Data de Publicação: 29 de novembro de 2006
Por: Antonio Houaiss
Desde suas reportagens, desde o seu primeiro livro de poesia - o excelente República dos Becos (que teve merecida consagração crítica) - Luís Augusto Cassas é uma voz clamante, mas esperemos que não no deserto. Seu clamor, agora, é por Alcântara; e o é tão fundo, que o é dessa cidade mesma: A paixão segundo Alcântara.
Há cidades vivas, há “cidades mortas” como Bruges, que se consola no seu esplendor medieval tão zelosamente preservado, à espera da ressurreição - e há “cidades moribundas” que não deveriam morrer, mas que a insânia dos homens deixa que assim seja. Assim não seja, exclama Luís Augusto Cassas - e que sua voz seja ouvida. Essa voz, para isso, se veste de todo o fascínio da beleza verbal: faz-se poesia vital, com contrastâncias reveladoras do podre e do bom, do belo e do abjeto, da miséria e da riqueza, do pranto e do riso, do zelo e da mazela, da paz e da guerra, dos senhores e dos pacificadores com a fórmula si vis pacem para bellum - que em mais de dois mil anos não deixou aos homens um dia só que não fosse de guerra.
E selaram o triste (por ora!) destino de Alcântara, que, de “ponte” para a vida que é a sua vocação onomástica, passa a nova barreira do e para o inferno.
O livro de Cassas parece provir de unidades heteróclitas, que tratam de matérias divinas e humanas, como se nada tivessem com a paixão. Esse despistamento poético de alto saber é um valor a mais na estruturação do(s) poema(s) em prol de Alcântara, em que um depoimento há, entre muitos, que é de beleza perdurante: o do peixe, graças ao padre Vieira - “Amen. Também”.
Não tenho dúvidas de que Luís Augusto Cassas é já agora uma das mais belas realizações poéticas engajadas na carne e no sangue e na substância da vida, tirando desta as palavras mais belas e mais tristes e mais vindicativas com que cantar a vida mesma que a morte, não!
Se Alcântara perecer, não terá sido por culpa do Poeta. Mas sua alma, dela, Alcântara, sobreviverá nos seus versos.
Ternura romântica e protesto modernoPor: Josué MontelloAlcântara, envolta de silêncio, defronte de São Luís, no Maranhão, tem agora o seu poeta, Luís Augusto Cassas.
Luís Augusto Cassas conciliou ternura romântica e protesto moderno, no tom elegíaco de seu livro: A paixão segundo Alcântara.
O poeta maranhense, já veterano do verso, encontrou o tom adequado para celebrar liricamente a velha cidade. Em vez de chorar sobre suas ruínas e seu silêncio, cantou-a em tom de elegia moderna, com o lamento associado à denúncia.
Por outro lado, Alcântara, para Luís Augusto Cassas, não existe apenas como pretexto ao verso – a prosa poética é também um de seus elementos de expressão, para cantar a atmosfera de abandono em que a cidade permanece, à espera de que lhe sintamos a beleza e lhe restauremos o passado esplendor.
Alcântara estava à espera de quem a cantasse no tom do poeta moço. Outros poetas a cantaram, quase a carpir-lhe a morte. Luís Augusto Cassas passeou por suas ruínas a emoção viva de quem canta com um tom de esperança. Certa nota irônica, em meio à elegia, já é essa esperança. O que eu não disse em prosa, na minha Noite sobre Alcântara, disse-o agora Luís Augusto Cassas.
Poeta nasce poetaPor: Ferreira GullarPoeta nasce poeta. Poeta nasceu Luís Augusto Cassas. Basta ler qualquer dos poemas deste livro inspirado nas pedras de memória (materiais e espirituais) de Alcântara e outras pedras que ele inventou. A liberdade com que Cassas lida com as palavras e as idéias nos desconcerta e encanta.
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