Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Por: Manoel Santos Neto
Especial para o Guesa Errante
Alberico Carneiro chega ao seleto clube dos sexagenários com uma invejável bagagem de trabalho em prol da cultura e da educação maranhense. Este admirável poeta e professor, que nasceu em Primeira Cruz, no dia 15 de maio de 1945, e viveu a infância no Arquipélago de Farol de Sant‘Ana, no litoral oriental do Estado, é hoje, assim do alto de seus 60 anos de vida útil, uma figura representativa para o Maranhão atual. Em seus livros, ele demonstra uma salutar ansiedade – rara entre seus pares maranhenses – de abrir seus versos para os grandes temas do nosso tempo, rompendo com o provincianismo dos poetas que passam a vida cantando a cidadezinha natal.
A obra do professor Alberico Carneiro confirma a tradição da cultura maranhense, verdadeira, habitualmente empanada pela mediocridade. E nega a versalhada sentimentalóide de um sem-número de poetastros laureados – estejam eles em academias ou defendendo causas nobres em mesas de bares. Terrível no que tem de desespero e bela por transformar esse mesmo desespero em germe de esperança, a obra de Alberico nega o deserto da vida literária do Maranhão. Ela é flor furando o asfalto das corriolas de vates que trocam tapinhas nas costas, elogios e favores.
Aquilo que constitui o veio primordial da atuação do professor Alberico Carneiro é a cultura maranhense. Ele está permanentemente ligado aos acontecimentos culturais do Maranhão e de outros Estados do país. E acabou se transformando num grande divulgador das obras dos escritores de que mais gosta: Ferreira Gullar, Nauro Machado, Bandeira Tribuzi, José Chagas, Manoel Caetano Bandeira de Melo, Oswaldino Marques, Raimundo Nonato Fontenele, Luís Augusto Cassas e Viriato Gaspar.

O professor Alberico tem sido sempre, e cada vez mais, um mestre e um aluno, ao mesmo tempo. Ele escreveu seu primeiro livro - O Diário de um Alcoólatra - aos 21 anos de idade, e com ele conquistou o primeiro lugar no Concurso Literário Cidade de São Luís, no ano de 1972. O poeta inspirou-se em homens como Bacituba, Ziguiba e tantos outros personagens da vida real que, trabalhando nas salinas de Primeira Cruz, bebiam muita cachaça, para suportar a dura agrura do recolhimento de sal na beira do mar. Depois de O Diário de um Alcoólatra, livro editado no Rio de Janeiro pela Gráfica Olímpica Editora, o professor Alberico lançou, no ano de 1975, o livro O Andrógino, um polêmico romance que retrata o mundo de personagens homossexuais. Depois disso, escreveu O Reizinho da Graxa”, um conto premiado pela Funabem.
E ao chegar aos 60 anos, busca conhecimentos novos com a humildade e a secura do jovem que passou da fase da coação intelectual – do “estuda ou apanha!” de sua avó, a professora normalista Luci Carneiro – para o período das fascinantes e livres aventuras do espírito no mundo da cultura. Essa curiosidade insaciável e cósmica defendeu-o do perigo de se tornar um especializado. Interessa-se por tudo e vai ao fundo de tudo. A exemplo de Goethe, sente a natureza como sábio e como poeta.
Admirador da obra de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e da poeta portuguesa Florbela Espanca, o professor Alberico apura suas reflexões sobre o mundo da literatura: “Sempre falei nos artigos que escrevo que gênero literário foi posto por água abaixo a partir do romance moderno e da literatura moderna. Porque com a literatura moderna, com escritores como Machado de Assis, no Brasil, e James Joyce, na Irlanda, chegou-se à conclusão de que não existe um gênero definido. Os gêneros se interpenetram. Então estilo é algo, em literatura, independente do que estabelecem os livros didáticos, as universidades e as academias. O estilo é a própria maneira de o escritor perceber o belo. O escritor tem um estilo diferenciado de outro porque ele observa o belo de uma maneira diferente”.
Poesia é emoção e vidaPaciente, polido quase à maneira antiga (jamais diz palavrões, levanta-se sempre na presença de senhoras), controlando com brio sua natural loquacidade, ele conta histórias passadas e futuras com o olhar perdido em algum ponto da rua. O poeta tem problemas com a tristeza ou com a solidão? Tem nada, ele é um apaixonado pela vida e deixa transparecer que isto o faz muito feliz. Aliás, o grande poeta vem se tornando, com o tempo, um artista cada vez mais refinado. “Como escritor, sinto-me numa fase bem amadurecida porque hoje eu tenho uma consciência do que é o fazer literário”.
