo menos assim se depreende de duas cartas, as únicas existentes de uma correspondência que foi abundante. Amélia R. não escrevia elegantemente como Céline, mas exprimia sem rebuços e com um dengue bem brasileiro, o sentimento que a avassalava. Estava pronta a viver com Gonçalves Dias no Brasil: “Nós seremos muito felizes e muito principalmente havendo um nhonhôzinho lindinho como tu, meu Dias, tu és meu e serás sempre eternamente meu, sim? e eu sou ainda mais tua para sempre, nossos filhinhos aumentarão mais a nossa felicidade, e assim passaremos uma vida deliciosa, nós seremos muito amiguinhos, sim, meu caro filho de minha alma? sim, meu bom e querido Dias? Eu tenho ciúmes, e bastantes, por esse motivo é que não poderei viver descansada senão quando estiveres a meu lado e pensas que no Rio também terei muitos ciúmes, sim, devo tê-los, e muito, mas com eles não te hei de incomodar porque, quando me sentir aflita, de certo não te darei a conhecer para não termos a menor questão um com o outro, quero que sempre nos estejamos a beijar e a brincar, com o nosso interessante e lindo Antoninho. Deus nos abençoou para amarmos e portanto sermos felizes. Tenho sofrido e sabe Deus que sofrerei, isto é, por não poder viver contigo desde muito tempo mas não tardará muito que se realizem nossos desejos, nós seremos muito felizes e os que hoje estão proibindo de me corresponder contigo serão nossos íntimos amigos; digo-te isto porque sei o que se tem passado, se alguém me tem proibido ou me proibiu de te falar, de te ver e até de me corresponder contigo, fica certo, meu Dias, que essa pessoa não te quer mal”.

Quando lhe chegava uma carta do seu querido Dias...: “Olha, filho meu, quando tenho uma carta tua não me farto de beijá-la até que não vem outra, as tuas cartas trago-as sempre juntas ao meu peito e juro-te em que é verdade, todas as noites, quando me deito, e que as que tiro, beijo-as e ponho-as debaixo do colchão muito, escondidinhas; no outro dia, torno a tirá-las, beijo-as também e ponho-as logo juntas ao peito; quer esteja em casa, quer saia, sempre andam comigo. Agora só te peço, filho da minha alma, que não esqueças, não, não, esta que morre por ti, não esqueça a tua Amélia que será com muito prazer mãe dos teus filhos”.

Havia, sim, uma Amélia de quem o poeta não se esquecia nunca, mas era outra... E todavia alimentava a paixão da moça, prometia-lhe coisas e ela acreditava nas promessas dele: “Peço-te que te lembres de mim, que me ames, que não faltes ao teu prometido no dia 8 de julho, talvez te lembres, pois a mim jamais esquecerão tão doces expressões nascidas do coração, lembras-te quando eu, banhada em lagrimas de dor e de amargura, te abracei! e tu me disseste, com tanta doçura, como é o teu costume: ‘Não chores Amelia, que te amo e serei sempre teu! Lembras-te desse dia feliz?!’”

Como se vê, mentia o poeta, ao mesmo tempo, à belga e à brasileira, alimentando-lhes a paixão com a mesma leviandade com que se lançava em outras aventuras com várias mulheres - as alemãs Leontina e Natália em Dresda, as francesas Joséphine e Eugénie N., em Paris. Com esta última, manteve ligação seguida e o caso complicou-se, porque, chegou ao conhecimento de Olímpia, a cujas mãos vieram ter, não sabemos como, cartas de Gonçalves Dias para Eugénie e de Eugénie para Gonçalves Dias. Uma destas exigia mil francos do amante, ameaçando-o, caso não fosse satisfeita, de vir para o Brasil.

