Data de Publicação: 15 de novembro de 2006
Dando seqüência ao estudo Poesia da MPB, voltamos a assinalar que vários compositores musicais, que nasceram, ou no final do século XIX ou no começo do século XX, e cujas composições fizeram sucesso entre os idos de 1930 e 1950/ 60, escreveram as letras para inúmeras de suas canções, samba-canções, sambas, marchas, frevos e valsas, como acidentes de percurso. De modo geral, não há poesias nas letras.
Nós lemos a maioria das letras como narrativas ou enredos, em que são registradas as histórias do dia-a-dia, os amores e as paixões frustrados, geralmente platônicos, as decepções, lamentos, infortúnios e, principalmente, dores-de-cotovelo e revanche. São bilhetes, telegramas ou cartas que o passado manda como advertência ao presente, fruto da experiência de uma época romântica e platônica demais.
Os sambas, via de regra, são apimentados e dão o tom da gozação, do bom-humor, da ironia, do deboche e da “malandragem”, no bom sentido, de época. Têm uma leitura crítica da sociedade carioca, como espécie de crônica paralela às literárias dos meios de comunicação de massa.
Na realidade, a poesia da maioria desses compositores musicais, se concentra mais, e quase que exclusivamente, nas trilhas das escalas musicais ou arranjos, que são tão convincentes e geniais, que criam uma falsa impressão de que as letras são poéticas. Muito pelo contrário, a poesia está no fundo e não na superfície, na música e não na letra. A segunda intenção da palavra não ocorre na palavra, mas nas notas musicais.
Por exemplo, as composições musicais do mestre Pixinguinha são geniais. Mas, pelo amor de Deus, a letra da valsa Rosa, gravação RCA Victor, maio de 1937, é simplesmente de um romantismo piegas, cafona, cujo rebuscamento retorna à pedra lascada do platonismo do modelo perfeito e universal do classicismo greco-romano, mesmo decorridos 15 anos da Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, em 1922. Pixinguinha estava longe demais em música, para se preocupar com literatura, depois de haver sido comparado a Bach.
É claro que se fará ressalvas para as letras de sambas, cujas composições musicais sempre antológicas, têm o tom tendencioso natural da galhofa, isto é, do clima propício do período carnavalesco, já que o samba por natureza traz o apelo da sátira direta, objetiva, sem preocupação com poesia em letra. Por esse viés, não pode senão ser um meio de dissimulação da atmosfera momesca de retaliação, da escatologia, da ambivalência ou bipolaridade da sátira em suas várias versões de obliqüidade, crítica social ou crônica da época.
Não há, portanto, poesia nas letras de Geraldo Pereira (32/04/1918 a 08/05/1955); Lamartine Babo (10/01/1904 a 16/06/1963); Adoniran Barbosa (06/08/1910 a 23/11/1982); etc., porque a poesia já está impregnada no sensualismo, no erotismo das músicas, que são poéticas por natureza. São sambas, marchas e frevos que nem precisam de letras para ter a poesia do cotidiano, alegre, festiva, paradoxal, crítica.
Outros exemplos clássicos são certas composições musicais de Ary Barroso (07/11/1903 a 09/02/1964) que já são tão poéticas em si, que pôr letras nelas só serviria para colocar os letristas em situação difícil.
Pôr letra em Aquarela do Brasil , de Ary Barroso surtirá o mesmo efeito negativo de letra e coro para a Nona Sinfonia de Beethoven.
Pouquíssima poesia há nos poemetos das letras das composições musicais de Dorival Caymmi (30/04/1914). A plenitude de suas composições musicais por si só está tão impregnada de poesia, que as letras são apenas um complemento, quer dizer, leitura das histórias, dos motivos, que deram origem às canções. São roteiros, enredos necessários como explicações.
Muito pior são as letras das composições de Vicente Celestino (12/09/1894 a 23/08/1968) e Cândido das Neves (24/07/1889 a 14/11/1934). Do primeiro, são marcantes O Ébrio, gravação RCA Victor, 1936; Patativa, RCA Victor, 1937; Porta Aberta, RCA Victor, 1957 e Coração Materno, gravação Philips, 1968. São, sem dúvida, composições carregadas de tal grau de dramaticidade, eloqüência e emotividade, responsáveis por muitas lágrimas. São composições trágicas e a tragédia se funda na filtragem de grande carga emocional. Em outras palavras, as composições de Vicente Celestino são mais peças teatrais trágicas. Do segundo, as singelas composições que embalaram nossas infâncias e pelas quais temos respeito e carinho pela alta dosagem de saudosismo e nostalgia: Última estrofe, gravação RCA Victor, 1935; Página de dor, RCA Victor, 1938; Cinzas, RCA Victor, 1939 e Noite cheia de estrelas, 1932, gravada por Vicente Celestino.
LUPICÍNIO RODRIGUES
Lupicínio Rodrigues nasceu em Porto Alegre, a 16 de setembro de 1914 e morreu em 27 de agosto de 1974.
Desse boêmio, doutor em dor-de-cotovelo, há algumas tiradas poéticas, além da prodigalidade e prodigiosidade poética musical.
