Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem” (Mário Quintana, 1906/1994)
Ruim quando o progresso é sonâmbulo e sinônimo de retrocesso. Quando acordamos, descobrimos que a roda da fortuna girou às avessas ou, muito pior, virou balança da justiça de uma deusa cega.
Marchall McLuhan há cerca de 30 anos já afirmava, Os Globos nos põem de cabeça tonta. Quando pensamos estar em determinado lugar, já trocaram as fronteiras.

Sim, houve um tempo em que o Maranhão era a terra de Gonçalves Dias; a Bahia, de Castro Alves; o Ceará, de José de Alencar; Alagoas, de Graciliano Ramos; Pernambuco, de Tobias Barreto; a Paraíba, de Augusto dos Anjos. Era uma época em que se lia alguma coisa. Hoje, embora se engendre uma grande literatura no Nordeste, ela acaba tombada como patrimônio da área geográfica onde é distribuída, o eixo Rio/São Paulo. Como por um estigma só se notabiliza lá e como se de lá, isto é com o aval e o selo das grandes editoras do Sul do país. Há como que um preconceito sulista de que o Nordeste não funciona ou não existe no próprio Nordeste e a grande arte que pode produzir e que cria só faz sentido se receber a rubrica dos centros parasitas. Isto é um retumbante equívoco.
Pergunta-se por nomes como Augusto do Anjos, O.G. Rego de Carvalho, da Costa e Silva, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, João Ubaldo Ribeiro, Raquel de Queirós, João Lisboa, Franklin de Oliveira, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Josué Montello, Jorge Amado, Nunes Pereira, Bandeira Tribuzi, José Chagas. Onde nasceram?
O sulista, o carioca não sabem? Ou dizem, É um equívoco. Como é que pode um escritor destes ter nascido logo para aquelas bandas de bóias-frias, paus-de-araras e paraíbas?
Depois eles nem sabem em que cafundós dos Judas ficam o Maranhão, Paraíba, Alagoas, Bahia, Ceará, Pernambuco, a não ser ou por causa do folclore, do cordel, dos humoristas, dos cardápios e da música, geralmente a de péssima qualidade.
Talvez saibam que Gonçalves Dias é maranhense e até recitem versos da Canção do Exílio.
Na realidade nem sabem que Gonçalves Dias foi antes um grande talento dramático do poema, isto é, um grande poeta dramático.

Senhores e senhoras, como diria o Carlos Drummond de Andrade, é preciso redescobrir o Brasil que há além do bumba-meu-boi, do reggae e do forró, do Carnaval e do São João, para sairmos do jargão tipo, O nordeste faz a piada e o sul aplaude, ri e dá gargalhadas e puns.
A certa altura do papo alguém diz, Esse moço é dos bons. E, sem perguntarem onde nasceu, logo é batizado paulista, carioca. Só não Nordestino. E quem não se negará depois que o galo cantar três vezes? Não conheço essa terra. Nordestino é pião, mão-de-obra pra construir cidade grande, tijolo contra tijolo tipo Paulicéia Desvairada ou para ser ascensorista ou guarda-noturno.
Quem construiu São Paulo, Brasília? Os brasileiros respondem em coro: os eternos joões-de barro, os paus-de-arara, os paraíbas e os bóias-frias.
E entre esses eternos Joões-de-Barro não existem também poetadores?
Quem escreveu Poema Sujo? Silêncio. E Morte e Vida Severina? Ah, este aqui está na cara que foi algum cantador de viola, mas um tanto pernóstico. Ou então ninguém responde. Ou se responde acrescenta que é carioca da gema.
Quem escreveu Moronguetá Um Decameron Indígena, Brasil e Oceania? Silêncio. Quem escreveu Pão Maligno com Miolo de Rosas? Onde nasceu Luís Gonzaga ou João do Vale?
Há tanta gente no Brasil que é preciso desbatizar, considerando não as certidões cartoriais, senão aquelas geradas pelo próprio inconsciente coletivo, que adultera ao bel prazer dos interesses da mídia os locais de água benta.
Entrou para a Academia Brasileira de Letras? É carioca ou paulista ou então mineiro.
Publicou uma obra-prima romanesca? Tem de ser dos Sertões das Gerais.
E onde fica esse cartório dos célebres? Cadê a Carta de Partilha dos notáveis?
Deveria haver um livro dos nobiliários e das linhagens para os escritores?
Esse mapa de nascimento que espicha para lá e para cá a geografia do Brasil, fazendo o tapete fugir dos pés, conforme as conveniências, é caso de ridicularia. Não vão dizer agora que Manuel Bandeira é carioca ou que Catulo é cearense.

