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Edição 146

A Litania do Tempo em São Luís do Sol e do Sal

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2006
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Por: Ricardo Leão

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Este é um livro que há algum tempo a cultura maranhense clama, dada a sua importância como documento nodal de nossa história literária. Depois da publicação de Nomes e Nuvens, este Sal e Sol vem-se firmar como mais uma referência incontornável para todos aqueles que desejam conhecer ou mesmo escrever sobre a historiografia da arte e literatura maranhenses, em função não do volume de dados e datas aqui coletados pela hábil mão de cronista que a autora possui, mas sobretudo pela humanidade que evola de suas páginas. Humanidade, aliás, que diria ser o traço mais distintivo dos textos coligidos ao longo de suas trezentas páginas, aliada à escrita elegante e delicada de uma das mais sensíveis e melhores escritoras – sem sombra de dúvidas, a melhor em nossa ficção contemporânea – que esta terra já gerou, desde a pioneira Maria Firmina dos Reis, antecessora histórica a quem Arlete Nogueira da Cruz supera em muito, em função da inegável e cristalina qualidade de sua ficção.

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O curioso é notar que, mesmo quando se encontra indignada, Arlete diz o que pensa sem, entretanto, perder a natural elegância, o que torna o seu depoimento ainda mais nodal, porque irrefutável. Como consciente animadora cultural, personagem importante de nossa vida artística ou literária – quando o pôde, por meios oficiais ou não, sempre estendeu a mão aos nossos mais importantes talentos –, Arlete dá um importante legado e uma inegável contribuição para a feição da cultura maranhense do século XX, que sem ela seria indubitavelmente mais pobre. Devido a isso, suas importantes críticas, resultados da indignação, são incisivas e fortes, apontando os nossos descasos, o deboche que é comum em nossa terra, destinado em grande parte aos que nela trabalham para o seu engrandecimento. Uma terra onde, como afirmou Vieira, até o sol mente.

Outro aspecto que merece destaque na atividade de Arlete é a crítica literária ou a crítica acadêmica, exercidas na forma de resenhas e prefácios às obras que analisou. Aqui, a autora revela um de seus recantos intelectuais mais elaborados, mais requintados, pois ao expressar suas opiniões, sempre abalizadas, procura emitir o julgamento e a análise mais justos, fazendo uso de um não diminuto conhecimento acadêmico que possui. Neste ponto, torna-se sensível a sua formação filosófica, aliada à de artista, capaz de levantar toda a sua erudição quando se trata de defender os mais lídimos talentos da terra, caso de João do Vale – a escritora aqui faz uma bela incursão antropológica sobre a definição entre o popular e o erudito –, ou quando faz uma poderosa auto-análise, como em Um depoimento sobre livros, texto no qual a autora compõe um importante inventário estético de sua obra. O que podemos ver, nestes textos, não é tanto a preocupação com uma crítica formal, batizada nos mais complexos e frios recursos da teoria literária, mas sim o desvelo, mais uma vez, da escritora e artista, preocupada em trazer algo de calor humano ao que escreve, ainda que seja para emitir um juízo crítico a respeito de um livro. Não deixa, portanto, de ser uma contribuição indispensável, quando falta a muitos críticos de hoje justamente a visada sobre o aspecto humano das obras e de seus autores, e menos dos aspectos estruturais vazados por uma teoria que, não raro, amputa o fenômeno artístico inerente às obras. Ademais, Arlete parece estar aqui consciente que, apesar dos esforços dos críticos, as obras falam por si mesmas, ensimesmadas em sua densa camada de significados e de pulsação estética.

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Por último, não é demais frisar novamente o que este livro representa para a geração na qual Arlete cresceu, geração de tantos escritores, artistas, homens e mulheres representativos para a história maranhense do século XX, sem os quais não haveria suporte para que a nova geração pudesse encontrar um terreno minimamente fértil para as suas atividades. Foi uma geração que lutou, de maneira sóbria e digna, para manter o melhor das tradições maranhenses: a sua inegável riqueza, a tradição cultural e artística, que encontrou nos homens e mulheres aqui citados os seus mais legítimos defensores e criadores. Os resultados, ainda que esparsos e incompletos – não por falta de boa vontade, mas à revelia de uma precariedade muitas vezes insustentável –, estão aí, sob a forma de uma velha São Luís, patrimônio da humanidade que, ainda em começos do século XXI, ostenta uma das maiores desigualdades sociais do país, mas que pode orgulhar-se ainda de sua cultura, da inteligência de seu povo e da criatividade de seus artistas. O julgamento da história condenou a geração de Arlete, assim como as gerações sucedâneas, ao que já se chamou como estigma da decadência, algo tão benjaminiano, que a autora teve oportunidade de cantar de maneira altissonante em Litania da Velha, símbolo e metáfora da cidade e de sua gente, onde deambulam os farrapos de antigas pompas, as quais lutamos por conservar em nossa memória, sem conseguir vencer o círculo vicioso da miséria. A geração da autora foi mais uma vítima, como as subseqüentes, deste quadro que parece uma mortalha cármica envolvendo de luto o melhor do esforço dos mais dotados maranhenses, que vêem, com tristeza, o apagamento sistemático de suas passagens por esta terra que tanto amam, de maneira sôfrega e desesperada. Como Rimbaud, talvez estes maranhenses sejam da raça que canta no suplício, mas é preciso tirá-los desta temporada no inferno e trazê-los às iluminações de um tempo mais pródigo.

Este livro de impressões biográficas e literárias de Arlete traz um testemunho importante neste sentido, com este precioso punhado de crônicas, artigos e textos diversos, a escritora se firma como a mais sensível e prodigiosa cronista da vida artística e literária maranhense. As impressões da autora, portanto, atingem o seu alvo: contribuir para a visualização de um tempo, do qual ela foi testemunha e partícipe, quando não uma das mais ativas protagonistas ou coadjuvantes.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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