Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Por: J. M. Cunha Santos

Espanta-me, deveras, a coerência ideológica, ficcional e quase beligerante, do poema Belos & Mortais, incluso na página 68 do livro Meus Quase Sessenta Ontens, última produção do professor Alberico Carneiro, através do qual homenageia em si mesmo o impulso sexagenário de quem, sem tergiversar, sem opor nenhuma dúvida, dedicou-se à literatura com a mesma ganância com que os faraós se dedicaram ao post mortem e os heróis dessa humanidade se dedicaram ao genocídio.
E não falo. Desafio qualquer um a mostrar-me escrito nos últimos tempos que traga em si, de per si, este sabor escandaloso de epopéia humana. Não falo. Leio com vocês o intróito abusado, superior, que coloca carne e alma humanos dentro de um cataclisma, um furacão musicado, uma imponência tão poderosa diante do dia a dia que desafia a lógica do estar aqui, cavaleiro improvisado de um planeta azul:
Belos & MortaisSe eu pudesse viver
Ainda uma vez minha vida
nesta manhã
o que eu faria?
Falaria desse mito
da tristeza na alegria
dessa morte a cada dia
vertigem a cada momento
desse orgasmo que não esfria
nas escadarias do tempo
desse cheiro de outro dia
no caldo de meu alimento
dessa presença tardia
da vida vivendo dentro
desse fogo que extasia
mas queima até o pensamento
da saudade desse vinho
que se chama esquecimento
desse lótus que alivia
mas corrói como veneno
desse cansaço da vida
pelos olhos escorrendo
desse gosto de alquimia
que distrai o sofrimento
das marcas de sangue na pia
impressões digitais do poente
nas manhãs de cada dia
queimando como pimenta
desse espelho que denuncia
a cumplicidade do lenço
e da saudade nascida
com a insubstituível presença
Todo o poema me parece um gigantesco esforço, provavelmente não alcançado, para registrar o poderia ter vivido, os invisíveis poderia ter sido, ou feito, de quem chega aos sessenta anos (ontens, segundo o poeta) com o inescrupuloso desejo de dizimar tudo o que viu, arrastado, certamente, pelo logro de uma sociedade que se abastece de heróis antônimos:
Transformaria os hospícios
em santuários de risos
elegeria alguns políticos
reis e palhaços de circos
e lhes conferiria títulos
de doutorado em ilícito
Titularia alguns juízes
de pais de todos os crimes
e degolaria os ministros
do reinado de Luís XV
Não são, no entanto, apenas as imagens que ele cria e recria como se dirigisse um trem descarrilado, propositadamente, na direção das infringências românticas, teóricas e metafóricas que já cansam o discurso literário do mundo. Do mundo. Não do submundo.
O professor Alberico também me passa a impressão de ser uma das poucas pessoas com uma cultura literária realmente organizada no Maranhão. Talvez que, por isso, às vezes, seus poemas soam como um primor de arranjos estéticos cuidadosamente trabalhados mas, paradoxalmente, de fastio humano. Fastio corporal e fastio espiritual conforme é possível inferir de dois trechos do poema Os Cônjuges, habitat permanente - e de dor quase evangélica - insculpido no livro O Jogo das Serpentes:
Sendo só dois como sói
aos desiguais dormem de borco
e fungam como um porco e outro porco
são uma pedra e outra pedra
são uma perda e outra perda
quando juntos estão
os seres ocos
sobre os juncos
e ambos invocam o nome de Deus
quando confabulam com o Cão
............
Algo neles inocula bilioso veneno
Aprenderam os pés trocarem em cascos
Não sentem prazer nem gula
e vomitam enquanto um copula e outro copula
no leito como se sobre o feno
Decerto que expressões como estas devem ter levado Raul Pompéia, aos 19 anos, ante o inevitável da morte do tribuno e poeta negro Luís Gama, a proferir: é preciso que mesmo nos momentos épicos, apareça uma ponta da miséria humana.
“Alberico Carneiro é das melhores e maiores afirmações da nova poesia maranhense. E também brasileira. Alberico consegue aliar a ousadia vocabular joyceana às incursões por alguns poucos feitas na história sanguínea do biografismo”, dizia, no prefácio de O Jogo das Serpentes, o poeta Nauro Machado. Não o contesto. Avalizo, se me permite minha linhagem poética um tanto quanto nebulosa.
Se quer a insânia burlesca dos que não conseguem definir a sobrevivência diante da transcendentalidade poética do mundo, resistir à força das metáforas, talvez que estes versos lhes bastem:
a morte chega e diz: stop
e o canto avança no seu galope.
(O Canto – Jogo das Serpentes, p.211)
Certo. A poesia transcende às feridas, transcende à morte e, se assim o quisermos, cicatriza.
