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Edição 145

Suplemento Cultural e Literário JP “Guesa Errante” recebe Homenagem

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Data de Publicação: 15 de novembro de 2006
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Antes da premiação, a Universidade Federal do Maranhão, por meio do Departamento de Assuntos Culturais, prestou homenagens outorgando o Troféu José Chagas de Poesia ao Suplemento Literário JP “Guesa Errante”, editado pelo escritor Alberico Carneiro e encartado no Jornal Pequeno. A homenagem foi recebida pela Diretora-Presidente do Jornal, a Senhora Hilda Bógea, que agradeceu a homenagem, em nome do suplemento que há cinco anos vem contribuindo para a dinamização, fomento e divulgação da arte e literatura em nosso Estado. Também foram homenageados o advogado João Paulo Leda, vencedor do 1º Festival Maranhense de Poesia Falada, e o mais antigo funcionário do Teatro Arthur Azevedo, o contra-regra Antonio Assunção Alves - o Baixinho, que está prestes a se aposentar. Na sessão final o Grupo GAMAR apresentou espetáculo “Poemas Sujos e outras Urbanidades”.

Ronnald Kelps – O Grande vencedor do 20º Festival Maranhense de Poesia

A aproximação de Ronnald Kelps com a literatura aconteceu justamente no Festival Maranhense de Poesia, sentado nos bancos do Teatro Arthur Azevedo, em sua 14ª edição. Antes o poeta interpretava poemas no Grupo de Arte Maria Aragão- GAMAR. Dessa interação despertou em Kelps a vontade de participar do festival. Em sua 15ª edição Ronnald Kelp participa pela primeira vez não obtendo muito sucesso. De lá até essa última edição o poeta participou ano após ano, até neste ano conseguir realizar seu sonho. “Hoje é o dia mais feliz de minha vida”, comentou, Ronnald Kelps, após receber o Trófeu José Chagas de Poesia entregue pelo Reitor da Universidade Federal do Maranhão, Fernando Ramos.

Ronnald Kelps também possui um engajamento político e é filiado ao PSOL. Afirma que sua poesia está bastante relacionada com os temas políticos, além, também, das inquietudes humanas. Kelps tem apenas 19 anos e confessa que muito ainda tem para aprender em relação à literatura. Ele também acha importante o conhecimento dos poetas do passado e esta aprendizagem colabora para o fortalecimento de sua poesia. Abaixo, os 3 poemas vencedores do 20º Festival Maranhense de Poesia da Universidade Federal do Maranhão.

1º Lugar: ALEGRIA FOSCA

Duas notas secas de beethoven cortam o chão áspero da noite
logo identifico o pó e o silêncio dos que gritam por alegria
o corpo do homem em movimento
as mãos em delírio
a alegria murchando na semente do dia
o enxame da vida em zunido finito
na boca o amargor de vida que não fica
Trabalhar, oh, trabalhar a dor com maestria
na ânsia suja encardida dos que fingem não o sofrimento
Uma nota seca de beethoven corta o chão áspero do dia
vale a pena começar tudo de novo?
Ronnald Kelps

2º Lugar: O TEMPO NÃO DEPENDE DAS ASAS DE UMA BORBOLETA

1. futuro

dormindo está cada passo dominado pela espera
estou cego fujo para onde não há lua
estrelas desatam o nó que passa por mim
enquanto borges de paletó toma seu milkshake sozinho
destroços da mir sobrevoam o pacífico oceano
chove é apenas uma parte da chuva no fim

instinto é fortaleza do princípio humano
deserto que não cabe nas curvas do pesadelo
em nenhum lugar há o dedo de deus me acusando
lunáticos gritos quebram a rotina do querer
músicas de mahler suavizam a existência mais uma vez
luto contra a imprecisão da seta que não retorna

é só o que produz a vida todos os dias sem esboço
nem mesmo edgar alan poe jogou tanto contra a sorte
vigio a existência presa entre ruínas despercebidas
no contato entre mãos desesperadas me abrigo
não espero felicidade entre todos os destinos
há uma vertigem de ossos que não me elege

