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Edição 143

O FUTURO FICOU PARA TRÁS...

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Data de Publicação: 18 de outubro de 2006
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Por: Vicente F. Júnior

Lançado no Brasil em DVD, pela distribuidora Magnus Opus o box intitulado Cinema Avant-Gard, com quatro volumes de pérolas do cinema de vanguarda do mundo inteiro devidamente restauradas, para o deleite dos cinéfilos que há muito esperavam por essa oportunidade de entrar em contato com uma obra de tamanha relevância do cinema experimental. E que, é por excelência, um trabalho de preservação da memória de um período fértil da história da sétima arte, onde os artistas buscavam experimentar, na linguagem cinematográfica, os movimentos artísticos recém surgidos como, por exemplo, o surrealismo...


Avant-Gard, quer dizer vanguarda, e faz referência ao batalhão militar que precede as tropas em ataque durante uma batalha. Daí pode-se inferir que vanguarda é aquilo que “está à frente”. O termo serviu para designar uma série de movimentos artísticos e políticos surgidos no final do séc. XIX e início do séc. XX. Os artistas representantes desses movimentos acreditavam que, seus trabalhos estavam à frente de seu tempo, e que estes direcionariam o porvir da arte.

É importante ressaltar aqui, que muitos desses movimentos acabaram por assumir um comportamento próximo ao dos partidos políticos: possuíam militantes, lançavam manifestos e acreditavam que a verdade encontrava-se com eles. E, assim, visavam transformar a sociedade, tentando romper com os valores estabelecidos e propondo outros novos valores.

Isto posto, o termo se aplica a qualquer movimento que proponha uma nova visão da arte.

AVANT-GARD NO CINEMA

Após a primeira guerra mundial, a crise econômica, política e social proporcionou uma fragmentação no que tange a sétima arte, gerando um descontentamento frente ao cinema comercial, que vinha sendo realizado na França, de forma que viabilizou um momento criativo, onde os novos artistas (surrealistas, dadaístas, etc.) se interessavam cada vez mais pela linguagem cinematográfica como forma de expressão. E essa foi a tônica dominante da década compreendida entre 1921 a 1931.

Quando se fala em avant-gard, vem sempre à mente o movimento surrealista, com a grande sacada de trazer o inconsciente para o processo criativo, excluindo, dessa forma, a lógica, a racionalidade e abrindo espaço para o sonho, o irreal. O filme surreal mais conhecido é Um cão andaluz (1929) do diretor espanhol Luis Buñuel em parceria com artista plástico também espanhol, Salvador Dali, e é dele a fama de ter levado o movimento surrealista às telas. É inquestionável a grandeza de Um cão andaluz e quão impactante foi essa obra, que conseguiu, através de uma narrativa constituída de imagens sem nexo, tecer tão contundente crítica à burguesia e à igreja, bem como trazer à tona desejos sexuais reprimidos. Está tudo lá, estampado na película do visionário diretor espanhol. Começava ali uma revolução cultural marcada por Sigmund Freud com a descoberta do inconsciente.

Mas basta ler mais um pouco e descobrimos a existência de René Clair (bem antes de Luis Buñuel) com dois filmes surrealistas: Paris adormecida (1923), onde um sábio louco imobiliza Paris, utilizando um raio diabólico, o que deixa todos parisienses mergulhados num sono letárgico e apenas um grupo de jovens refugiados no alto da Torre Eiffel, escapou do maligno plano. Somos confrontados com uma situação absurda, irreal... Outro filme surrealista de René Clair é Entr’acte (1924). Idealizado para ser exibido no intervalo de um balé, o filme é um divertido e radical curta, em que se exploram todas as possibilidades da linguagem cinematográfica a favor das idéias surrealistas e onde podemos ver uma bailarina barbuda, um frenético funeral, balões no ar e imagens de Man Ray e Marcel Duchamp jogando xadrez, dentre outras. O filme era uma união de esforços de vários artistas dentre eles: Francis Picabia (pintor), Erick Satie (compositor), René Clair (cineasta), Marcel Duchamp (multi-artista), Man Ray (fotógrafo) e Jean Borlin (bailarino). Daí para frente a corrente surrealista no cinema segue representada pelo cineasta francês Jean Cocteau, com o filme O sangue de um poeta (1930).

Com o lançamento do box Avant-Gard, pode-se ter acesso a outros trinta curtas da vanguarda cinematográfica mundial, com destaque para trabalhos de: Man Ray, Hans Richter, Marcel Duchamp, Jean Epistein, Sergei Eisenstein, Joris Ivens, Fernand Léger, Germaine Dulac, Slavko Vorkapich, Robert Florey, Melville Webber, Alvin Knechte, Jay Leyda, Maya Deren, Stan Brakhage, D.A. Pennebaker e Clive Barker.

Na próxima edição deste Suplemento, teremos comentários sobre esses quatro volumes indispensáveis à compreensão da história da sétima arte e que fez a alegria de cinéfilos sedentos de imagens oníricas ou descritivas.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br