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Edição 106

O Jogo das Serpentes

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Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
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PREFÁCIO

Por: Nauro Machado

Eis um poeta-faber para quem a poesia é história e texto, compromisso da linguagem com o desenvolvê-Ia sobre a espacialidade onde o verso ocupa os quadrantes da inteligência e da emoção.

Romancista ainda não devidamente situado entre o bons recriadores do nosso tempo provincial, misto de realismo mágico e expressionismo deformante, e cujas incursões pelo ensaio lhe tem valido o servir-se e aprofundar-se em uma bagagem teorética invulgar para o nosso meio, Alberico Carneiro se revela com este O jogo das serpentes um experimentador ágil e altamente intelectualizado, símile e eco das três distinções poundianas no corpus poético. E mais: com o poder metamorfoseador de desdobrar-se, como cobra largando a pele sobre o capinzal em fogo, em revoluteios frásicos a lembrar-nos a narrativa maiakovskiana de A Plenos pulmões.

Ousado na imagética, a que não falta por vezes a aura/auroral homérica de uma visão coincidente com a primeira idade da terra, suas metáforas se ancilam e esculpem sobre a memória do passado e a crítica social do presente.

Construindo solitariamente uma Obra, com a consciência de quem se sabe, apesar de solidário, um apêndice no corpo-poético sobre o qual tantos tentam embalde uma aproximação capaz de torná-Ios possuidores ao menos do em torno, na periferia do núcleo onde arde o sexo verbal da palavra, Alberico Carneiro é das melhores e maiores afirmações da nova poesia maranhense. E também brasileira. Alberico consegue aliar a ousadia vocabular joyceana às incursões por alguns poucos feitas na história sanguínea de um biografismo a dizer que

de Edgar Allan Poe, Villon ou Pope
a morte é antes que o canto é hissope
e salta adiante no seu galope.


Ele assume dessa maneira o papel de vanguardista consciente, na compreensão apreendedora dos processos históricos e lingüísticos que estão em jogo.

Alberico não se inconscientiza ou marginaliza do ato lúcido e lúdico de arremessar os seus dados, tentando neutralizar as forças de um desastre casual. Experimentador sofrido de vivências acumuladas, ele só poderá vertê-las e delas catarticamente se livrar, através do produto ora a nós ofertado neste O Jogo das serpentes.

Com ele não poderá ocorrer, como ao personagem criado pela genial idade cinematográfica de Losey, o tornar-se escravo dependente do seu próprio criado. O poder transferido ao possuído. O amo dominado pelo mordomo.

Ele conduz suas emoções já completamente dono das ferramentas do seu ofício, sabendo que um dia o poeta chegará ao seu Kentucky. Assim, de acre em acre, laborando o poema com a fluidez de um rio que parado viaja em ventos e chuvas/ e que conduzindo o seu curso de gaivotas e pardais/ de mão em mão chegam por ele à América Latina!, trazendo consigo as figuras históricas e atemporais de Homero Marx Li-Tai-Po Joyce Maiakóvski, desembarca por fim Alberico, com eles e nós, neste O Jogo das serpentes.

Serpentes que não precisam, para serem eco e voz de outras e maiores esperanças e verdades, de nenhuma anuência das Presidências das Repúblicas, pois o poeta, se autêntico, funda o seu império e, expulso da república, ainda que essa não tenha sequer um palmo engrandecedor da pólis socrateana, constrói verdadeiramente o mapa-mundi sonhado sem fronteiras e/ou classes.

Alberico Carneiro ferra o seu cavalo verbal no ato mesmo de saltar sobre o despenhadeiro do abismo.
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
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