Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Aos 27 anos de idade, Alberico Carneiro lança seu segundo livro, O Andrógino, (Gráfica Olímpia Editora Ltda, Rio de Janeiro, Bonsucesso, Rua da Regeneração, 475, setembro, 1975). O livro traz nas orelhas um texto do escritor, poeta Raimundo Nonato Fontenele:
“Sofrido, dolorosamente pungente, trágico, dilacerado e enlouquecido pelo álcool, o personagem Euclides ganha, em certos momentos, dimensões de um sábio, quando, na realidade, não passa de um homem torturado e mutilado pelo que chamou de sociedade e de sistema. É um homem só, agredido, apedrejado, todavia não é um homem vencido.
Ao contrário do que possam pensar os mais ingênuos, que ao lerem o livro possam tirar conclusões errôneas, falsos juízos, principalmente aos nossos intelectuais, figuras humanas excelentes, gozadores eméritos, avisamos: não é um tratado moralista. É a revolução maior e que está acontecendo, no Maranhão, trazendo mudanças e inconformismos diante de certos valores e atitudes pré-estabelecidas.
Sempre achei que em São Luís (onde os poetas são plantas abundantes e ambulantes, onde em cada canto e esquina há um poeta parado, pensativo e bêbado), faltava um prosador atual, falando uma linguagem nova ou trazendo um novo conteúdo (refiro-me ao Maranhão). Há grandes exceções: José Chagas, Ubiratan Teixeira, Erasmo Dias são prosadores do presente e do futuro.
Apenas incorpora-se à vida literária maranhense um talento novo, cujo livro de estréia, O Diário de um Alcoólatra, é realmente revelador, brutal e surpreendente, como a própria vida do artista nesta cidade de São Luís, mãe e madrasta, odiada e amada tanto.
Que São Luís receba o jovem escritor Alberico Carneiro, como sempre recebeu seus artistas, de braços abertos e muda; maravilhada e descrente, orgulhosa de haver fecundado em seu ventre um embrião, hoje Euclides (personagem central do livro), falando de si e do mundo desta maneira: “escute: há milhares de mulheres, de seres que sentem assim, até os animais. Porém não dão um passo um na direção do outro para encontrarem-se, entrelaçar as mãos e lutar. Transformam-se em ilhas isoladas, sem comunicação com o continente, só porque um dia descobriram que há muito isolamento no mundo.”
Trechos do romance
O Andrógino:
"Me alimento da felicidade alheia (p.66)
Não quero ser nenhum sacerdote, pastor ou psicólogo.
Alguns falam mais do que vivem (p.82)
A vida me parece tão breve. Não gosto de dormir demais (p.83)
Cada dia é um milagre, uma reformulação do propósito de viver (p.89)
A barra da manhã é como um tônico, um elixir da longa vida. Dá a nós um estímulo de continuidade, de que não paramos, de que o dia de ontem não morreu, o de hoje é apenas a continuação dele. Depois de vê-la, a gente pode dormir tranqüilo como os inocentes (p.83)
A barra é como uma libertação, um corte do cordão umbilical. Uma ressurreição. Cada manhã que a vejo ressuscito de novo (p.89)"
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