Busca 



 


Edição 143

As insinuantes curvas de Romana Maria

Diminuir corpo de texto Aumentar corpo de texto

Data de Publicação: 18 de outubro de 2006
Índice Texto Anterior Próximo Texto 
A cidade agradece, o mar e todos os seus incessantes movimentos em direção à praia, o barulho que agride nossos ouvidos e deforma a beleza de nosso litoral, sem falar da poluição ambiental, ocasionada por este desnecessário Marafolia, acabou. Mais uma vez com um saldo negativo: a morte de uma adolescente, sem citar as dezenas de feridos a facas e armas de fogo. Até quando este evento vai continuar povoando as páginas policiais? No Sistema Mentira de Comunicações só mostram alegria, festa e diversão, mas a verdade, sabemos, é outra. A juventude ludovicense está sendo ceifada e contaminada por um modismo que nada acrescenta à existência dessas pessoas.

Gostaríamos de compreender o porquê de muitas pessoas gastarem suas poucas economias em apenas 3 dias e, depois, para passarem o restante do mês, fazem empréstimos a parentes ou se atolam nos agiotas-banqueiros. A justiça do nosso Estado, também, mostrou mais uma vez que não tem independência e autoridade, se rendendo às pressões do grupo mesquinho e oportunista do Sarney, infelizmente.

Em breve, é o que ouvimos soar pelos cantos da cidade, esta carnificina, fantasiada de carnaval fora de época (expressão muito bem aplicada para definir esta zorra), vai acabar. No lugar deste evento deplorável existirá apenas o espaço habitual e natural de nossas belas e tranqüilas praias, mesmo que ainda bastante contaminadas. O pior da questão são os que acham que o ‘FernandoFolia’ é um evento cultural e artístico. Cultura não é nada disso – cultura é arte, não um bando de pipoqueiros e pessoas fantasiadas se requebrando debaixo de trios elétricos ao som de música baiana de péssima qualidade.

A arte é um contraponto. Uma ótica diferenciada de se observar a existência, um caos em equilíbrio inconstante, obscenas imaginações de um cão dentro de seus olhos ou apenas nada, que o nada também existe. O entusiasmo, como disse Honoré de Balzac, é o que nos faz vivo. A mesmice cotidiana e seus capitalismos emergentes são transformados em matéria prima para o objeto de arte, mas se o artista não se der conta que o universo artístico não é apenas o seu umbigo, acabará revitalizando a mediocridade de seu trabalho.

As artes plásticas têm um papel diferenciado às demais artes, pois diz muito de forma convincente com a utilização de poucos recursos, principalmente a escultura. A escultura é um trabalho árduo e sutil, um trabalho de desconstrução de sua natureza original para o objeto artístico, como exemplo - O beijo, de Rodin, é uma obra magnífica e de caráter universal ( sempre será atual por tratar de um tema que é vigente em todas as sociedades: a sedução) e o que é mais importante, transformar um bloco de pedra, que poderia estar inerte em qualquer lugar na superfície terrestre, sem causar nenhum espanto, em uma das obras de arte mais importantes de todos os tempos. Casos semelhantes encontramos em O Davi, de Michelangelo, A Vênus de Milo, de Alexandros de Antióquia, dentre outras.

O Trabalho artístico de quem põe as mãos na argila - No caso da Escultora, maranhense, Romana Maria que estreou, na cena artística do nosso Estado, no início da década de 90, com a mostra “Resistência”, na Biblioteca Pública do Estado do Maranhão, onde desde cedo já demonstrava que seria uma lutadora pela causa da arte, as nuances são as mesmas, só que com um diferencial – muito trabalho, dedicação e suor, pois, os tempos são outros e os congestionamentos do dia-a-dia ocupam mais a cabeça e o sentimento de nossas ações.

Nossa escultora, em meados da década de 90, participou de várias exposições nos espaços da Galeria do Departamento de Assuntos Culturais - Universidade Federal do Maranhão; na Galeria do Serviço Social do Comércio; nas dependências do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, todas em São Luís, mas também ganhou outros ares e desembarcou no Salão de Aracaju, em Sergipe e no Salão do Mar, em Curitiba, no Paraná, estes últimos salões, com obras na técnica da xilogravura.