Para o professor Alberico Carneiro, há muita diferença entre o escritor que cria a obra literária de fato e o escritor que pretende dar aula. “Eu consegui separar: o que eu aprendi no plano da teoria eu procuro não colocar no meu trabalho literário. Acho fundamental para o escritor ter muito cuidado com o que é verdadeiramente o trabalho literário. Escritor é um nome que às vezes as pessoas inadvertidamente confundem. Escritor compreende todo um complexo de quem escreve: é o poeta, o cronista, o romancista, o novelista e o contista”. O professor observa que muita gente confunde poesia com poema, e isso acontece até mesmo nos livros didáticos.
“Poesia, na minha concepção, é uma maneira especial de perceber o belo. Para fazer poesia, não precisa ser professor. O autor precisa ter, acima de tudo, uma sensibilidade aflorada. Poesia está relacionada com alguns elementos como emoção, emotividade, espontaneidade e simplicidade. Portanto, o poema pode ter poesia ou não. Às vezes o sujeito, mesmo inspirado, mas por uma questão de querer demonstrar que tem alto conhecimento da língua portuguesa, de estética e das teorias sobre literatura, termina deixando de lado a inspiração que teve, e estraga a poesia no poema por excesso de técnica e falta de simplicidade”.
Com sua militância na cultura maranhense, o professor Alberico Carneiro ganhou o respeito de todo mundo. Hoje é uma pessoa muito convidada para fóruns de cultura, tanto em eventos institucionais quanto em não institucionais. E é o próprio artista quem faz sua própria retrospectiva: “Para ser sincero, já que é hora de colocar as cartas na mesa, pois quem pode falar melhor de mim mesmo sou eu, eu fui mais boêmio do que escritor, entre os anos 60 e 80. Mais boêmio do que professor. E não me arrependo disso. Muito pelo contrário, foi uma experiência muito maravilhosa para mim, até enquanto durou lá pelos idos anos 80. Depois foi a ressaca e a busca de uma consciência de que era a hora de parar e trabalhar exclusivamente. Pôr a experiência no papel e isto eu tenho feito ao longo dos últimos 18 anos em que tenho sido essencialmente escritor e professor, o que de certo modo me plenifica na realização pessoal.”
Boêmio confesso, o professor Alberico afirma que se considera um homem que chegou muito próximo do que se chama de realização, porque teve a oportunidade, ao longo de sua vida, de lecionar durante décadas, tendo começado no ano de 1967, lecionando Língua Portuguesa e Literatura Brasileira num cursinho do Centro Caixeiral. Em agosto de 1967, o professor Alberico Carneiro resolveu abrir seu próprio negócio, criando o Colégio Pré-Vestibular Castro Alves, onde foi, durante 12 anos, proprietário, diretor e professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Literatura Maranhense.
O Cursinho Castro Alves chegou a ser considerado na época o melhor em São Luís, na área sócio-humanística, concorrendo com José Maria do Amaral, tido como o melhor na área médica. Depois, quando o Cursinho Castro Alves fechou as portas, o professor Alberico teve a chance de lecionar, a partir de 1979, no Curso do Professor José Maria do Amaral, no Meng e outros cursinhos. Mas ele confessa que a sua realização, como professor mesmo, se prende ao trabalho no Procad da Universidade Estadual do Maranhão (Uema), como professor de Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa, também por ter ensinado, durante sete anos, matérias como latim, teoria literária, filologia e lingüística. “Para qualquer professor, que tenha estudado realmente toda a grade curricular da faculdade em que se formou, como no meu caso, que me formei em Letras, pela Universidade Federal do Maranhão, a minha maior felicidade é ter chegado aos 60 anos e ter ensinado não só Língua Portuguesa, mas ter ensinado todas as matérias que eu estudei, inclusive espanhol”. Atualmente, Alberico Carneiro é professor de Língua Espanhola no Cintra.
O poeta na sua aldeiaFamília é algo indisfarçadamente importante para o editor do Guesa Errante. Não deve ser por acaso que ele revela tanto apreço e carinho por seus pais. Filho de Alberico da Silva Carneiro, que foi salineiro e dono de Carnaubeiras, uma das ilhas do Arquipélago de Farol de Sant´Ana, e da dona-de-casa Orminda da Silva Carneiro, o professor Alberico tem verdadeira devoção por seus pais, que ainda estão vivos. A mãe é expert em doces, que os filhos adoram. O pai, hoje aposentado, foi dono de duas salinas durante 40 anos, marinheiro, proprietário também de barcos que viajavam para Belém do Pará e até mesmo Paramaribo. Foi nesses barcos que o poeta, quando ainda adolescente, conheceu o outro lado do Atlântico. Em suas reminiscências, o poeta sempre se reporta à infância que viveu entre a Ilha de Carnaubeiras e a sede do município de Primeira Cruz, por serem “a raiz de tudo; foram elas que me tornaram poeta”.
