Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
Por: Dinacy Corrêa
Nasci em Primeira Cruz,
Principalmente vivi em Primeira Cruz
Principalmente vivo em Primeira Cruz
24 horas por dia
365 dias por ano,
nos tempos e estações
regidos por flores e frutos,
borboletas e libélulas,
luas, marés e cardumes,
pássaros, peixes e sal,
frutos frescos da estação,
noites, manhãs, dias-sol
(Alberico Carneiro)1945... 15 de Maio!! Sob o signo desse “mês de Maria, mês de alegria, mês do amor”... fruto do amor entre os jovens Orminda e Alberico, nasce, em Primeira Cruz (Ma.), Alberico José Jesus da Silva Carneiro – literariamente Alberico Carneiro. A primeira infância passou-a em Carnaubeiras, uma das 18 ilhas que integram o Arquipélago do Farol de Sant’Ana. Tempo de descobertas e fantasias e dos primeiros contatos com a Palavra, no aprendizado da leitura e da escrita ¬ que se inicia em meio à natureza idílica contemplada, já prescrevendo a unidade indissolúvel do homem-poeta com a terra-berço tão decantada em sua Poesia...
“Em minha íris/ escondo rios e arco-íris/ de pensamentos/ e em minhas pálpebras/ camuflam-se as pegadas/ de algumas lágrimas/ que já rolaram/ das pupilas/ de obscuras ilhas/ (...)/ Primeira Cruz é Minha Pátria / e paraíso”...
“Ó rio, minhas cigarras,/ estrídulo canto de guitarras/ coleção de obscuras mágoas/ de obsoletas preciosidades/ que n’alma os ventos espargem/ quantas confissões suaves/ não naufragaram para sempre em tuas águas?/ quantos poemas em tuas águas/ que o tempo e o vento apagam/ não escreveram os exilados/ prisioneiros de suas próprias casas?”
“O Morro da Mariana/ Não tinha esse nome não/ era Morro do Enforcado/ Morro dos Ventos Uivantes/ depois Morro dos Namorados/ Morro dos Apaixonados/ De onde parti ancorado/ Morro onde morro afogado/ no recorrente passado”
Do aprendizado das primeiras letras, também o registro lírico:
“(...) e com minha escrita/ que aprendi com as professoras/ Aldina e Caetana,/ Daize, Hildenê e Santinha,/ Santa, Chiquinha e Elnira,/ porque por elas e com elas/ eu sei que não passei nunca/ eu sei que não passo nunca/ porque passarão os forasteiros & cia/ mas minhas palavras e Primeira Cruz não passarão”...

Dos dons, despertados, revelados e/ou transmitidos por essas mestras, o poeta ainda liriciza: “a concreta poesia”, herdada de Mundica Borges Carneiro, sua tia-avó, com quem também estudou as primeiras letras, “que nos cubos em amarelo e preto/ eram visual e caligrafia”, o “gosto pela leitura e a busca/ de uma arte de escrever”, herança de Luci, de quem também lhe veio o “jeito humano e doido de ser/ nesta vida um ser humano”...
E a Professora Caetana, “que, sem ser pitonisa ou cigana”, desvendou a sua sorte, é mais uma poetização dessa fase pré-escolar e escolar, vivida em Carnaubeiras e em Primeira Cruz, onde ele cursa o Primário, em 1954, no Colégio Leôncio Rodrigues:
“Foi a Professora Caetana/ que sem ser pitonisa ou cigana/ desvendou a minha sorte/ num dia 7 de setembro/ em que recebi de público/ o primeiro elogio de minha vida/ bem me lembro e com que júbilo,/ que na vida só se precisa,/ é de pelo menos uma frasezinha,/ um estímulo, um empurrãozinho/ para se descobrir que se existe/ por alguma razão no mundo/ e que ali está o carisma/ na varinha de condão da Fada/ nas mãos da professora iluminada/ que em mim é como um Sol/ surgindo do coração das trevas/ como as barras da manhã/ aquecendo o coração das névoas”.
