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Edição 143

Vinícius de Moraes: Um ícone da integração literatura & música

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Data de Publicação: 18 de outubro de 2006
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Por: Alberico Carneiro

A Poesia da MPB (I)

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Biografia

Vinícius de Moraes
(1913 - 1980)



Marcus Vinícius de Melo Moraes (nome de batismo) nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1913, na rua Lopes Quintas, no antigo bairro da Gávea.

Em 1913, o Rio tinha quase um milhão de habitantes e era uma cidade afrancesada. A sociedade carioca queria ser culta como a parisiense e suspirava com os poetas românticos da belle-époque de Paris. Mas a atmosfera do homem e da mulher comuns era outra, a do mar e resquícios da escravidão negra.

Vinícius de Moraes cresceu entre o mar e a chácara do avô, ouvindo a música dos antigos escravos e o violão boêmio dos tios, irmãos de sua mãe.

Ipanema e Leblon eram praias desertas. Ele foi testemunha e personagem da transformação da paisagem de Ipanema, Leblon e Copacabana.

No início do século XX, a sociedade carioca imitava a moda, a arte, a literatura, a arquitetura e o estilo de vida francês. Daí por que Vinícius de Moraes viveu entre a contradição e o paradoxo de um mundo europeizado, até descobrir o Vinícius brasileiro.

Ele teve, ao mesmo tempo, uma infância livre e uma formação rigorosa, erudita. E entre essas duas vertentes, ele começou a vida.

Seu pai, Clodoaldo Melo Moraes, escrevia poemas, era doutor em latim, professor de francês, de piano e violino.

Sua mãe, dona Lídia Melo Moraes, tocava piano. Ela era de uma família de boêmios, que gostava de música popular.

Vinícius de Moraes, tendo feito o colegiado, em escola de padres, bacharelou-se em Letras e formou-se em Direito, em 1933.

Em 1938, foi para Oxford, como bolsista. Mas em 1939, com a guerra, retornou ao Brasil. Aqui, ingressou na carreira diplomática em 1943 e, em 1946, foi para Los Angeles, como vice-cônsul.

Foi em 1953 que Vinícius de Moraes compôs seu primeiro samba. Sem dúvida, essa data é o marco divisório entre o Vinícius de Moraes diplomata e a formação do compositor de música popular. E essa atividade haveria de absorvê-lo ao longo de toda a vida.

Tendo escrito a peça Orfeu da Conceição, em 1955, de parceria com Tom Jobim, compõe as músicas do espetáculo que viria a se transformar em filme, sob o título Orfeu Negro. O filme foi premiado no Festival de Cannes, com a Palma de Ouro.

Seu primeiro disco intitulou-se Canção do Amor Demais com composições dele e do parceiro Tom Jobim.

Uma peculiaridade desse disco é que nele ouvia-se, pela primeira vez, a batida da bossa-nova no violão de João Gilberto, acompanhando a cantora Elizete Cardoso, na música Chega de Saudade, marco inicial do movimento. Garota de Ipanema nasceria em 1962.

A partir da década de 60, Vinícius de Moraes desliga-se do Itamarati e dedica o resto de sua vida à poesia, à música, ao cinema e aos shows.

Ao romper com a diplomacia e a tradição da sociedade burguesa carioca, Vinícius de Moraes veio a tornar-se um dos mais importantes compositores de música popular, no Brasil. Graças a ele, a Tom Jobim e a Torquato Neto, pioneiros de uma via de arte musical sem discriminação, os caminhos foram abertos para uma geração de compositores que teve trânsito livre para juntar o útil ao agradável - belos poemas líricos a composições musicais.

Vinícius de Moraes morreu no Rio de Janeiro, em 1980, depois de uma vida pródiga de realizações, entre as quais, a proeza de 10 casamentos.

