Data de Publicação: 19 de setembro de 2006
A Estética do Artista em Meio às Problemáticas CulturaisPor: Bioque Mesito
Há um paradoxo e uma lacuna no início deste século. A arte está sendo jogada contra a parede, os críticos já ameaçam dizer que a produção das últimas décadas são pouco valorosas. E o que fazer? Desistir? A arte morreu? Não, a arte efervesce a cada momento. O que nos foi deixado é o supra-sumo. Digerir é o começo da meada. Fugir não é uma atitude inteligente.
Toda grande sociedade se afirmou no contexto histórico por causa de sua expressão artística. Mesmo as ruínas que restaram de suas construções servem de referência para mensurarmos a estética e o valor cultural desse povo. Os gregos nos legaram as quatro colunas do conhecimento: a ciência, a filosofia, a arte e a mística. Os egípcios, a crença na imortalidade da alma. Os romanos, as leis e as táticas de guerra. Isto falando insignificantemente das civilizações aludidas.
O olhar secular talvez nos tenha feito mal. Na luta pelo ganha-pão de cada dia, o homem se distanciou de sua essência. Em “A Teoria dos Sentimentos Morais”, Adam Smith aborda a figura do homem moderno, dos dias atuais - voltado somente para seu próprio umbigo, causando conflitos em suas relações. Daí, as guerras, os homens-bomba por todo lado, os terroristas fanáticos, além da unilateralidade de um ditador mundial, disfarçado de salvador do mundo. Vivemos uma espécie de caos organizado, que, a qualquer segundo, pode desmoronar.

É justamente este princípio smithiano que permeia os fomentadores da nossa cultura. O pantanoso engano cultural corrói seculares manifestações que despencam ao som das matracas eleitoreiras e se tudo ocorrer mal a ‘Filha do Senador’ vem aí, mas eu acredito é na rapaziada. Serão quatro anos de cultura popular vendida a preço de banana: Bumba-bois desorquestrados, Tambores sem crioulas, Cantores e Compositores provincianos do som do mará, Pseudos-boizinhos da Madre de Deus, Cacuriás de donas sem idéias, sem falar do esculacho que fazem da nossa Literatura, privilegiando apenas escritores da Academia Maranhense do Senador Amapaense de Letras, ou ainda, alguns escritores que puxam o saco do governo para fazerem uso da máquina pública em benefício próprio. Porém, essas manifestações culturais, se utilizadas para enriquecimento da nossa cultura, têm o seu papel primordial no folclore e na erudição do país.
Todavia, existe cultura séria em nosso Estado. Nem todos se venderam. Ainda há os que têm a dignidade de dormir tranqüilos todas as noites. Airton Marinho é um deles. Artista que, através de seu labor cotidiano, sem precisar de conchavos políticos, persiste e continua sendo um lutador. Das suas mãos, resolveu, justamente, eleger e enaltecer, através de xilogravuras, ainda mais o patrimônio de nossa cidade.
Airton Marinho apresenta, em sua carreira, duas obras que ajudaram a evidenciar seu nome no cenário nacional; são as peças: A Carruagem de Ana Jansen e A Lenda da Serpente – ambas retratam lendas e mitos da nossa gente. A primeira, relata que em determinadas noites escuras, Dona Ana Jansen (figura importante na sociedade maranhense do século XVIII), passeava em sua carruagem, puxada por cavalos decapitados e um cocheiro (também decapitado), pela Fonte do Ribeirão e em outras ruas em que possuía propriedades, levando terror às pessoas daquela época. A segunda obra é pautada no maior mito que existe sobre a Ilha de São Luís: sua destruição no fundo do mar. Conforme a lenda, existe uma serpente adormecida, submersa nas águas que circulam a Ilha de São Luís, e que está em processo de contínuo crescimento e que, quando encontrar sua própria cauda, acordará e soltará labaredas pelos olhos e pela boca e abraçará a cidade com fúria demoníaca, arrastando-a para o fundo do mar. Lendas sobre serpentes que levarão cidades para sua destruição não são exclusividade dos ludovicenses; existem várias cidades brasileiras (inclusive Itapeva, no interior do Estado de São Paulo) que relatam tais fatos.
Em sua exposição Azulejos do Maranhão, já comentada em artigo anterior deste suplemento, o artista faz um passeio por séculos de história, revelando toda a plasticidade do tempo em mosaicos bicolores e multicolores, transpondo para a xilogravura os azulejos que são o maior ícone do Maranhão. Com um olhar, agora não mais do menino que tropeçava nos paralelepípedos da Praia Grande, mas do artista, Airton Marinho, em suas dezoito xilogravuras, aponta a beleza da azulejaria que um dia revestiu as casas das famílias maranhenses e que formam, hoje, sem sombras de dúvidas, um patrimônio singular. Segundo o Catálogo dos Azulejos de São Luís, no conjunto de 423 imóveis com azulejos, tombados como patrimônio histórico, apenas uma pequena parte é conservada e a grande maioria se esfacela como cárie nos dentes da Família Desleal do Calhau.
Com certeza, o xilogravurista Airton Marinho, ao elaborar cuidadosamente sua exposição sobre os Azulejos do Maranhão, teve o olhar crítico sobre o abandono por que passa esse símbolo dos maranhenses, e conseguiu realizar um antigo sonho de criança - quando olhava para as janelas esculturais dos casarões da Praia Grande. Naquele momento, nem imaginava que um dia poderia materializar aquele vislumbre em arte, em poesia.
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