Em São Luís, Alberico Carneiro dá continuidade aos estudos (Ginasial e Colegial), passando pelo Seminário Santo Antonio, Colégio Maranhense e Ateneu Teixeira Mendes. Ainda adolescente, é aprovado no vestibular para Direito, que cursa até o 4º. Período (antiga Faculdade de Direito (Ufma, Rua do Sol, em frente ao TAA), optando depois por Letras Clássicas e Modernas (l969), em que é graduado pela UFMA.
Em l967 (29 de dezembro), casa-se, aos 22, com a Professora Maria Lourdiney Ferreira, a partir daí também Carneiro, venerável companheira de todos os momentos. Do matrimônio, nasceram os filhos Alexsander e Ânova Míriam e os netos Camila e Alex Filho (todos Carneiro).
Nesse ano (1967) assumindo o seu carisma inato para o Magistério, estabelece-se com o Curso Pré-Vestibular Castro Alves, o 3º. do gênero, surgido aqui em São Luís, funcionando nos três turnos, primeiramente no Seminário Santo Antônio e, após 6 anos, nos fundos do antigo Palácio Episcopal (Praça da Sé). É quando começa a celebrizar-se, na boca do povo, como Professor Alberico, título que acompanha o seu nome, desde então, suplantando os de poeta e escritor, editor, jornalista, pesquisador e ensaísta, pelos quais poderia, também, ser representado, por mérito...
A década de 70, pois, vai encontrar o jovem Professor Alberico envolto em intensa atividade magisterial, lecionando nos cursinhos pré-vestibulares famosos da época, como o Prof. José Maria do Amaral, o Cipe, o Meng e outros mais. Em l974, faz sua estréia na ficção, editando (Gráfica Olímpica Editora ¬ Rio de Janeiro), O diário de um alcoólatra – coletânea de contos. Em 1975, é a vez do romance O Andrógino (Idem). Em 1985, estréia na poesia, com O jogo das serpentes (Serviço de Imprensa e Artes Gráficas do Estado ¬ Sioge), muito festejado pela crítica e sobre o qual dirá Celso Borges1 : “(...). Seguindo de certa forma uma proposta de vanguarda sob o signo do antenado Ezra Pound e seus discípulos irmãos Campos, Alberico desenvolve no seu livro de estréia poética a faca de dois gumes que é o necessário e imprescindível preparo intelectual de todo poeta”. Em 1994, vem a lume As damas negras em noite de núpcias, poema publicado na Antologia da Poesia Maranhense do Século XX, Rio de Janeiro: Editora Imago. Trata-se de uma obra “em progresso”, segundo o autor e “na linha malarmaica de o Livro, retomando o entrevisto e dando um passo à frente na pesquisa e criação da linguagem poética” como diz Assis Brasil2 , acrescentando que “Witman fez a mesma coisa e Pound reescreveu várias vezes os seus Cantares, que acabaram se transformando em Cantos”.
Para o autor citado3 , “Alberico Carneiro faz bem em perseguir um único livro, o que sem dúvida redundará numa das melhores obras de poeta brasileiro, a julgar pelos poemas da síntese estética de sua coletânea. O poeta já tem domínio absoluto da linguagem e dos recursos imagísticos da língua culta, consciente da lição do mestre sobre as palavras, que se desprendem da pele/ oscilam dos corpos e tombam/ num lance de dedos e dados/ que o acaso não apagará”.
Em 1999, publica Memorial de Primeira Cruz ¬ Primeiro e Segundo Volumes ¬ (Lithograf, São Luís, Ma.) ¬ pesquisa histórica sobre a fundação e formação do município de Primeira Cruz, seguindo-se dos poemas intitulados Um cão só plumas, subdivididos em sete secções poéticas: Olho da Aurora, Tetrassonetos, Memorial dos Peixes, Memorial dos Pássaros, Memorial das almas, Memorial da Terra e Memorial das Águas – em que retraça poeticamente a linhagem dos primeiracruzences, exaltando as belezas naturais da terra natal em seus rios, peixes, pássaros e tipos humanos, numa sintonia/simbiose tal, do homem-poeta com a terra, em seus aspectos geográficos, históricos e culturais, seus tipos humanos...
