Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Não tendo nada em comum
cada um é um
zero à esquerda
e Eros não os visita
Dos dois de um a um
nenhum habita
senão sua perda do que herda
de enterros e de erros
Sendo só dois como sói
aos desiguais, dormem de borco
e fungam como um porco e outro porco,
são uma pedra e outra pedra
são uma perda e outra perda
quando juntos estão
os seres ocos
sobre os juncos
e ambos invocam o nome de Deus
quando confabulam com o Cão
Neles a soma dá menos, nunca mais
e como besouros e pontaletes à noite
algo lhes rói os estais.
e sói-te
ouvi-los
conjurando
Satanás
E como se não fora pouco
pouco falam da fala ou de falo
e se apoucam com pouco
ou nada que cada um é um calo
inflamado ao contato do outro corpo
como se de rinoceronte ou cavalo
que a predisposição à pugna
até contra os ventre-silos
acirram
na madremadrugada dos grilos.
Muito comum é o gelo
que um imprime ao outro
em termos de cama
sem perspectiva de elo
do sexo
sempre ambos estão em estado de coma
Não há nexo
pois um é côncavo e o outro convexo
e indiferentes nenhum o outro ama
Dentro: secos quais camelos
por fora após o deserto
e quando pertos há um único aperto:
entre eles não há acerto
Jaz apagada noite e dia a chama
do amor que, se algum acendeu na epidemia da insônia,
nada há nisso do Kama
Sutra, antes de Prometeu.
Algum dos dois com sua outra metade sonhou
São um réu e outro réu
um carrasco e outro carrasco
No universo parco da peçonha
a pena de morte os açula
do inferno sem perspectiva de céu,
jazem jungidos as cabeças duras como mulas
e o melhor sentimento que alimentam
no jugo é o asco
Algo neles inocula bilioso veneno
Aprenderam os pés trocar em cascos
Não sentem prazer nem gula
e vomitam enquanto um copula e outro copula
no leito como se sobre o feno
(p. 20-22)
Non Serviamdentro do meu coração mora um menino
e dentro do menino mora um anjo
e dentro do anjo mora outro menino
e dentro do menino mora um homem
e dentro desse homem mora outro homem
e dentro desse homem outro demônio
e dentro do demônio um outro homem
e dentro do outro homem outro anjo
e dentro do outro anjo outro menino
que em si sendo menino só é anjo
que mora dentro e dentre o dentro fundo
onde mora o menino desse homem
que mora dentro do homem que é menino
e vive cada vez mais vivo e mais profundo no demônio
que mata o anjo e o menino desse homem
e por mais que geometricamente some
não sei quando o menino ou quando o homem
o anjo ou o demônio que carrego
assinam ou assassinam este meu nome ou sobrenome
ou onde morre o menino e nasce o homem
onde o homem se perde no demônio
em que menos menino e menos homem
e mais anjo e demônio rebelados
escorrego em funil e em fogo e em fúria
como de um sonho mau de deus alado
e desço
ao último degrau em que Dante
reconstituiu o inferno
(p. 106)
O TorcedorDesde há trinta anos
marcas o teu gol
não pelo teu pé
Já passou Germano,
Gerson já passou
Já passou Zagalo,
Zózimo já passou
Foste Rivelino,
Mazola, Pepe, Índio
Belini passou
Passaram Garrincha
e Ademir da Guia
Já passou Pelé
todos eles e tantos
marcaram o seu gol
no Brasil e alhures
Quando? (tens quarenta anos)
marcarás um tento
com teu próprio pé?
Estás pobre e reles
nessa dentadura
postiça e a vida
toda e a alma em calos
de pós jogo e em casa:
a mesa vazia
o bolso vazio
o amor vazio
malamado e só
Com os diabos, Zequinha!
quando? em que partida
tua vestirás a camisa
de teu próprio jogo
a não viver de brisa?
sempre na galera
desfiaste tardes
tardes e mais tardes
que vão dar nas nuvens
dos cabelos brancos
que vão dar em aclives
das rugas do rosto
Esbanjaste tempo,
amor e dinheiro
Onde estão os atletas
tão familiares
de que discorrias
domingos inteiros
em manhãs de esquinas
e tardes de filas
e noites de farras
como se falasses
de tua própria garra?
de tua própria vida?
sei, essas moletas
já têm trinta anos
começaram na vida
quando tinhas dez
Hoje o pé de Zico,
no Rio; do Sócrates,
em São Paulo; do Cobra,
em São Luís; do teu pai,
em cada bar de esquina
onde ao prego deixas
pendurada e longa
a cota da urina
Esqueceste o emprego
ou melhor: perdeste-o,
a mulher e os filhos
Estás só na vida
pior que o José
do Carlos Drummond
Nem pensas em ir,
chegar ou sair,
se estás livre ou morto
ou emparedado
Perdeste teu jogo
em cada gramado
Morreste, não sabes,
no primeiro aplauso
(p. 140-141)
(Carneiro, Alberico. O Jogo das Serpentes. Rio de Janeiro: Gráfica Olímpia Editora, 1974)- Próximo texto:
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