Existem críticos quase que umbilicalmente ligados às obras de determinados autores. Por mim, às vezes acho que a poesia não tem autor nenhum. É apenas um achado tedioso, copydescado, estudado, pesquisado por algum escolhido dos deuses. E vou de novo em busca da dessemelhança de Alberico Carneiro para denunciar essa entrega entre mortos e feridos que constrói a literatura. Em O Buscador do Sol (p.42), o menestrel exaure do universo o que qualquer um poderia ter dito, mas só sua agudez poética pode encontrar:
Milhares de espermas
são genocidados
numa única cópula.
Mas um sobrevive
pra contar a história
desse terremoto
O universo psicossomático ensina que a mente é algo imaterial. Nem sequer é o cérebro. Não pode ser vista, nem tocada, nem pesada. A carga de energia que sobressai da poesia alberiquiana parece confirmar tão terrível afirmação. Os versos acima são antológicos. Nos ensinam que a luta pela vida, o grande terremoto, começa ainda antes de nos tornarmos embrião.
Em outro apóstrofo de O Buscador do Sol (p.43), Alberico insulta a solidão dos cancioneiros ilhados, a sua própria solidão, ante o poder irresistível da parafernália eletrônica que nos rodeia, das doenças irreversíveis, das soluções paliativas que encontramos para tudo. E nisso ele se aproxima melodramática e minuciosamente da insistência estética de Carlos Drummond de Andrade:
Vais pegar o trem
o avião, o ônibus,
o próximo transatlântico
ou ficar em casa
conferindo telhas
ripas, pulgas, moscas,
cupins e piolhos,
rugas, próteses, plásticas,
garrafas vazias,
verrugas, varizes,
fantasmas e ferrugens,
tichas de cigarros
que foram fumados
farejando fungos,
musgos, limos, lodos,
pregado na cruz
do televisor?
No Memorial de Primeira Cruz, este genial cultor de rimas implícitas que tantas vezes encontro em O Jogo das Serpentes e Meus Sessenta Ontens, retorna ao biografismo de velhos poetas franceses e russos, como é próprio de sua intelectualidade apurada, para poetizar histórias fantásticas de fantásticos personagens de sua terra natal como Poeira, Caboré e Quelemente.
O prosaísmo de muitos poemas construídos, desde Homero, como a Ilíada e a Odisséia, tem em Alberico um vigor extremo, capaz de nos deixar estupefactos. Em Poeira, o Verdadeiro Lord Byron, o professor de literatura catequiza-se num versejar descritivo que em outros tempos, menos velozes, remeteria às lágrimas muitos glutões emocionais.
Poeira, o Verdadeiro
Lord Bayron(Trecho)
Depois de velho, o Poeira
optou por ser coveiro
Cavava covas
para sepulturas
e tomava porres
como uma armadura
contra a morte
Bebia em crânios
sem, lavá-los
Fazia-os de vasos
ao encontrá-los
após o calvário
de cavar sepulturas
Beleza pura!
Fazia o que
Lord Byron,
romântica figura,
o inglês, perfeito
Casanova
jamais fez
O anglicano,
apesar da fama
de bebedor contumaz,
de tomar bebida em crânio
humano
dormia em casa de pijama
e comia lentilha e alface
como verdadeiro fundador
da dinastia da raça vegetariana
O Poeira, ao contrário,
sobre o crânio chorava
e sobre ele derramando as lágrimas
as bebia misturadas com cachaça
ou deitava sobre elas a cachaça
para que também o crânio tomasse
e sob o efeito do líquido sagrado
ressuscitasse
.............
Descubra-se, nesse poeta, a leveza com que sabe lidar com a homofonia de muitas palavras para criar versos que são quase rimas e apoderar-se da velha concepção baudelairiana de fuga e viagem. O que, insuspeitamente, o ajuda a trabalhar metáforas que impõem intrincados jogos de sons e o aproximam da aventura introspectiva de Stefhane Mallarmé em sonetos como Salut e Angoisse, ou, mesmo, da pujança descritiva encontrada em Le Tombeau, de Charles Baudelaire, o que se observa mais claramente em Meus Quase Sessenta Ontens.
Enquanto busca paráfrases que se lhe afundam ainda mais no poço de dor a que parece estar restrito, inclusive a solidão intelectual de quem se sabe sabedor do que outros não entendem, Alberico Carneiro tem a ousadia de impor-se para lá de augustiniano, poeta alimentado, me parece, em tetas de mães sem filhos, porque rebusca e fustiga o imperceptível dos homens com a maestria de quem compõe uma sonata. É o que se percebe nas dez páginas do poema O Corsário, um intrigante investigar-se, querer ver-se, encontrar-se e definir-se:
O Corsário(trecho)
Eu sou o pesadelo
de quantas láureas
e o desespero
de quantas máscaras?
Eu sou o eclipse
de quantas cabeças
e o dies irae
de quantas estrelas?