“Eu quis te conter/ em mim,/ ó minha cidade / do mesmo modo que/ o fruto contém em si/ a árvore/ de que nasce/ e perpetuar-te/ enfim/ em qualquer parte”...
“(...) porque antes me acorrentei/ àquela que em mim nunca tarda/ porque em todas as latitudes e longitudes/ por onde quer que eu dirija os meus olhos/ lá ela está/ e para onde quer que eu vá/ levo-a comigo (...) Primeira Cruz está em meu sangue/ (...)”...
“(...)Primeira Cruz, minha terra,/ ó pátria do meu sorriso,/ ó paz e desassossego, desânimo que não carrego, adultidade sem juízo,/ consolo quando eu não for,/ meu paraíso perdido/ no meu mundo interior”...
Alberico tem inéditos: O fio da meada, A viés, Vôo soli, Cancão de fogo, O rapinador, O serpentauro, No tear de Penélope e Meus Quase Sessenta Ontens.
1980 assinala o seu ingresso no funcionalismo público, através da Secretaria da Cultura do Estado (SECMA), transferindo-se mais tarde para o Sioge (Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado), para dirigir o Setor de Editoração e Assuntos Culturais, ali desenvolvendo projetos de grande envergadura, como edições especiais, concursos literários, ressaltando-se a criação do Suplemento Cultural e Literário Vagalume (1998), do qual foi editor e redator, recebendo vários prêmios, em nível nacional, como o da União Brasileira de Escritores, UBE (Rio de Janeiro, 1993); da Associação Paulista de Críticos de Arte, APCA (São Paulo, 1994) e da Associação Brasileira de Semiótica, ABS (Campina Grande, l994).
De 1998 a 2001, vamos encontrá-lo numa das salas de aula do Curso de Letras da Uema, como mestrando, na área de Ciências da Literatura (Convênio UEMA/UFRJ), aprovado que fora no seletivo para esse Mestrado, do qual concluiu todas as cadeiras, tendo sido impossibilitado, por motivo de saúde, de defender a tese de dissertação, já em vias de conclusão...
A partir de 1988, como se pode ler nas orelhas de um dos seus livros, “tem viajado consecutivamente pelo Brasil e pelo Maranhão, em missão literária cultural e educacional, tendo, a título de receber prêmios ou participar de Semanas de Cultura e Literatura, representado Primeira Cruz e o Maranhão, no Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Paraíba, além de, no Maranhão, estar sempre percorrendo inúmeros municípios, como Viana, Cururupu, Codó, São João dos Patos, etc., numa missão educativa pela UEMA/PROCAD I e II” e recentemente pelo PQD, lecionando as disciplinas Latim I e II, Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Teoria Literária, Lingüística e Filologia. Lê-se ainda que: “Tem participado de vários cursos e seminários estaduais, nacionais e internacionais, entre eles do XII Congresso Brasileiro de Teoria e Crítica Literária, XI Séminaire Internacional de Sémiotique et des Littératures Latino-Americaines, XI Symposium de Cultura, Campina Grande, Paraíba, 1994. Premiado pela Associação Brasileira de Semiótica com o Troféu Girassol, 1994, por melhor desempenho, naquele ano, no respectivo domínio de conhecimento”.
Atualmente, é professor estadual da rede pública (CINTRA), lecionando Espanhol, desde 2001.
Em 2000 é convidado pelo Jornal Pequeno a escrever 4 páginas de um Caderno Especial sobre os 500 anos do Brasil, editado pelo jornalista Marco Nogueira. A partir daí desenvolve vários projetos no JP: Jornalismo que faz História, revista comemorativa dos 49 anos do Jornal Pequeno (2000); Après Moi le déluge (Depois de Mim, o Dilúvio), uma revista que trata das Revolução Francesa, da Inconfidência Mineira e da Balaiada (2000); a Revista do Vestibulando, análise das obras literárias para o Vestibular UFMA 2001, 2000; Jornal Pequeno, Meio Século de Luta e Resistência, uma retrospectiva dos 50 anos de fundação do Jornal Pequeno, 2001.