A artista também colecionou uma importante premiação: 1º Lugar no Prêmio Antonio Almeida (prêmio concedido na área de escultura), em 1994, com a obra Almas Gêmeas, pela Fundação Municipal de Cultura do Município. Também teve participação na Coletiva de Maio – um Salão de artes plásticas que divulgava o trabalho de diversos artistas maranhenses no início dos anos 90. Outro aspecto importante nesta artista é o trabalho que vem realizando, anualmente, no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher, em protesto às injustiças por que passam as mulheres maranhenses, juntamente com outras artistas plásticas desenvolve momentos de reflexão política em torno deste assunto.

Influenciada pelas obras do Escultor e professor Luís Carlos, ainda nos tempos em que fazia o curso de Cerâmica e Escultura, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, Romana Maria encontrou sua veia e seu estilo de se expressar no mundo da arte. Também viu na pessoa do artista plástico Ambrósio Amorim, um aprendizado. Estudou com vários artistas de peso, como são os casos de Airton Marinho, Paulo César, Rogério Martins, Tácito Borralho, estes lhe ajudaram a aprimorar ainda mais a estética e o conhecimento da artista. Recentemente, graduou-se, em Letras, pela Faculdade Atenas Maranhense.

A poeticidade nas Esculturas de Romana Maria – A exposição de Romana Maria, Enche e Desborda, que desde o dia 21 de setembro de 2006, encontra-se na Galeria Fernando P., do Hotel Brisa Mar, recebeu o olhar poético e mágico de Rosemary Rego – que deu título à sua cria com o mesmo nome da exposição da artista. A poesia abaixo nos dá a noção de como a escultora trabalha na composição de suas obras:

Enche e Desborda

O espírito sua
a côncava forma esculpida
em vida
a estética linguagem
do barro desborda na areia
SELF!

O mundo se apresenta
si
nuo
sa
men
te

Verdade que as
conchas
têm
me
lo
dia

Dar forma ao barro
é jogar
pro mundo
o beeerrro da alma!


As esculturas de Romana Maria são formas de se conhecer a alma feminina - é sinuosidade e freio, um laço que nos une e simplifica-nos. Sobre suas curvas o materialismo da gênese humana. É fogo, brasa que aquece e se transforma em esculturais movimentos profanos. É a destilação de Eros e sua busca contínua, um delírio da alma e da imagem figurada. Caos, delírio e fim.

A dualidade das formas ou apenas o auto-erotismo de Freud - A observação de Couto Corrêa Filho ( que vem realizando um belo trabalho de crítico de arte e Curador da Galeria Fernando P. ) explica muito bem o talento de Romana Maria: “Inspirada pela concavidade versus convexidade dos cascos de conchas e ostras, resíduos marinhos encontrados na orla, mas sobretudo pelas formas geradas pelas ondas do mar, Romana Maria cria esculturas caracterizadas pela curvilinearidade, que além de componente formal, aqui é metáfora das ondas quebrando na praia”.

Seguindo o trecho, citado por Couto, que diz : “... é metáfora das ondas quebrando na praia”, podemos também perceber que tais curvas, de suas esculturas, podem obter outras formas, outras interpretações. Em determinados planos observamos que suas esculturas tomam aspectos de seres em estado erótico ( muitos destes seres suscitam triângulos amorosos ), agregando-se em um só corpo.

O pintor, Pablo Picasso, declarava que não existe obra de arte casta, e que toda obra que retrata ou explora o corpo e suas formas humanas, aplica-se, logo, o conceito de erótico. Nas esculturas de Romana existe o que Freud chama de auto-erotismo - o desejo provocado por um elemento externo ao ser que observa. A libido vibra nas esculturas desta artista, há um erotismo quase disfarçado que instiga sutilmente nossas mentes.

Uma crítica fazemos, à Romana Maria, é no que diz respeito ao tamanho e profundidade de suas obras que poderiam ser maiores – facilitando o campo de observação mais detalhada e a valorização dos detalhes de sua escultura. Também a iluminação, sobre suas peças, é outro aspecto que deve ser melhor explorado.

O que mais posso falar sobre Romana Maria é que ela continue na criação de seu mundo pragmático, nesta sua viagem, onde o tempo não paga hospedagem e as ondas do mar enchem e desbordam, todos os dias, nas praias de nossa ilha rebelde, tão poluídas por estas manifestações chulas.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br