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Edição 144

A Poesia da MPB (II) - Quando tudo começou

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Data de Publicação: 7 de novembro de 2006
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Angenor de Oliveira, Cartola, nasceu no Catete, bairro do Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1908 e morreu na clinica São Carlos, em 30 de novembro de 1980.

As rosas não falam
[...]
Queixo-me às rosas
Mas, que bobagem,
as rosas não falam
simplesmente as rosas exalam
o perfume que roubam de ti.”
[...]
O mundo é um moinho
[...]
Ouça-me bem amor,
o mundo é um moinho
vai triturar teus sonhos
tão mesquinhos
vai reduzir as ilusões a pó
[...]

O mundo é um moinho por si só é o grande achado, o estalo e com triturar revela a maneira visceral com que Cartola vê a vida com justo pessimismo e certeza da dor fatal do fim, não há saída para ele.

Silvio Caldas / Orestes Barbosa
(Chão de Estrelas)


Em versos decassílabos, Chão de estrelas, título dada à mais famosa composição musical de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, é um dos raros poemas da Música Popular Brasileira, a apresentar uma maior quantidade de versos com poesia. É um misto de poema realista-psicológico, de linguagem simbolista, e uma certa inclinação para o modernismo, no que tange à preocupação com o cotidiano.

“Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado,
Palhaço das perdidas ilusões

Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações

E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou

Nossas roupas comuns despenduradas
Na corda quais bandeiras agitadas
Pareciam um estranho festival

Festa de nosso trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal
vestidos
É sempre ferido nacional

A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão

Tu pisavas nos astros distraída
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão.”

O poema é uma reconstituição alegórica de um Orfeu e uma Eurídice do Morro do Salgueiro com antológicos momentos de comovedora poesia, principalmente do verso 16 a 22.

Ataulfo Alves

Ataulfo Alves nasceu na fazenda Cachoeira, a 2 de maio de 1909, em Miraí – cidadezinha de Minas Gerais perdida entre as montanhas na Zona da Mata, a 500 quilômetros de Belo Horizonte. Morreu em 20 de abril de 1969.
Da tímida poesia dessa primeira safra, no poema Ai que saudade da Amélia, Ataulfo Alves / Mário Lago, Gravação Odeon, novembro de 1941, têm o privilégio de criar um mito nacional, o de mulher ideal, ou seja, o da mulher-amélia.

[...]
“Ai meu Deus, que saudade da Amélia,
Aquilo sim é que era mulher!

Às vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
Quando me via contrariado
Dizia: meu filho, o que se há de fazer
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade

Ainda com o poeta Mário Lago, Ataulfo Alves compõe Atire a primeira pedra, gravado, em 1943, pela Odeon. Fique o registro por causa da original releitura do episódio de Madalena, na Bíblia,

[...]
Atire a primeira pedra, ai, ai, ai
Aquele que não sofreu por amor”

Na cadência do samba, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, gravação RCA Victor, de 1962, inaugura uma lírica-amorosa tipicamente do “malandro brasileiro”, com a bossa do olhar otimista, pra cima, nos momentos mais difíceis. Esse paradoxo seria retomado por empréstimo por Vinícius de Moraes. Ataulfo Alves, incorrigível boêmio, dá a receita:

Na cadência do samba

“Sei que vou morrer, não sei o dia,
levarei saudades da Mari.
Sei que vou morrer, não sei a hora,
levarei saudades da Aurora.
Quero morrer numa batucada de bamba
na cadência bonita do samba.”
[...]

Assis Valente

Assis Valente nasceu em 19 de março de 1911 (ou 1909?). Pairam duvidas, como também quanto ao local que pode ter sido Campo de Pólvora, em Salvador (BA), ou Bom Jardim e Patioba. Morreu em 10 de março de 1958.
Compositor musical e poeta de uma irreverência, ironia e originalidade a toda prova. Vejamos os exemplos típicos das sátiras que construía com o mais espontâneo senso de humor:
E o mundo não acabou, gravação Odeon, março de 1938. Leiam um trecho desta bem-humorada sátira. Essa carona, que ele pegou no trem de Ataulfo Alves, foi retomada pela bossa-nova. Confira Assis Valente:

E o mundo não acabou

“[...]
E até disseram que o sol
ia nascer antes da madrugada
[...]
Beijei na boca de quem não devia,
peguei na mão de quem não conhecia,
dancei um samba em traje de maiô
e o tal do mundo não acabou.”
[...]

