Data de Publicação: 5 de outubro de 2006
Quatro de Outubro - Dia do PoetaPor: Bioque Mesito
O lirismo do poeta e suas facetas inconstantesão Luís é uma festa, que me desculpe o trocadilho, Ernest Hemingway, a primavera, mesmo tímida, já habita as manhãs e o engarrafamento de nuvens sobre a Ilha de Sousândrade. Na ressaca, das eleições e da existência, perambulamos pelo mundo em busca de movimentos e novidades inconstantes. Selamos o compromisso de sermos pessoas melhores, mas o barco do viver, às vezes, parece se perder no horizonte desconhecido. Todo dia é momento de continuarmos a batalha incessante em busca da poesia. Poesia que é a maneira mais convincente de olharmos a existência sem indagações óbvias.

Homero e sua Odisséia, Drummond e a pedra no caminho, Pessoa e seu fingimento, poetas, todos eles, na condição que não escolheram. Ser poeta é codificar a existência em pedaços perfeitos. Um jazz de Nina Simone no final da noite, uma película de Kubrick, um café no boteco, uma Sinfonia de Mahler, um sarro no escurinho do cinema, uma tela de Jackson Pollock, uma valsa com o imaginário ou apenas o beijo da mãe no rosto do filho que vai sair para o trabalho, todas estas coisas são poesia. O poeta é um desconstruidor de mundos, um industrial de brinquedo, suaves são suas mãos na planície do texto. Toda poesia é um não pensamento.

A poesia, abaixo, de W.B. Yeats, é considerada um dos mais bem escritos da história da Literatura mundial. Nesse poema, o autor, retrata a estação outonal, através da observação de pássaros, e assim como as estações, lembra-nos que a vida é breve e se esvai como o bater de asas de cisnes. Nada é permanente, tudo é transitório, fugaz e belo. Yeats é um exemplo inquestionável de poesia de qualidade. Esse poeta, Irlandês, será sempre atual porque conseguiu construir com zelo e dedicação sua obra.
Os Cisnes Selvagens De Coole Em sua outonal beleza estão as árvores,
Secas as veredas do bosque;
No crepúsculo de Outubro as águas
Refletem um céu tranqüilo;
Nessas transbordantes águas sobre as pedras
Banham-se cinqüenta e nove cisnes.
Dezenove outonos se passaram desde que
Os contei pela primeira vez;
E, enquanto o fazia, vi
Que de repente todos se erguiam
E em largos círculos quebrados revolteavam
As clamorosas asas.
Contemplei esses seres resplandecentes,
E agora há uma ferida no meu coração.
Tudo mudou desde o dia em que ouvindo ao crepúsculo,
Pela primeira vez nesta costa,
A alta música dessas asas sobre a minha cabeça,
Com mais ligeiro passo caminhei.
Infatigáveis, amante com amante,
Movem-se nas frias
E fraternas correntes ou elevam-se nos ares;
Os seus corações não envelheceram;
Paixão ou conquista solicitam ainda
Seu incerto viajar.
Mas vagueiam agora pelas quietas águas,
Misteriosos, belos;
Entre que juncos edificarão sua morada,
Junto a que lago, junto a que charco,
Deliciarão o olhar do homem quando um dia eu despertar
E descobrir que voando se foram?
A compreensão de um poema poderia não causar nenhum sentimento em seu leitor, em um primeiro estágio, muitas vezes, causa até estranhamento ou até mesmo apatia. Porém, a poesia, não é um distanciamento sempre. Daí o talento do poeta que transforma o subjetivo em um mundo próximo de seu observador e também sua dura complexidade – fazer com que uma pessoa participe do processo final que é o supra-sumo de uma criação textual. O maior valor está na interpretação, influenciada pelo mundo e sensibilidade na qual vive, de quem se predispõe a mergulhar no mundo da poesia, com certeza, acabará possuindo uma nova interpretação da realidade de sua existência, agora, mais motivadora e sublime.
Os descaminhos da poesia à margem dos conflitos estéticos e políticos e a eternidade fragmentada do poetaHá um estigma, e às vezes, falsas afirmações sobre a vida dos poetas. Ser poeta maldito, durante muito tempo, foi um estilo. Este pensamento, influenciado pela postura anti-social, em uma determinada época, por vários vates, ajudou para se construir uma imagem negativa do poeta, fazendo com que muitas pessoas possuíssem o pensamento equivocado sobre a vida cotidiana do poeta, onde, o mesmo, está fadado ao caos, à bebedeira, ao fracasso. Até hoje muitos poetas seguem esta linha ultrapassada e tropeçam em suas próprias pernas. O poeta é um ser comum, sem nenhuma diferença das pessoas que não têm este dom de escrever. Porém, modismos vêm e se vão, ainda bem.