Em 2002, o Jornal Pequeno assume mais um projeto do escritor Alberico Carneiro, o Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante, o qual edita até os dias atuais. Como desdobramento das edições do Guesa Errante, a coordenadora do projeto, Josilda Bogéa Anchieta, assumiu o desafio de transformar o somatório das edições de março de 2002 a março de 2003 em um Anuário. Com o sucesso do primeiro Anuário, é editado o Anuário II, com um lançamento solene, marcado pela presença de escritores, patrocinadores e demais convidados. Atualmente a equipe Guesa Errante trabalha a edição do Anuário III, concomitante às edições normais do Suplemento, já que o Suplemento navega em sua quarta versão anual.
O editor do Guesa Errante realiza, assim, com sua já reconhecida competência, um trabalho sem precedentes, no âmbito da crítica literária, em cima de autores locais, nacionais e internacionais.
A grande paixão desse poeta, professor, editor e crítico literário, deduzida a partir da sua Poesia, no entanto, ao lado da família, é a terra natal, Primeira Cruz, aquela que, por mais que ele queira ser simples, o elege príncipe, tornando-o herdeiro, “por instinto/ de um patrimônio infinito (...)”, e onde mesmo “Sem ter estirpe,/ tornou-me Adão/ num paraíso/ jamais perdido” ... Como ele mesmo diz, em sua voz poética
“(...) ... além de a cidade/ estar em mim em camuflagem/ em coração, cabeça e entranhas,/ revisitada e reconstituída/ em pensamentos e imagem,/ eu a transformei em linguagem,/ em texto, registro, livro,/ de sorte que a precaução/ surpreenderá o ladrão/ sem ‘Abre-te-Sésamo’ pro arquivo/ do meu cérebro/ onde imensa tatuagem/ das pessoas e da cidade/ guardo neste amor eterno/ que o poema é a minha face/ e é a face da cidade/ que a cidade está em minha face/ como o poema está na face da cidade”...
Como bem o diz o poeta Chagas Val, “Alberico Carneiro, fiel a suas raízes, pode voltar à cidade de Primeira Cruz e ao mágico arquipélago das 18 ilhas, que o seu retorno será diferente de quantos já o fizeram sobraçando diplomas, anéis e títulos. O poeta voltará com a magia da palavra...”
E o próprio poeta (Alberico) parece confirmar a profecia do confrade Chagas Val, quando se auto-define, pela sua voz lírica:
“Tendo princípio,/ não tenho fim, estou perdido,/ fora de mim,/ desfiz-me em ícones/ clones de mim./ Quando me oculto, / marifico-me/ no meu discurso oceanizo-me. Tenho o dom da magia./ Entre os dedos das mãos,/ tudo o que toco/ vira poesia,/ tudo o que olho/ miniaturiza-se/ vira maquete/ no coração. Primeira Cruz é Minha Pátria,/ e paraíso/ por ela peço a palavra/ e falo/ e, às vezes, até grito/ pro Infinito./ Sem nenhum equívoco,/ subscrito,/ do filho/ que bate palmas,/ aplausos,/ Alberico”...
“Primeira Cruz é minha Casa
Primeira Cruz é meu respiro
Primeira Cruz é a minh’alma
No telegrama do meu sorriso
Tenho dito”1 Apud ASSIS BRASIL. A poesia maranhense no século XX ¬ Antologia. Rio de Janeiro: Imago Ed./São Luís, Ma.: Sioge, 1994, 261.
2 ASSIS BRASIL, Ibid.
3 Id. Ibid.- Próximo texto:
- Edição 106 O POETA QUE VEM DA ILHA DE CARNAUBEIRAS
- Texto Anterior:
- Edição 106 Meus Quase Sessenta Ontens
- Índice da edição - Ano IV