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Edição 107

Editorial

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Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
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Nesta edição, na página 4, Vicente Júnior faz uma análise do filme Herói, uma obra cinematográfica que visa resgatar a imagem e a identidade do povo angolano, recém-emancipado das agruras da guerra pela independência nacional daquele povo que, após duas décadas de liberdade do colonialismo, ainda sofre a ressaca decorrente dos massacres físicos e morais.

Manuel dos Santos Neto, na página 2, abre perspectivas para que se possa falar da importância de um dos maiores escritores de Língua Portuguesa do século XX, António Lobo Antunes, quando analisa um dos romances mais polêmicos desse gênio da literatura portuguesa, Os Cus do Judas.

Desde o sucesso de Memórias de Elefante, obra de 1979, António Lobo Antunes chama a atenção da crítica nacional e internacional. Mas o reconhecimento definitivo veio com o poema-romance Não Entre Tão Depressa Nessa Noite Escura, obra de 2000.

Dividida em 35 capítulos e sete seqüências, que se ordenam segundo os dias da criação do mundo, o título do livro arremete a um poema de Dylan Thomas.

Estilo radical, o texto está escrito em diversas vozes, com interpolações de fragmentos de diálogos que afloram e se diluem, como pano de fundo de um caleidoscópio de flashbacks. Antunes procura recuperar as coisas absurdas que transitam pelo fluxo da memória e lá se fixam. Daí para frente ele leva às máximas conseqüências a confusa percepção dos tempos mentais, fundindo presente e passado.

António Lobo Antunes plasma um texto ziguezagueante e enviesado, costurado sempre pelo avesso do academicismo coerente, escrevendo direito por linhas tortas.

Em sua obra-prima Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo seu estilo oscila entre a escrita do Finnegan’s Wake, de James Joyce, em termos de desconstrução radical do discurso narrativo, cujas bases são revoluteios frásicos de fins imprevisíveis, a que se mescla a identidade com o longo poema Omeros, de Derek Walcott, em termos de liberdade radical de construção ou desconstrução do poema.

Com o poeta Ferreira Gullar tem em comum o trabalhar a partir dos destroços da linguagem, na representação de um mundo caótico, inverossímil e absurdo. Tome-se como exemplos o Poema Sujo e Crime na Flora.

António Lobo Antunes não conta a história da libertação nacional de Angola no texto pelo texto, pois, para ele o concreto, o linear, o cronológico e o horizontal são elementos secundários. Ele conta, sim, essa história com os destroços da memória das memórias dos fragmentos da guerra a que assistiu, o que está bem perceptível nos cortes, mutilações, amputações que da vida ele passou aos textos.

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não é uma história sobre fatos, senão sobre pessoas, sentimentos, angústias, paixão, amor, vida e morte, em que o escatológico e o grotesco passam a ser elementos essenciais do dia-a-dia. Assim, a crueldade, a barbárie, as atrocidades, a promiscuidade, a fome e a miséria são analisados como acontecimentos comuns, vulgares e banais. Sim, António Lobo Antunes nos fala de um cotidiano em que a morte é banalizada e o texto só poderá representar com autenticidade essa vida, se for fragmentário, cortado, amputado, mutilado, pois essa é a única linguagem possível e permitida durante os massacres genocidas.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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