Pode parecer antipático que estejamos a insistir na volubilidade frascária do poeta. É necessário que assim o façamos, porque, desconhecido este lado da sua psicologia, só revelado no livro de Lúcia Miguel-Pereira, as lamúrias dos Cantos levariam à idéia errada de uma constante infelicidade amorosa. Ora, infelicidade no amor, a que verdadeiramente conta, é não ser correspondido. Não há exemplo de tal na vida de Gonçalves Dias. Todas as mulheres por quem se interessou, a sério ou por mero passatempo, lhe deram muito mais do que receberam. A própria Ana Amélia. Não nos deixemos iludir pelos acentos pungentes de “Ainda uma vez - adeus!” O diagnóstico de Lúcia Miguel-Pereira é cabal: “A sua sensibilidade deformada pelo romantismo confundia amor e sofrimento, não podia sentir inteiramente um sem o outro. Esperançoso, feliz, achara a união com Ana Amélia um “casamento razoável”, dentro do plano do quotidiano, do normal; aceito, não seria improvável que, uma vez habituado a ela, continuasse a procurar a mulher ideal levado pela fatalidade do temperamento, pela constante insatisfação. Longínqua, ela cresceu, tornou-se a única, a Amada. A simpatia transformou-se em paixão, em louca paixão à qual sacrificaria o seu futuro”.

A sua infelicidade estava naquela impotência de amar, pelo menos de amar nas circunstâncias normais, de amar as mulheres como na realidade são. Impotência de amar, de que temos exemplo ainda mais ilustre no grande tédio de Chateaubriand. Afonso Arinos de Melo Franco chamou-me a atenção para as analogias existentes a este aspecto entre as vidas de Gonçalves Dias e Chateaubriand. Ambos casaram-se sem amor e viveram enjoados da mulher, suscitando fora do lar amores e dedicações que logo se lhes tornavam insípidos.

Nenhum de seus amores da Europa lhe arrancou uma só linha de poesia. Parecia esgotado de toda força lírica, bateria descarregada depois do curto-circuito flamejante do “Ainda uma vez - adeus!”

VIAGEM AO NORTE
(1851 - 1852)


O escritor maranhense Antonio Henriques Leal (1828 - 1885), autor da primeira biografia sobre Gonçalves Dias, Pantheon Maranhense, Tomo II


De por amor ser capaz de extremos, ser capaz de altas virtudes, era certamente o poeta, como o provou, sacrificando a sua ventura à lealdade de amigo: até capaz de crimes, não. Não foi capaz nem da indelicadeza de trair a confiança das famílias Leal e Ferreira Vale, aceitando a solução de Ana Amélia, que lhe propusera fugir com ele. O episódio é referido por Antônio Henriques Leal: “Passando, dias depois pelo Recife, onde ainda ele se achava, fui procurá-la. Recebera, nessa ocasião, uma carta da mulher, que adorava, e na qual exprobrava-o duramente por não ter tido a coragem nem tanto amor que o compelisse a romper com considerações d’amizade e do mundo, indo arrancá-la da casa paterna. A sós comigo, no recanto mais escuso do jardim dessa casa, abraçou-me soluçando e com olhos afogueados, fora de si e silente, apresentou-me esse papel. Dolorosa e terrível era sua lastimada posição: de um lado, o amor a provocá-lo, a obrigá-lo, as vivas recordações de um passado tão próximo e venturoso a atraí-lo e essa carta a ordenar-lhe; e de outro, seu caráter de homem de bem, a gratidão à família, mil outras considerações de brio e de pundonor a impeli-lo!”

O homem sobrepôs-se ao amante e ao poeta, o homem Gonçalves Dias, que era, como tão acertadamente afirmou Otto Maria Carpeaux, maior do que o poeta. Deixou a moça persuadida talvez de que a requestara por passatempo, provocou-lhe talvez alguma fria e final resposta, que o ofendeu, que o fez desatinar de despeito nos versos incríveis de “Tu não queres ligar-te comigo”, escritos em maio na Bahia:

Tu não queres ligar-te comigo,
Que me fosses mulher t’infamara!...
É tua casa no sangue tão clara,
Que eu me honrasse de unir-me contigo?!...
És acaso tão pura lindeza,
Que eu não possa tua mão apertar?...
Mas teus olhos com menos pureza
Outros olhos já vi afagar!
E esses lábios que a jura de esposa
Para mim não darias no altar,
Nesses lábios alguém já não ousa
Algum beijo de amor estampar?