Eu sou os olhos
de quantos gatos
e o balbucio
de quantos lábios?
Sou o começo e o fim de tudo:
barro e pó:
EU NÃO SOU SÓBiografismo símile ao de Arthur Rimbaud descrevendo a trajetória de uma louca, em Ofhélie, uma criação fantástica do poeta francês, estranhamente precursor de simbolistas, românticos e modernistas, freqüento às vezes na obra de Alberico Carneiro. O crítico e o tradutor, através do Guesa, hoje e do Vagalume, ontem, o romancista, através de O Andrógino e Diário de um Alcoólatra, não escondem, insistentemente, o masoquismo intelectual que é próprio de sua poesia.
“Rimbaud é nossa oportunidade – de todos nós! – de continuarmos jovens, de sermos absolutamente modernos”, exclamava, solícito, Ivo Barroso. Só que em Alberico isto acontece sem que ele sacrifique, nem insulte as combinações cromáticas, sonoras e sentimentais de que se vestiu a poesia em outras épocas. Um exemplo clássico dessa assertiva é um dos poemas do livro O Jogo das Serpentes (p.140-141):
O Torcedor(Trecho)
Desde há trinta anos
marcas o teu gol
não pelo teu pé
Já passou Germano
Gerson já passou
Já passou Zagalo
Zózimo já passou
Foste Rivelino
Mazola, Pepe, Índio
Bellini passou
Já passou Garrincha
e Ademir da Guia
Já passou Pelé
Todos eles e tantos
marcaram o teu gol
no Brasil e alhures
Quando? (tens quarenta anos)
marcarás um tento
com teu próprio pé?
Percebe-se também o arsenal de imagens e ritmos de que se utiliza o poeta nestes versos:
como Daniel Boone de acre em acre
um dia o poeta chegará ao seu Kentucky
Quem quer que tenha penetrado o flagelo poético de Derek Walcot, em Omeros, escrevendo uma epopéia das Antilhas, poesia em capítulos, longos capítulos, não aceitará a redução quase transgênica de toda a poesia a três ou quatro versos, tal como se fora uma mera prorrogação da experimentação lírica e da ciência mental que é própria dos vaticinadores. Em Memorial de Primeira Cruz, Alberico ocupa o lugar dos peixes ou deixa que os peixes ocupem seu lugar, para se tornar o prato favorito das feras (marinhas?) que teimam em comer inteligência. (Arenque, p.185)
Ao fazer uma releitura de Casemiro de Abreu e Mário de Sá Carneiro para sua mãe, Orminda da Silva Carneiro e Castro, em Meus Quase Sessenta Ontens, Alberico constrói uma sinopse lúdica do que lhe foi vida, passado e futuro:
Meus Quase
Sessenta Ontens(Trechos)
........
oh que saudades que tenho
do que em mim foi desprendendo
do que em mim muitos morremos
numa alma, uma centena
.......
oh que saudades que tenho
das coisas que sempre tenho
é que amanhã morreremos
mesmo que dure um milênio
......
Cheguei, não calculo quanto
vivi, não percebi como
perdi, não encontro onde
ganhei, só dezenas de anos
parti, não saí do ontem
morri, não me lembro quando
.......
Ai meus tempos shakespeare
de montechios e capuletos
ó quixotescos delírios
aprisionados em cadernos
O poema Sem Pé Nem Cabeça (p.14) parece surgir do nada como se fora um ataque à necessidade de escrever ou à impossibilidade de não poder se impor outro ofício, o que junta a uma profusão de declarações de amor a uma desconhecida.
Inúteis os deuses
acionam a internet
Por azar o e-mail
não encontrou Deus
.......
Como é mesquinha
a gramática
e sua inutilidade
fantástica
.......
Oh inútil lábia
da Flor do Lácio
mórbida babel
da Sintaxe.
Mal sei se consegui apresentar-lhes a contento este poeta de mil faces. Posso unificá-lo, porém, na frase descabida de Álvares de Azevedo em Lembrança de Morrer: “Foi poeta – sonhou – e amou na vida”. Posso solitarizá-lo nestes pungentes versos de Monólogo da Cigarra (p.60):
Na unidade está o todo
no tijolo o edifício
Para conhecer o lodo
não é preciso suicídio
Posso mais, considerar que Monólogo da Cigarra é uma canção para a morte, contra as dores que se curam com o mesmo vinho, aguardentes, absinto, ópio, haxixe, de que se utilizaram os poetas europeus. Posso dizer que sua poesia é um intrigante romance urbano. Posso dizer que lê-lo agora e relê-lo talvez sirva para salvar a poesia, assassinada pelo edifício, deste país.
- Próximo texto:
- Edição 106 O ANDRÓGINO
- Texto Anterior:
- Edição 106 O POETA QUE VEM DA ILHA DE CARNAUBEIRAS
- Índice da edição - Ano IV