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Edição 107

Os Cus de Judas

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Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
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Um livro sobre a dolorosa aprendizagem da agonia

Logo depois de voltar da guerra em Angola, António Lobo Antunes escreveu Os cus de Judas sobre suas experiências naquele país. O romance se tornou um enorme sucesso, vindo a ser o primeiro grande livro sobre o conflito e a independência angolanos e uma referência histórica obrigatória. Numa narrativa não-linear e fragmentada, Lobo Antunes revela as inquietações existenciais de um ser humano, na indelével experiência de uma guerra, que se misturam às memórias de infância e juventude na Lisboa salazarista.

O autor utiliza-se, na maior parte do romance, do fluxo da consciência e da associação de idéias, para construir a história e o perfil de seu narrador-protagonista, um personagem que, a partir de uma dolorosa aprendizagem da agonia, vê sua vida e seus valores estilhaçados pela melancolia. O que lhe resta são fragmentos de memória — a criança que visitava com os pais o jardim zoológico aos domingos, o jovem que assiste impassível a seu futuro sendo traçado pela autoridade inquestionável de uma família salazarista, o adulto apático e frustrado diante da violência que lhe retira as rédeas e o sentido da vida.

O leitor fica frente a frente com decadência, putrefacção, pestilência e morte. Adicionando canalhice, violência e insensatez. Para o jornalista português Nuno Barbosa, Lobo Antunes, dando plena expressão a uma escrita impiedosa e grosseira consegue uma harmonia preciosa entre a violência do narrado e a rudez dos termos utilizados — as suas palavras ganham, portanto, uma credibilidade muito maior, criando, assim, um elo profundo com a realidade. O livro, que recebeu o prêmio Franco-Português conferido pela Embaixada da França em Lisboa, está na 21.ª edição em Portugal e já foi vendido para mais de 10 países como Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Suécia.

Médico psiquiatra, nascido em Lisboa em 1942, António Lobo Antunes foi convocado pelo Exército português para servir na guerra em Angola. Considerado por vários críticos em todo o mundo como o mais importante romancista português depois de Eça de Queirós, por várias vezes foi sugerido para o Nobel de Literatura. É autor de 15 romances entre os quais se destacam Memória de elefante, seu primeiro livro de 1979; A morte de Carlos Gardel (romance, 1994); Manual dos inquisidores (romance, 1996); Conhecimento do inferno (romance, 1980); A Explicação dos pássaros (romance, 1981); Auto dos danados (romance, 1985); Tratado das paixões da alma (romance, 1990); A ordem natural das coisas (romance, 1992); Não entres tão depressa nessa noite escura (poema, 2000) e Exortação aos crocodilos (romance, 1999), que lhe rendeu o Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1999. A Editora Objetiva adquiriu os direitos de publicação no Brasil de toda a obra de Lobo Antunes. Dentre os títulos, está previsto também o lançamento do inédito: Boas tardes às coisas aqui em baixo.

Saga lusitana - Seis anos após o término da guerra colonial é que foi lançado Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes, que conta a trajetória de um soldado português que servira o exército colonial em Angola e, a partir desse contacto com a situação na África, vê sua vida, seus valores sendo destruídos. Segundo o autor, em entrevista publicada em Lisboa em abril de 1994, o livro é parte de uma trilogia que inclui Memória de Elefante (anterior) e Conhecimento do Inferno (posterior). O retrato da guerra colonial é a marca dessa etapa ou ciclo de sua vida, como ele mesmo afirma. O texto de Antunes não se enquadra no gênero de narrativa de viagem tal como é concebido pela literatura moderna, entretanto, é possível a leitura de um discurso de viagem apanhado de viés, ou seja; a desconstrução ou a ante-viagem (se é que se pode utilizar esses termos), visto sob a óptica de uma simbologia atual.

Discutir o tema da viagem como resgate de uma experiência humana dolorosa, num cenário em que os atores não dialogam amigavelmente, não desejam trocas de experiências culturais e, se sobreviverem, trarão no corpo as marcas de uma guerra fratricida, é o cerne dessa comunicação. Os oceanos Índico e Atlântico, palco da aventura marítima lusitana, caminhos líquidos por onde a língua portuguesa navegou, aportando em outras terras, conforme palavras de Carmen Lucia Tindó Ribeiro, remetem a Camões, observando que a viagem como aventura em busca do desconhecido era algo assustador, porém, desejável para aqueles intrépidos destemidos navegantes. O poeta maior da Nação lusitana exaltava no Canto Primeiro de sua obra prima:

I
As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram
II
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando
Cantando espalharei por toda parte
Se a tanto me ajudar o engenho e arte


Os feitos grandiosos, de que fala o poeta, dos heróis navegantes portugueses, que realmente fundaram novo reino na África, ao apagar das luzes do século XX, adquiriu outros sabores e outros contornos. A par da história recente dos países africanos colonizados por Portugal e, ao contrário da viagem desejável, surge em Os cus de Judas a viagem indesejada, de uma personagem que absolutamente odeia a colônia (Angola) e, os colonizadores que ‘inventaram a guerra’, nos territórios ultramarinos. A personagem não nomeada de Antunes é incitada por membros de sua família, tradicional portuguesa, a acreditar que o exército fabrica homens de verdade. As maiores virtudes tais como; valentia, honestidade, caráter entre outras, são atributos da farda, não do homem.

Numa crescente angústia o soldado mobilizado para combater em terras de além-mar, vai sendo conduzido, como um boi para o abatedor. Imagens do navio se afastando do cais, a incerteza da volta, o choro, as lágrimas, talvez a última visão da cidade vão sendo retratadas. Porém, nem todos os que eram mobilizados deixavam-se levar nessa viagem quase suicida. Registros militares davam conta de um sem-número de faltosos por ocasião da chamada para o engajamento final.

O procedimento é assim descrito pelo jornal Diário de Notícias. “Nos primeiros tempos, o capelão rezava uma missa campal, que depois caiu em desuso; o comandante da unidade mobilizadora, um coronel, proferia umas palavras alusivas à missão e entregava o guião ao comandante do batalhão mobilizado, um tenente-coronel, ou então da companhia, um capitão; (...) era concedida a licença de dez dias antes de embarque e pagas as ajudas de custo. Neste momento, o militar era um mobilizado, ia à sua casa, despedia-se da família, fazia umas asneiras por conta, arranjava umas correspondentes para lhe escreverem, ou umas madrinhas de guerra e voltava à unidade mobilizadora para daí iniciar verdadeiramente a viagem. Neste regresso faltavam uns quantos camaradas, que tinham decidido dar o salto para o estrangeiro ou baixado ao hospital com uma doença mesmo a calhar, mas os que restavam formavam de novo na parada do quartel...”

Para aqueles que iam sendo embarcados a viagem não é de busca, nem de aventura, tampouco trata da questão de conhecimento ou de experiências novas que se buscam por iniciativas próprias. São seres humanos que não entendem por devem ir matar outros de sua espécie em prol de um poder político que não lhes dizia respeito nem sequer o exerciam. O mar - estrada líquida pela qual Portugal alcançou a notoriedade em função da rota de suas caravelas - é, neste caso, símbolo de agruras para a soldadesca em cujo destino preferem não pensar. Os pioneiros navegantes contemplaram suas águas salgadas com outros olhos, com espanto e admiração. Estes, que vão rumo aos Cus de Judas, quase não o reparam e, se o fazem, o maldizem.

“A dolorosa aprendizagem da agonia” - assim classifica Lobo Antunes a guerra de Angola, fração da guerra colonial portuguesa; assim se resume o processo a que é submetido o leitor na descoberta daquele que é o segundo livro do autor. Encontra-se nele um testemunho. Ao se evoluir gradualmente na sua leitura vai-se desmontando a guerra do ultramar, sendo guiados através dos 27 meses que o narrador se encontrou ao serviço da pátria portuguesa.

Partindo do relato do narrador, das experiências a que foi sujeito e da forma como as interpreta e com elas lida, traça-se um percurso que desemboca inevitavelmente na admissão do “gigantesco, inacreditável absurdo da guerra”. Delineia-se um retrato demasiado bruto e verdadeiro para se poder falar de uma caricatura. A seriedade e crueldade da narrativa fazem surgir o livro mais como que uma denúncia. Ou antes: é deste modo apresentada uma visão da realidade, uma posição sobre os fatos, uma voz silenciada que entra em erupção e vem contar a sua versão.

É, afinal, este o propósito deste livro: fazer atentar na marca, na marca indelével com que a guerra manchou e assombrou alguém, e alguém em quem tantos se podem rever; lembrar sempre, para não repetir, a canalhice do português, como (de novo) “O branco veio com um chicote e bateu no soba e no povo”. (comentário a cargo de Nuno Barbosa). Curiosamente Memória de Elefante é que era o título do livro Os Cus de Judas. Os Cus de Judas foram arranjados depois, na altura da obra sair. A expressão quer dizer “traidores”, para negros.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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