Já me ouviste falando de amores
Um carinho dos teus mendigar?
Já me ouviste cantar dissabores?
Que o amor me fizesse passar?

Pobre louca, que o orgulho atormenta,
Despe a bronca vaidade que tens,
Nem a mim teu amor me contenta
Nem me ferem teus falsos desdéns!

Sei amar, mas a ti!... não soubera;
Sei sofrer, mas por ti... também não;
De te amar nenhum gosto tivera,
De perder-te - nenhuma aflição!

O meu nome que enjeitas vaidosa,
Que de ilustres avós não herdei,
Cobre ao menos pobreza orgulhosa,
Que eu contigo jamais partirei!

Não te assuste esse fado tristonho,
Não te deixes vencer da aflição,
Vive em paz!... que eu não quero, não sonho,
Ter a posse do teu coração.

Mas se acaso uma sorte medonha
Violentar-me por ti a dar ais!
Possa ao menos morrer de vergonha,
Quem de amor não morrera jamais!


Pouco tempo depois casavam-se ambos, cada qual para o seu lado, primeiro Gonçalves Dias, no Rio, e Ana Amélia no Maranhão com o negociante Domingos da Silva Porto, que parecia escolhido a dedo por ela para dar uma lição ao poeta e à família, pois, segundo as informações de Antônio Henriques Leal, estava “nas mesmas desfavoráveis condições de origem e de nascimento” e para a realização do casamento “foi de mister interferir a justiça”. Leal acrescenta que um mês depois de casado, Porto faliu fraudulentamente e para evitar a prisão ocultou-se e fugiu para Lisboa.


Alexandre Teófilo de Carvalho Leal, amigo confidente da vida de Gonçalves Dias


Na capital portuguesa, em maio de 55, tiveram os namorados de dois anos atrás um encontro casual de rua, inspirador do famoso poema “Ainda uma vez - adeus!” Este, melhor que qualquer comentário, instrui sobre os sentimentos do poeta, completando o que já se leu na carta a Alexandre Teófilo, e por isso, e porque é também o mais comovido poema de amor de toda a sua obra, cabe aqui transcrito na íntegra:

Enfim te vejo! - enfim posso,
Curvado a teus Pés, dizer-te
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! - Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado,
A não lembrar-me de ti!

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

Louco, aflito, a saciar-me
D’agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp’rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!
Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez,’
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

Mas que tens? Não me conheces!
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura. . .
Olha-me bem, que sou eu!

Nenhuma voz me diriges!...
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias - bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

Oh! se lutei!... mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

Devera sim; mas pensava
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu quinhão de dor!

Que me enganei, ora vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
Seu descanso é obra minha”.
Negou-me a sorte mesquinha...
Perdoa, que me enganei!

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

Enganei-me!... – Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra,
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu’era...
E um louco fui, nada mais!

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co’ o que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera. . .
E eu! eu fui que a não quis!
És doutro agora, e p’ra sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!... de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

Adeus, qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus /

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; - e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade,
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, - de compaixão.



O escritor português Alexandre Herculano, poeta, romancista e crítico literário (1810 - 1877), primeiro crítico a reconhecer o talento do poeta Gonçalves Dias


Seis anos depois não se tinham ainda arrefecido as saudades de Ana Amélia, os remorsos de, por “adornar-se com palmas d’alta virtude”, a ter feito infeliz, de não ter ousado disputar a própria felicidade. Vários poemas, escritos então de Manaus e recolhidos por Leal nas Obras póstumas, “Oh! que acordar !”, “Se muito, sofri já, não mo perguntes”, “No jardim”, “A baunilha”, “Se te amo, não sei!” e “Como! és tu?” traduzem o mesmo sentimento. O último, em que retrospectivamente revê a amada nos seus atavios de noiva, volta às explicações de “Ainda uma vez - Adeus!”

