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Edição 146

Poemas do livro A Paixão Segundo Alcântara

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Data de Publicação: 29 de novembro de 2006
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SOUVENIRS

Dorme em toda alma alcantarense
um beco antigo / um anjo barroco
e uma saudade portuguesa

Uma taça de mar
que sirva de oráculo e rota
aos descobrimentos do sublime
Um dia serei ruína
minha memória despencará
das janelas do tempo

Viajante que passa
eterniza o teu momento:
leva do azulejo um pensamento

Cidade de prateleiras vazias
de vidraças vazias
de lembranças vazias

O sol avisa o racionamento
das 6 às 18 h
para manutenção das caldeiras

Diamante cortando a vidraça
o olho de Deus
a atravessa verticalmente
(p. 33-34)

AUTO DO RETRATO

Este corpo não é meu.
Visto-o como emprestado
a algum nobre antepassado
que dentro em mim se escondeu.

Esta alma não é a minha.
Habita apenas o eterno
inútil espaço de um terno
que com o corpo caminha.

Não é minha a cicatriz
que desenharam nos ombros
nem esses olhos de escombros.
Tampouco o queixo e o nariz.

De mim apenas o gesto
o olhar o passo a ironia
a fútil genealogia
de tudo que sobra e é resto.
(p.46)

OS BÁRBAROS ³

São os bárbaros que vêm
com suas legiões de planetas
suas roupas de acrílico
botas de sete léguas
e o estandarte de ouro líquido.

Navegam os cavalos do azul
esporeiam a esperança
penduram a pureza nas ruínas
têm o firmamento nos olhos
mas o olhar é de rapina.

São os bárbaros que vêm
iluminar nossas auras.
Faremos corte às coortes?
Somos de pasto ou corte?
Seus troféus: nossa estima.

– A mangueira está florida?
– é porque os bárbaros vêm!
– e já chegaram os convivas?
– é porque os bárbaros vêm!

Ouvi as patas dos seus cavalos
escoiceando o espaço.
Ei-los os barões das galáxias
querem o céu e os seus halos
querem a terra não os sete palmos.

Doces de espécie servi-lhes
ladainhas entoai-lhes
cidadania ofertai-lhes:
doarão carta de alforria
à nossa frágil soberania?

Triste e desolada Alcântara
calai as vossas carrancas
findo está o desespero
são os bárbaros que vêm
salvar-nos de nós mesmos!
(p. 90-91)

3. Inspirado no poema À Espera dos Bárbaros, do poeta grego Konstantin Kavafis, que trata da histórica invasão dos turcos em Constantinopla.
(CASSAS, Luís Augusto. A paixão segundo Alcântara. Rio de Janeiro: IMAGO Editora, 2006)
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