Somente a tirada marginal de Esses moços, pobres moços, gravado por Francisco Alves, em 1948, já dá notícia de que o seresteiro tinha bagagem de vivência de estações no inferno,
[....]
“Saibam que deixam o céu por ser escuro
e vão ao inferno à procura de luz”
[...]
Estes moços, pobres moçosEsses moços, pobres moços
ah! Se soubessem o que eu sei,
não amavam, não passavam
aquilo que eu já passei
por meus olhos, por meus sonhos,
por meu sangue, tudo enfim,
é que eu peço a esses moços
que acreditem em mim.
Se eles julgam que a um lindo futuro
só o amor nesta vida, conduz,
saibam que deixam o céu por ser escuro
e vão ao inferno à procura de luz
Eu também tive nos meus belos dias
esta mania e muito me custou,
pois só as mágoas que eu trago hoje em dia
e estas rugas o amor me deixou
[...]
Felicidade, gravação original de 1947, é uma das poucas composições de Lupicínio que não fala de dor-de-cotovelo.
[...]
‘’A minha casa fica lá detrás do mundo
onde eu vou em um segundo
quando começo a cantar
o pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa
quando começa a pensar.”
Simples, mas tem aquela atmosfera própria da poesia – sonho, sensação do inverossímil como realidade que consola, conforta. Comovedora poesia.
Típico do espírito de Lupicínio está na letra da composição Quem há de dizer, (Lupicínio Rodriguez e Alcides Gonçalves), gravação Odeon, 1948:
[...]
“..Toda vez que ela fala
ilumina mais a sala
do que a luz do refletor
O cabaré se inflama
quando ela dança
e com a mesma esperança
todos lhe põem o olhar
E eu o dono
aqui no meu abandono
espero louco de sono
o cabaré terminar
[...]
NELSON CAVAQUINHO
Nelson Antônio da Silva, Nelson Cavaquinho, compositor, cantor e instrumentista, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 28/10/1910.
Uma de suas mais expressivas composições é A flor e o espinho, de parceria com Alcides Caminha e Guilherme de Brito, gravado pela primeira vez em 1956, Todamérica.
Nelson Cavaquinho com seus parceiros apresentam uma letra, cujo vigor poético até os dias atuais nos comove e emociona:
“Tire seu sorriso do caminho
que eu quero passar com minha dor
Se hoje para você eu sou espinho
espinho não machuca a flor.”
Pensando bem, só machuca quando, ou não há amor ou depois que o amor se desenlaça.
ARY BARROSOAry Barroso nasceu a 7 de novembro de 1903, em Ubá, Minas Gerais e morreu no dia 9 de fevereiro de 1964.
Embora as suas composições musicais sejam de uma completude poética inquestionável, nas letras, aqui e ali perpassam alguns raros versos com poesia. A título de exemplo, citamos as letras das composições Risque, gravação de RCA Victor, 1952 e Inquietação, gravada pela Philips, em novembro de 1980, no LP Aquarela do Brasil.

Apesar da inquestionável beleza musical de suas composições, as letras, geralmente, são mais denotativas, inclusive as de Aquarela do Brasil, uma obra-prima musical dentre outras como Folha morta, Os quindins de Iaiá, Na batucada da Vida, Na baixa do sapateiro e No tabuleiro da baiana.
Na realidade, nas canções que citamos, as letras funcionam como enredo, narrativas contextuais, explicação de causa ou fonte de inspiração, justificativa.
Inquietação“Quem se deixou escravizar
e no abismo despencar
de um amor qualquer,
quem no aceso da paixão
entregou o coração
a uma mulher,
não soube o mundo compreender,
nem a arte de viver,
nem chegou mesmo de leve a perceber
que o mundo é sonho, fantasia,
desengano, alegria,
sofrimento, ironia.
[...]
Há no poema aquele realismo psicológico em que perpassa a mesma atmosfera do soneto Mal secreto, de Raimundo Correia.
Mas é na canção Na baixa do sapateiro que o criador da música de dor-de-cotovelo dá demonstração, com malícia, do fel que traz o esporão do amor,
Ai! O amor ai, ai
Amor, bobagem que a gente não explica
[...]
Prova um bocadinho, oi
fica envenenado, oi
e pro resto da vida
É um tal de sofrer
Ô lara ô lerê
Ô Bahia, ai, ai
Bahia que não me sai do pensamento.
Faço o meu lamento
na desesperança
de encontrar neste mundo
o amor que eu perdi.
[...]
DOLORES DURAN
Dolores Duran, pseudônimo de Adélia Silva da Rocha, que nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de junho de 1930 e morreu em 24 de outubro de 1959, ano em que compôs seus melhores samba-canções, A noite do meu bem, Fim de caso e Solidão.
A noite do meu bem[...]
Hoje eu quero a paz de criança dormindo
e o abandono de flores se abrindo
para enfeitar a noite do meu bem.
Quero a alegria de um barco voltando,
quero a ternura de mãos se encontrando
para enfeitar a noite do meu bem.
[...]
A ternura lírica deságua nesta canção, uma das últimas, de quem, pouco antes de morrer, declarou, “Estou tão cansada, que gostaria de dormir o sono de nunca mais acordar.”
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