E Ana Amélia? “O romântico amor da mocidade”, diz Lucia Miguel-Pereira, “não a impediu de ser feliz com o marido, nem de, enviuvando, depois da morte do poeta, tornar a casar-se. Morreu velha, em 1905, ainda bela, deixando duas filhas, uma de cada matrimônio, e vários netos. Se, todavia, a lembrança do poeta, de quem foi a maior inspiradora, não lhe perturbou a serena existência de esposa e mãe virtuosa, também não a abandonou de todo. Ter sido amada por Gonçalves Dias era cousa que nenhuma mulher esqueceria. Queimou, abusando talvez do direito de propriedade, vários poemas seus, mas, velhinha, ainda lhe evocava a figura sedutora”.

Onestaldo de Pennafort, genro de um sobrinho de Ana Amélia, escreveu para a minha Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica uma interessante nota, que terminava por estas palavras: “Tinha Ana Amélia o tipo mignon, olhos rasgados e muito vivos, cabelos pretos. Possuía uma extraordinária expressão de doçura, que a tornava de uma simpatia envolvente. Deixou na família a recordação de uma extrema bondade unida a um gênio ligeiramente frívolo, apesar do temperamento apaixonável. Foi uma amorosa, na acepção nobre da palavra, que sem um deslize de conduta - a não ser o seu casamento de capricho - conservou sempre intacto, no entanto, o seu grande amor infeliz pelo poeta, sobre o qual, ainda na velhice, discorria com os arroubos das naturezas privilegiadas que vieram ao mundo para a violência dos grandes sentimentos. Foi uma verdadeira musa do romantismo e digna dele”.

(BANDEIRA, Manuel. Gonçalves Dias: esboço biográfico. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti Editores, 1952. p.138-145 e p.106-114)

4

Mini-antologia poética lírica de Gonçalves Dias

A TEMPESTADE

Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E trêmulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva,
Rutila,
Seduz!

Vem a aurora
Pressurosa,
Cor-de-rosa,
Que se cora
De carmim;
A seus raios
As estrelas,
Que eram belas,
Têm desmaios,
Já por fim.

O sol desponta
Lá no horizonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céu e o mar:
E um manto belo
De vivas cores
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.

Um ponto aparece,
Que o dia entristece,
O céu, onde cresce,
De negro a tingir;
Oh! vede a procela
Infrene, mas bela,
No ar s’encapela
Já pronta a rugir!

Não solta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto d’inspirado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quanto habita
Da terra n’amplidão.

A coma então luzente
Se agita do arvoredo,
E o vate um canto a medo
Desfere lentamente,
Sentindo opresso o peito
De tanta inspiração.
Fogem do vento que ruge
As nuvens aurinevadas,
Como ovelhas assustadas
Por ferolobo cerval;
Estilhaçam-se como as velas
Que no alto mar apanha
Ardendo na ousada sanha,
Subtâneo vendaval.

Bem como serpentes que o frio
Em nós emaranha. - salgadas
As ondas s’estranham, pesadas
Batendo no frouxo areal.
Disseras que viras vagando
Nas fumas do céu entreabertas
Que mudas fuzilam, - incertas
Fantasmas do gênio do mal!

E no túrgido ocaso se avista
Entre a cinza que o céu apolvilha,
Um clarão momentâneo que brilha,
Sem das nuvens o seio rasgar;
Logo um raio cintila e mais outro,
Ainda outro veloz, fascinante,
Qual centelha que em rápido instante
Se converte d’incêndios em mar.

Um som longínquo cavernoso e ouco
Rouqueja, e n’amplidão do espaço morre;
Eis outro inda mais perto, inda mais rouco,
Que alpestres cimos mais veloz percorre,
Troveja, estoura, atroa; e dentro em pouco
Do norte ao sul, - dum ponto a outro corre:
Devorador incêndio alastra os ares,
Enquanto a noite pesa sobre os mares.

