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Edição 106

Meus Quase Sessenta Ontens

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Data de Publicação: 5 de janeiro de 2006
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(Uma releitura de Casemiro de Abreu
e Mário de Sá-Carneiro para minha mãe,
Orminda da Silva Carneiro & Castro)
.............................................
Na prisão dos dois ponteiros
algemado pelo relógio
tenho hipnotizados os olhos
por esse cruel carcereiro

Sob a mira do verdugo
entre as grades dos minutos
recorrerei ao fluxo
da memória, contra o túmulo
...............................................
E este desejo constante
do enjôo da panvermina
Tomaria mil purgantes
só pra ver mamãe de miss
.............................................
Eu que me quis para sempre
pôr felicidade em instantes
estou em mim e não me tenho
parti e meu dia é ontem

Sou quase e no entanto o pêndulo
e a pedra de Sísifo no ombro
me põem no quarto minguante
do desespero de Tântalo
..............................................
Quantos morreram de meus?
Por que eles morreram em mim?
Eu sou em mim só adeuses
e o que em mim restou partiu

Quantos se foram de eus
que me levaram enfim,
que cada um era um deus
comigo igual e afim?
.......................................
Oh indestrutível placenta
do cordão umbilical da mente
O amor nos molda gênios
Capazes de retorno ao sêmen

Ó criança que me tem
eterna no adulto que não tenho,
que erra comigo dentro,
para dizer-me sempre: Amém!

que está plena e não se basta
quer a Lua e seu harém
de estrelas, ser astro
e correr o risco de ir além
....................................
Ai saudade da criança
da casa chamada esperança!
Oh que fome neste instante
do almoço chamado ontem!

O beijo que tu me deste
fez-se anel da tua boca,
minha mãe. Eterna
é esta aliança de amor.

Como tudo que não passa
e não se esgota nunca
eis-nos ainda face a face
na velhice de nossa juventude

O menino te procura quiçá
pela casa e ouve teus ágeis passos
entre a varanda e a cozinha. Ah se
a criança que procuras te reencontrasse,

mãe, nesse secreto jardim
onde as jovens mães esperam por seus filhos
eternamente jovens para eles, enfim
as mães encantadas, encontradas pelos filhos perdidos
Sem pé nem cabeça

Ah essas mortes
feitas de laços
Ah esse ir-se
em abraços

Ah essas mímicas
do coração
que as coisas mínimas
mudam em oceano

Como um impacto
tão momentâneo
torna anão
o super-homem?

Eis que o brusco
tremor e alarme
é súbito cúmplice
do aterrador abalo

transforma o futuro
em ossos, pó
A todos nós
nos deixa órfãos

Não há consolo
No trânsito pra morte
É um tráfego louco
Sem semáforos

Inúteis os deuses
acionam a internet
Por azar o e. mail
não encontrou Deus
...............................
O acervo de séculos
e sua utilidade
moribunda
na boca dos sábios
sem fala
..........................
Ah essas mortes
feitas de laços
Ah esse ir-se só
embora em abraços

Ah viagem intempestiva
de quem vai antes do prazo
perder-se no beco sem saída
sem poder deixar recado
..................................................
Ah essas mortes sempre súbitas
sem tempo para desabafos
como se houvesse no inútil
formas de aproximar
........................
Ah os enterros
e as comoções:
Perder-se a si mesmo
nos que se vão

Ah esse reter
quem inteiro se foi
desfeito em éter
para sempre pó

Ah as saudades
sem nenhuma esperança
e a falta de paz
mordendo o pâncreas

Ah esse sol
que já não interessa:
o riso após
o eterno silêncio
......................
Boca sem uso
muda que fala
se comunicando
já sem lábios

e em plena memória
nos assalta
Depois do pó
comandam os náufragos
Inóspitas paragens
do oceano vasto:
O remorso é o cais
das vozes dos afogados

que depois da morte
são os que mais falam
Na insônia, os ossos
mandam recados

Vem, dá-me um beijo
antes que seja tarde
Esse estranho realejo
me mantém vivo e em êxtase
.......................
Fale o silêncio
sem uma sílaba
só há um lenço
como cúmplice
.......................
ó canto ilícito
de ilícita galáxia
sopre uma lírica
entre internautas

