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Edição 144

A Poesia da MPB (II) - Quando tudo começou

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Data de Publicação: 7 de novembro de 2006
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Por: Alberico Carneiro

Pinxinguinha

Alfredo da Rocha Viana Filho, Pinxinguinha, pioneiro da Música Popular Brasileira, nasceu na Piedade, subúrbio do Rio de Janeiro, a 23 de abril de 1898 e morreu no dia 17 de fevereiro de 1973, na Igreja de Nossa da Paz.

Carinhoso (Pinxinguinha e João de Barro) foi gravado por volta de 1937 pela RCA Victor.

É em Carinhoso que vamos encontrar o primeiro exemplo da tímida necessidade do componente poético nas letras, das composições musicais nas décadas de 1920, 1930 e 1940:

Meu coração
Não sei por que
Bate feliz
Quando te vê

E os meus olhos
Ficam sorrindo
E pela rua
Vão te seguindo
[...]

Poesia pura. Imagens belíssimas. As palavras saem do campo denotativo e passam ao sentido especial, metafórico, conotativo.

Há no trecho do poema lírico-amoroso uma proposital troca de percepção (sinestesia) e a parte olhos é usada pelo todo (metonímia).

Correspondência pelo sentido:

Coração (por olhos) quando te vê.

Olhos (por boca, lábios, dentes) ficam sorrindo.

Por outro lado, bate feliz é um feliz paradoxo em relação a coração. E não sei por que é outro achado que propõe a discreta, sutil e tímida maneira encoberta, velada de fazer uma declaração de amor já sabido por ambos, que fingem não saber, por cortesia.

Olhos (o ser introspectivo) vão te seguindo. (metonímia).

Noel Rosa

Noel de Medeiros Rosa, nasceu em 11 de dezembro de 1910, em Vila Isabel, Rio de Janeiro. Morreu no dia 4 de janeiro de 1937, no Rio.

Noel Rosa foi um misto de boêmio, compositor genial e poeta marginal.

Três apitos dá bem o tom de uma poesia desenraizada e desfamiliarizada em relação ao que se escrevia na época:

[...]
“Sou do sereno
poeta muito soturno
vou virar guarda-noturno
e você sabe por que

Mas você não sabe
que enquanto você faz pano
faço junto do piano
Esses versos pra você”

Melhor é ler o poema inteiro para saborear a espontaneidade do instantâneo ou da vocação para improvisar com base na realidade do cotidiano. Três apitos como Último desejo e como quase toda obra poético-musical de Noel Rosa tem o tom confessional e autobiográfico e, ao mesmo tempo, ele é porta-voz dos amores mal resolvidos. Confira Último desejo e perceba com que carinho ele dialoga sobre o amor.

“Nosso amor que eu não esqueço
e que teve seu começo
numa festa de São João.
[...]

Paradoxalmente, esse amor:

[...]
“Morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete
sem luar, sem violão.”

Com estes versos o poeta impõe às palavras, um sentido especial, metafórico. Sem foguete, sem retrato e sem bilhete, etc. representam uma antítese às alegorias da festa de São João.
Na seqüência,o poeta Noel Rosa investe contra uma sociedade hipócrita e preconceituosa.

Cartola

Angenor de Oliveira, Cartola, nasceu no Catete, bairro do Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1908 e morreu na clinica São Carlos, em 30 de novembro de 1980.

As rosas não falam
[...]
Queixo-me às rosas
Mas, que bobagem,
as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti.”
[...]
O mundo é um moinho
[...]
Ouça-me bem amor,
o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos
tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó
[...]

O mundo é um moinho por si só é o grande achado, o estalo e com triturar revela a maneira visceral com que Cartola vê a vida com justo pessimismo e certeza da dor fatal do fim, não há saída para ele.

Silvio Caldas / Orestes Barbosa
(Chão de Estrelas)


Em versos decassílabos, Chão de estrelas, título dada à mais famosa composição musical de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, é um dos raros poemas da Música Popular Brasileira, a apresentar uma maior quantidade de versos com poesia. É um misto de poema realista-psicológico, de linguagem simbolista, e uma certa inclinação para o modernismo, no que tange à preocupação com o cotidiano.

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado,
Palhaço das perdidas ilusões

Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns despenduradas
Na corda quais bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival

Festa de nosso trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal
vestidos
É sempre ferido nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão

Tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.”

O poema é uma reconstituição alegórica de um Orfeu e uma Eurídice do Morro do Salgueiro com antológicos momentos de comovedora poesia, principalmente do verso 16 a 22.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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