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Edição 144

A existencial eternidade de uma poeta no coração do Diamante

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Data de Publicação: 7 de novembro de 2006
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O tempo não depende das asas de uma borboleta

O tempo iguala os homens e põe as coisas em seu devido lugar. O tempo do fim da Família Sarney - seu crepúsculo frio e solitário, acabou. Antes o Maranhão pairava na Era da obscuridade e do desprezo, mas o tempo mudou, não existe mais céu carregado e negro, um arco-íris de liberdade embeleza o nosso Estado. Quarenta anos que pareciam uma eternidade chegaram ao fim. Agora, Felipão ( o saudoso pai do poeta Herbert de Jesus Santos ), você pode descansar com um sorriso na face, você e muitos outros que não conseguiram ter o prazer de acompanhar este momento de mudança, este evento histórico e lindo. A candidata, da soberba e do desmando, virou defunta. Morreu, infelizmente, vestida com camisa de seda e mansão no Calhau.

O tempo constrói seus barulhos na porta dos estádios de futebol, no ir e vir maravilhoso das marés, nos degraus que delimitam as portas do paraíso e do purgatório, nas sinfonias de Gustav Mahler. O tempo está escondido por detrás dos ombros e do quase sorriso da Monalisa, no distinto olhar que te apraz agora nesse texto, ele é o que resta para um depois entre nossos sentidos. Filosofismos, pautas, teses, a eternidade e o tempo – os reflexos de Narciso da alma humana.

O inquieto tempo de Rosemary Rêgo, essa poeta maranhense, moradora do Bairro do Diamante, que faz parte da geração 90 da poesia maranhense, que desde cedo já escrevia peças de teatro, mas foi com a poesia que, no início dos anos noventa, colocou todo seu talento em ação. Rosemary é uma veterana nas produções literárias do nosso Estado, em 98, na Rádio Difusora, apresentava um quadro no programa Som da Ilha ( onde entrevistava e promovia recitais de poemas de autores maranhenses), também, pela TVE, participou do “Tempo de Poesia”, recitando poemas de sua autoria. Em 1997 integrou a Antologia Safra 90 – uma coletânea de poesia que teve como objetivo mapear a produção dos poetas dos anos 90. Nos festivais de poesia obteve 3º lugar no 11º Festival de Poesia da Universidade Federal do Maranhão.

Lendo a poesia de “O Ergástulo Gozo da Palavra”, livro de estréia de Rosemary Rêgo, podemos constatar que o tempo e a eternidade permeiam grande parte desta obra. A própria poeta nos dá o gancho destes fatos quando diz, em seu poema Espera:

A sala em penumbra não cabe dentro da alma
o papel exposto sob a pequena mesa de cedro
espera o poema que não deseja sair precocemente.
A máquina absorta no canto do quarto há muito
não abre os dentes há tempo a poesia não chega.
A máquina no canto do quarto é tácita, é como se estivesse velando um cadáver de noventa anos.

Rosemary absorve grande parte da atmosfera filosófica de Heidegger, desdobrando em seus poemas seus três estágios existenciais – a Afetividade ( o passado é tratado pela poeta como valores e afetam seus sentimentos que compartilha), a Fala ( a poeta traduz, o presente, como fenômenos, utilizando a linguagem em suas atribuições e significados), o Entendimento ( nesse estágio, o futuro, a poeta traduz a morte como um sentimento não terminado, um porvir – sua eternidade ). O poema, abaixo, revela tais fatos heideggerianos:

Abril
Ontem flores germinavam sobre mim
o onírico prazer de esculpir a vida me
transformou
no fruto do carbono.
O duro ofício de lapidar o pão carrega
nas pálpebras
o abominável cansaço da alma.
Amanhã que seja cedo ou tarde sorrisos
repousarão
sobre meu cadáver.

A eternidade da poeta é existencial. Uma sombra dos eventos que podem se repetir. Bálsamo. Viagens em insondáveis murmúrios do ser já cansado de não chegar à verdade das coisas. É pausa. Retorno em transição. Reencarnação da alma e fé. Rosemary Rêgo navega pelos cais da existência com passaporte vencido, mas em suas preposições de sentimentos permeia a lírica do coração. Por isso, sua poesia, em muitos momentos recria, em belas imagens, os altos estágios dos grandes poetas.

Observamos, em Rosemary Rêgo, algumas influências importantes para o crescimento textual de sua poesia. No prefácio de seu livro, o professor de Literatura Brasileira, José Neres, escreve: “Dona de variadas e importantes leituras, a escritora não faz questão de esconder os caminhos trilhados rumo às inúmeras batalhas da escrita. Em seus poemas qualquer leitor mais atento poderá perceber as influências de Drummond, José Chagas, Manoel Bandeira, Nauro Machado, Cecília Meireles, Baudelaire e Augusto dos Anjos, entre outros nomes da enorme constelação poética das letras mundiais. Porém irá enganar-se quem imaginar que a influência se transformou em mero pastiche ou em uma apropriação dissimulada de imagens, assuntos ou idéias. Não. De forma nenhuma. Rosemary Rêgo pode até respirar os ventos dos poetas acima citados, mas, ao expirar, bafeja os leitores com suas próprias palavras, com seu próprio tino artístico e deixa suas digitais em cada verso”. O poema Apologia, abaixo, revela tais influências observadas por José Neres:

Ouvi baladas
Dentro da noite veloz
Estrela da vida inteira.
A poesia é canto geral
Masmorra didática
Na hermeticida de da vida.
Anjos malditos
Beijam as flores do mal
O ócio desperta
os canhões do silêncio!
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