À época, o Arquipélago pertencia a Primeira Cruz, que era vila de Humberto de Campos. “Eu tive o luxo de ser criado numa ilha, e isso eu considero um privilégio, onde passei uma infância não de café socialite, porque lá não tinha nada disso, mas de beleza, de riqueza alimentar e de riqueza também familiar. Fui criado lá junto com meus oito irmãos. Um lugar maravilhoso, que é um paraíso, numa ilha situada no meio do Oceano Atlântico, no Arquipélago do Farol de Sant´Ana, o mar rebentando com suas ondas, dia e noite, a música do mar, do vento, dos manguezais que circundam a ilha, o ambiente tranqüilo, onde eu passei a minha infância. Tudo isso percutiu na minha alma”.
Nos seus tempos de menino, o poeta conviveu com trabalhadores de salina e pescadores, na ilha que pertencia a seu pai. Ao cair da tarde, quando regressavam do trabalho, depois de mais um dia exaustivo de apanha de sal ou pesca, os trabalhadores tinham a sorte de encontrar no balcão do comércio local o próprio filho do dono da ilha, que lhes franqueava de graça boa parte das mercadorias. “Meu pai chegou a me chamar de pai dos pobres, porque eu acabava com o comércio dele”.
Com aquela saudade de si mesmo a que se referiu Machado de Assis (1839-1908), no Memorial de Aires, o professor Alberico gosta mesmo de evocar a infância que viveu dividido na casa dos pais, na Ilha de Carnaubeiras, e em Primeira Cruz, onde passou a estudar. “Fiquei em Carnaubeiras, a partir de um ano de idade até os nove anos, quando fui para Primeira Cruz fazer o primário. Lá eu passei a minha adolescência, e foi maravilhoso porque Primeira Cruz é a minha terra do coração”.
Arte, para o professor Alberico Carneiro, é um dom. Ele acha que a pessoa já nasce vocacionada para alguma coisa. “Muito cedo, apesar de ter começado a fazer o primário aos nove anos de idade, tive contato com a poesia. Eu estudei em cubos e em cartilha de abecê na Ilha de Carnaubeiras, no Arquipélago de Farol de Sant´Ana, com a professora Mundica Borges da Silva Carneiro.” Ele lembra ainda com carinho de outra pessoa adorável, a sua avó, a professora normalista Lucelina Borges da Silva, a Luci Carneiro. “Foi ela quem me colocou na trilha da vida”. Ela criou em Primeira Cruz a Biblioteca Professor Luiz Rego, onde Alberico descobriu na adolescência os livros que lhe deram o mágico prazer da leitura. “Um dia minha avó bateu com a minha cabeça no quadro negro da escola. Foi quando então eu disse para ela: ‘Vovó, quem inventou o estudo está no inferno’. Eu era realmente um aluno rebelde, que não gostava de estudar”.
O professor admite que era mesmo vadio até um memorável 7 de Setembro, em que desfilou à frente de um pelotão de sua escola. “Foi um milagre. Foi o toque do dedo de Deus pelas mãos da professora Caetana, que fez eu viver aquele grande momento, que mudou a minha vida. Porque naquele dia, depois que ela falou: ‘como ele marcha bonito!’, eu me decidi a estudar e a ser algo na vida. E a partir do quarto ano primário nunca mais deixei de estudar. Hoje sei que qualquer pessoa só precisa de uma frase de incentivo, de um empurrãozinho ou de uma batida da cabeça contra o quadro negro para despertar para uma busca da consciência de si mesmo”.
Alberico Carneiro recorda que chegou a ser considerado uma criança prodígio. “Desde muito novo, apesar de não ter letra nenhuma, eu desde os cinco anos de idade, já fazia discursos de improviso em Primeira Cruz. Quando chegava um político na cidade, me convidavam para discursar. E eu emocionava e comovia o povo, não era porque eu fosse um orador, mas era porque havia algo de poético no que eu dizia. Era a carga de emoção das ilhas, do mar, do Arquipélago do Farol de Sant´Ana e das noites de lua”. Manso e afável, embora coerente e firme na defesa dos princípios em que acredita, e movido pela paixão em tudo que faz, o professor Alberico Carneiro, inegavelmente merecedor de todas as homenagens, tem muito do que se orgulhar nestes seus bem vividos 60 anos. Hoje ele é, sem dúvida, um dos grandes escritores do Maranhão.
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