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Edição 141

OS TRÊS ENTERROS DE MELQUÍADES ESTRADA

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Data de Publicação: 19 de setembro de 2006
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(Ou uma epopéia partindo de Antígona, passando por Juan Rulfo e Sol da novela América)

Por: Vicente F. Júnior

Para minha avó Maria.

Sem sombra de dúvida, ‘Os três enterros de Melquíades Estrada’, é um filme excepcional. Um dos melhores, feitos nos últimos tempos (tempos sombrios).

Dirigido pelo ator Tommy Lee Jones, que também atua no filme, e com roteiro de Guillermo Arriaga, o mesmo de Amores Brutos e 21 Gramas. Só por essas referências, já se pode dar credibilidade a tão original película. Mas como se não bastasse, a obra ainda foi laureada em Cannes com os prêmios de melhor ator e melhor roteiro. Reconhecendo-se, dessa forma, o trabalho da dupla.

Três Enterros tem como enredo o misterioso assassinato de Melquíades Estrada, um pastor de cabras de origem mexicana, que trabalhava no Texas, próximo à fronteira. Daí por diante, o espectador é conduzido através de uma estrutura narrativa alicerçada em flashbacks que lhe permitirão acesso aos meandros enigmáticos da trama.

Quando o corpo de Melquíades é encontrado, já se passaram sete dias de sua morte e a única pessoa que reclamou seu corpo foi o amigo Pete Perkins (Tommy Lee Jones), no intuito de cumprir uma promessa feita ao amigo, ainda em vida, de enterrá-lo no seu povoado (pueblo) natal, do outro lado da fronteira, ou seja, no México. Esse é um aspecto de muita relevância no filme: a questão das fronteiras, que se dá muito mais no plano físico, pois, na realidade, aquela região americana, onde se desenrola a ação, se confunde com a paisagem mexicana. Fronteiras, também, entre realidade e fantasia, onde, também, reside o poder do filme. Esses limites, na verdade, se fundem e se confudem e, às vezes,são inexistentes – e isso é mostrado sob a óptica do realismo mágico. O espectador é remetido àquela aura dos grandes nomes da literatura mexicana como, por exemplo, Carlos Fuentes, Octávio Paz e principalmente Juan Rulfo.

Ao descobrir que o assassino de seu estimado amigo Melquíades é um policial da fronteira, Pete Perkins (Tommy Lee Jones) tenta, em vão, fazer justiça pela via comum e resolve agir por conta própria. Fazendo o tal policial de refém e obrigando-o a o acompanhar nessa viagem inusitada e insólita rumo ao México. Assim, a dupla parte montada a cavalo, com o corpo de Melquíades já em decomposição, com o objetivo de dar-lhe um enterro digno. O espectador, por vezes, chega a sentir o mau cheiro e o mal-estar originado pelo calor do deserto mexicano, sendo mais um naquela estranha peregrinação.

É inevitável lembrar de ‘Antígona’, de Sófocles, que enfrentou e lutou, até às últimas conseqüências, contra a lei dos homens, que a impedia de prestar um enterro digno ao seu irmão morto.

Se, por um lado, é inevitável lembrar de Antígona, por outro lado, outra lembrança que vem à tona, é a da personagem Sol, vivida por Débora Secco, na novela ‘América,’ de autoria de Glória Perez e Jayme Monjardim, que atravessou a fronteira mexicana em busca do sonho americano. Digo isso, porque, ao longo do filme, é recorrente a presença de grupos de pessoas a tentarem atravessar a fronteira, acompanhados por coyotes, uma espécie de traficante de pessoas, que facilita a travessia, por conhecer bem a região.

Outro aspecto relevante do filme, além da excelência do roteiro, e da direção, mas que, ainda assim, é uma conseqüência imediata da soma desses esforços, são os personagens muito bem estruturados, e as performances dos atores. E isso inclui os personagens secundários, como por exemplo, a atriz Melissa Leo, no papel interessantíssimo, de Rachel, garçonete, que consegue transmitir a decadência e o tédio da sociedade local.

É pela harmonia de todos esses aspectos que Três Enterros é um filme grandioso, que nos faz refletir sobre a inexistência de fronteiras entre realidade e fantasia, vida e morte. Basta conhecer o significado da morte, para os mexicanos, fazendo uma analogia com os cultos pré-hispânicos e a religião cristã – que sustenta que a morte não é o fim natural da vida, senão uma fase de um ciclo infinito. Vida, morte e ressurreição são os estados do processo que nos ensina a religião cristã. De acordo com o conceito pré-hispânico da morte, o sacrifício da morte – o ato de morrer – é ter acesso ao processo criador que dá a vida.

Título Original: The Three Burials of Melquiades Estrada

Gênero: Drama
Tempo de Duração: 121 minutos
Ano de Lançamento (EUA / França): 2005
Site Oficial: www.sonyclassics.com/threeburials
Estúdio: Europa Corp. / The Javelina Film Company
Distribuição: Sony Pictures Classics / California Filmes
Direção: Tommy Lee Jones
Roteiro: Guillermo Arriaga
Produção: Michael Fitzgerald e Tommy Lee Jones
Música: Marco Beltrami
Fotografia: Chris Menges
Desenho de Produção: Meredith Boswell
Direção de Arte: Jeff Knipp
Figurino: Kathy Kiatta
Edição: Roberto Silvi
Efeitos Especiais: Digiscope

Elenco:

Tommy Lee Jones (Pete Perkins)
Barry Pepper (Mike Norton)
Julio Cedillo (Melquiades Estrada)
Dwight Yoakam (Belmont)
January Jones (Lou Ann Norton)
Melissa Leo (Rachel)
Mel Rodriguez (Capitão Gomez)
Cecilia Suárez (Rosa)
Ignacio Guadalupe (Lucio)
Vanessa Bauche (Mariana)
Irineo Alvarez (Manuel)
Guillermo Arriaga (Juan)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br