Boas-Festas traz, opostamente, um lirismo soturno, pessimista, mas na medida da irreverência do poeta:

“[...]
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim, felicidade
Eu pensei que fosse um brincadeira de papel
Já faz tempo que pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem”

Gravação de RCA Victor, de 17 de outubro de 1933, Boas-Festas traz um fecho impressionantemente surpreendente, o fato de a criança pedir um “brinquedo”, a felicidade. Ele quis nos dizer, em outras palavras, brincamos com um perigoso e inacessível prêmio, presente, e o mais caro, pelo qual se paga um preço alto demais.
Assis Valente é surpreendente, criativo, atento ao cotidiano, irônico, mordaz. Aí esta vivinha da silva a sátira brasileiramente nacional, com tiradas que nada deixam a desejar a um Gregório de Matos. Destaque para as geniais Uva de Caminhão, Brasil Pandeiro, Recenseamento, Tem Francesa no Morro é antológico tanto quanto Camisa Listrada, originalíssimo.

Uva de Caminhão
“Já me disseram que você andou pintando o sete,
andou chupando muita uva e até de caminhão.
Agora anda dizendo que esta de apendicite
E vai entrar no canivete, vai fazer a operação.

Oi, que tem a Florisbela nas cadeiras dela
Andou dizendo que ganhou a flauta de bambu
Abandonou a batucada lá da Praça Onze
E foi dançar o pirulito lá no Grajaú

Caiu o pano da cuíca em boas condições
Apareceu Branca de Neve com os Sete Anões.
[...]”
Brasil Pandeiro
“[...]
O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato

Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará
Na Casa Branca já começou a batucada com ioiô e iaiá
Brasil, Brasil,
Esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros
Que nós queremos sambar”

Brasil Pandeiro é uma homenagem à amiga Cármen Miranda, que brilha nos Stats e uma sátira bem-humorada ao Tio Sam. Ele é um gozador emérito. Sem comparação, na sátira. Tem a sutileza poética irreprimível:

Recenseamento
[...]
Obediente eu sou a tudo que é de lei
Fiquei logo sossegado e falei então:
- O meu moreno é brasileiro, é fuzileiro
E é quem sai com a bandeira do seu batalhão
A nossa casa não tem nada de grandeza,
Nós vivemos na fartura sem dever tostão
Tem um pandeiro, tem cuíca e um tamborim
Um reco-reco, um cavaquinho e um violão

Fiquei pensando e comecei a descrever
Tudo, tudo de volta que o meu Brasil me deu:
Um céu azul, um Pão-de-Açúcar sem farelo
Um pano verde-amarelo
Tudo isso é meu!
Tem feriado que pra mim vale fortuna...
[...]”

Sátira com sutileza e prova de amor à Pátria está aí. Recenseamento é um sabão na cara do recenseador abelhudo. Vejam só a abertura:

“[...]
E o agente recenseador
Esmiuçou a minha vida
Que foi um horror

E quando viu a minha mão sem aliança
Encarou para a criança
Que no chão dormia
E perguntou se meu moreno era decente
E se era do batente ou era da folia
[...]”

Aí deu no que deu ou no repente que deu.

Camisa Listrada

Vestiu uma camisa listrada e saiu por aí
Em vez de tomar chá com torrada
Ele tomou Parati
Levava um canivete no cinto e um pandeiro na mão
E sorria quando o povo dizia: sossega, leão, sossega, leão!

Tirou o seu anel de doutor
Pra não dar o que falar
Saiu dizendo: Eu quero mamar! Mamãe eu quero mamar!
[..]
Agora a batucada já vai começando
Não quero e não consinto meu querido debochar de mim,
Porque se ele pega as minhas coisas,
Vai dar o que falar
Se fantasia de Antonieta
E vai dançar no Bola Preta
Ate o sol raiar”

Olhem que este poeta é o próprio Boca do Inferno e O Canalha Genial encarnados, Gregório de Matos e Bocage juntos num só. Te esconjuro!

Uva de Caminhão, gravação Odeon, 1939; Brasil Pandeiro, gravação Columbia/Continental, 1941; Recenseamento, gravação Odeon, 1958; Camisa Listrada, gravação Odeon, 1968.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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