2. presente

não nomeio os demônios da noite
enquanto espero só há ruína
como salman rushdie arrependido
minha noite atira a última pedra

entre pedaços de neurótica vida
à condição extrema dos delírios
estou fora dos olhos lentamente
perdido feito sombra no navio
um dia a possibilidade chegará
só tenho o mundo meu violino
não posso esquecer meus demônios

a mulher de lábios doces deprimidos
a náusea se espalha no absurdo
meu coração toca todos os sinos

3. passado

não vou perdoar teu sexo rudimentar
entre meus olhos feridos de esperança
o cobre viaja vagarosamente pelos seus cabelos
em movimentos vazios não consigo me encontrar
lembro da cartilagem exposta do teu corpo
sobre o adorno da minha boca em dèjá vu
não fui eu quem declarou o nada
há espaços em tua libido quando chove
que ninguém nem imagina
o amor range no cinza de rembrandt
a verdade decanta entre seus seios famigerados
o nada me ouve agora veste sua mentira
compassado pelo passeio da língua mútua
a lua tinge teu nome aos sábados pela manhã
minha dialética sabe cada vez menos
do inconstante caminhar do dalai lama
a dor renega os olhos da medusa
em meu umbigo imperfeição

há um pouco de mitologia em teus quadris
nas trevas que caminham como invernos sem chuva
não desejo jantar contigo nas cavernas do pensamento
só eu conheço o cheiro de tuas entranhas
apesar de que você tentará plantar pântanos ao meu redor
um dia qualquer acordarei desta sansara
não vou me esconder para sempre
nos estuários da fé que cavaste para mim
eu sou nave neve em seus cabelos

Bioque Mesito

3º Lugar: PRESSÁGIOS

Imagino corpos em minhas mãos e os possuo todos;
urge o tempo, e quase não me restam mais embriões entre os dedos;
apresso-me para que não se esvaiam e se esparramem pelo espaço.

Pedaços de palácios, casas, castelos, praças, ruas, campos
estão nas minhas gavetas guardados e não se fizeram palavras,
tampouco versos para suster os poemas que nem sequer surgiram.

Taquicardia, suspiros, lágrimas, suores, vômitos, língua, mãos
misturam-se a mim e eu a eles, mas não me trazem nada
nem denunciam onde se esconderam todas as coisas que eram pó e que eu a palpava.

Meninos, velhos, mulheres, homens, exércitos, gente, bichos
imbricam-se em meu redor, mas meu olfato perde-se em pedras
que, frias, opacas, inodoras, não deixam exalar o que inalo inutilmente.

Vozes, ecos, urros, berros, uivos, gritos, estribilhos de vento
são do silêncio uma forma do alimento que não digiro porque sou surdo,
pois quase não me ouço pensar nem clamar por páginas prenhas de imagens.

Pessoas-bichos, pessoas-lugares, pessoas-saudades, pessoas-sentimentos
são híbridos que crio em busca de me salvar da secura que mora em mim
enquanto os livros não me ensinarem a profetizar poesias predestinadas.

Apresso-me em colher primaveras enquanto o outono não chegar pela manhã
quedando minhas folhas com imprestável sabor que poluirá o solo desértico,
sem me levar nada que produza efeito duradouro e reproduzível.

Concedo-me todos os fragmentos espalhados do berço à cama na varanda.
Vertiginosamente caio e caem de mim gotas que se agarram às paredes
e lutam, mas fenecem lentamente antes de molharem as entranhas da terra.

Pareço despertar de uma prisão onírica, vislumbrando todos os papéis
em que meus poemas dormirão nos porões dos navios que os levarão e os deixarão
no mais abissal dos oceanos, onde somente sobreviverá aquele que me retornará.

Lágrimas sujas de véu e grinalda.
Episódios postiços de um ator desnorteado.
Viagem segura, sem volta e sem passado.
Criança carente que quer colo encantado.

Sentidos expostos em um jornal amassado.
Crioulos de angola correndo no asfalto.
Canções sem demora congelam o pecado.
Prisão de almas que querem a luz.

José de Sousa Xavier
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br