Um exemplo, importante, é o da estética Poundiana. Ezra Pound criou uma regra estética sobre como se deveriam classificar determinados grupos de poetas. Outro grande equívoco. Não se pode achar que um determinado grupo de poetas é melhor do que um outro devido à economia dos meios ao escrever. Só para citar um ponto deste pensamento poundiano. Vamos perder tempo com a busca de novos conceitos e aprimorar os já existentes e não nos prendermos a um determinismo impressionista, de alguém que, apesar de ter escrito uma obra valiosa, encontrou sua própria cauda e engoliu-se, se perdendo no labirinto da forma e o conteúdo. Caso semelhante aconteceu com os neoconcretistas, mas isso já é um outro assunto, que em uma oportunidade futura, dissertaremos.
Outro ponto são os poetas que não se dão conta de seu tempo e continuam a produzir uma obra anacrônica, deslocada de seu momento histórico (citamos como exemplo: os trovadoristas, sonetistas, simbolistas, parnasianos, românticos, cordelistas, dentre outros estilos), estes, estão na contramão da verdadeira poesia e se espalham como formigas no açucareiro, produzem panfletárias poesias desgastadas e sem o estralo da criação poética de qualidade, algo parecido com Há fogo no jogo, livro de poesia, da professora Sônia Almeida, onde a construção dos poemas é alicerçada nas brasinhas modernistas, sem o fôlego que deseja a poeta, o que empobrece bastante este livro, ficando seu conteúdo na penumbra da literatura atual.
Os bons poetas, se é que ainda existem, estão compromissados com a realidade de seu tempo, são observadores minuciosos, inquietudes brotam a quase todo instante de seus neurônios. Não são preguiçosos, não são donos de Academias de Letras, não fazem acrósticos para mulher ou marido, nem lançam livros sobre o rio mais importante de sua cidade natal. Os verdadeiros poetas são pessoas simples que acordam cedo, trabalham, constroem família, estudam. Não são os que acreditam na derrota, no pessimismo. O sol brilha para todos e a noite da existência não é privilégio de meia-dúzia de poetas. O existencialismo é uma condição e não a razão de escrever livros de poesia, e o pior, acumularem madrugadas nos bares da vida para mostrarem aos outros que estão possuindo a postura do poeta verdadeiro. Bobagem, pura insanidade, não há boa literatura sem compromisso pessoal. Devemos comemorar as conquistas do poeta, sempre, pois diferentemente de sua obra, sua eternidade é fragmentada.
Por último, um mal que ataca todas as áreas artísticas, a fomentação cultural pelas esferas do poder público e iniciativa privada, através de leis de incentivos. Sabemos que o Governo Lula, com seu Ministro-Cantor, resolveu fragmentar bastante os recursos a vários grupos, quase sempre, oriundos da cultura popular, desabastecendo a cultura dita erudita, incluindo neste segmento, a Literatura.
Postura vergonhosa que também foi seguida pelas Secretarias de Culturas locais, descompromissadas ao extremo com os artistas do teatro, dança, artes plásticas, poetas e escritores em geral. O único projeto que viabiliza fundos para a Literatura é o Concurso promovido anualmente pela Fundação de Cultura do Município – FUNC, mas muito pouco para uma cidade que transpira poesia e literatura, mas de maneira nenhuma achamos que tal iniciativa não seja importante, a questão é a ociosidade de projetos ao longo do ano.
O Estado, este ainda é pior, iniciativas, no campo literário, não existem. O governo de oito anos, de Rosena Sarney e de seu famigerado Secretário de Cultura, Bulcão (só de lembrar esta dupla eu tenho arrepios e fico indignado), contribuiu para a quase extinção dos planos de produção literários. A postura, atual, da Secretaria de Cultura, é deprimente. O secretário é até bem intencionado, mas não tem experiência no que sai de linha de foco – que é a música. Ficamos esperançosos, que o novos governos Estadual e Federal possam investir mais recursos na cultura e continuem a apoiar, sem sombras de dúvidas, a cultura popular, mas que seja mais digna e justa com a Literatura. Todavia, o poeta, está acima de qualquer postura indecente que possa existir por parte dos fomentadores da cultura.
Viva a poesia! Viva o Dia do Poeta! Que os ventos de outubro, da nascedora primavera, possam trazer mais e mais poesia aos lares mais distantes e que possam colaborarem para a germinação de uma nova e sadia consciência nas mentes das pessoas. Poesia que é uma das melhores satisfações que existe em nossa existência, tão desprovida de momentos sublimes.
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