Nos últimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteiam, rebramam, doudejam nos ares,
Até que lascados baqueiam no chão.

Remexe-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia também;
E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas asas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.

Da nuvem densa, que no espaço ondeia,
Rasga-se o negro bojo carregado.
E enquanto a luz do sol roxeia,
Onde parece à terra estar colado,
Da chuva, que os sentidos nos enleia,
O forte peso em turbilhão mudado,
Das ruínas completa o grande estrago,
Parecendo mudar a terra em lago.

Inda ronca o trovão retumbante,
Inda o raio fuzila no espaço,
E o corisco num rápido instante
Brilha, fulge, rutila, e fugiu.
Mas se à terra desceu, mirra o tronco,
Cega o triste que iroso ameaça,
E o penedo, que as nuvens devassa,
Como tronco sem viço partiu.

Deixando a palhoça singela,
Humilde labor da pobreza,
Da nossa vaidosa grandeza,
Nivela os fastígios sem dó;
E os templos e as grimpas soberbas,
Palácio ou mesquita preclara,
Que a foice do tempo poupara,
Em breves momentos é pó.

Cresce a chuva, os rios crescem,
Pobres regatos s’empolam,
E nas turvas ondas rolam
Grossos troncos a boiar!
O córrego, qu‘inda há pouco
No torrado leito ardia,
É já torrente bravia,
Que da praia arreda o mar.

[...]
Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
E ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que numa hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.
A folha luzente
Do orvalho
Nitente
A gota retrai:
Vacila,
Palpita;
Mais grossa,
Hesita,
E treme
E cai.


EUS OLHOS

[...]
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são:
Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece,
Me fazem chorar.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Qua falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Sobre o Túmulo
de um Menino

O invólucro de um anjo aqui descansa,
Alma do céu nascida entre amargores
Como flor entre espinhos! - tu, que passas,
Não perguntes quem foi. - Nuvem risonha,
Que um instante correu no mar da vida;
Romper da aurora que não teve ocaso,
Realidade no céu, na terra um sonho!
Fresca rosa nas ondas da existência,
Levada à plaga eterna do infinito,
Como of’renda de amor ao Deus que o rege;
Não perguntes quem foi, não chores!- passa.

O MEU SEPULCRO

Oh! quão formosa a vida se revela
A quem já bate as portas do infinito,
Encostado aos umbrais da eternidade,
A vez extrema contemplando o mundo!
A folha já mirrada, a pedra solta,
A flor agreste, a fonte que murmura
E as cantoras do céu, as ledas aves
De variado esmalte, e as suspirosas
Brisas da noite e as do romper da aurora,
A estrela, o sol, o mar, o céu, a terra,
A planta, os animais, tudo então vive,
Tudo conosco simpatiza, - tudo,
Como orquestra afinada por nossa alma,
Acorde aos nossos sentimentos, vibra
Revelando ao que morre os fins da vida.
..............................................................
Que importa que eu não tenha uma só coroa,
Um mirrado laurel, uma só folha,
Que às novas gerações diga o meu nome
E solicite as atenções futuras?
Sou como o passarinho quando passa
À flor de um lago e a sombra vacilante
No líquido cristal debalde estampa.
Ou semelhante ao viajor que bate
Da vida a estrada pulvurenta, e nota

Como os rastos mal impressos cobre
O pó que de seus passos se levanta.
Ah! que dos louros me não dói a ausência,
Mas de lágrimas, sim, que me orvalhassem
A sepultura humilde, a cujas gotas
Meus ossos de prazer estremecidos
De as sentir se alegrassem...
SE SE MORRE DE AMOR!

SE SE MORRE de amor! - Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’ alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d’amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração - abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr’ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus: gostar dos campos.
D’aves, flores, murmúrios solitários:
Buscar tristeza, a soledade, o ermo.
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que é amor que em nós sentimos;
Temer qu’ olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d’ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso á amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas - em puro céu d’êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;

Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, - se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, - às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneiando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!
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