Até hoje se discute os nascimentos de Camões, Cervantes e Gil Vicente no panorama internacional, só porque são geniais. Que mapa nos delimita o corpo atarracado, ombros largos, cabeça grande e achatada? Não é no Nordeste que se cruzam mais baixo os Trópicos de Câncer e Capricórnio e o sol se torna tão inclemente que faz ferverem as cabeças que criam essa loucura que se chama poesia?
Pois, siô moço, o Nordeste existe, só que os sulistas pensam que é no Sul, só que no Sul o nordestino pra começar é paraíba. Não paraíba da Paraíba, mas Paraíba porque retirante desnordestinado, bóia-fria, pau-de-arara, operário em construção.
Onde nasceram João Cabral, Nauro Machado, José Chagas, Ferreira Gullar, Augusto dos Anjos, Sousândrade? Os próprios nordestinos ignoram. Para eles esses nomes soam como coisa do outro planeta. Já ouviram falar, mas não acreditam que existam. E quando lêem os poemas desses moços, pior ainda, pensam tratar-se de uma piada sobre poesia ocidental. No geral, é concebível um desafio, uma embolada, um improviso, por serem elementos do cordel. Porque essa poesia em linguagem de cultura só chega às Academias, Universidades e leitores privilegiados.
Valha-nos, Deus, a poesia brasileira está em crise como na época bíblica das Sete Pragas do Egito estavam os meios de sobrevivência? Faltam papel, tinta ou leitura?
E Augusto dos Anjos nem seu sousa. Dizem, Foi um louco da Ponte Buarque de Macedo que morreu tuberculoso com insônia de morcego.
Conversa vai, conversa vem e acaba-se por concordar com Carlos Drummond de Andrade que é preciso redescobrir o Brasil, que ainda há um Brasil que anda de jegue, trem, pau-de-arara e um outro que anda de metrô, boeing e conhece internet e e-mail.
Pelo muito que se sabe o Nordeste é terra de lampiões, cangaceiros, coronéis, caciques de oligarquias políticas, de reinos de nepotismos, resquícios do Império, turismo e folclore.
Para existir Nordeste de verdade é preciso pioneiros, desbravadores, moços de muito tutano pra desencavar os tesouros que jazem ocultos nas páginas.
Onde fica o Seridó? Onde fica o Caicó? O Piancó? O Mossoró? O Peritoró? E o Campo de Perizes?
Há muitas ilhas no meio desse Nordeste que não são só de elites culturais, mas milhares de quilômetros de analfabetismo e fome.
Pelo que se sabe até hoje só se chegou até a José de Alencar, Castro Alves, Gonçalves Dias, na maioria das escolas públicas. E olhem lá!
Mas nesse interregno houve muito amor e mitologia, cancões de fogo, malazartes, macunaímas, curupiras, pavões misteriosos, pais-do-mato, sacis-pererês, mulas-sem-cabeça, mangudas e um folclore tão rico que é maior que o Nordeste. Houve Cego Aderaldo, Zé Limeira e Patativa do Assaré.
E pelo meio do caminho, nessas estradas sem fim, de poeiralhal, seca e miséria dos desnordestinados, passa um e diz, Olha lá aquele sujeito, cabeça chata, mulato, atarracado como nós, mas com um detalhe,é estiloso.
- É, as mãos não estão calejadas, exclamaram outros, - usa terno e gravata e escreve bonito que só.
Mas esse é uma exceção. Não pode ser nordestino, não. Deve de ser de Sum Paulo.
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