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Depoimentos


Ferreira Gullar

“O Vinícius começa fazendo poesia francesa, inspirado naquele catolicismo francês, influenciado pelo grupo católico, aqui no Brasil. Mas aquilo não é ele, não era ele. Então, pouco a pouco, ele vai-se convertendo em Vinícius de Moraes, quer dizer, vai virando brasileiro. E aí vai além dos outros, porque muitos outros tiveram esse percurso, viraram brasileiros, mas não tanto.

Então, virar compositor popular e cair no esculacho completo, aí, realmente, é o Vinícius. É mais que os outros nisso, está entendendo?”

Camila Morgado

“[...] Aos poucos a sua poesia começou a se aproximar da vida, desceu das alturas (eruditas/virtuosísticas) e foi olhar o mundo, o dia a dia das pessoas.”

Antonio Candido

“Vinícius de Moraes é um homem apegado à métrica, é um homem apegado à rima, é um homem apegado às formas poéticas tradicionais, como o soneto, como a ode, etc. Portanto, é um poeta que está inserido na tradição. Ele se aproximou, mais do que nenhum outro, daquilo que os modernistas queriam, que é a vida cotidiana, que é a destruição do tema poético nobre, que é a frase coloquial.

Ninguém chegou mais perto do que Vinícius da naturalidade. Ninguém chegou mais perto da vida cotidiana, do prosaico, no entanto, dentro de uma poesia de continuidade e de perfeição formal. E eu diria, para terminar, que um poeta que é autor de poemas como a Balada do Mangue, por exemplo, só ode ser considerado um grande poeta.”

Chico Buarque

“Eu me lembro de Vinícius em Roma. Foi em 1953. Eu morava com minha família em Roma e Vinícius esteve lá numa missão cultural do Itamarati. [...] Ele ia lá em casa algumas vezes. Eu me lembro muito, dessas noites, quando o Vinícius aparecia em casa. [...] Aí descia uísque, desciam coisas, apareciam salgadinhos. [...] Mas o Vinícius era um sujeito que fazia música. Eu conheci um compositor em carne e osso, era o Vinícius.

Tinha uma hora que pegava o violão e eu ficava fascinado. Um amigo do meu pai que fazia música, um compositor. E eu lembro que ele cantava várias músicas naquela época. Tinha também um momento muito especial de que eu me lembro muito bem, que era quando ele tocava no violão o Poema dos Olhos da Amada:

‘Oh, minha amada/Que olhos os teus/ São cais noturnos / Cheios de adeus / São docas mansas / Trilhando luzes / Que brilham longe / Longe nos breus.

Quanto mistério / Nos olhos teus / Quantos saveiros / Quantos navios / Quantos naufrágios / Nos olhos teus [...]’

Aquilo me causava um impressão muito forte. Era poesia. Fui apresentado à poesia naquelas noites. Vinícius cantando. Era música e era ... Eu entendi o que era um poeta.

Vinícius era uma pessoa difícil de se imaginar hoje. [...] ele é o contrário de muita coisa que hoje é vitoriosa, como a ostentação. [...] Porque ele tinha toda essa coisa, muito generosa, às vezes ingênua, às vezes porra-louca, uma coisa que não existe mais hoje, nem a porra-louquice, muito menos a ingenuidade. Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática e tal. Tudo o que Vinícius não era.”

Gilberto Gil

“Vinícius trabalhava no cerne do afeto, [...] nessas intersecções entre esses pólos, quer dizer, no centro do diálogo, onde o diálogo se pode, onde o diálogo se faz entre todas as divergências, entre todas as polaridades. Ele era assim, Vinícius era assim. Então, quando ele dizia, ‘Eu sou o branco mais negro’, é porque ele era, ele sentia isso, ele queria que fosse assim. Queria que os brancos fossem negros. Queria que os negros fossem brancos. Queria que, enfim, a compreensão existisse entre todos. Ele era um homem de afeto, um homem de harmonia, absolutamente legítimo.”

(Depoimentos colhidos do filme Vinícius de Miguel Farias Jr.)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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