Fora os ponteiros
e os calendários
Esqueçam-se os conselhos
dos almanaques

Leia-se menos
viva-se mais
A melhor bênção
vem do olhar
.........................
Seja um quadro
pelo detalhe
a voz do corpo
monossilábico:

um sortilégio
mumificado
a voz do fósforo
que risca o raio

enfim, o beijo
não metrificado
transpõe o desejo
do cadáver

BELOS & MORTAIS

...................................................
da certeza sem consolo
do cárcere que é o próprio cérebro:
vivi escondido de todos
mas não me escondi de mim mesmo

de quanto fui manco e tolo
empanturrado de ego:
pensar-me a imagem do todo,
quando fui-me só um monólogo

do vazio em que pude ser pleno
do não ser onde puder ser,
onde fui mais, quando de menos
e do menor poder crescer

desse sonho que se esvai,
carícias roubadas aos dedos,
desse adeus de nunca mais
de lábios obscuros, sem beijos

de vidas tomadas dos pais
que soluçam em distritos,
lenços sobrando no cais,
acenos perdidos no vento
da solidão dos casais
aconchegados no leito
sem uma fagulha mais
da emoção do primeiro beijo

das silhuetas em penumbra
dos que só vimos a sombra
e da solidão das unhas
que acabarão anônimas

desses rios de finados
se escondendo dentre os cílios
e dos soluços nos finais
dos que morrem sem ter filhos

e dos que tiveram mais,
propriedades e idílios,
as mãos eram como ímãs,
mas morreram como ilhas

palavras: lanças, punhais
brotavam de suas íris,
abraços de tamanduás
e de ursos tontos de bílis

O BUSCADOR DO SOL

.....................
Quem, sabendo a vida,
simples e precária,
especula dúvidas,
briga por migalhas?
....................................
Quem quis ser sensato
e se recusou
a ser louco e insano?
Quem não aprendeu
a ser irreal
para ser humano?
.................................
Quem não percebeu
que navegar o crânio
é circunavegação
para super-homens?

que é preciso mais
que cristóvãos colombos
para se afogar
na psiquê do humano?

Quem em quarenta anos
não se deslumbrou
com sóis e auroras,
cópulas e luas?
Quem não se embriagou
com o perfume cálido
de uma namorada?

Quem não se masturbou
sob o céu estrelado,
sob o sol e a lua
sob a noite e a chuva
e ficou encantado
com as vulvas das nuvens,
sem pensar em pecado?

sem dar trela para
padres e pastores
sem querer pára-
raios para suas dores?

Quem num dia de sol
não se esqueceu da morte
e foi ao futebol
do jogo dos amores?

Mas, e a alegria
e o sorriso e a paz
e a busca de saída
pra felicidade?

O que conta na vida
é o mágico instante
da perplexidade
nos globos da morte
onde a essência flui
nesse olhar intenso
e a fantástica luz
anula a consciência
Quem não ouviu música,
viajou, fugiu,
se perdeu da amada
e em outras a buscou?
Quem não assistiu a filmes,
dançou e fez amor?
............................
Viver o momento
e esquecer os sábios
Multiplicar o sêmen
segundo o Eclesiastes

Quem na vida não fez
barganhas com o diabo
e depois que se arrependeu
selou outros pactos?

Por que condenar
a iniciação do corpo,
se cada orgasmo só dura
o tempo de uma flor?

embora perdure
na memória o eco
evocando as curvas
desse minuto-
séculos
.............................
São inúteis livros,
tratados e dogmas
Conheces esse filme
durante os velórios

Um instante de amor
vale mais, Deus sabe,
que o humano glamour
da eternidade
...............................
Ó Senhor da morte,
dai que nós sejamos
senhores da vida,
já que é insondável
a hora do transporte!

e haja neste mundo
menos hipocrisia
sobre o que todos fazem
às claras ou às escondidas

Ó corpos tão frágeis!
Ó vidas tão mínimas!
Ó eternidade
de uma carícia!
..............................
Ó dai-me, meu Pai,
o crédito de uma mímica
de um método Braille
para esta cega vida!

Ó bobas recusas
ó vidas tão ávidas,
sedentas e curtas
ó mortes tão estúpidas,
precoces e súbitas
para tanta multa
sobre erro nenhum!

Ò surpresas de curvas
dos becos! Ó sinuosidades!
Como as fases da Lua
a roda da fortuna é volúvel
.......................
A carne é maior
que qualquer milagre
Melhor o precário
caminho do mundo
que a eternidade
sem nenhum futuro

Sem nenhum naufrágio
quem conhece o mar?

(CARNEIRO, Alberico. Meus Quase Sessenta Ontens, obra a ser lançada em setembro juntamente com o Anuário III, do Suplemento Cultural & Literário JP Guesa Errante)
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Email: info@guesaerrante.com.br